nossa companheira de infancia, a minha quasi irmã, a querida de todos
nós!...
«Apresso-me a dizer-lhe que sua exc.^ma irmã não morreu; mas antes de
participar-lhe o desfecho d'esta tragica scena, preciso oriental-a de
succedimentos anteriores.
«A snr.^a D. Rosa, chegou a persuadir-se que sentia por este seu indigno
criado, um affecto irresistivel; e como sabia d'aquelle que occupa a
minha alma, e que ella considerava correspondido, entendeu dever oppôr
entre mim e ella a barreira da perdição simulada, fugindo, n'este
intuito, do seu lar domestico, e dando entrada em Guimarães n'uma casa
de perdição!... Foi alli surprehendida por João de Lencastre que, após
porfiadas luctas, conseguiu arrancar-lhe o segredo do seu procedimento.
Este meu brioso camarada, e digno parente de v. exc.^a, offereceu o seu
nome, e a sua fortuna, á snr.^a D. Rosa, indicando-lhe este meio como o
melhor para o conseguimento dos seus fins; isto é, para que entre mim o
v. exc.^a nunca podésse haver suspeita do amor que ella julgava
consagrar-me. Sua exc.^ma irmã regeitou, e conservou-se na mesma casa,
até que João de Lencastre, que a occultas alugara uma sala proxima, teve
occasião de a salvar de uma affronta, que um infame tentava fazer-lhe.
Desde um tal dia, que a snr.^a D. Rosa abandonou completamente o seu
arrojado e perigoso projecto, entregando-se á protecção do nobre
salvador da sua virtude.
«O meu camarada, e honrado parente de v. exc.^a, ha muito tempo, como
elle me confidenciou, que déra entrada a um sentimento sério pela
senhora D. Rosa; sentimento que todas estas peripecias tiveram o poder
de augmentar, por conhecer em sua exc.^ma irmã, a par de um genio viril,
um nobilissimo caracter, e pouco vulgar talento. Ultimamente, em casa do
meu prosado velho, tentou o meu camarada obter da senhora D. Rosa uma
resposta decisiva aos seus vehementes desejos, que lhe foi negada.
«Dadas estas explicações indispensaveis, para a boa intelligencia do
mais que tenho a narrar-lhe, vou dizer o que se deu em seguida ao
ferimento do supposto sargento.
«A dôr e a desesperação que se apoderaram de João de Lencastre ao
reconhecer na pessoa ferida a mulher que adorava, e que lhe parecia
estar sem vida, sentí-as, mas não me é dado descrevel-as. Conduzimos o
corpo inerte para a nossa residencia no quartel militar, e foram alli
chamados os mais habeis facultativos da nossa brigada, que estiveram
tres dias indecisos sobre o diagnostico que deviam dar. Ao quarto dia, o
primeiro em que sua exc.^ma irmã recobrou o uso da falla,
consideraram-n'a os medicos livre de perigo, ainda que mui gravemente
ferida. Durante o periodo de prostração da snr.^a D. Rosa, não pude
conseguir desviar o meu camarada da cabeceira do seu leito um só
instante. Estava mais cadaverico ainda que a doente, e n'um quietismo
idiota, que muito me assustou. Só deu accordo de si, quando sua exc.^ma
irmã abriu os olhos, e os fitou ternamente n'elle, levando-lhe a mão aos
labios... Então, arrebentaram-lhe as lagrimas com espantosa força, e
tive de o tirar arrebatadamente de ao pé do leito, para evitar damno á
doente.
«Horas depois, fui testimunha da mais commovedora scena que tenho
presenceado: a snr.^a D. Rosa chamou-nos para junto de si, e fallou
n'estes termos: «Não podia ser feliz n'este mundo, e louvo a Deus a
sorte que me permittiu conservar a vida do homem que amo, a troco da
minha... Agora, que vou morrer, hei de ser acreditada, por mais
incomprehensivel que seja a minha confissão... Considerei-me presa de um
amor invencivel pelo snr. Arthur Soares, que eu sabia cheio de um
sublime affecto por minha irmã... Quiz pôr entre nós o impossivel, para
conter-me, e fingi entregar-me ao vicio... Fui salva da minha
temeridade, por uma affeição das que raramente os homens sabem ter...
