VII

Blau Nunes foi andando.

Entrou na boca da toca apenas aí clareada e isso pouco, por causa

da ramaria que se cruzava nela; p’ra o fundo era tudo escuro...

Andou mais, num corredor dumas braças: mais, ainda;

sete corredores ancião deste.

Blau Nunes foi andando.

Enveredou por um deles; fez voltas e contravoltas, subiu, desceu.

Sempre escuro. Sempre silêncio.

Mãos de gente, sem gente que ele visse, batiam-lhe no ombro.

Numa cruzada de carreiros sentiu ruído de ferros que se chocavam,

tinir de muitas espadas, seu conhecido.

Por então o escuro ia já mudado num luzir de vaga-lume.

Grupos de sombras com feitio de homens pelavam de morte; nem pragas

nem fuzilar d’olhos raivosos, porém furiosos eram os golpes que elas

iam talhando umas nas outras, no silencio.

Blau teve um relance de parada, mas atentou logo no dizer do vulto

de face branca e tristonha — Alma forte, coração sereno...

E meteu o peito por entre o espinheiro, sentiu o corte delas, o fino

das pontas, o redondo dos copos... mas passou, sem nem olhar aos

lados, num entono, escutando porém choros e gemidos dos peleadores.

Mãos mais leves bateram-lhe no ombro, como carinhosas e satisfeitas.

Outro mais ruído nenhum ouvia ele no ar quieto da furna que o

rangido do cabrestilhos das suas esporas.

Blau Nunes foi andando.

Andando numa luz macia, que não dava sombra como os caminhos dum

cupim era a furna, dando corredores sem conta, a todos os rumos; e

ao desembocar do em que vinha, justo num cotovelo dele, saltaram-lhe

aos quatro lados jaguares e pumas, de goela aberta e bafo quente,

patas levantadas mostrando as unhas, a cola mosqueando,

numa fúria...

E ele meteu o peito e passou, sentindo a cerda dura das feras

roçarem-lhe o corpo; passou sem pressa nem vagar, escutando os urros

que p’ra traz iam ficando e morrendo sem eco...

As mãos, de braços que ele não via, em corpos que não sentia, mas

que, certo o ladeavam, as mãos iam-lhe sempre afagando os ombros,

sem bem o empurrar, mas atirando-o para adiante... adiante...

A luz ia na mesma, cor da de vaga-lume, esverdeada e amarela...

Blau Nunes foi andando.

Agora era um lançante e ao fim dele parou num redondel topetado de

ossamentas de criaturas. Esqueletos, de pé, encostados uns nos

outros, muitos, derreados , como numa preguiça; pelo chão caídas,

partes deles, despencadas; caveiras soltas, dentes branqueando,

tampos de cabeças, buracos de olhos; pernas e pés em passo de dança,

alcatras e costelas meneando-se num vagar compassado,

outras em saracoteio...

Aí o seu braço direito quase moveu-se acima, como para fazer o sinal

da cruz;... porém — alma forte, coração sereno! — meteu o peito e

passou entre as ossadas, sentindo o bafio que elas soltavam das suas

juntas bolorentas.

As mãos, aquelas, sempre brandas, afagavam-lhe outra

vez os ombros...

Blau Nunes foi andando.

O chão ia alteando-se, numa trepada forte que ele venceu sem

aumentar a respiração; e num desvão, a modo dum forno, teve de

passar por uma como porta dele, e aí dentro era um jogo de línguas

de fogo, vermelho e forte, como atiçado com lenha de nhanduvái; e

repuxos d’água saídos das paredes batiam nele e referviam, chiando,

fazendo vapor; um ventarrão rondava ali dentro, enovelando águas e

fogos, que era uma temeridade cortar aquele turbilhão...

Outra vez ele meteu o peito e passou, sentindo o mormaço

das labaredas.

As mãos do ar mais o palmeavam nos ombros, como querendo dizer—

muito bem!—

Blau Nunes foi andando.

Já tinha perdido a conta do tempo e do rumo que trazia; sentia no

silêncio como que um peso de arrobas; a claridade mortiça, porém já

se lhe assentara nos olhos e tanto, que viu adiante, em sua frente e

caminho um corpo enroscado, sarapintado e grosso, batendo no chão

uns chocalhos, grandes como ovos de téu-téu.

Era boicininga, guarda desta passajem, que levantava a cabeça

flechosa, lanceando o ar com a língua de cabelos, preta, firmando no

vivente a escama dos olhos, luzindo, preto, como botões de veludo...

Das duas prezas recurvas, grandes como as aspas dum tourito de

soberano, pingava uma gota escura que era a peçonha sobrante por um

muito jejum de mortandade, lá fora...

A boicininga — a cascavel amaldiçoada — toda se meneava,

chocalhando os guizos, como por aviso, fueirando o ar com a língua,

como por prova...

Uma serenada de suor minou na testa do paisano... porém ele meteu o

peito e passou, vencendo sem olhar, a boicininga altear-se e

descair, chata e tremente... e passou, ouvindo o chocalho da que não

perdoa, o silbido da que não esquece...

E logo então, que era este o quinto passo de valentia que vencera

sem temer — de alma forte e coração sereno — logo então as mãos

voantes anediaram-lhe o cabelo, palmearam-lhe mais

chegadas os ombros.

Blau Nunes foi andando.

Desembocou num campestre, de gramado fofo, que tinha um cheiro doce

que ele não conhecia; em toda a volta arvores enfloradas e

estadeando frutos; passarinhada de penas vivas e cantoria alegre;

veadinhos mansos; capororocas e outro muito bicharedo, que recreava

os olhos; e listando a meio o campestre, brotado duma roca coberta

de samambaias, um olho d'água, que saía em toalha e logo corria em

riachinho, pipocando o quanto-quanto sobre areião solto, palhetado

de malacachetas brancas, como uma farinha de prata...

E logo uma roda de moças — cada qual que mais cativa! — uma ronda

alegre saiu dentre o arvoredo, a cercá-lo, a seduzi-lo, a ele Blau,

gaúcho pobre, que só mulheres de anáguas resvalonas conhecia...

Vestiam-se em frouxo trançado de flores, outras de fios de contas,

outras na própria cabeleira solta...; estas chegavam-lhe à boca

caramujos estrambóticos, cheios de bebida recendente e fumegando

entre vidros frios, como de geada; dançavam outras num requebro

marcado como por música... outras lá, acenavam-lhe para a lindeza

dos seus corpos, atirando no chão esteiras macias, num convite

aberto e ardiloso...

Porém ele meteu o peito e passou, com as frontes golpeando, por

motivo do ar malicioso que seu bofe respirava...;

Blau Nunes foi andando.

Entrou no arvoredo e foi logo rodeado por uma tropa de anões,

cambaios e cabeçudos, cada qual melhor para galhofa, e todos em

piruetas e mesuras, fandangueiros e volantins, pulando como

aranhões, armando lutas, fazendo caretas impossíveis

para rostos de gente...

Porém o paisano meteu o peito neles e passou, sem nem sequer um ar

de riso no canto dos olhos...

E com este, que era o último, contou os sete passos das provas.

E logo então, aqui, surdiu-lhe em frente o vulto de face tristonha e

branca, que, certo, lhe andara nas pisadas, de companheiro — sem

corpo — e sem nunca lhe valer nos apuros do caminho;

e tomou-lhe a mão.

E Blau Nunes foi seguindo.

Por detrás de um cortinado como de escamas de peixe-dourado, havia

um socavão reluzente. E sentada numa banqueta transparente,

fogueando cores como as do arco-íris, estava uma velha, carquincha e

curvada, e como tremendo de caduca.

E segurava nas mãos uma varinha branca, que ela revirava e tangia, e

atava em nós que se destorciam, ficando sempre linheira.

— Cunhã, disse o vulto, o paisano quer!

— Tu, vieste; tu, chegaste; pede, tu, pois! respondeu a velha.

E moveu e ergueu o corpo magro, dando estalos nas juntas e levantou

a varinha para o ar; logo o condão coriscou por sobre ela uma chuva

de raios, mais que como num temporal desfeito das nuvens carregadas

cairia. E disse:

— Por sete provas que passaste, sete escolhas dar-te-ei...

