--Agora, minha boa mãe, deixe-me dizer-lhe mais, que outro sentimento,

não menos forte do que o meu amor por Arthur, me obriga, e me domina: é

a gratidão pelo generoso procedimento da nossa Anna. Escrever uma carta

a chamar o homem que eu amo, por vér, talvez, na sua vinda aqui a minha

salvação, arriscando-se a ser suspeitada pelo marido, e a soffrer-lhe as

terriveis consequencias do seu ciume,--é a mais irrefragavel prova de

uma verdadeira dedicação... Estou inquieta com a perda da carta; bate-me

o coração com uma violencia desusada, e presinto grande desgraça...

Vamos já ao quarto da Anna...

--Pois ajuda-me a terminar o meu vestuario... Vamos lá, filha, e socega,

que Deus tudo fará por melhor.

Quando a mãe e a filha entraram no quarto mortuario, estava lá o cadaver

só com os romeiros ajoelhados, porque o padre Alvaro fôra procurar o

medico da localidade, ainda na vaga esperança de salvar a desditosa

esposa.

As duas senhoras, consideraram-se por muito tempo victimas de um

pesadêlo horrivel, ao depararem com aquelle funebre espectaculo. D.

Maria da Gloria, sem bem saber o que fazia, acercou-se do leito, fitou-o

com vistas desvairadas, apalpou-o automaticamente, fechou n'uma das mãos

um papel manchado de sangue, curvou-se depois sobre o cadaver,

pousou-lhe os labios na fronte, nos olhos, na bôcca, tudo feito como em

delirio, levantou lentamente a cabeça, olhou para as mãos, abriu aquella

que encontrara e fechara o papel, acompanhou a quéda natural d'elle com

a incerta curiosidade de um innocente que deixa cahir o brinquedo,

apanhou-o outra vez, examinou-o e, ao conhecer-lhe manchas de sangue, um

tremor violento se apoderou d'ella...

D. Isabel, conservara-se immovel, como se fôra uma estatua, olhando,

simultaneamente, e como louca, para o cadaver, para os romeiros e para a

filha.

Os romeiros levantaram-se, e foram collocar-se, um ao lado de D. Maria

da Gloria, e outro de D. Isabel; como para lhes servirem de amparo.

O que ficara juncto de D. Maria, tentou brandamente arrancar-lhe da mão

o papel, ao que ella resistiu, com a reacção dos dementes contrariados,

procurando em seguida lêr o seu conteúdo. Quando, após uma demorada

leitura e indeciso exame, a fidalga donzella levantou a fronte, e fechou

os punhos, o seu aspecto aterrava. Aquella feminil belleza, transformada

pela dôr, afugentaria de si, n'aquelle momento, o seu mais apaixonado

amante!

Demorou-se ainda alguns minutos silenciosa, e terrivel de vêr-se; até

que, tomando uma deliberação repentina, curvou outra vez a cabeça, e

disse ao ouvido do cadaver, n'um tom de voz indiscriptivel:

--«Assassinaram-te por minha causa, irmã!... O teu assassino, o monstro

que nos roubou e te seduziu, ama-me... entendes?!!... Oh!... como tu

vaes ser vingada!... Ha-de o infame soffrer mil mortes em cada segundo,

até ao seu ultimo sôpro de vida... Juro-t'o pela honra do meu nome!...»

Em seguida tirou o punhal do peito do cadaver, metteu-o no seio sem o

limpar, guardou a carta fatal, e, agarrando nas mãos de sua mãe, sairam

ambas repentinamente.

Tiveram apenas tempo de transpôr os umbraes da porta d'aquelle recinto,

quando um grito unisono, dos dous romeiros, as teria feito retroceder,

se o estado em que fugiam lhes podésse deixar ouvil-o.

Aquelle grito fôra occasionado por ter parecido aos romeiros, que o

cadaver abrira os olhos:--Ao tentarem verificar a sua illusão, estavam

já acompanhados do padre Alvaro e do medico.

