donzella tão inesperadamente desenlaçára o temivel nó, que seu pae lhe
lançára ao collo, gemia Sebastião da Mesquita no seu leito as dôres de
sua teimosa enfermidade, e as que procediam de um pesadelo medonho. Via
as suas filhas bastardas, uma levantar-se do tumulo, e outra surgir do
meio de uma turba de mulheres hediondas pela miseria e pela devassidão,
pedirem-lhe contas dos carinhos maternaes, a que elle as arrebatara; de
um nome que podessem usar sem pejo, que elle não podia dar-lhes; e de um
futuro igual ao que esperava a sua filha legitima, que já não podia ser
o d'ellas... O mais terrivel da visão, era o espectro da mulher de
Leopoldo... D. Anna apparecia a seu pae, em todo o vigor da sua
mocidade, criminando-o pela forçada ligação a que elle a levára, e que
fôra causa da morte prematura que tivéra... O velho fidalgo, implorava o
perdão de sua filha, e a victima exigia-lhe, em troca, nada menos que o
completo aniquilamento da sua raça... Queria que seu pae désse por
escripto o seu consentimento para D. Maria da Gloria poder casar-se com
Arthur Soares... Apresentava-lhe penna, tinta e papel, e dizia-lhe, pela
voz da eternidade:
«Em nome de Laura, a virgem que deshonrastes, e á qual nem foi dado
depositar um beijo maternal nas faces de suas filhas!... Em nome das
cruciantes dôres e das lagrimas de sangue, que levastes ao seio de uma
familia honesta!... Em nome do desespero da filha, que o teu despreso
atirou ao lôdo social!... Em nome, finalmente, d'esta outra filha, que
fizestes morrer na flôr da vida; e para que todos te perdoem, e Deus se
amerceie da tua alma,--escreve: «_Dou voluntariamente o meu
consentimento para minha filha D. Maria da Gloria poder casar-se com o
meu afilhado Arthur Soares. Ás portas da eternidade, prestes a
comparecer perante o pae commum, reconheço que só é verdadeiramente
nobre, aquelle que segue no mundo os preceitos de Jesus Christo==«Não
faças a outrem o que não queres para ti, perdôa as injurias, e ama o teu
proximo como a ti mesmo.»==Sebastião da Mesquita._»
E o torturado velho, banhado em frios suores, sem ter já forças para
affastar de si a vingadora visão, que o aterrava, sem poder distinguir
se tudo aquillo era sonho ou realidade, pareceu-lhe que cedia ás ordens
da filha, e que estava escrevendo o que ella lhe dictava...............
.......................................................................
Succedeu-se á visão um quebrantamento, que teve o velho fidalgo
prostrado, por algumas horas, como se estivera morto.
Ao abrir os olhos, viu Sebastião da Mesquita junto da cabeceira a
sollicita e carinhosa esposa. Diligenciou recordar-se, e communicou o
acontecido a D. Isabel, em voz fraca, e cada vez mais duvidoso, se um
sonho fôra, ou se tudo se passára na realidade. A bondosa senhora,
aproveitou aquellas disposições do marido, para advogar a causa da
filha. Pintou Arthur Soares com as mais bellas côres; revelou o que elle
praticára em beneficio de D. Anna, porque entendeu que o juramento de
guardar segredo, dado por D. Maria, a não obrigava a ella; descreveu com
enthusiasmo o casto amor da donzella, e o que ella soffreria tendo de o
sacrificar ao dever de esposa de um homem aborrecido; foi, finalmente,
sublime de eloquencia maternal.
No fim das suas expansões, olhou D. Isabel para o marido, a vêr se lhe
lia nos olhos o assentimento, que os labios não tinham proferido. Não
conseguiu o seu intento, porque os olhos de Sebastião da Mesquita
estavam completamente fechados... O remorso fôra um poderoso auxiliar da
enfermidade...
Áquella hora, já o velho fidalgo sabia se lá nas alturas Deus permitte a
distincção de _humanas raças_...
V
TRES SOLDADOS POR AMOR
«Tomai pensar mais solido e sizudo:
O caminho segui que a honra indica;
Trabalhai pela Patria, a Patria é tudo.»
(POESIAS DE ANTONIO JOAQUIM DE MESQUITA E MELLO).
Entremos na residencia do reitor de Santo Adrião de Penafiel.
Estamos na sala do oratorio, onde já vimos orar D. Isabel e o velho
parocho, por occasião dos _raptos_, e do incendio, da primeira parte
d'esta obra.
Ajoelhado aos pés de Christo, está um vulto de mulher, nova e bella
ainda apesar do seu definhamento.
Assentados em um movel de junco de dous logares unidos, com as costas
oppostas uma a outra, ficando por isso as pessoas a olharem-se de
frente, estão a um canto Rosa e João Vidal ou de Lencastre.
A um lado, escrevendo, está o bondoso reitor.
Trajam todos rigoroso lucto.
Ouviremos o que dizem João e Rosa:
--Quando seccarão as lagrimas nos seus olhos, snr.^a D. Rosa?...
--Não ha muito que chóro, meu amigo, e ainda bem que posso chorar... Sou
muito mais forte do que me julgam, e do que eu mesma pensava ser...
Tenho atravessado de olhos enchutos crises violentas, que nem todos os
homens atravessariam de animo frio... Mas saber, na mesma hora, que era
filha de um respeitavel cavalheiro, e que meu pae morrera
considerando-me perdida... é de mais, bem o conhece!...
--Não posso asseverar-lhe qual foi a convicção com que seu exc.^mo pae
falleceu; mas ao despedir-me d'elle, julgando eu que ainda o veria
muitas vezes, quando elle me pediu noticias suas, jurei-lhe, pelo meu
nome, que v. exc.^a era em tudo sua digna e honrada filha. Este meu
juramento, pelo conhecimento que elle tinha do meu caracter, e dado
poucos momentos depois de sua exc.^ma irmã D. Maria lhe ter dicto, por
uma sublime inspiração, que a snr.^a D. Rosa havia de resurgir pura de
toda a mácula,--devia ser bastante para o convencer de que fôra
precipitado em julgar por apparencias. Não posso adiantar-lhe mais,
porque me era impossivel mentir-lhe, mesmo para seu bem. Estive lá, como
sabe, quando fui acompanhar aquella desventurada martyr, que implora a
Deus o perdão dos que a sacrificaram, e desconheceram suas
virtudes;--mas não fallei com pessoa alguma da familia, porque assim era
preciso... Poucas horas depois, já seu exc.^mo pae não era d'este mundo!
--Querido pae, e boa irmã!... É preciso que terminado o lucto, meu bom
amigo, D. Maria da Gloria seja feliz.
--Sabe o que se fez, e o que se espera. O plano de v. exc.^a foi
rigorosamente executado. Admiro-a, snr.^a D. Rosa!... Como Deus lhe dá
forças para esmagar o coração!...
--Não me julgue de leve, meu amigo, que póde enganar-se nos seus juizos
a meu respeito. É muitas vezes insondavel o coração da mulher... Eu
mesma não saberia, talvez, dizer em verdade quaes sejam os estimulos do
meu actual proceder...
--Quer a desgraça que os eu conheça, senhora, e que os sinta
inabalaveis... São rarissimas as mulheres que sabem sacrificar o amor
aos seus brios, á dedicação e amisade; mas ha exemplos, e v. exc.^a é
das que póde praticar todos os extraordinarios...
--E não tenho podido conseguir fazel-o feliz com a minha illimitada
estima... Veja que apoucado poder é o d'esta _extraordinaria_ mulher...
--O que quer, senhora?!... O ambicioso soffre e caminha continuadamente,
até chegar ao cumulo da sua ambição, ou succumbir sem vêr realisadas as
suas loucas esperanças... Cheguei a meio caminho do meu paraiso, é
certo; deveria contentar-me, por que fôra alcançar já muito mais do que
merecia; mas esse mesmo exito augmentou a minha loucura, e não posso
ficar parado... Antes morrer com a esperança no pensamento, do que
arrastar a vida sem essa dôce consolação dos que padecem...
--E como lhe ha de conceder _esperanças_, a mulher que o senhor salvou
da _perdição_, onde ella se foi voluntariamente lançar por amor a
_outro_ homem?!...
--Não lhe tenho eu jurado muitas vezes, que seria o mais extremoso e
dedicado dos esposos?... Suspeita-me capaz, mil annos que vivessemos
juntos, de lhe fazer a mais remota allusão a um seu passo impensado, que
nem erro se póde chamar?...
--E julga que me satisfaço com tão pouco?!... Avalia-me com a capacidade
de o victimar, para salvar a minha virtude?!... Como é injusto, João!...
Se fosse possivel ter entrada no meu peito, para lhe dar, um affecto
ainda superior ao que me levou a affrontar os prejuizos sociaes, seria
então sua esposa, creia-o... Mas posso eu sentil-o?... E sentindo-o, não
deveria occultal-o a mim propria, para não ter de córar da minha
versatilidade?...
--Sou, pois, infallivelmente condemnado, não é verdade?!... Um pedido
então, senhora, e será o ultimo... Deixe-me ir batalhar pela nação... V.
Exc.^a já não carece dos meus serviços... tem a companhia d'aquella
martyr, e d'aquelle respeitabilissimo ancião... Vou para junto do meu
camarada Arthur... talvez que precise do meu auxilio, e juro-lhe que
darei por elle a vida... Consente, não é assim?... Não me responde?!...
Chora?!... Compadeça-se de mim, senhora, e deixe-me partir!...
Usando dos privilegios concedidos a todos os narradores, vamos agora lêr
a carta, que o padre Alvaro acaba de escrever:
«_Exc.^ma Snr.^a D. Maria da Gloria, escolhida filha do bondoso Deus_:
«Não ha flôres por mais mimosas que a natureza as produzisse, que
estejam ao abrigo das tempestades da terra; e por muito açoitadas e
pendidas que ellas fiquem, o sopro de um Deus, mais poderoso do que o
furacão da tormenta, em breve as alevanta e reanima. A minha linda flôr
da Gloria, está sendo abalada pelos ventos do infortunio, com que o pae
celeste costuma experimentar os seus escolhidos; mas, se como eu espero
e creio, a christã resignação fôr uma das muitas virtudes de V. Exc.^a,
não virá longe o dia em que hade ser compensada dos seus dolorosos
soffrimentos. Tambem eu sei carpir saudades do meu unico e verdadeiro
amigo, que nunca julguei que me houvesse de preceder na viagem da
eternidade!... Ora, pois, enchuguemos o justificado pranto, e fallemos
um pouco de nós outros, interinos habitadores d'este valle de lagrimas.
«Venho da cabeceira do leito de Arthur, que está livre de todo o perigo:
mais alguns dias de repouso, e a seiva da vida apparecerá de novo. Foram
muito graves os ferimentos, perigosos mesmo: deixaram vestigios
permanentes, que mudaram immenso a physionomia do meu caro Arthur.
Perdôe a este velho padre o dizer-lhe, que o rapaz me pareceu assim mais
formoso ainda!... Eu, que devo impugnar os ardores guerreiros, como
indignos da caridade e da misericordia do Senhor, achei bello aquelle
aspecto marcial!... Na hora das despedidas, sahiu-lhe espontaneamente da
bocca o nome de V. Exc.^a, proferido com igual respeito áquelle com que
por vezes invocára o da sua querida mãe. Quizera responder-lhe com
poucas palavras, mas foi impossivel. A despedida, durou mais tempo do
que o resto da visita!... O padre, teve de ceder o seu logar ao homem,
que, apesar de criminoso, é pae!... Que lhe direi mais, senhora D. Maria
da Gloria?!... Arthur está preparado para todos os acontecimentos...
Resignar-se-ha com tudo, afóra a ideia de que V. Exc.^a possa ser menos
feliz do que merece.
«Peço a transmissão dos meus profundissimos respeitos á exc.^ma snr.^a
D. Isabel, á qual me atrevo a rogar o seu regresso a estes sitios, onde
me será mais facil a realisação do desejo de as vêr todos os dias, e
acompanhal-as nas orações pelo eterno descanço do nosso chorado esposo,
pae e amigo.
_Padre Alvaro._»
N'este mesmo dia, existiam só, além dos serventes, duas pessoas na
residencia do padre Alvaro: elle, e a senhora que vimos orar, em quanto
o padre escrevera e João e Rosa conversavam.
João de Lencastre, fôra o primeiro a retirar-se, com a morte no coração,
porque de todo lhe fugira a esperança de ser correspondido no seu
immenso amor.
Rosa, que o não prevenira da sua resolução, seguira-o pouco depois.
Quarenta e oito horas eram apenas passadas, quando, no Porto, a
companhia de que era capitão Arthur Soares, contava mais dous
voluntarios, que eram o tenente João de Lencastre, e um elegante
sargento, que dizia chamar-se Paulo Virginio.
Arthur Soares, estava já completamente restabelecido.
VI
DENODO FEMININO
«Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irmã de
Pelagio, e foram reclinál-a sobre um monticulo cuberto de relva e
musgos.....
«O unico signal que n'ella revelava vida era o tremor convulso que
violentamente a agitava.»
(_A. Herculano_--EURICO.)
A guerra civil havia chegado ao seu maximo desenvolvimento. Não existia
em Portugal uma aldêa livre dos vexames da revolução. Os exercitos
belligerantes entretinham-se em operações de pouca importancia, em
conservarem para os seus governos os territorios occupados pela força, e
não chegavam a travar uma lucta decisiva.
Um estado de coisas assim violento, não podia prolongar-se sem grave
prejuiso da nossa nacionalidade.
O governo de Lisboa, fundado nas acclamações feitas a favor do snr. D.
Miguel de Bragança, pedira a interferencia das nações signatarias do
tractado da quadrupla alliança, por se achar em perigo a pessoa e
dynastia da rainha.
Foi muito condemnada n'aquella epocha a medida extraordinaria da
intervenção estrangeira, que é sempre um desaire para as nações a ella
sujeita; mas é forçoso confessar, que lhe devemos immensos beneficios; e
que, se não foi um bem absoluto a interferencia da França, Inglaterra e
Hespanha, poupou comtudo a Portugal o derramamento de muito sangue, e os
milhares de calamidades a que a duração da guerra nos tinha entregues.
No caso mesmo do vencimento provavel da causa popular havia a receiar
que, após elle, a ambição do partido ante-dynastico, que se achava em
força consideravel, désse muito que entender aos liberaes de boa fé, que
apenas pelejavam pela prática genuina do systema constitucional, e que
amavam de toda a alma a Liberdade, e a respeitabilissima pessoa da
snr.^a D. Maria II.
A excelsa filha do rei soldado, a mais exemplar senhora da Europa, como
esposa e mãe educadora, foi inconsideradamente arguida de facciosa, pela
exaltação partidaria, que se esqueceu de levar-lhe em conta dos seus
actos politicos as constantes suggestões dos conselheiros que a
cercavam, aos quaes não se fartava de fornecer terriveis documentos para
a catechese, a imprensa licenciosa da opposição, cuja linguagem
desenvolta e ameaçadora bastaria a resolver qualquer monarcha, por mais
resoluto que elle fosse, a entregar-se nos braços dos que se lhe
mostrassem dedicados e leaes.
O certo é, que alguns dos officiaes superiores da junta do Porto, não
viram com máus olhos a conclusão da guerra, pelo modo que ella teve
logar, como por sem duvida, a maioria sensata do paiz, a recebeu com
jubilo.
O batalhão a que pertenciam Arthur Soares, João de Lencastre e o
sargento Paulo Virginio, achava-se em Setubal, fazendo parte da brigada
do commando do honrado e mutilado general, que servia ás ordens da junta
do Porto. Succedeu haverem sido interceptados a bordo de um vaso de
guerra alguns objectos, que do estrangeiro vinham dirigidos á rainha, e
entregues áquelle general, que immediatamente os enviou ao Paço por um
dos seus officiaes;[15] e foi Arthur Soares, elevado por seus serviços
ao posto de major, o escolhido para os ir apresentar, commissão que
desempenhou galhardamente.
A snr.^a D. Maria II, commovida por um tão delicado quanto conveniente
procedimento, acolheu o mensageiro com inequivocas demonstrações de
estima. Não lhe fez graça nem mercê régia, porque, senhora como era de
elevadissimos sentimentos e notavel intelligencia, não queria de nenhuma
fórma melindrar o caracter de um soldado, que militava em campo que lhe
era opposto; mas significou-lhe, em phrases insinuantes, o quanto estava
reconhecida áquella fineza do bravo general, e o muito que desejava
poder em dias mais felizes distinguir e galardoar o porte e delicadeza
do attencioso mensageiro.
Dias depois, tivera logar a batalha de Setubal, que matou cerca de 600
homens de ambos os lados, em quatro horas que durou o fogo, e a que poz
termo um armisticio, por uma especie de intervenção do coronel Wilde,
que se achava n'aquellas paragens, a bordo do navio de S. M. Britanica
_Polyphemus_.
N'esta batalha, achou-se o regimento de Arthur Soares fazendo parte da
força que atacara a direita do inimigo, e que foi tomada de improviso
pela cavallaria, que a fez debandar desordenadamente. O major Arthur
Soares, o tenente João de Lencastre, e o sargento Paulo Virginio,
fizeram desesperados esforços por conter os soldados, e tiveram de
sustentar uma lucta desigual com a cavallaria inimiga. Na occasião em
que o peito de João de Lencastre ia ser varado por uma bala sahida da
pistola que lhe apontava um soldado, collocou-se de permeio o sargento
Paulo Virginio, que recebeu o ferimento destinado ao seu superior.
N'esta altura, ouvia-se por todo o campo da batalha o toque de retirada,
e foi a elle que os dous officiaes deveram a conservação de suas vidas,
e o poderem soccorrer o ferido, que tão denodadamente havia salvado um
d'elles.
Imagine-se qual seria o espanto dos nossos heroes, ao reconhecerem, sob
as vestes militares do sargento moribundo, o corpo mimoso da donzella
Rosa!...
[15] Este facto foi publicado em alguns periodicos d'aquelle tempo.
VII
OS ESPINHOS DA FLOR
«Peço ao meu anjo da guarda,
Se hei-de aqui ficar perdida,
Que vá levar-te por sonhos
Esta minha despedida.»
(_V. de Castilho_--O ACALENTAR DA NETA.)
Leopoldo havia recuperado a razão, graças aos cuidados da sua gentil
enfermeira. Mal sabia o desgraçado, que novo supplicio lhe destinava a
mulher que o salvára da demencia!...
Ouçamol-os:
--Diga-me muitas vezes que não sonho, querida prima, e que não é
encantamento, ou uma nova crise da minha loucura, este celeste deslisar
da existencia ao seu lado...
--É um facto muito real e verdadeiro, _caro primo_, que hade ter por
desenlace o nosso casamento...
--Não posso crêr em tamanha ventura!...
--Duvída?!... Pois não sabe, que protestei a meu pae de sustentar o
seguimento das _nobres_ allianças da minha raça?... Não vê como já me
abandono ao seu dominio, separada de minha mãe, que foi para o nosso
solar chorar a perda do marido estremecido, e longe de todos que no
mundo me são caros?... Duvída?!... Alguma razão tem para duvidar, porque
não é com premios taes que se costumam castigar os assassinos...
--Tenha piedade, senhora!...
--Piedade?!... De quem, e porquê?!...
--De mim, que só fui criminoso por amor e por ciume... A ferida que fiz
n'um peito desleal, causou-me estragos, que só a prima teve o poder de
reparar... e bem conhece que não são de _assassino_ estes
soffrimentos...
--__A _ferida que fez n'um peito desleal_, diz o primo?!... Illude-se, e
é chegada a hora de lhe tirar a venda... V. Exc.^a cravou ás punhaladas,
com este villão instrumento que guardei para o sangue que o tinge me
animar á vingança, o unico peito em que batia um coração que lhe era
affecto... Minha irmã Anna amava-o, como ao seu unico e verdadeiro
amor...
--Não brinque, prima, que me tortura!...
--Quer as provas?... Vá ouvindo... Passavamos aqui uma existencia
relativamente feliz, eu a crear sonhos de ventura com o meu _idolatrado_
Arthur, e minha irmã Anna a lamentar-se de não ser comprehendida por V.
Exc.^a no seu immenso affecto, quando veiu enluctar-nos uma carta de
nosso pae, que me participava a resolução de casar-me em Guimarães...
Soffri horrivelmente!... Fiquei em estado de não poder empregar sequer
um raciocinio... A minha querida irmã, que era o symbolo da dedicação,
imaginou conjurar a tempestade que ameaçava o meu futuro, chamando aqui
o meu _muito amado_ Arthur... Comprehende?... Foi essa carta fatal,
roubada no campo da gloria ao _meu idolo_ por um soldado do seu
commando, que o tornou um assassino cobarde... Veja o sangue innocente,
tornado ferrugem no seu punhal!...
--Misericordia, senhora, que me mata!...
--Não hade morrer, _senhor meu noivo_, em quanto não tiver bem esgotado
o calix de amargura, que outros já tragaram por sua causa...
--É então o demonio vingador, em vez do anjo adorado?!... Mas como é que
deseja unir-se ao homem que detesta, ao assassino de sua innocente
irmã?!... Eu torno a enlouquecer, de certo!...
--Tambem não hade enlouquecer, porque me tem amor, e vae ser meu
esposo... Socegue, que o aguarda uma existencia _singular_...
--Atterra-me o seu sangue frio, senhora! Não me dirá o logar que occupo
no seu coração?...
--O meu coração está cheio, hade estal-o sempre, do _unico_ homem que eu
amo, e do qual me separa a fatalidade... Não hade passar um minuto da
minha existencia, sem que eu pague um tributo de lagrimas ardentes e
saudosas á memoria de _Arthur Soares_, do amor da minha infancia, da
alma mais nobre que existe na terra, e que só no céu me será concedido
unir á minha... Que importa isto ao _meu futuro esposo_, ao viuvo de
_minha irmã assassinada_!...
--Cale-se, demonio!...
--Hei de entreter os ouvidos de meu caro primo, e _feliz noivo_, com a
fiel narração do estado da minha alma, que todos os dias voará em busca
da que lhe é igual... Hei-de fazer-lhe conhecidas muitas
particularidades do nobilissimo caracter de Arthur... Quer saber?... Foi
elle que deu um dote á sua primeira mulher, ajuntando e vendendo para
esse fim, todos os seus haveres...
--Que tormentos do inferno me quer fazer passar, senhora?!!... Peço-lhe
antes a morte como o supremo beneficio...
--Quer saber mais?... Lembra-se da musica que eu lhe tocava todos os
dias ao pianno durante a sua convalescença?... É uma composição minha...
Fiz-lhe tambem uma letra, que lhe não cantava, porque não estava ainda
em estado de comprehendel-a... Vou dizer-lh'a agora, para que fique
sabendo que só o amor é verdadeiro poeta... Oiça:
«LAGRIMAS D'ALMA
«Vida ditosa da infancia amena,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu poderoso rei,
por amor fiquei n'um atroz martyrio!...
Ignora o mundo que cruel mysterio,
ao cemiterio casta virgem leva!...
Nem _Elle_ sabe quanto hei penado,
Arthur amado, que minha alma enleva!
Aqui defronte do feroz tyranno,
que deshumano duas vidas sóme,
a irmã eu vingo, o amor vingando,
Arthur amando com ardor sem nome!...
Ai! que saudade dos meus sonhos bellos,
puros anhelos, que gostosa tinha!
Ai! que tormentos o presente encerra,
na crua guerra da vingança minha!...
Vida ditosa da infancia amêna,
tornada pena, que me traz delirio!...
Meu terno amante, meu querido d'alma,
recebe a palma d'este cru martyrio!...»
O todo de Leopoldo revelava um tal soffrimento, que o mais desalmado
executor de alta justiça se compadeceria ao vêl-o! E D. Maria da Gloria
estava impiedosa! Chegara a um estado de exaltação, em que a mulher
_senhora_, se torna a mais temivel das féras. Havia por muito tempo
concentrado o seu rancor ao homem que lhe matara a irmã, e fôra causa,
ainda que indirecta, de se lhe sumir o delicioso porvir que sonhara, e
por isso era terrivel n'aquelle seu primeiro manifesto do odio que lhe
enchia o peito.
Um escudeiro veiu entregar uma carta á vingadora que, reconhecendo
n'ella a letra de Arthur, a recebeu com transportes da mais intima
alegria, praticados febrilmente em face de Leopoldo.
O conteúdo na carta, que D. Maria lêu em voz alta, era este:
«Depois que o meu velho Alvaro lançou n'este pobre coração o desespero,
com a noticia da resolução que v. exc.^a tomara de ser fiel á vontade de
seu exc.^mo pae, tenho procurado a morte no campo da batalha, porque só
ella me libertaria dos tormentos, que me esperam ao saber que outro
homem é o seu esposo... Mas superior á minha vontade está o dedo de um
Deus todo poderoso, que me afasta os perigos, e me cérca de espectaculos
insinuantes!... Poderei vêr n'isto uma esperança?...
«Na ultima batalha a que assisti, e na qual ganhei a patente de coronel,
deu-se um acontecimento, que vou narrar-lhe, porque tambem lhe
interessa. Alistara-se ultimamente no regimento do meu commando um joven
sargento, sobrio de palavras, que dizia chamar-se Paulo Virginio, e que
era a sombra do meu camarada, o seu bondoso parente João de Lencastre.
Não fizemos caso da assiduidade com que o sargento seguia de perto o seu
tenente, porque ambos nós tinhamos sérias preoccupações, que nos não
davam tempo a reparos curiosos. Quasi no fim da batalha, e quando já se
ouviam por todo o campo os toques de cessar fogo, e de retirada das
forças combatentes, estavamos todos tres cercados por soldados da
cavallaria inimiga, um dos quaes apontou a sua pistola ao peito de João
de Lencastre. Rapido, porém, como se fôra uma frecha, o intrépido
sargento, colloca o seu corpo em defesa do tenente, e recebe no peito o
ferimento que lhe era destinado! Dentro em pouco, apenas restavam no
campo os mortos e feridos de ambos os lados. Fomos em soccorro do
sargento: quem imagina v. exc.^a que descobrimos debaixo de um tal
disfarce?... A heroica senhora D. Rosa, sua exc.^ma irmã!...