Sol nado, despertei

estava cercado pelos santos padres.

Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório,

desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas,

onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela...

E acharam a canastra guampa e no porongo o mel... e até no ar

farejaram cheiro mulherengo... Nem tanto era preciso para ser logo

jungido em manilhas de ferro.

Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e

unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia

gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma,

prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma

confissão...; mas a minha boca não falou..., não falou por senha

firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela

e que era linda...

E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se

das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não

queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

Mas por senha da vontade a boca não falou.

Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame;

condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era

bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos,

clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre

alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente

d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

Dobrando a finados... dobrando a finados...

Era por mim.

V

E quando, sem mais esperança nos homens nem no socorro do céu,

chorei uma lágrima de adeus à teiniaguá encantada, dentro do meu

sofrer floreteou uma réstia de saudade do seu cativo e soberano

amor...., como em rocha dura serpenteia ás vezes um fio de ouro

alastrado e firme, como uma raiz que não quer morrer!...

E aquela saudade parece que saiu para fora do meu peito, subiu aos

olhos feita em lágrima e ponteou para algum rumo, ao encontro doutra

saudade rastreada sem engano...; parece, porque nesse momento um

ventarrão estourou sobre as águas da lagoa e a terra tremeu,

sacudida, tanto, de as arvores desprenderem os seus frutos, de os

animais estaquearem-se, medrosos, e de os homens caírem do cóc’ras,

agüentando as armas, outros, de bruços, tateando o chão...

E nas correntezas sem corpo, da ventania, redomoinhavam em chusma

vozes de guaranis , esbravejando se soltasse o padecente...

Para traz do cortejo, desfiando o som entre as poeiras grossas e

folhas secas levantadas, continuava o sino dobrando a finados...

dobrando a finados!...

Os santos padres, pasmados mas sisudos, rezavam encomendando a minha

alma; em roda, boquejando, chinas, piás, índios velhos, soldados de

couraça e lança, e o alcaide, vestido de samarra amarela com dois

leões vermelhos e a coroa del-rei brilhando em canutilho de ouro...

A lágrima do adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o

claro ver: e o palmital da lagoa, o boleado das coxilhas, o recorte

da serra, tudo isto, que era grande e sozinho cada um enchia e

sobrava para os olhos limpos dum homem, tudo isso eu enxergava

junto, empastalhado e pouco, espelhando-se na lágrima suspensa, que

se encrespava e adelgaçava, fazendo franjas entre as pestanas

balançantes dos meus olhos de condenado sem perdão...

A menos de braça, estava o carrasco atento no garrote!

Mas os olhos do meu pensamento, altanados e livres, esses, esses

viam o corpo bonito, lindo, belo, da princesa moura, e recreiavam-se

na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os

olhos dela, olhos de amor, tão soberanos e cativos como em mil vidas

de homens outros se não viram!...

E por certo por essa força que nos ligava sem ser vista, como

naquele dia em que o povo sesteava e também nada viu... por força

dessa força, quanto mais os padres e alguazis ordenavam que eu

morresse, mais pelo meu livramento forcejava o irado peito da

encantada, não sei se de amor perdida pelo homem, se de orgulho

perverso do perjuro, se da esperança de um dia ser humana...

O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas

quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito

soltaram palavras feitas, como gente grande...; e bandadas de urubus

apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o

esfregar das penas contra o vento..., a contradançar, afiados para

uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver...

Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e

borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num

propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão

real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha

morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa,

sedutora e feiticeira...

Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a

saudade distilara.

Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e

monstruoso...: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo

e fundo... e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em

borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e

todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente,

fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os

barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta

barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se,

espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas

tormentosas!...

A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.

— Que a Missão de S. Tomé ia perecer... e dasabar a igreja... a

terra expulsar os mortos do cemitério... que as crianças inocentes

iam perder a graça do batismo... e as mães secar o leite... e as

roças o plantio, os homens a coragem...

Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando...

Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a

altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz

Bendita!... o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e

trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide,

os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em

procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer,

porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam,

fenecendo, dominados!...

Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.

Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas

que iam minguando, em retirada... mas também ouvindo com os ouvidos

do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu

rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava... mas os

olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o

nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e

perfumando as santidades... mas o faro do pensamento sorvia a

essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a

língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror,

amarga, de doença... mas a língua do pensamento saboreava os beijos

da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de

guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava

manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas... mas o tato

do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e

rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar

no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em

fúria...

E tanto como ia entrando na cidade, ia eu chegando à barranca do

Uruguai; tanto como as gentes, lá, iam acabando as orações para

alcançar a clemência divina, ia eu começando o meu fadário todo dado

à teiniaguá, que me enfeitiçou de amor, pelo seu amor de princesa

moura, pelo seu amor de mulher, que vale mais que destino de

homem!...

Sem peso de dores nos ossos e nas carnes, sem peso de ferros no

corpo, sem peso de remorsos na alma passei o rio para lado do

Nascente. A teiniaguá fechou os tesouros da outra banda e juntos

fizemos então caminho para o Serro do Jarau, que ficou sendo o paiol

das riquezas de todas as salamancas dos outros lugares.

Para a memória do dia tão espantoso lá ficou o sangão rasgado na

baixada da cidade de Santo Thomé,9 desde o tempo antigo das Missões.

Lendas do sul · 第 21 / 26 题