«De certo que avalia o nosso espanto e viva sensação, ao reconhecermos a

nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos

nós!...

«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irmã não morreu; mas antes de

participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de

succedimentos anteriores.

«A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno

criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a

minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr

entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este

intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa

de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após

porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento.

Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu

nome, e a sua fortuna, á snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o

melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o

v. exc.^a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava

consagrar-me. Sua exc.^ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa,

até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve

occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe.

Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu

arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre

salvador da sua virtude.

«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como

elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela

senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder

de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irmã, a par de um genio viril,

um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do

meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma

resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.

«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do

mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao

ferimento do supposto sargento.

«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao

reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia

estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o

corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli

chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram

tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o

primeiro em que sua exc.^ma irmã recobrou o uso da falla,

consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente

ferida. Durante o periodo de prostração da snr.^a D. Rosa, não pude

conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só

instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo

idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.^ma

irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos

labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e

tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á

doente.

«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho

presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou

n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a

sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da

minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais

incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um

amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um

sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para

conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha

temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter...

Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um

novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como

fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo

a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe

havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês

agora em mim, Lencastre?...»

«O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que

póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a...

«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas

angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura

dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual

ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria

a...

«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.^a

_Arthur._»

A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque

electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes

ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...

Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se

fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e

uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.

O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:

--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na

sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado,

posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu

crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua

esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe

perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D.

Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta

localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos

deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a

familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos

de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um

cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna á habitação do

medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando

depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...

Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que

elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia

d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.

As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os

soluços.

VIII

A CONVENÇÃO DE GRAMIDO

«O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era

impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações.

Perdemos tudo, mas salvamos a honra.»

(O n.º 63 do _Espectro_)[16].

Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e

assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.

D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a

casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella

um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para

unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da

Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera,

durante a _visão_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D.

Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um

plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre.

Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente

rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela

apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que

era rogativa, escreveu com mão trémula.

Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade

do Porto, onde a revolução agonisava.

Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo

supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo

á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:

1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação,

incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos

governos alliados.

2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde

o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os

fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade

não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser

alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte

guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em

Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas

inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias

alliadas.

3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será

marcada pelas potencias alliadas.

4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os

portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das

potencias alliadas.

5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas

dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se

guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto

para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha

que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram

durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.

6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra,

sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade

sua.

7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do

reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.

8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o

governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos

officiaes do antigo exercito realista.

Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que

termina assim:

«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma

tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que

seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que,

durante a mesma guerra, possa ter recebido.

«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis

tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de

sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo

portuguez e do mundo civilisado.

«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e

honrosa. A junta vai dissolver-se.

«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam

comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a

gloria do povo portuguez.

«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por

tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso,

mais heroico, e mais nobre da terra.

«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a

rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e

felicidade do povo portuguez.»

Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.

Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel,

escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:

«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim.

Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o

tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual será

o meu futuro?!...

«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.^a D. Isabel e a v.

exc.^a um aposento no seu palacio.

_Arthur_».

Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares

recebera outra d'este theor:

«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á

nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!

_Maria_.»

Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver

sinceramente amado.

[16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, não só por ter sido o

papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e

principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro

jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões

teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que

só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que

o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposição d'aquelle tempo,

que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta,

tributando o respeito devido á _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D.

Maria II.

IX

BRIOS DE PLEBEU

«Uns homens ha, que, na paixão ardente,

Immolam tudo seu,

Menos a propria estima; e, felizmente,

D'esses homens sou eu:

Sou, que de tudo o que no mundo prézo,

Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»

[João de Lemos--CANCIONEIRO]

Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito

humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas

almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama

imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da

Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida

camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem

por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão

prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de

uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo

na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos

presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma

semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor,

seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.

Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par

do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou

Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores.

Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao

momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para

cogitar n'um procedimento digno de si.

Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur

hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de

homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle

entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes

que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações

ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que

acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera

deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.

Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem

longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio

de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe

soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu

affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder

assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer

tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do

coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.

Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da

Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos

demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na

residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e

filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os

communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem

commum.

As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso

debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste

pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e

chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento

de Arthur.

D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo,

educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por

um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as

conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas,

esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio

de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.

Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções

do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas

crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a

coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás

occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.

Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de

Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia

as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com

lagrimas na voz, e nos olhos:

--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer

mais...

--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez

degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu,

porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do

que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a

manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão

prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais

pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas

infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e

que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em

quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro

na morte o supremo bem!...

--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o

coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em

tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está

no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples

enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me

não ordena o que devo fazer?...

--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade

de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda

entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!...

Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os

heide aturar doentinhos!...

--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...

--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer,

quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr.

Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de

attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que

receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas

pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era

sempre a mesma rapariga aldeã, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ até á sua

altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um

_potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_...

--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...

--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me

diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem

bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma

palavra, que te faz mal fallar...

X

VIAGEM DA RAINHA

«Foi então que se apossou da corôa.»

(A. HERCULANO--EURICO.)

«Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica

poesia verdadeira: uma não está sem a outra.»

(V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.)

A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em

vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo,

esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos

bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o

throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi

então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que

pozeram em pratica a constituição.

Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os

odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do

estado; pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos

officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando

o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos

empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos

individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma

verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado

_regenerador_, não desmentiu este nome redemptivo.[17]

Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos,

aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram

dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da

familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o

alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a

senhora D. Maria II, e a sua dynastia.

Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua

prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte

distincta que tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz

principe proscripto.[18]

Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D.

Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.

.........................................................................

Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e

Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus

vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe

pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha

fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D.

Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo

contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para

resolverem qual d'elles devia ter mais tempo no collo um robusto rapaz,

fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur

Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio.

João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão

diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á

rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria

e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer

á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão

innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas

as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official

escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram

destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta

revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade

o sonho precursor do seu casamento.

Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o

seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte

do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes

viajantes, e os cobria de flôres.

N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está

sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria

fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua

magestade, que logo o reconheceu:

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 13 / 14 段