IV

— Eu sou a princesa moura encantada, trazida de outras terras por

sobre um mar que os meus nunca sulcaram... Vim, e Anhangá-pitã

transformou-me em teiniaguá de cabeça luminosa, que outros chamam

o — carbúnculo — e temem e desejam, porque eu sou a rosa dos

tesouros escondidos dentro da casca do mundo...

Muitos tem me procurado com o peito somente cheio de torpeza, e eu

lhes hei escapado das mãos ambicioneiras e dos olhos cobiçosos,

relampejando desdenhosa o lume vermelho da minha cabeça

transparente...

Tu, não; tu não me procuraste ganoso... e eu subi ao teu encontro;

e me bem trataste pondo água na guampa e trazendo mel fino para

o meu sustento.

Si quiseres, tu, todas as riquezas que eu sei, entrarei de novo na

guampa e irás andando e me levarás onde eu te encaminhar, e serás

senhor do muito, do mais, do tudo!...

A teiniaguá que sabe dos tesouros, sou eu, mas sou também

a princesa moura...

Sou jovem... sou formosa..., o meu corpo é rijo e não tocado!...

E estava escrito que tu serias o meu par.

Serás o meu par... se a cruz do teu rosário me não esconjurar... se

não, serás ligado ao meu flanco, para, quando quebrado

o encantamento, do sangue de nós ambos nascer uma nova gente,

guapa e sábia, que nunca mais será vencida, porque terá todas as

riquezas que eu sei e as que tu lhe carrearás por via dessas!...

Si a cruz do teu rosário não me esconjurar...

Sobre a cabeça da moura amarelejava nesse instante o crescente

dos infiéis...

Lendas do sul · 第 18 / 26 题