--Felicito-me, snr. official, por ter chegado o _tempo mais feliz_, a que

me referi em palacio quando tive de agradecer-lhe o modo nobre e attencioso

com que se houve n'uma commissão delicada. Dizem que os reis

constitucionaes não podem fazer mercês a seu bel-prazer; mas se isso é

regra, soffre excepção quando os ministros responsaveis possuem as

qualidades d'aquelles que ora me cercam... Fica o snr. official com as

honras de coronel do exercito portuguez, cujo uniforme veste; pertence,

desde hoje, aos fidalgos da minha casa, e póde desde já assignar-se conde

de Setubal... Agora, consinta á sua rainha, que lhe manifeste a vontade de

ser testimunha e protectora do seu casamento... Sei que as formalidades

indispensaveis ha muito esperam por a sua resolução, está a dous passos a

capella do palacio, e eu tenho aqui o meu padre esmoller-mór...

--Senhora! Toda a minha vida será dedicada a vossa magestade e á sua real

familia, como ha-de ser transmittida por mim a meus filhos, a obrigação de

darem todo o seu sangue em defeza do throno e dynastia da minha muito amada

rainha a senhora D. Maria II!

--Obrigada, conde... Ame muito a sua esposa, que as _Marias_ são dignas de

um leal affecto... Levante-se condessa! É nos meus braços que eu costumo

apertar as pessoas que têem a sua alma... Finda a ceremonia do casamento,

quiz a rainha vêr, antes de retirar-se, o padre Alvaro, que foram chamar á

residencia a toda a pressa. Logo que chegou, dirigiu-lhe sua magestade a

palavra n'estes termos:

--Foi me descripto o seu caracter, por quem conhece as suas virtudes. Não

lhe faço mercês porque sei que as regeitaria com evangelica abnegação; mas

peço-lhe que distribua pelos seus pobres o dinheiro que lhe ha-de entregar

o meu esmoller-mór... Peço-lhe ainda algumas orações para esta mulher

corôada, que dentro em pouco tempo ha-de ser pó... Os medicos

desenganaram-me... Queriam _remediar o mal infallivel_ não sei com que

_medicinas preventivas_, que eu recusei formalmente, porque não tremo de

morrer no meu officio de mulher, que é tão nobre, pelo menos, como o de

rainha...

--De que preces póde carecer uma santa como vossa magestade?!...

--Sempre rese, padre Alvaro; bem sabe que o maior justo pecca muitas

vezes...

--Resarei, real senhora! e será meu o proveito das orações, como ha-de ser

de vossa magestade o reino do céu!...

[17] Quando revemos as provas d'este capitulo, annunciam os periodicos

a realisação de um emprestimo nacional, nas mais vantajosas condições

para o thesouro, de reis quarenta e tres mil oito centos e oito

contos--tres mil oito centos e oito a maior do que o governo solicitava

para a consolidação da divida fluctuante! É geral o contentamento,

esperançosa, e proxima, a organisação das nossas finanças, e notavel o

credito que o emprestimo nos faz ter nas principaes bolças da Europa.

Outros factos, igualmente importantes, em bem do paiz, estão succedendo

sob a gerencia de um governo composto das reliquias d'aquelle que

louvamos.

[18] O snr. João de Lemos, publicou, por occasião da morte da snr.^a D.

Maria II, a conhecida poesia--O FUNERAL E A POMBA--da qual

consignaremos aqui estes edificantes versos:

Soldados, que ha vinte annos

Com esforços sobre humanos

Batalhaes por vossa fé,

Soldados, eia, de pé!

Respeitem-se aquellas mágoas,

E do nosso pranto as agoas

Lavem d'odio o coração;

Não ha odios d'este lado,

Nem se deshonra um soldado,

Quando abraça seu irmão.

Ponham-se treguas á guerra,

E ninguém manche esta terra

Ao pé de funérea luz;

Soldados, olhai a cruz!

Demos pranto a quem prantêa,

Demos dôr á dôr alheia,

Nos dois campos lucto egual!

Nenhum, nenhum se envilece,

Unidos na mesma prece,

Junto á loisa sepulchral.

