Faz duzentos anos que aqui estou; aprendi sabedorias árabes e tenho
tornado contentes alguns raros homens que bem sabem que a alma é um
peso entre o mandar e o ser mandado...
Nunca mais dormi; nunca mais nem fome, nem sede, nem dor,
nem riso...
Passeio no palácio maravilhoso, dentro deste Serro do Jarau, ando
sem parar e sem cansaço; piso com pés vagarosos, piso torrões de
ouro em pó, que se desfazem como terra fofa; o areião dos jardins,
que calco, enjoado, é todo feito de pedras verdes e amarelas e
escarlates e azuis, rosadas, violetas... e quando a encantada passa
todas incendeiam-se num íris de cores rebrilhantes, como se cada uma
fosse uma brasa viva faiscando sem a mais leve cinza...; há poços
largos que estão atulhados de doblões e de onças e peças de jóias e
armaduras, tudo ouro maciço do Peru e do México e das Minas Gerais,
tudo cunhado com os troféus dos senhores reis de Portugal e de
Castela e Aragão...
E eu olho para tudo, enfarado de ter tanto e não poder gozar nada
entre os homens, como quando era como eles e como eles gemia
necessidades e cuspia invejas, tendo horas de bom coração por dias
de maldade e sempre aborrecimento do que possuía, ambicionando o que
não possuía...
O encantamento que eu acompanhe os homens de alma forte e coração
sereno que quiserem contratar a sorte nesta salamanca que eu tornei
famosa, do Jarau.
Muitos tem vindo... e têm saído peiorados, para lá longe irem morrer
do medo aqui pegado, ou andarem pelos povoados assustando as gentes,
loucos, ou pelos campos fazendo vida com os bichos brutos...
Poucos toparam a parada... ah!... mas esses que toparam, tiveram o
que pediram, que a rosa dos tesouros, a moura encantada não desmente
o que eu prometo, nem retoma o que dá!
E todos os que chegam deixam um resgate de si próprios para nosso
livramento um dia...
Mas todos os que vieram são altaneiros e vieram arrastados pela
ânsia da cobiça ou dos vícios, ou dos ódios: tu foste o único que
veio sem pensar e o único que me saudou como um filho de Deus...
Foste o primeiro, até agora; quando terceira saudação de cristão
bafejar estas alturas, o encantamento cessará, porque eu estou
arrependido... e com Pedro Apostolo que três vezes negou Cristo foi
perdoado, eu estou arrependido e serei perdoado.
Está escrito que a salvação há de vir assim: e por bem de mim,
quando cessar o meu cessará também o encantamento da teiniaguá:
quando isso se der a salamanca desaparecerá, e todas as riquezas,
todas as pedras finas, todas as peças cunhadas, todos os
sortilégios, todos os filtros para amar por força... para matar...
para vencer... tudo, tudo, tudo se virará em fumaça que há de sair
pelo cabeço roto do serro, espalhada na rosa dos ventos pela rosa
dos tesouros...
Tu me saudaste — o primeiro, tu! — saudaste como cristão.
Pois bem:
alma forte e coração sereno!... Quem isso tem, entra na salamanca,
toca o condão mágico e escolhe o quanto quer...
Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! Entra!
Lá dentro sopra um vento quente que apaga qualquer torcida de
candeia... e tramado nele corre outro vento frio... que corta como
serrilha e geada.
Não há ninguém lá dentro... mas bem que se escuta voz de gente,
vozes que falam... falam, mas não se entende o que dizem, porque são
línguas atroadas que falam, são os escravos da princesa moura, os
espíritos da teiniaguá... Não há ninguém... não se vê ninguém: mas
há mãos que batem. como convidando, no ombro do que entra firme, e
que empurram, como ainda ameaçando, o que recua com medo...
Alma forte e coração sereno! Se entrares assim, se te portares lá
dentro assim, podes então querer e serás servido!
Mas governa o pensamento e segura a língua: o pensamento
dos homens é que os levanta acima do mundo, e a sua
língua é que os amesquinha...
Alma forte e coração sereno!... Vai!
Blau, o guasca,
apoiou-se; meneou o flete e por de seguro ainda pelo cabresto
prendeu-o a um galho de camboim que verga sem quebrar-se; rodou as
esporas para o peito do pé; aprumou de jeito o facão;
santiguou-se, e seguiu...
Calado fez; calado entrou...
O sacristão levantou-se e o seu corpo desfez-se em sombra
na sombra da reboleira.
O silêncio que então se desdobrou era como o vôo parado das corujas:
metia medo...