Na troteada para o posto em que morava, um ranchote de beira chão
tendo como porta um couro —, Blau rumeou para uma venda grande que
sortia aquele vizindário, mesmo a troco de courama, cerda ou algum
tambeiro; e como vinha de garganta seca e a cabeça atordoada
mandou botar uma bebida.
Bebeu; e puxou da guaiaca a onça e pagou; era tão mínima a despesa e
o câmbio que veio, tanto, que pasmou, olhando para ele, de tão
desacostumado que andava de ver dinheiro tanto, que chamasse seu...
E de dedos engatanhados socou-o todo para dentro do afogado.
Calado, montou de novo, retirando-se.
No caminho foi pensando nas todas cousas que carecia e que iria
comprar. Entre aperos e armas e roupas, um lenço grande e umas
botas, outro cavalo, umas esporas e embelecos que pretendia, andava
tudo por uma mão cheia de cruzados; e a si próprio perguntava se
aquela onça encantada, dada para indez, teria mesmo o condão de
entropilhar outras muitas, tantas como as que precisava, e mais
ainda, outras e outras que seu desejo fosse despencando?!...
Chegou ao posto, e como homem avisado, não falou do que fizera
durante o dia, apenas do boi barroso, que campeiou e não achou; e no
seguinte, logo cedo saiu a campeiar a prova do prometido.
Naquele mesmo negociante ajustou umas roupas tafulonas; e mais uma
adaga de cabo e bainha com anéis de prata; e mais as esporas
e um rebenque de argolão.
Toda a compra passava de três onças.
E Blau, as frontes latejando, a boca cerrada, num aperto que lhe
fazia doer o carrinho, piscando os olhos, a respiração atropelada,
todo ele numa desconfiança, Blau, por debaixo do seu balandrau
remendado começou a gargantear a guaiaca... e caiu uma onça... e
outra... e outra!... As quatro, que por agora eram tão de jeito!...
Mas não caíram duas e duas ou três e uma, ou as quatro, juntas,
porém sim de uma a uma, as quatro, de cada vez só uma...
Voltou ao rancho com a maleta atochada, mas como homem avisado,
não falou do acontecido.
No outro dia seguiu a outro rumo, para outro negociante mais forte e
de prateleiras mais variadas. Já levava alinhavado o sortimento que
ia fazer, e muito em ordem foi encomendando o aparte das cousas,
tendo o cuidado para não querer nada de cortar, só peças inteiras,
que era para, no caso de falhar a onça, recuar da compra, fazendo um
feio, é verdade, mas não sendo obrigado a pagar estrago algum. Notou
a conta, que andava por quinze onças, uns cruzados p’ra menos.
E outra vez, por debaixo do seu balandrau remendado, começou a
gargantear a guaiaca, e logo lhe foi caindo na mão uma onça... e
segunda... outra... e quarta, mais outra, e sexta... e assim de uma
em uma, as quinze necessárias!
O negociante ia recebendo e alinhando sobre o balcão conforme vinham
minando da mão do pagador, e quando estavam todas disse,
entre risonho e desconfiado:
— Cuê-pucha!... cada das onça das suas parece que é um pinhão,
que é preciso descascar à unha!...
No terceiro dia passou na estrada uma cavalhada; Blau fez parar a
tropa e ajustou uma quadrilha, apartada por ele, à sua vontade, e
como facilitou o preço, fechou-se o trato.
Ele e o capataz, sós no meio da cavalhada iam fazendo mover-se os
animais; no apinhado de todas Blau marcava a cabeça que mais lhe
agradava pelo focinho, pelos olhos, pelas orelhas; com um sovéu
fino, de armada pequena, reboleava por dentro e ia, certo, laçar o
bagual escolhido; se ainda, sem ovas e bons cascos, aprazia-lhe,
tirava-o então, como seu, para o potreiro do piquete.
Olho de campeiro não errou vez alguma na escolha e trinta cavalos,
a flor, foram apartados custando quarenta e cinco onças.
E enquanto a tropa verdeava e bebia, os tratistas foram para
a sombra duma figueira que havia na bira da estrada.
Blau por debaixo do seu balandrau remendado, ainda desconfiado,
começou a gargantear a guaiaca... e foi logo aparando onça por onça,
uma, três, seis, dez, dezoito, vinte e cinco, quarenta,
quarenta e cinco!...
O vendedor, estranhando aquela novidade e demora,
não se conteve e disse:
—Amigo! As suas onças parecem todas de gerivá, que só cai
uma de cada vez!...
Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.
Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças,
aquerenciando.
O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.
Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a
aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!...
Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha
de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo...
O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou,
sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele
ainda aparando onça traz onça...
Ao escurecer estava completo o ajuste.
Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por
ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as
chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão... E também
era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre,
valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra
e nunca ao menos duas, acolheradas!...
Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para
ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério...
Mistério para o próprio Blau... muito rico... muito rico... mas de
onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez... como
pinhão da serra, que só descasca de um a um!...
Mistério para Blau, muito rico... muito rico... mas todo dinheiro
que ele recebia, que entrava das vendas feitas, todo dinheiro que
lhe pagavam a ele, todo desaparecia, guardado na arca de ferro,
desaparecia como desfeito em ar...
Muito rico... muito rico das onças que precisasse, e nunca faltaram
para gastar no que lhe parecesse: bastava-lhe gargantear a guaiaca,
e elas começavam a pingar;... mas nem uma das que recebia lhe
ficava, todas evaporavam-se, como água em tijolo quente...