II

MYSTERIO

«Os conegos da sé de Evora, conduziram, sem pompa, á igreja de S.

Domingos, entoando as orações dos finados, o cadaver truncado do

duque de Bragança.»

(CHRONICA DO SECULO XV.)

Algumas horas depois que o padre Alvaro, os romeiros e o medico, tinham

ficado no quarto mortuario, junto do cadaver, era publica a morte da

infeliz D. Anna, que fôra attribuida a um ataque cerebral. Os creados e

os visinhos do palacio, lamentavam sinceramente o funebre succedimento,

e a fatal consequencia d'elle, que fôra a immediata loucura do

_extremoso_ marido.

Para que esta mentira fosse a versão publica da repentina morte de uma

das nossas heroinas, fôra preciso que o padre Alvaro empregasse com D.

Maria da Gloria e sua mãe, a sua auctorisada e respeitavel palavra, para

as convencer da necessidade de, por aquelle modo, estorvarem a acção da

justiça, e a deshonra que o facto, commentado pelos ociosos, traria a

todos; e tambem o grave desgosto, que elle causaria ao velho fidalgo

Sebastião da Mesquita.

Accordado em que assim se publicasse ficou o bom do padre incumbido de

tudo remediar, e assim o fez.

O que se passou entre o medico, os romeiros e o padre, antes que este

viesse pactuar a util e generosa mentira, é, por emquanto, vedado aos

leitores.

Houve desde logo todo o cuidado de não deixar penetrar pessoa alguma no

quarto da finada, e de fazer desapparecer todos os vestigios do crime.

Aos que notaram ser o cadaver conduzido immediatamente, em caixão

fechado, á capella do palacio, sem preceder a demora, e a exposição

costumada, foi-lhes revelado, que a defuncta deixára disposta

antecipadamente a condição de não ser visto do publico o seu cadaver, e

de se evitarem, no enterro, todas as pompas.

Até ao momento do caixão descer ao jazigo de familia, foi constantemente

guardado por um dos romeiros.

Concluida a funebre ceremonia, voltou o padre Alvaro para junto das

consternadas senhoras. O tranquillo aspecto do ministro de Deus, as suas

palavras persuasivas, e a força de seus concludentes raciocinios, deram

ás fidalgas mulheres a coragem necessaria, para continuarem com firmeza

a encobrir o crime.

D. Maria da Gloria, deixou transparecer a ideia da sua medonha vingança,

que o padre rebateu com evangelicas razões: foi um combate de palavras,

entre dous adversarios valentes e convictos, que só teve em resultado

firmar-se mais cada um d'elles no seu proposito. A donzella tinha n'alma

a gratidão, e o padre a caridosa doutrina de Christo: D. Maria queria

vingar de um monstruoso crime, a companheira e amiga, que por sua causa

fôra victima; o bom Alvaro queria o perdão do criminoso, e pedia-o, a

exemplo do que o Christo implorára para os seus matadores.

No mais caloroso do debate, entrou Leopoldo vagarosamente no local

d'elle. D. Isabel teve medo d'aquelle homem, e conchegou-se á filha; o

padre Alvaro ficou impassivel, e D. Maria da Gloria teve força para

concentrar a sua cólera.

Leopoldo, com todos os modos de completo idiotismo, disse a D. Maria:

--Vá reconhecer o inimigo, snr. ajudante... Tenho um plano que nos dará

infallivelmente a victoria... É um segredo que só direi a meu filho, por

que vae commandar a emboscada... É verdade... peça a meu filho que me

não bata... pede?... Eu sou tão amigo d'elle... Coitadinho!... está

doido!... diz que lhe matei a mãe, e fustiga-me sem piedade!... Peça-lhe

muito, sim?... Vá... vá, que eu espero a resposta no quartel general...

E sahiu com o mesmo vagar com que entrára, deixando as mulheres

estupefactas, porque ainda ignoravam o facto da loucura de Leopoldo.