Esta dedicação, a que não tinha o menor direito, fez-me descobrir um
novo rumo no sentimento que eu havia considerado immutavel!... Mas como
fazer semelhante confissão?!... Segui o homem que amava, e ao qual devo
a conservação da minha honra, na intenção de lhe dar a vida, como lhe
havia dado o coração... Deus concedeu-me a ventura desejada... Crês
agora em mim, Lencastre?...»
«O meu camarada, snr.^a D. Maria, praticou as maiores loucuras, a que
póde levar-nos uma alegria sem limites!... Eu... pensava em v. exc.^a...
«Tenho dentro em pouco de ser padrinho da união d'aquellas almas
angelicas perante o altar do Eterno... Partilho, por amizade, da ventura
dos nossos amigos; mas que dôres não hei-de ter ao lembrar-me que igual
ceremonia póde qualquer dia unir eternamente a snr.^a D. Maria da Gloria
a...
«Cahe a penna da mão ao fiel servo de v. exc.^a
_Arthur._»
A leitura da carta, que produzira em Leopoldo o effeito de um choque
electrico, augmentou o mau humor da vingadora, que redobrou as pungentes
ironias e os crueis sarcasmos, com que torturava o seu futuro noivo...
Quando o desgraçado estava de todo succumbido, appareceram alli, sem se
fazerem annunciar, dois importantes personagens: eram o padre Alvaro, e
uma senhora com o rosto coberto por expêsso véu.
O bondoso levita, dirigiu-se a Leopoldo n'estes termos:
--Nunca se deve descrêr da misericordia divina, snr. Leopoldo!... Se na
sua alma entrou o remorso e o arrependimento do mal que tem causado,
posso dar-lhe uma esperança de que será perdoado por Deus... O seu
crime, não teve o resultado fatal, que o fizera enlouquecer... Sua
esposa escapou do ferimento que o senhor lhe fez, e vive ainda para lhe
perdoar, e amal-o como sempre o amou... Eu, seu irmão e a senhora D.
Rosa occultos em trajes de romeiros, e o honrado medico d'esta
localidade, que logo asseverou não ser mortal o ferimento, combinamos
deixal-a passar por morta, na caridosa intenção de pouparmos toda a
familia aos escandalos de um processo crime; fizemos convencer a todos
de que v. exc.^a enlouquecera com o desgosto; simulamos o enterro de um
cadaver, e conduzimos secretamente a snr.^a D. Anna á habitação do
medico, onde se conservou até se achar completamente curada, passando
depois para a residencia d'este humilde servo do senhor...
Leopoldo, forcejou por levantar-se e ir ter com o vulto de mulher, que
elle adivinhara ser a sua, mas não pôde conseguil-o, porque a violencia
d'estas scenas o fizera cahir sem sentidos nos braços do bondoso padre.
As duas irmãs, ternamente abraçadas, confundiam as lagrimas e os
soluços.
VIII
A CONVENÇÃO DE GRAMIDO
«O partido popular fica livre da deshonra. Cedemos desde que nos era
impossivel combater; cedemos á força de tres poderosas nações.
Perdemos tudo, mas salvamos a honra.»
(O n.º 63 do _Espectro_)[16].
Leopoldo ficára prostrado no leito, acariciado por sua esposa, e
assistido da medicina, que procurava prevenir a volta da loucura.
D. Maria da Gloria, antes de sahir, na companhia do padre Alvaro, para a
casa materna, tivera com sua irmã largas conferencias, e recebeu d'ella
um escripto do punho paterno, em que lhe era concedida licença para
unir-se com Arthur Soares. Este documento, fôra aquelle que Sebastião da
Mesquita lhe _parecera_ ter escripto, e que effectivamente escrevera,
durante a _visão_ de que tracta o capitulo assim chamado. Alcançara-o D.
Anna, entrando a deshoras no quarto de seu pae, em cumprimento de um
plano concebido por sua irmã Rosa, e auxiliado por João de Lencastre.
Levava de prevenção o necessario para aquelle escripto, que humildemente
rogára a seu pae lhe fizesse, e que o velho fidalgo, aterrado pela
apparição da filha que elle julgava morta, e considerando ordem o que
era rogativa, escreveu com mão trémula.
Arthur Soares, e os noivos João de Lencastre e Rosa, estavam na cidade
do Porto, onde a revolução agonisava.