Paisano, escolhe!

Para ganhar a parada em qualquer jogo;... de naipes, que as mãos

ajeitam, de dados, que a sorte revira, de cavalos, que se cotejam,

do osso, que se sopesa, da rifa... queres?

— Para tocar a viola e cantar... amarrando nas cordas dela o

coração das mulheres que te escutarem..., e que hão de sonhar

contigo, e ao teu chamado irão — obedientes, como aves varadas pelo

olhar das cobras — deitar-se entregues ao dispor dos teus beijos,

ao apertar dos teus braços, ao resfolegar dos teus desejos...

queres?

— Não! respondeu a boca, por mandado só do ouvido...

— Para conhecer as ervas, as raízes, os sucos das plantas e assim

poderes curar os males dos que tu estimares ou desfazer a saúde dos

que aborreceres;... e saber simpatias fortes para dar sonhos ou

loucura, para tirar a fome, relaxar o sangue, e gretar a pele e

espumar os ossos... ou para ligar apartados, achar cousas perdidas,

descobrir invejas...; queres?

— Não!

— Para não errar o golpe — de tiro, lança ou faca — em teu

inimigo, mesmo no escuro ou na distância, parado ou correndo, destro

ou prevenido, mais forte que tu ou astucioso...; queres?

— Não!

— Para seres ricaço de campo e gado e manadas de todo o pelo;

... queres?

— Não!

— Para fazeres pinturas em tela, versos harmoniosos, novelas de

sofrimentos, autos de chocarrice, músicas de consolar, lavores no

ouro, figuras no mármor’... queres?

— Não!

— Pois que em sete poderes te não fartas nada te darei, porque do

que te foi prometido nada quiseste. Vai-te!

Blau nem se moveu; e, carpindo dentro em si a própria rudeza, pensou

no queria dizer e não podia e que era assim:

—Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És

tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de

mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti,

teiniaguá encantada!...

Mas uma escuridão fechada, como nem noite a mais escura dá parelha,

caiu sobre o silêncio que se fez, e uma força torceu o paisano.

Blau Nunes arrastou um passo e outro e terceiro; e desandou caminho;

e quanto ele andara em voltas e contravoltas, em subidas e descidas,

tanto em direitura foi bater na boca da furna por onde havia

entrado, sem engano.

E viu atado e quieto o seu cavalo; em roda as mesmas restingas, ao

longe os mesmos descampados mosqueados de pontas de gado, a um lado,

o encordoado das coxilhas, a outro, numa aberta entre matos um claro

prateado, que era a água do arroio.

Memorou o que tinha acabado de ver e de ouvir e de responder;

dormido, não tinha, nem susto lhe tirara o entendimento.

E pensou que tendo tido oferta de muito não lograria nada por

querer tudo;... e num arranco de raiva cega decidiu outra investida.

Votou-se para entrar de novo... mas bateu co’o peito na parede dura

do serro. Terra maciça, mato cerrado, capins, limos... e nenhuma

floresta, nem brecha nem buraco, nem furna, caverna, toca, por onde

escorresse um corpinho de guri, quanto mais passasse

porte de homem!...

Desanimado e penaroso, compôs o cavalo e montou; e ao dar de rédea

apareceu-lhe pelo lado de laçar o sacristão, o vulto de face branca

e tristonha, que tristemente estendeu-lhe a mão, dizendo:

— Nada quiseste; tiveste alma forte e coração sereno, tiveste, mas

não soubeste governar o pensamento nem segurar a língua:...

Não te direi se bem fizeste ou mal.

Mas como és pobre e isso te aflige, aceita este meu presente,

que te dou.

É uma onça de ouro que está furada pelo condão mágico; ele te dará

tantas outras quantas quiseres, mas sempre de uma e nunca mais que

uma por vez; guarda-a em lembrança de mim!

E o corpo do sacristão encantado desfez-se em sombra

na sombra da reboleira...

Blau Nunes meteu na guaiaca a onça furada, e deu de rédea.

O sol tinha cambado e o Serro do Jarau já fazia sombra comprida

sobre os bamburrais e restingas que lhe formavam assento.

Lendas do sul · 第 23 / 26 题