--Este homem está effectivamente louco?!...

--Está, sim, snr.^a D. Maria da Gloria...

--Eu julguei, que o snr. padre Alvaro teria combinado com elle o

fingir-se demente por algumas horas, para melhor encobrir o seu crime...

--Não, minha senhora, era essa uma calúmnia desnecessaria, e pouco

digna. O infeliz perdeu a razão, logo em seguida ao crime. Antes da sua

vingança, senhora D. Maria, appareceu o castigo da Providencia...

--É preciso curar-lhe a loucura, e hade curar-se... Empregarei, para

conseguil-o, todos os carinhos que dispensaria ao homem idolatrado...

Quero vingar a minha querida Anna...

--Desconheço-a, snr.^a D. Maria da Gloria!... Pois, que vingança quer V.

Exc.^a tirar, no estado d'aquelle infeliz?!...

--O snr. padre Alvaro não sabe o que é o coração da mulher _de raça_

quando ama ou quando odeia... O castigo que eu reservo áquelle malvado,

se poder conseguir fazel-o recuperar a razão, a mim propria causaria

terror, não me dominando a ideia de vingança...

--E não receia, com o seu procedimento, descobrir o crime a seu exc.^mo

pae?...

--Socegue, que a dissimulação é a mais forte defeza das mulheres.

--Mas, minha filha, o snr. padre Alvaro diz bem... Tu não deves querer o

que Deus não quer...

--Perdão, minha santa mãe.....Se não deseja vêr sua filha morta pela

dôr, e pela saudade, deixe-a dar largas á sua gratidão...

Tres dias depois de ter logar o enterro, chegava áquelle formoso e

triste domicilio, o velho fidalgo Sebastião da Mesquita, já sabedor pela

voz publica, que se antecipára á parte dada pela familia, da morte de D.

Anna e da loucura de Leopoldo.

III

BRIOS DE RAÇA

«Se de imitar meu nome te gloreias,

As façanhas me imita,

Ou na Patria Nação, ou nas alheias,

O meu valor te incita:

Ségue os meus passos, segue a meu exemplo,

Se morar quéres, n'este honrado templo.»

(Filinto Elysio.)

Decorreu um mez, após a chegada do velho fidalgo ao palacio de Leopoldo.

Sebastião da Mesquita, já bastante alquebrado, e mal convalescido,

cahira de novo na cama, muito magoado com a morte de D. Anna, e com a

loucura do marido. Tornou-se grave o seu padecimento, que dava sérios

cuidados ao seu assistente. Mais do que á sciencia, aos desvelos de sua

esposa D. Isabel d'Abendanho, que passava dias e noites á cabeceira do

enfermo, deveu o velho fidalgo as leves melhoras que sentia.

D. Maria da Gloria, toda entregue ao seu pensamento dominante, procurava

fazer recuperar o juiso a Leopoldo. Consultara todos os medicos que

visitaram seu pae, e ouvira d'elles opiniões de que os muitos cuidados e

carinhos empregados com o louco e, mais tarde, algumas impressões

violentas, poderiam, talvez, trazer-lhe a razão.

Quem presenciasse o cuidado permanente, que a fidalga donzella empregava

com Leopoldo, diria que, a não ser uma sua extremosa amante, era uma

filha dedicada ao triste dementado. E conseguira já muito: Leopoldo

tinha alguns lucidos intervallos, em que parecia conhecer a sua gentil

enfermeira, e em que vertia copiosas lagrimas. Succedia mesmo, nos

curtos instantes em que a donzella se afastava, ser chamada pelo nome de

filha, em altos gritos, e até procurada pelo infeliz, com a pertinacia

da loucura.

Sebastião da Mesquita teve uma longa e religiosa conferencia com o padre

Alvaro, despida de apparatos que, aos timidos, encurtam as horas de

vida; conversação que augmentara as melhoras do velho fidalgo, e o

predispozéra para este dialogo:

--Agora, meu bom amigo, que as suas evangelicas palavras conseguiram

fazer-me esperar mercê da Providencia para os meus êrros, consinta-me

que lhe falle do nosso Arthur...

--V. exc.^a assusta-me com esse modo solemne!.. Sabe alguma coisa má do

seu afilhado?...

--Sou eu que peço agora resignação e coragem, áquelle que ha pouco me

fallava com desprendimento das cousas terrenas... Bem sabe que tenho

soffrido muito: posso, pelas minhas, avaliar as dôres alheias; mas

tambem sei que o padre Alvaro é um martyr a quem Deus concedeu forças

superiores ao commum dos homens...

--Acabe, senhor, se não quer vêr-me morrer de impaciencia!... Que

desgraça pésa sobre meu filho?!...

--Póde ser mentira... Os periodicos muitas vezes desmentem no dia

seguinte, o que asseveraram na vespora... Comtudo, eu li, em Guimarães,

uma gazeta, que noticiava ter sido... gravemente ferido o meu afilhado

n'um recontro com as tropas da rainha...

Um grito de suprema angústia, foi a unica resposta que ouviu o fidalgo,

vendo em seguida fugir-lhe o padre, com a rapidez e o vigor da mocidade!

Deus por certo se amerciou com a mágua de aquelle pae, porque logo

deparou com D. Maria da Gloria, que o susteve, e lhe disse que Arthur

Soares estava livre de perigo, mostrando-lhe as cartas que tinha em seu

poder, e pondo-o ao facto de quanto succedera.

--Obrigado, minha querida filha! O céu lhe compensará o bem que fez a

este peccador... Não se póde vencer a natureza, e eu sou pae... De certo

eram ficticias as forças que me deu o desespero, e eu não chegaria ao

Porto com vida... não veria ainda uma vez o filho do... Perdôe-me v.

exc.^a esta revelação do meu criminoso passado...

--Já sabia o que me diz... adivinhou-o o meu coração...

--É magnanimo o seu coração, minha senhora, e receio que d'essa extrema

bondade lhe resultem sérios dissabôres... Arthur não é nobre, snr.^a D.

Maria, nem sequer é um filho legal!... V. exc.^a fez mal em dar entrada

ao sentimento que nutre por elle...

--Seu filho possue a mais verdadeira e sólida das nobrezas--a da alma--e

eu amo-o!...

--E seu pae, minha senhora?!... Não sabe V. Exc.^a quanto elle é

orgulhoso da sua raça?!...

--Diligenciarei convencel-o e, se não o conseguir...

--Por Deus, senhora D. Maria, não pense em desobedecer a seu illustre

pae!... Desgraçados d'aquelles que na sua mocidade se deixam arrastar

pelas paixões! Eu sei o que tenho soffrido, senhora!... Não queira

augmentar os remorsos d'este pobre velho, com o mal causado por meu

filho!... De joelhos lhe peço que me jure, que nunca procederá de

encontro á vontade paterna...

--Quer, então, a minha morte?...

--Quero a sua salvação, senhora D. Maria da Gloria! Quero o cumprimento

de um dever sagrado, que póde até tornar respeitavel o seu amor por meu

filho. Se V. Exc.^a soffresse a maldição paterna, não haveria posição

que lhe désse tranquillidade: infelicitava-se, e fazia seu cumplice

aquelle que ama... Já não quero que attenda a este velho, que a implora,

e que dentro em pouco será pasto dos vermes...

--Basta, snr. padre Alvaro!... Juro-lhe que serei sempre filha obediente

e respeitosa, ainda que isso me custe a vida!...

--Obrigado, querido anjo!... Hade viver e ser muito feliz, porque Deus é

justo... Deixe-me pedir-lhe perdão de ter estranhado a sua dureza, para

com o desgraçado marido de D. Anna... Eu ignorava a causa do seu

criminoso proceder e os motivos de gratidão que levavam V. Exc.^a á

vingança... Ainda assim, peço-lhe que o deixe entregue ao castigo

providencial que o pune...