Arthur acompanhara os representantes da junta provisoria do governo
supremo do reino a Gramido, onde tivéra logar a convenção, que poz termo
á guerra civil, e que foi resumido nestes artigos:
1.º O fiel e exacto cumprimento dos quatro artigos da medeação,
incluidos no protocollo de 21 de maio d'este anno, é garantido pelos
governos alliados.
2.º As tropas de sua magestade catholica exclusivamente occuparão desde
o dia 30 de junho a cidade do Porto, Villa Nova de Gaya, e todos os
fortes e reductos d'um e outro lado do rio em quanto a tranquillidade
não estiver completamente estabelecida sem receio de que possa ser
alterada pela sua ausencia, ficando na cidade do Porto uma forte
guarnição das forças alliadas em quanto estas se conservarem em
Portugal. No mesmo tempo o castello da Foz será occupado por tropas
inglezas, e no Douro estacionarão alguns vasos de guerra das potencias
alliadas.
3.º A epocha da entrada das tropas portuguezas na cidade do Porto será
marcada pelas potencias alliadas.
4.º A propriedade e segurança dos habitantes do Porto, e de todos os
portuguezes em geral, ficam confiados á honra, protecção e garantia das
potencias alliadas.
5.º As forças do exercito de sua magestade catholica receberão as armas
dos corpos de linha, e voluntarios que obedecem á junta, entregando-se
guia ou passaporte gratuito ás pessoas que tiverem de sahir do Porto
para as terras da sua residencia, e dando-se baixa aos soldados de linha
que tiverem completado o tempo de serviço, e aos quaes se alistaram
durante esta lucta para servirem só até á sua conclusão.
6.º O exercito da junta será tractado com todas as honras de guerra,
sendo conservadas aos officiaes as espadas, e cavallos de propriedade
sua.
7.º Conceder-se-hão passaportes a qualquer pessoa, que deseje sahir do
reino, podendo voltar a elle quando lhe convier.
8.º As tres potencias alliadas empregarão os seus esforços para com o
governo de sua magestade fidelissima afim de melhorar a condição dos
officiaes do antigo exercito realista.
Esta convenção foi publicada por um decreto e proclamação da junta, que
termina assim:
«A junta felicitando-se a si propria, e á nação, por vêr terminada uma
tão longa, e tão dolorosa guerra civil, espera que nenhum portuguez que
seguisse a sua bandeira conserve a lembrança de qualquer aggravo que,
durante a mesma guerra, possa ter recebido.
«A junta lisongeia-se de que o seu comportamento, durante os difficeis
tempos em que foi chamada a reger estes reinos, em nome da nação e de
sua magestade a rainha, lhe tenha grangeado a estimação do povo
portuguez e do mundo civilisado.
«A junta considera terminada a sua missão de uma maneira nobre, e
honrosa. A junta vai dissolver-se.
«Seus membros, voltando de novo ao seio da vida particular, levam
comsigo a convicção de que sempre desejaram o bem, a liberdade e a
gloria do povo portuguez.
«Não querem maior galardão do que a lisongeira recordação de que por
tanto tempo presidiram aos destinos do povo mais benigno, mais virtuoso,
mais heroico, e mais nobre da terra.
«E farão sempre os mais sinceros votos pela gloria de Sua Magestade a
rainha, pela sincera reconciliação de seus subditos, e pela liberdade, e
felicidade do povo portuguez.»
Assim acabou a mais notavel das guerras civis portuguezas.
Arthur Soares, antes de seguir jornada, com os noivos, para Penafiel,
escreveu a D. Maria da Gloria estas palavras:
«Acabou a guerra e com ella a esperança d'uma morte gloriosa para mim.
Recolho-me á residencia do meu santo velho, onde tudo me recordará o
tempo feliz da minha mocidade, passado ao lado de v. exc.^a... Qual será
o meu futuro?!...
«Acompanham-me os noivos, que tencionam pedir á snr.^a D. Isabel e a v.
exc.^a um aposento no seu palacio.
_Arthur_».
Havia sido expedida esta carta ha poucos momentos, quanto Arthur Soares
recebera outra d'este theor:
«Venha quanto antes abraçar a sua esposa. As barreiras que se oppunham á
nossa ventura, quiz Deus sumil-as pela sua infinita bondade!
_Maria_.»
Avalie o contentamento de Arthur, aquelle dos nossos leitores, que tiver
sinceramente amado.
[16] Referimo-nos por vezes ao _Espectro_, não só por ter sido o
papel mais conhecido na epocha da revolta, mas tambem, e
principalmente, para darmos ao seu redactor, e nosso primeiro
jornalista, a honra, e a justiça, que se lhe devem. As más paixões
teem querido desfigurar os factos, attribuindo a odio pessoal o que
só fôra desharmonia politica; mas a verdade é--como já provamos--que
o _Espectro_ foi o _unico_ periodico da opposição d'aquelle tempo,
que teve a gloria de castigar os aleives da imprensa desenvolta,
tributando o respeito devido á _pessoa_ e _virtudes_ da snr.^a D.
Maria II.
IX
BRIOS DE PLEBEU
«Uns homens ha, que, na paixão ardente,
Immolam tudo seu,
Menos a propria estima; e, felizmente,
D'esses homens sou eu:
Sou, que de tudo o que no mundo prézo,
Prézo mais não mer'cer o meu desprezo.»
[João de Lemos--CANCIONEIRO]
Uma d'estas revoluções moraes, que as grandes crises produzem no espirito
humano, se operou em Arthur Soares. O filho do bom Alvaro era uma destas
almas privilegiadas, ricas de sublime poesia, a que o mundo chama
imaginações prodigas, porque lhe é vedado o entendel-as. Amara D. Maria da
Gloria, que era rica e nobre, como se ella fôra a mais desprotegida
camponeza. Prenderam-n'o os dotes moraes e physicos da fidalga moça, e nem
por sombras o deslumbrara a fortuna e nobreza de sangue da sua amada. Tão
prudente como gentil e cavalheiro, nunca d'elle partiria a iniciativa de
uma declaração: era d'estes poucos homens, que sabem morrer com um segredo
na alma, para não se exporem aos falsos juizos do vulgo, nem serem menos
presados pelo alvo da sua estima. D. Maria da Gloria, possuidora d'uma alma
semelhante á de Arthur, amando-o como era amada e manifestando o seu amor,
seguira seus naturaes impulsos com feminil precipitação.
Sabendo que era amado pela filha do seu orgulhoso e fidalgo padrinho, a par
do naturalissimo contentamento que uma tal certeza lhe deu, principiou
Arthur Soares a comprehender o melindre em que o collocavam estes amores.
Os acontecimentos, porém, precipitaram-se com tal velocidade, que, até ao
momento do desenlace, não teve o nosso heroe o tempo material preciso para
cogitar n'um procedimento digno de si.
Agora, que só da sua vontade estava dependente a sua ventura, Arthur
hesitava, e sustentava uma lucta mortificadora, porque os seus brios de
homem de bem lhe patenteavam, que no seu enlace com D. Maria não podia elle
entrar com uma porção, se não igual, aproximada das conveniencias sociaes
que ia receber. Se ao menos podésse apresentar as dragonas e condecorações
ganhas no campo da batalha, seria já alguma coisa, e fôra provavel que
acabasse a sua hesitação; mas o governo interino que lh'as concedera
deixara de existir, e o de sua magestade não lh'as garantia.
Este brioso luctar contra o sentimento, se collocava Arthur Soares bem
longe do bafo empestado das paixões mesquinhas e torpes, que são o apanagio
de villões interesses, trazia-lhe a par a recordação dos tempos em que lhe
soavam os alegres hymnos do amor e da saudade; em que era sustentado o seu
affecto pela esperança de se tornar distincto no campo da honra, e poder
assim encurtar a distancia que o separava de Maria; e o seu intimo soffrer
tomava proporções assustadoras, que ameaçavam queimar-lhe ao fogo do
coração os brilhantes sonhos de amor que o tinham embalado.
Ao passo que tudo respirava tranquillidade no palacio de D. Maria da
Gloria, e que a vida prasenteira dos noivos se tornava communicativa aos
demais habitadores d'aquelle nobre solar, existiam a dois passos d'alli, na
residencia do padre Alvaro, duas almas consumidas pela melancolia; pae e
filho eram victimas dos mesmos pensamentos, que nutriam sem os
communicarem, e que nenhum d'elles sabia como destruil-os para o bem
commum.
As forças physicas de Arthur tiveram de ceder ao prolongado e doloroso
debate moral que elle sustentara, e cahiu em perigosa enfermidade. O triste
pae, teve de envidar um resto de energia, para animar o filho querido, e
chamou em seu auxilio aquella que era a involuntaria causa do soffrimento
de Arthur.
D. Maria da Gloria, com a perspicacia inherente ás pessoas do seu sexo,
educação e talentos, quasi que lia claramente na alma do seu amante e, por
um fidalgo tacto, que só ensina o amor verdadeiro, desviara sempre as
conversações do terreno em que poderiam declinar para expansões perigosas,
esperando assim corajosamente o resultado da lucta, sem dar o menor indicio
de querer accelerar o desfecho que tão grato era ao seu coração.
Assidua enfermeira do seu amante, pondo de parte as etiquetas e convenções
do seu mundo, D. Maria não largava a cabeceira do seu querido enfermo. Nas
crises mais perigosas da enfermidade, tinha a gentil e fidalga moça a
coragem de mostrar-se risonha na presença do seu idolo, para dar, ás
occultas, largas ao pranto, e á dôr que a definhava.
Os desvélos do pae e da amante, auxiliados pela constituição vigorosa de
Arthur, arrancaram-n'o das bordas do tumulo. Já convalescente, tomou um dia
as mãos do pae e de D. Maria, beijou-as religiosamente, e disse-lhes, com
lagrimas na voz, e nos olhos:
--Porque me não deixaram morrer?!... Acabava tudo, e não os faria soffrer
mais...
--Quer-me parecer, Arthur, que vão muito longe os teus brios, e que talvez
degenerem em orgulho condemnavel... Ambos nós lêmos no teu intimo; eu,
porque sou teu pae; e este incomparavel anjo, porque te ama, ainda além do
que é permittido amar-se na terra... Querias morrer?!... E não será a
manifestação de um tal desejo grave offensa á Divina Providencia, que tão
prodiga tem sido em beneficiar-te?... Ou quererás tu tornar-me mais
pungentes os remorsos, por te haver dado uma existencia a que chamas
infeliz?... Mas fica certo, filho, que a tua ultima hora seria a minha, e
que tu, deixando a vida, fugias á possivel felicidade n'este mundo, em
quanto que eu, se um Deus misericordioso perdoar os meus peccados, encontro
na morte o supremo bem!...
--Como são sevéras as suas palavras, meu querido pae!... E diz-me o
coração, que os seus sentimentos são os meus, e que, no meu caso, seria em
tudo semelhante o seu procedimento... A prova d'esta minha convicção, está
no silencio que tem guardado, quando muito bem conhece que o simples
enunciado da sua vontade seria para mim uma ordem terminante... Porque me
não ordena o que devo fazer?...
--Chega-me a minha vez de fallar, e principio por usar da minha auctoridade
de enfermeira, lembrando ao impertinente doentinho, que não póde ainda
entrar em conversações animadas... Sim, agora o mais bonito é isso!...
Chorem, chorem ambos, mortifiquem-se bem, e não tenham pena de mim, que os
heide aturar doentinhos!...
--És o melhor dos anjos, minha querida Maria!...
--Nem sou _anjo_, nem sou ainda _sua_, seu mau... Isso hade acontecer,
quando se realisar um sonho que eu tive uma d'estas noites......O snr.
Arthur Soares, figurava no meu sonho como um grande personagem, cercado de
attenções e de respeitos, podendo dispensar protecção, e não tendo já que
receiar dos maus juizos que o mundo fórma quando vê ligações entre duas
pessoas que não pesam do mesmo modo na balança das conveniencias... Eu era
sempre a mesma rapariga aldeã, que _V. Exc.^a se dignava elevar_ até á sua
altura, e que caminhava para a capella tão contente por o meu esposo ser um
_potentado_, como o estaria se elle fosse um simples _operario_...
--Basta, minha adorada Maria!... Fixa tu a epocha do nosso casamento...
--Está fixada, já lhe disse... Esperemos a realisação do meu sonho, que me
diz o coração, que não havemos de envelhecer esperando... Quero que fiquem
bem satisfeitos todos os seus caprichinhos... E agora, nem mais uma
palavra, que te faz mal fallar...
X
VIAGEM DA RAINHA
«Foi então que se apossou da corôa.»
(A. HERCULANO--EURICO.)
«Crer e amar--é a unica religião verdadeira; crer e amar--a unica
poesia verdadeira: uma não está sem a outra.»
(V. DE ALMEIDA GARRETT--HELENA.)
A guerra civil gastou a nossa energia, e converteu a dissenção armada em
vinganças mesquinhas, em baixos enrêdos e ambiciosas abjecções. O povo,
esmagado com o peso dos tributos e dilacerado pelas inglorias luctas dos
bandos politicos, tinha perdido as crenças, e o amor ao systema liberal: o
throno, á força de lh'o pintarem de ferro, figurava-se-lhe tyrannico. Foi
então que uma feliz revolta militar levou ao poder os primeiros homens que
pozeram em pratica a constituição.
Ferindo no ámago a roedora agiotagem por medidas energicas; apagando os
odios politicos; equilibrando quanto possivel a receita com a despeza do
estado; pagando em dia aos empregados da nação; garantindo as patentes aos
officiaes do exercito, e fazendo este alheio aos baldões politicos; dotando
o paiz de estradas e outros melhoramentos materiaes; dando accesso nos
empregos aos homens de todas as côres politicas; segurando os direitos
individuaes; e pondo, finalmente, em acção todo o machinismo de uma
verdadeira monarchia constitucional,--o primeiro ministerio chamado
_regenerador_, não desmentiu este nome redemptivo.[17]
Não contentes de haverem grangeado a estima publica pelos seus actos,
aquelles vultos politicos do memoravel ministerio _regenerador_, quizeram
dar ao povo portuguez um conhecimento perfeito das altas virtudes da
familia real, e aconselharam-na a viajar pelo reino. Este passo teve o
alcance meditado: o nobre povo portuguez ficou amando, como ella merecia, a
senhora D. Maria II, e a sua dynastia.
Pouco tempo depois, a digna filha do rei soldado, foi chorada, na sua
prematura morte, por todos os partidos; sendo para notar-se a parte
distincta que tomou no lucto, o partido que era affeiçoado ao infeliz
principe proscripto.[18]
Continuou, sob a regencia do sympathico e bondoso monarcha, o snr. D.
Fernando, a sua bem assignalada gerencia, o ministerio regenerador.
.........................................................................
Era tudo rumor e gala no antigo solar dos Bandeiras, Mesquitas e
Abendanhos. A respeitavel snr.^a D. Isabel, parecia ter voltado aos seus
vinte annos, pela rapidez com que dava ordens e movia as chaves que lhe
pendiam do cinto. Era justificado o regosijo e o afan, porque a velha
fidalga esperava a honra de hospedar a familia real em seu palacio. D.
Maria da Gloria acompanhava a mãe nos precisos trabalhos com vivo
contentamento. D. Rosa deixara de ter questões com o marido,--para
resolverem qual d'elles devia ter mais tempo no collo um robusto rapaz,
fructo do seu amor, que era afilhado de D. Maria da Gloria e de Arthur
Soares,--e tambem dava o seu contingente para os preparativos do palacio.
João de Lencastre fôra encarregado por D. Maria de uma commissão
diplomatica: era forçoso conseguir que Arthur apparecesse, fardado, á
rainha!... Innocente capricho, chamou o ex-coronel á exigencia da sua Maria
e, embora estivesse sempre em projecto o seu casamento, folgava de obedecer
á vontade d'aquella que era tudo para elle. O capricho, porém, não era tão
innocente como parecia. João de Lencastre tornara-se fallador, como todas
as pessoas felizes, e havia contado a D. Maria, que Arthur fôra o official
escolhido em Setubal, para levar a Sua Magestade os objectos que lhe eram
destinados, e que foram tomados com um navio de guerra. Ora, esta
revelação, fez conceber um plano á fidalga moça, que devia tornar realidade
o sonho precursor do seu casamento.
Chegou a familia real, e foi recebida alli, da mesma fórma que em todo o
seu transito, com as mais festivas demonstrações de leal affecto da parte
do povo apinhado na estrada, que entoava freneticos vivas aos reaes
viajantes, e os cobria de flôres.
N'um intervallo das enfadonhas etiquetas, a que mesmo em viagem está
sujeito o primeiro magistrado de uma nação, conseguiu D. Maria da Gloria
fazer-se ouvir da rainha. Pouco depois, foi apresentado Arthur Soares a sua
magestade, que logo o reconheceu: