de cabeça de pedra luzente, por sem dúvida; dela já tinha ouvido ao
padre superior a historia contada dum encontradiço que quase cegou
de teimar em agarrá-la.
Entrecerrei os olhos, coando a vista, cautelando perigo; mas a
teiniaguá veio me chegando, deixando no chão um duro rastro d’água
que escorria e logo secava, do seu corpinho verde de lagartixa
engraçada e buliçosa...
Lembrei-me — como quem olha dentro de cerração — lembrei-me do
corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso
corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino no couro
ressequido...
Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na
água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o
quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei
a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente,
firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa,
faiscando...
De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de
cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num
repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para
dentro dela!
Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça
sonando como um sino de catedral...
Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo
cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes,
pisoteei ramos, calquei sepulturas!...
Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.
Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.
Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a
teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o
Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os
Cavaleiros da Tábola...
Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.
E eu, agora!...
E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e
esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como
se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos...
E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu
entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás
janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha
visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia
para o que prestavam...
E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde
no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que
também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas...
E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos
como o mato virgem...
E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os
meus paióis.
E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios,
amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata;
dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de
couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água
filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados
dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma
cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá
doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra...
Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal
que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a
contar, a pesar, a medir...
Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era
dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na
canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre,
dobradiças de bronze!...
Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde...
Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres,
na minha falta.
Todo o povo sesteava, por isso ninguém viu.
Voltei a mim. Lembrei-me de que o animalzinho precisava alimento.
Tranquei portas e janelas e saí para buscar um porongo de mel de
lechiguana, por ser o mais fino.
E fui; melei; e voltei.
Abri sutil a porta e tornei a fechá-la ficando no escuro.
E quando descerrei a janela e andei para a canastra a tirar a guampa
e libertar a teiniaguá para comer o mel, quando ia fazer isso, os
pés se me enraizaram, os sentidos do rosto se ariscaram e o coração
mermou no compassar do sangue!...
Bonita, linda, bela, na minha frente estava uma moça!...
Que disse: