VII

Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira chão

tendo como porta um couro —, Blau rumeou para uma venda grande que

sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum

tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada

mandou botar uma bebida.

Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e

o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão

desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu...

E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro do afogado.

Calado, montou de novo, retirando-se.

No caminho foi pensando nas todas cousas que carecia e que iria

comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas

botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava

tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se

aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de

entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais

ainda, outras e outras que seu desejo fosse despencando?!...

Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera

durante o dia, apenas do boi barroso, que campeiou e não achou; e no

seguinte, logo cedo saiu a campeiar a prova do prometido.

Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma

adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas

e um rebenque de argolão.

Toda a compra passava de três onças.

E Blau, as frontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe

fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada,

todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau

remendado começou a gargantear a guaiaca... e caiu uma onça... e

outra... e outra!... As quatro, que por agora eram tão de jeito!...

Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas,

porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma...

Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas como homem avisado,

não falou do acontecido.

No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e

de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que

ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas,

tendo o cuidado para não querer nada de cortar, só peças inteiras,

que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um

feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou

a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados p’ra menos.

E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a

gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça... e

segunda... outra... e quarta, mais outra, e sexta... e assim de uma

em uma, as quinze necessárias!

O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão conforme vinham

minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse,

entre risonho e desconfiado:

— Cuê-pucha!... cada das onça das suas parece que é um pinhão,

que é preciso descascar à unha!...

No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a

tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e

como facilitou o preço, fechou-se o trato.

Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada iam fazendo mover-se os

animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe

agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu

fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o

bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe,

tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.

Olho de campeiro não errou vez alguma na escolha e trinta cavalos,

a flor, foram apartados custando quarenta e cinco onças.

E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para

a sombra duma figueira que havia na bira da estrada.

Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiado,

começou a gargantear a guaiaca... e foi logo aparando onça por onça,

uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta,

quarenta e cinco!...

O vendedor, estranhando aquela novidade e demora,

não se conteve e disse:

—Amigo! As suas onças parecem todas de gerivá, que só cai

uma de cada vez!...

Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.

Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças,

aquerenciando.

O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.

Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a

aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!...

Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha

de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo...

O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou,

sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele

ainda aparando onça traz onça...

Ao escurecer estava completo o ajuste.

Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por

ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as

chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão... E também

era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre,

valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra

e nunca ao menos duas, acolheradas!...

Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para

ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério...

Mistério para o próprio Blau... muito rico... muito rico... mas de

onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez... como

pinhão da serra, que só descasca de um a um!...

Mistério para Blau, muito rico... muito rico... mas todo dinheiro

que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que

lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro,

desaparecia como desfeito em ar...

Muito rico... muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram

para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca,

e elas começavam a pingar;... mas nem uma das que recebia lhe

ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente...

Lendas do sul · 第 24 / 26 题