Solemne melancolia,

Seja n'hora da agonia

Nosso tributo cortez;

Que o tomem, que é portuguez!

Portuguez d'aquelles peitos,

Por tantos annos affeitos

Na lealdade a soffrer;

Portuguez que vem das eras,

D'aquellas crenças sinceras

_D'antes quebrar que torcer_.

Que o tomem; e nós, soldados,

Ao vêl-os tão consternados,

Respeitemos-lhe a sua fé;

Amigos, eia, de pé!

Era o seu chefe, e bandeira,

Diziam-n'a companheira

De infortunio e proscripção;

Comprehendemos, pois, seu grito,

Nós, soldados do Proscripto,

Vinte annos gemendo em vão!

A cada um sua crença e dôres,

Cada qual estreme as côres

Do pendão que traz por si;

Todo branco, é o nosso aqui.

Mas, se d'elle voz sagrada

Nos manda, por gloria herdada,

Ou morrer ou triumphar,

Tambem no alto do Calvario

Outro estandarte, um sudario,

Manda os tristes consolar.

Porque é de arraial opposto,

Não córa o tributo o rôsto,

A quem o toma ou quem dá;

Soldados, lucto de cá!

É tributo á monarchia,

Por dois campos n'um só dia,

Cada qual por sua lei;

Um faz honras á Rainha,

Outro á Princesa, sobrinha

D'aquelle que jurou Rei!»

EPILOGO

EPILOGO

São decorridos cinco annos, depois do casamento de Arthur com D. Maria da

Gloria, e estamos no dia do 4.º anniversario natalicio de uma interessante

menina, que é a filha estremecida de tão venturoso par.

O filho de Rosa e de João de Lencastre, dous annos mais velho, dá-se ares

de protector da priminha, que cérca de brinquedos e caricias infantis. D.

Isabel prepara toda jubilosa a festa dos annos da sua netinha. João de

Lencastre está narrando á mulher o que presenceára em casa do irmão, d'onde

recolhia de o haver visitado, triste pelo definhamento em que vira

Leopoldo. D. Maria e Arthur estão de mãos dadas contemplando as crianças, e

trocando phrases embalsemadas de felicidade.

É de bem diverso effeito, a scena que vamos presencear na egreja parochial

da freguezia. O padre Alvaro, envelhecido e quebrantado em extremo, está

ajoelhado sobre a campa, que encerra os restos mortaes da mãe de Arthur, e

lê esta passagem da Biblia:

«Disseram-lhe seus discipulos: Se tal é a condição de um homem a respeito

de sua mulher, não convém casar-se. Ao que elle respondeu: Nem todos são

capazes d'esta resolução, mas sómente aquelles, a quem isto foi dado.

Porque ha uns castrados que já assim nasceram; ha outros castrados a quem

outros homens fizeram taes; e ha outros castrados, que a si mesmos se

castraram por amor do Reino dos Céus. O que é capaz de comprehender isto,

comprehenda-o.»

A leitura d'estas palavras, que são, para a egreja catholica, a desculpa do

padre celibatario, fez cahir o livro das mãos de Alvaro, e obrigou-o a

dizer, em consternadora exclamação:

--Oh meu bom Deus! quando terão fim os meus remorsos?!... Quando poderei

deixar a vida esperançado no vosso perdão, oh Senhor Misericordioso?!...

Lançou em seguida os olhos á Biblia, que no chão ficára aberta, e passados

poucos momentos, empregados em lêr o que a Providencia lhe deparou com a

queda do livro santo, estava o padre Alvaro radiante de alegria, erguendo

as mãos e os olhos ao Céu em acção de graça!... As palavras que causaram a

repentina mudança no attribulado espirito do bondoso padre, foram estas:

«Digo-vos que assim haverá maior jubilo no Céu, sobre um peccador que fizer

penitencia, que sobre noventa e nove justos, que não hão de mister

penitencia.»

Entrou n'aquella occasião na egreja toda a nova familia de Arthur,

incluindo as creancinhas e a velha fidalga D. Isabel, que vinha buscar o

padre para a festa dos annos.

Findo o alegre jantar, desceram todos ao jardim, á excepção de D. Isabel.

Este local, é o mesmo em que se deram os acontecimentos descriptos no

capitulo--Ao luar--da primeira parte d'esta obra, apenas melhorado com mais

algumas plantações de arvores e flores, e commodos assentos.

Estava toda a familia assentada em frente das janellas do palacio; o padre

Alvaro no centro com as crianças sobre os joelhos; D. Maria á direita

d'elle, e junto d'esta João de Lencastre; e D. Rosa á esquerda, e junto

d'ella Arthur. Umas pombas domesticas, saltavam do chão ao collo das

criancinhas a depenicarem-lhes os dôces que tinham nas mãos.

As alegres expansões d'esta feliz familia, foram interrompidas pela

presença de um escudeiro, que a apresentava, n'uma salva, a D. Maria uma

carta tarjada de preto.

Todos se olharam receiosos e contristados, sem que nenhum d'elles se

resolvesse a lançar mão da agoureira carta. Tomou-a o padre Alvaro, e pediu

licença a D. Maria para abril-a, e lêr o seu conteúdo em voz alta, o que

todos estimaram de ouvir, porque assim eram poupados ao desgosto da

primeira impressão. A carta era do punho de D. Anna, e resava assim:

«_Minha boa Maria e presada irmã_:

«Estou viuva!... Nem os carinhos da minha profunda e constante adoração;

nem a linguagem caridosa das tuas cartas, em que chegaste a pedir indulto

para culpas que não eram tuas; nem os esforços, em fim, dos homens da

sciencia medica, poderam roubar á morte o meu desditoso Leopoldo!...

Mataram n'o os remorsos de não ter conhecido e compensado a tempo o meu

immenso affecto!... Vê, por isto, quanto eu soffro, Maria!... Ha cerca de

seis annos que todos os meus cuidados se resumiam na conservação da vida do

unico homem que amei!... Perdi-o!... perdi-o para sempre, minha querida

irmã!... E elle era bom, Maria!... Os arrebatamentos do seu genio

terminavam por um terrivel soffrimento, com o qual sobejamente se castigava

do mal causado aos outros!... Era tão bom, que o mataram uns mal entendidos

remorsos!... E eu vivo ainda, minha irmã!...

«D'aqui a poucas horas, fechar-se-hão sobre mim as portas de um austero

convento,[19] onde possa chorar e orar por meu marido, e onde quero

repousar eternamente, quando Deus fôr servido livrar-me do fardo da vida...

«Teu marido que venha tomar conta d'esta casa, que tudo lhe pertence por

minha disposição, como eu tambem a herdei pela de Leopoldo.

«Abraça a Rosa por mim; lembra-me a todos; sede felizes, e diligenciae

evitar a vossos filhos, que de toda a alma abençôo, o remorso de qualquer

falta, porque o remorso mata!...

«Adeus!

Tua infeliz irmã,

_Anna_.»

Finda a leitura, que o padre fez commovidissimo, assomou a uma das varandas

do palacio o respeitavel vulto de D. Isabel de Abendanho, trazendo atraz de

si meia duzia de pessoas das mais necessitadas da freguezia, todas

uniformemente vestidas de novo, e, rindo com a tranquillidade de uma santa,

disse para a familia:

--Não esperavam, que a _velha_ fosse capaz de preparar-lhes uma surpreza,

no dia da festa da minha neta?... Pois saberão, meus _crianças_, que tive

segundo jantar na companhia d'estes bons filhos adoptivos, que aqui lhes

apresento todos pimpões, com os fatos novos de que a minha netinha lhes fez

presente... Perdão, senhor reitor... O nome de _criança_ foi uma

brincadeira minha, que nunca podia entender-se com o respeitavel senhor

padre Alvaro...

O pae de Arthur, havia-se repentinamente tornado cadaverico! Apertara nas

suas as mãos dos pequeninos que tinha no collo, inclinara a cabeça sobre o

encôsto do assento, erguera os olhos ao céu, e balbuciara estas palavras:

--_O remorso mata_... mas Deus perdôa aos que morrem penitentes...

Arthur... meus filhos... até logo!......

N'aquelle momento sombrio, uma das pombas saltou á cabeça do moribundo, o

que lhe fez entreabrir o seu ultimo sorriso.

Um despedaçador grito de Arthur, fizera prostrar todos de joelhos.

Chegava alli, da proxima campina, a melancolica toada d'este cantar:

«Vou chorar e cortar fêno,

quem trabalha tambem sente:

as paixões trazem veneno

encoberto na semente.

O nosso reitor, um santo,

reza sempre, e tambem chora!

N'um sepulchro verte o pranto

sempre, sempre á mesma hora!...

Ninguem foge ao sentimento,

ninguem foge ao seu destino...

Quem d'amor soffre o tormento,

no Céu tem Amor Divino.»

[19] É motivo de odios para os liberalões de má casta, o sustentar

hoje a conveniencia da vida claustral!

Por verdadeiro affecto á liberdade, por sabermos seguir e presar o

progresso do bem, é que entendemos absurda e tyrannica a extincção

dos conventos. O claustro, em casos analogos ao d'aquella heroina do

nosso «conto», era um refugio celeste: como suppril-o? Que liberdade

é essa que tolhe as mais innocentes acções da criatura? Existiam

abusos? E onde deixariam elles de existir, sem a vigilancia e o

castigo dos poderes constituidos? Porque no parlamento se discutem

questões impertinentes, porque no sanctuario das leis havemos

presenceado scenas vergonhosas, já alguem se lembrou de extinguir a

camara popular?

Consola-nos vêr sustentar a nossa opinião abalisados e insuspeitos

escriptores liberaes de toda a Europa.

Dizemos desassombradamente o que sentimos: não sabemos comprehender

o _celibato forçado_ e somos desaffectos á _extincção das ordens

religiosas_ e a todas as medidas violentas oppostas á bem entendida

Liberdade.

FIM DA TERCEIRA PARTE E ULTIMA

Ao snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, devo a delicada offerta da gravura

em chapa, que serviu para a tiragem do meu retrato.

Orgulha-me a fineza de um artista, que no _Reglamento de exposiciones

nacionales de bellas artes_, publicado em Madrid no anno de 1871, foi assim

classificado: «Molarinho (D. José Arnaldo Nogueira), natural de Guimarães,

discipulo del snr. T. M. de Almeida Furtado, caballero de la Orden de

Cristo, medallas de plata en las Exposiciones Nacionales de 1857, 1862 y

1863.» Que no mesmo anno de 1871, na exposição de concurso das bellas artes

em Madrid, obteve o segundo premio; que tem recebido do estrangeiro

inequivocas demonstrações do grande apreço em que por lá é tido o seu

talento, e que mais util ainda teria sido á patria, se os poderes publicos

d'este nosso Portugal não tivessem o infeliz séstro de ignorarem a morada

do verdadeiro merito.

Para o nosso primeiro gravador de medalhas, ainda não houve um _cantinho_

na casa da moeda! Se elle não é influente eleitoral!...

De sorte que o artista distincto, e pobre, n'este paiz, tem que empregar o

seu genio em obrinhas que lhe dêem o pão de todos os dias!

Queriam que o snr. Molarinho concorresse á exposição de Vienna

d'Austria?[20]

Os seis mezes que s. s.^a havia de gastar n'uma obra que lhe daria nome

europeu, e gloria a Portugal, foram passados a gravar _colleiras para

adorno dos sabujos de pessoas indinheiradas, que para tal fim procuram o

notavel artista_, como algures escreveu um nosso espirituoso narrador.

Perdão... Não façamos injustiças. Nem todos os ministerios se esqueceram do

snr. Molarinho: houve um que o emparelhou com qualquer regedor de

parochia... O snr. Molarinho é cavalleiro do habito de Christo: não morre

de fome.

Porto, 27 de agosto de 1873.

_Miguel J. T. Mascarenhas_.

[20] O snr. Molarinho, foi oficialmente convidado de Vienna

d'Austria para entrar no concurso das medalhas para os premios da

exposição: não lhe foi possivel acceder. Os trabalhos seus, que lá

mandou, foram premiados.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 14 / 14 段