--A esse respeito, é inabalavel o meu proposito, e serei tanto mais

cruel, quanto mais contrariado fôr o meu affecto por Arthur... Vae de

certo ao Porto, snr. padre Alvaro, e eu atrevo-me a pedir-lhe noticias

do doente... Concede-me este pedido?

--Cumprirei essa obrigação, minha senhora.

Poucas horas depois de ter logar o encontro que acabamos de escrever,

foi D. Maria da Gloria chamada por seu pae, que lhe dirigiu a palavra

n'estes termos:

--É tempo, querida Maria, de te explicar alguns dos meus actos, e de te

dar a minha opinião sobre o teu futuro. Deus sabe se me tornarei a

levantar d'este leito, e desejo que o meu passamento seja o mais

tranquillo possivel...

--O meu bom pae, e senhor, está livre de perigo, e ha de viver ainda

muitos annos, para a nossa felicidade:

--É para que sejas feliz, que eu vou remecher no meu passado, e

despertar factos que me remordem na consciencia. Quero que a minha vida

sirva de exemplo á tua, seguindo-a no bem, e fugindo ao mal que os seus

erros me trouxeram... Escuta-me: tive na minha mocidade sérias ligações,

que acabaram com a morte de filhinhos que estremeci; e, já depois de

casado, vi uma encantadora menina, cheia de virtudes, vivendo na

companhia de seus paes de quem era o unico enlevo. As demandas da nossa

casa, fizeram-me travar relações com o pae, o melhor jurisconsulto que

então existia em Penafiel. Abusei da confiança que me deram, para me

insinuar no animo da gentil e innocente criança, que em breve sentiu por

mim um d'esses affectos, que são a felicidade ou a completa desgraça dos

que os nutrem, segundo o bem ou o mal empregado d'elles. Amei-a...

amei-a levianamente!... Quando os meus brios me fizeram conhecer a

infamia do meu procedimento, quiz fugir-lhe, mas já não era tempo!... Um

dia, a vigilancia paterna, arrebatou a infeliz Laura ao meu amor, e fez

encerral-a num recolhimento... Mais tarde, entrava eu furtivamente, e a

deshoras, na casa sagrada, para receber nos meus braços duas gêmeas

recem-nascidas... E sabes quem eram aquellas criancinhas, que a minha

criminosa leviandade fez vir a este mundo?... Eram as tuas discipulas

Rosa e Anna...

--Minhas irmãs!!...

--Sim, tuas irmãs... uma das quaes está morta, e a outra... perdida!...

--Que diz, meu pae, perdida?!! A Rosa está perdida?!... Perdida,

como?!...

--Ha muito que eu andava suspeitando da profunda melancolia de Rosa, e

dos seus modos inteiramente oppostos á indole viril e folgasã que sempre

lhe conheci. Antes da minha partida para Guimarães, procurei-a em casa

dos suppostos paes, quando estes choravam a sua inopinada e inexplicavel

ausencia... Esquecia-me dizer-te, que aquellas infelizes crianças

encontraram carinhosas mães, em duas das minhas caseiras, cujos maridos

tiveram a bondade de consentir na alimentação de seus verdadeiros filhos

a peitos estranhos, para que as minhas filhas podessem ser amamentadas

por suas esposas, e tidas como filhas d'elles por toda a povoação... Foi

assim que sempre as pude ter perto de mim, ignorando, ellas e o mundo,

que eram gêmeas, e que eu era seu pae...

--E é á simples _ausencia_ de Rosa, que o meu bom pae e senhor chama

_perdição_?!...

--Encontrei-a em Guimarães, entregue a um homem desconhecido, talvez o

seu amante, fazendo gala da sua liberdade... Soffri muito!... Os brios

da minha raça, fizeram com que mais uma vez esmagasse o coração; mas

tive forças para a desprezar publicamente... Já vês, que está perdida, e

bem perdida!...

E uma torrente de lagrimas, serviram de epilogo á narração do velho

fidalgo.

D. Maria da Gloria, estava cadaverica, mas não vertia uma só lagrima.

Tinham sido tão violentos, e seguidos, os choques que soffrêra, havia

n'aquella fidalga indole tamanha reacção contra a má sorte, que a

donzella, imitando os que a adversidade torna heroes, reprimia todas as

dôres, e concentrava todas as suas forças para a lucta.

--Minha irmã não podia entregar-se voluntariamente a qualquer homem,

pisando aos pés a sua dignidade... V. Exc.^a, meu respeitavel pae,

deixou-se illudir por falsas apparencias, e o tempo hade esclarecer o

mysterio, provando-lhe que uma filha de Sebastião da Mesquita, não

sobrevivería uma hora á sua deshonra...

--Como tu és boa, minha querida Maria!...

--Sou apenas justa, meu bom pae. Espero, com plena confiança, vêr um dia

resurgir minha irmã Rosa, tão digna como eu da sua benção, e do seu

affecto... Agora, se V. Exc.^a o consente, dir-lhe-hei, que lamento o

não se poder legitimar o nascimento de minhas irmãs, pelo enlace de V.

Exc.^a com a senhora que foi mãe d'ellas...

--Estamos chegados ao ponto principal d'esta solemne conferencia, minha

querida filha... Peço-te que continues a escutar-me com a maior

attenção, porque é de todo o melindre o que vou dizer-te... Para nós, os

homens que na bruma de tempos immemoriaes temos escondida a nossa

gloriosa origem, a nobreza não é o echo de pomposos nomes, nem o

apparato de vaidosos titulos, nem a fama de notaveis feitos: é uma

questão de _raça_. O rei póde fazer nobres; mas os fidalgos só os faz a

_casta_... Não ha memoria de existir na minha familia uma alliança

inconveniente... Gira em nossas veias um sangue tão puro, como possuira

o primeiro fidalgo d'esta raça: é uma herança, que só póde deixar de

transmittir-se pela morte da ultima vergontea da nossa arvore gigante...

--Meu Deus! que pesada herança!...

--Dizes bem, Maria, muito pesada... Senti-lhe todo o rigor, quando tive

de sacrificar-lhe o coração... Poupa-me a narrativa de alguns detalhes,

que me fariam córar de pejo... Basta saberes, que não obstante a

existencia de ligações graves, que tive de quebrar, conduzi aos altares

minha prima e tua santa mãe... Cumpri o legado da minha casta á custa de

permanentes remorsos, aggravados depois com a existencia de tuas

irmãs!... Vou hoje exigir de ti, minha presada filha, e unica

representante do meu nome, não um sacrificio igual ao meu, porque de

certo tens livre o coração, mas sim a tua palavra de receberes por

esposo o distincto fidalgo que te escolhi...

--É impossivel, meu pae e senhor!... Eu tenho já o coração cheio de

affecto por um homem dignissimo, e a nenhum outro posso entregar-me...

--Custa-me isso, filha, porque dei a minha palavra, embora reservasse o

ter de ouvir-te primeiramente... Comtudo, o cavalheiro por mim

escolhido, hade acceitar-me as rasoaveis desculpas, e tudo poderá

combinar-se, sendo o teu preferido, como é de crer, um fidalgo de

verdadeira raça...

Felizmente para a enleiada donzella, ao soarem as ultimas palavras do

velho fidalgo, entrou sua mãe no quarto, acompanhada por João de

Lencastre, e foi a bondosa _fidalga das chaves_ que respondeu ao marido:

--Não sei a que raça pertence o homem que nossa filha ama, meu presado

primo e senhor, mas conheço-lhe as acções, e posso affiançar-lhe sob a

minha palavra de _verdadeira fidalga_, que ninguem as tem mais

illustres... Peço ao meu esposo, que desculpe a esta curiosa velha o ter

escutado a sua conversação com a nossa filha... Sabia da sua bocca o que

se havia de entre ambos passar, é certo; mas tinha maternaes razões,

para não deixar só no campo esta sensivel criança...

--Então, pelo que escuto, era uma conspiração!... Entrou tambem n'ella o

senhor meu primo João de Lencastre?... Ora deixem estar, que lhes hei-de

fazer pagar caro o segredinho... Vamos lá a saber o nome do feiticeiro,

que assim me roubou a melhor parte do coração de minha filha, e que teve

artes para chamar a minha sancta prima ao seu partido... Venha, venha

esse nome magico...

--Chama-se, simplesmente, Arthur Soares...

--O meu afilhado?!!... Deus não quiz que V. Exc.^a, snr.^a D. Maria da

Gloria, calcasse aos pés as venerandas cinzas de seus avós, e matasse

seu pae já proximo do tumulo... O snr. Arthur Soares, não póde ser...

_seu marido_, porque... morreu!...

--Engana-se, meu pae, e senhor!... Arthur vive, e sempre viverá na minha

alma!... Foi gravemente ferido, mas está livre de perigo... Ha-de viver

longos annos... Ha de ser muito feliz, porque o merece, porque tem uma

alma, que vale por todas as nobrezas da terra... Ha-de chorar todas as

infelicidades que talvez esperem a minha raça, conservando-se

constantemente á altura dos seus nobilissimos sentimentos...

Affirmo-lhe, senhor, que nunca partiu d'elle a minima palavra ou o mais

insignificante gesto, que v. exc.^a não podesse presencear... Amei-o, e

hei-de amal-o eternamente... Mas sou fidalga!... Sou a herdeira de um

nome que deve passar _immaculado_ á posteridade, continuando em mim uma

infinda série de aristocraticas allianças!... Seja!!... V. exc.^a que

diz de um Lencastre para meu esposo?...

--São de boa casta os Lencastres, minha filha; mas...

--Muito bem, meu pae e senhor!... Com quanto eu receba a cruz da minha

herança, a escolha agora é minha... Findo o lucto pela morte de minha

irmã Anna, serei esposa do snr. Leopoldo de Lencastre!...

Ficaram de tal sorte aturdidos os restantes personagens, com este

inesperado desenlace, que nem uma palavra se ouviu mais, retirando-se a

donzella cheia de magestade.

IV

VISÃO

«Um presentimento de terror, d'aquelles que batem no coração de

repente, sem saber por quê nem d'onde vêem...

«Tem sempre fé em Deus, que hade querer o que fôr melhor para nós.

«E é trovoada isto, que se escurece tudo?... Não, são as sombras da

Eternidade que vêem sobre mim.»

(VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT--FRAGMENTO DE UM ROMANCE INEDITO.)

Conseguido o quietismo dos animos pela retirada de D. Maria da Gloria,

veiu a cada um a consciencia do que lhe ouvira affirmar, com uma

invencivel força de pasmosa vontade.

Sebastião da Mesquita, embora tivesse triumphado no seu principal

proposito, não ficára tranquillo, porque lhe era antipathico o genro;

mas o seu orgulho de raça podia mais n'elle do que todos os bons

sentimentos que possuia: conheceu que sua filha era mulher de não

retrogradar, e resolveu conformar-se, guardando silencio.

D. Isabel de Abendanho, comprehendendo mal o que se passára, esperava os

acontecimentos com a confiança das almas puras.

João de Lencastre, ficára engolfado nos seus pensamentos, e só usou da

palavra, passado bastante tempo, para responder a algumas perguntas que

lhe fez Sebastião da Mesquita, e despedir-se dos velhos fidalgos,

dizendo-lhes que ia seguir a sorte da guerra.

D. Maria da Gloria, mais do que nunca, ficára toda entregue ao

tractamento do demente.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 11 / 14 段