Blau Nunes foi andando.
Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa
da ramaria que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro...
Andou mais, num corredor dumas braças: mais, ainda;
sete corredores ancião deste.
Blau Nunes foi andando.
Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu.
Sempre escuro. Sempre silêncio.
Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.
Numa cruzada de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam,
tinir de muitas espadas, seu conhecido.
Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.
Grupos de sombras com feitio de homens pelavam de morte; nem pragas
nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas
iam talhando umas nas outras, no silencio.
Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto
de face branca e tristonha — Alma forte, coração sereno...
E meteu o peito por entre o espinheiro, sentiu o corte delas, o fino
das pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos
lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.
Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.
Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o
rangido do cabrestilhos das suas esporas.
Blau Nunes foi andando.
Andando numa luz macia, que não dava sombra como os caminhos dum
cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e
ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe
aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente,
patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando,
numa fúria...
E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras
roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros
que p’ra traz iam ficando e morrendo sem eco...
As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas
que, certo o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros,
sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante... adiante...
A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...
Blau Nunes foi andando.
Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de
ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos
outros, muitos, derreados , como numa preguiça; pelo chão caídas,
partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando,
tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança,
alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado,
outras em saracoteio...
Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal
da cruz;... porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e
passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas
juntas bolorentas.
As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra
vez os ombros...
Blau Nunes foi andando.
O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem
aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de
passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas
de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvái; e
repuxos d’água saídos das paredes batiam nele e referviam, chiando,
fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e
fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão...
Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço
das labaredas.
As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer—
muito bem!—
Blau Nunes foi andando.
Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no
silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém já
se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e
caminho um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão
uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.
Era boicininga, guarda desta passajem, que levantava a cabeça
flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no
vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo...
Das duas prezas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de
soberano, pingava uma gota escura que era a peçonha sobrante por um
muito jejum de mortandade, lá fora...
A boicininga — a cascavel amaldiçoada — toda se meneava,
chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua,
como por prova...
Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o
peito e passou, vencendo sem olhar, a boicininga altear-se e
descair, chata e tremente... e passou, ouvindo o chocalho da que não
perdoa, o silbido da que não esquece...
E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera
sem temer — de alma forte e coração sereno — logo então as mãos
voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais
chegadas os ombros.
Blau Nunes foi andando.
Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce
que ele não conhecia; em toda a volta arvores enfloradas e
estadeando frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre;
veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava
os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta
de samambaias, um olho d'água, que saía em toalha e logo corria em
riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areião solto, palhetado
de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...
E logo uma roda de moças — cada qual que mais cativa! — uma ronda
alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau,
gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...
Vestiam-se em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas,
outras na própria cabeleira solta...; estas chegavam-lhe à boca
caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando
entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro
marcado como por música... outras lá, acenavam-lhe para a lindeza
dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite
aberto e ardiloso...
Porém ele meteu o peito e passou, com as frontes golpeando, por
motivo do ar malicioso que seu bofe respirava...;
Blau Nunes foi andando.
Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões,
cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em
piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como
aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis
para rostos de gente...
Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar
de riso no canto dos olhos...
E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.
E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e
branca, que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro — sem
corpo — e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho;
e tomou-lhe a mão.
E Blau Nunes foi seguindo.
Por detrás de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia
um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente,
fogueando cores como as do arco-íris, estava uma velha, carquincha e
curvada, e como tremendo de caduca.
E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e
atava em nós que se destorciam, ficando sempre linheira.
— Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!
— Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.
E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou
a varinha para o ar; logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva
de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas
cairia. E disse:
— Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei...
Paisano, escolhe!
Para ganhar a parada em qualquer jogo;... de naipes, que as mãos
ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam,
do osso, que se sopesa, da rifa... queres?
— Para tocar a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o
coração das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar
contigo, e ao teu chamado irão — obedientes, como aves varadas pelo
olhar das cobras — deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos,
ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos...
queres?
— Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido...
— Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim
poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos
que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou
loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e
espumar os ossos... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas,
descobrir invejas...; queres?
— Não!
— Para não errar o golpe — de tiro, lança ou faca — em teu
inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro
ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso...; queres?
— Não!
— Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pelo;
... queres?
— Não!
— Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de
sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no
ouro, figuras no mármor’... queres?
— Não!
— Pois que em sete poderes te não fartas nada te darei, porque do
que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!
Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou
no queria dizer e não podia e que era assim:
—Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És
tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de
mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti,
teiniaguá encantada!...
Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha,
caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.
Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho;
e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas,
tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia
entrado, sem engano.
E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao
longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado,
o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro
prateado, que era a água do arroio.
Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder;
dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.
E pensou que tendo tido oferta de muito não lograria nada por
querer tudo;... e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.
Votou-se para entrar de novo... mas bateu co’o peito na parede dura
do serro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma
floresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde
escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse
porte de homem!...
Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea
apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca
e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:
— Nada quiseste; tiveste alma forte e coração sereno, tiveste, mas
não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua:...
Não te direi se bem fizeste ou mal.
Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente,
que te dou.
É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ele te dará
tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma e nunca mais que
uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!
E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra
na sombra da reboleira...
Blau Nunes meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.
O sol tinha cambado e o Serro do Jarau já fazia sombra comprida
sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.