com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o
vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!
A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em
todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que
a mulher não toma parte.
A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na
philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas
vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.
Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo
imperial.
Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades
nefandas, de que nos falla o Génesis?!
Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a
incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao
nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu
amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas
commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na
profundeza da desventura; deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a
consolação humana!
A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da
infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que
passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da
infamia!...
Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...
Depois, a enxerga da caridade!...
Depois, a valla commum do cemiterio!...
Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no
seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...
E o _elegante seductor_?...
Passou a fazer novas _conquistas_; gastou o melhor do seu vigor e da sua
fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira
victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheu _convenientemente a
esposa_, fez-lhe a _mercê_ do seu nome e, para vingar-se de uma
_affronta_, que _não podia_ ter o seu perdão, assassinou a mulher
adultera!...............................................................
Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de
que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra.
Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que
os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa,
causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu
mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio
as que não tinham mácula.
Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimento do passo
precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do
precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não
saber como fugir-lhe.
Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a
deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto.
A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio
da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.
O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente
pelos pulsos:
--Não esperava esta desfórra do seu _militar_, amavel _vivandeira_?!...
--Deixe-me... largue-me... acudam!...
--Não espante as pulgas, menina... _Esta boa terra dorme toda ás nove
horas_, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da
minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...
--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de
vida...
--É o que vamos a vêr...
E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher,
que não podéra seduzir.
Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira
por muito tempo.
Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se
repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua,
abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da
furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma
fortissima pancada, com o castão de um chicote de força, estendendo-o
logo sem accordo de si.
--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A
mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e
fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a
proposito?!...
--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e
preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á
varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a
protecção de... seu irmão, senhora...
--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em
sua casa combinaremos o que deva fazer-se...
IX
O PERIGO DAS CARTAS
«......e bem se manifesta,
Que são grandes as cousas, e excellentes,
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
(_Camões_--LUSÍADAS.)
D. Anna e D. Maria da Gloria, passavam as horas em longos desafógos e
amigaveis confidencias, suavisando assim as saudades e as mágoas que
soffriam. Nas suas respectivas posições, não era aquella a epocha mais
infeliz da vida das duas amigas. Quando podêmos depositar em peito amigo
o que nos impressiona, quasi desapparece o pesar que sentimos, pelo
allivio que nos dá a certeza da partilha na dôr.
Estava, porém, marcado pelo destino, que poucos deviam ser os momentos
de quietação, para as heroinas do nosso «Conto».
A carta que Sebastião da Mesquita escrevera á filha, viera terminar o
gôso das confidencias, e tornal-o em prantos amargos. Para D. Maria da
Gloria, o ser forçada a casar-se com outro homem, que não fosse Arthur
Soares, era peior do que a morte. Sabia-o D. Anna, que tomou uma
deliberação arrojada, para salvar a sua amiga, sem lh'a communicar.
Mandou um expresso a Arthur Soares, com uma carta d'este theor:
«_Meu presado irmão adoptivo_:
«Confiada no seu cavalheirismo, de que já possuo bastantes provas, ouso
pedir-lhe que venha a esta sua casa, logo após a recepção d'esta minha
carta. Leopoldo está ausente, como sabe, e _nós_ esperamos o snr. Arthur
_com a maior anciedade_.
_Anna_.»
Isto feito, tratou de convencer a sua mestra, e amiga, de que devia
accusar ao pae a recepção da carta, e dizer-lhe que estava doente, e que
cumpriria as suas ordens, logo que o seu estado de saude lhe permittisse
fazel-o; porque assim ganhava tempo, que podia muito bem mudar a face
dos acontecimentos. D. Maria da Gloria, inhabil para o raciocinio,
sujeitou-se a tudo quanto lhe ensinuou a sua amiga.
Por este tempo, marchava sobre as linhas do Porto, o general em chefe
das tropas da rainha, com o grosso do seu exercito.
As tropas da junta provisoria do governo supremo do reino, haviam
soffrido desastres, sendo, o mais notavel, a _incomprehensivel desgraça_
de Torres Vedras;[13] mas as activas e energicas providencias dos homens
do governo, juntas á dedicação popular pela sua causa, tudo remediavam
como por encanto. Em vez de diminuir, augmentava o numero de soldados,
por cada batalha que se perdia!
E apesar dos desastres, do grande dispendio com as reorganisações do
exercito, e de só pagarem tributos moderados os povos sujeitos ao poder
da junta, poude esta exemplar quanto energica governação decretar, entre
outras medidas de bom senso e muito alcance, e de algumas pensões
avultadas, _que as mulheres dos officiaes prisioneiros na batalha de
Torres Vedras recebessem uma prestação mensal de 12$000 reis, e as das
praças de pret 60 reis diarios, em quanto seus maridos estivessem em
poder do inimigo_.[14]
O quartel general do real exercito estava em Oliveira de Azemeis: foi
escolhido um official para commandar uma força, que fosse em
conhecimento junto das linhas do Porto, e recahiu essa escolha em
Leopoldo. Ao saber-se da aproximação de forças inimigas, tocou a rebate
dentro dos muros da cidade invicta, e as linhas foram immediatamente
guarnecidas em fórma.
Arthur Soares, commandava uma companhia de voluntarios da guarnição, que
occupava, casualmente, o lado da estrada de Lisboa. Conhecida a pequenez
da força inimiga, os insoffridos populares saltaram as linhas, e foram
atacal-a. Arthur quiz, mas não o conseguiu, conter os do seu commando.
Havia recebido ha poucos instantes a carta de D. Anna, e não podia, nem
queria, arriscar temerariamente a vida n'aquella occasião. Anciava que
terminasse aquelle passageiro incidente da guerra, para correr ao
chamamento da sua companheira de infancia. Batia-lhe apressado o
coração, porque um presentimento lhe segredava, que D. Maria da Gloria
não era estranha no conteúdo da carta; mas como não podéra refrear o
impeto dos voluntarios, forçoso lhe foi acompanhal-os.
Empenhado o tiroteio entre as pequenas forças inimigas, cahiu ferido
Arthur Soares, que ficára por morto no campo. Um soldado, d'aquelles a
que os proprios camaradas dão o epitheto infamante de _pulhas_, despojou
logo o official inimigo de todos os objectos de algum valor, que elle
tinha em si: entre os demais despojos, ficou tambem possuidor da carta
de D. Anna, que teve a curiosidade de lêr; e como visse lá o nome de
Leopoldo, e soubesse que assim se chamava o seu commandante, com a mira
em qualquer recompensa, quando por ventura com elle se entendesse
aquella carta, foi immediatamente entregal-a a Leopoldo, dizendo-lhe que
a encontrára perdida no logar da refrega...
Aquella bala de papel, fôra mais fatal ao marido de D. Anna, do que a de
chumbo ao amante de D. Maria da Gloria...
Leopoldo retirou precipitadamente com a força do seu commando; e o corpo
de Arthur Soares foi recolhido pelos seus camaradas, que lamentavam com
desespêro a sorte do bondoso e bravo official.
[13] Em proclamação do primeiro general da junta do Porto, datada de
Coimbra de 29 de Dezembro de 1846, lê-se: «Soldados!--Nem a desgraça
da nossa valente segunda columna vencedora em Torres Vedras, e
depois anniquilada por uma _incomprehensivel desgraça_; nem a
conspiração dos elementos, que tornaram perigosa e terrivel a nossa
marcha, na qual centenares de individuos ficaram em poucas horas
descalços, e muitos em risco de morrerem, tem podido abater vossa
coragem!»
[14] Decreto da junta de 11 de Janeiro de 1847.
X
O CRIME
«O espirito não lhe dava coisa que vislumbrasse senso-commum. A carta
era o seu maximo supplicio.»
(_Camillo Castello Branco_. MYSTERIOS DE FAFE.)
D. Isabel de Abendanho recebera carta do marido, communicativa da sua
resolução de casar a filha com um cavalheiro vimaranense; e dizia-lhe
que fosse, acompanhada do padre Alvaro, á residencia de D. Anna, e de lá
viessem todos ter com elle a Guimarães.
A chegada de sua mãe, e do padre Alvaro, foi para D. Maria da Gloria
novo motivo de abundantes lagrimas. A velha e nobre senhora
preadivinhara a rasão d'aquelle pranto, e desde logo protestou dar á
filha o seu maternal apoio. O padre Alvaro, senhor da causa que assim
amofinava as tristes mulheres, deu-lhes a consolação das suas
evangelicas palavras, e prometteu empregar, com Sebastião da Mesquita,
os brandos meios da persuasão para o dissuadir da effectividade de um
enlace repulsivo á noiva. Todos de accôrdo em demorar quanto possivel a
ida a Guimarães, confirmaram a Sebastião da Mesquita a noticia do
incommodo de D. Maria da Gloria, que afinal não era mentirosa, porque a
donzella estava doente, e de molestia que podia matal-a, se não tivesse
força para resistir á vontade paterna.
Rosa, salva da vergonha e da deshonra por João de Lencastre, resolveu
aproveitar-se da protecção do seu salvador, e assentaram de viver, em
Portugal, ou no estrangeiro, debaixo de rigoroso incognito, mostrando a
donzella desejos de vêr as suas queridas companheiras antes da sua
completa desapparição, embora lhes não podésse fallar; e o antigo
escudeiro, que não tinha vontade alheia á da sua protegida, cogitava no
modo de fazer-lhe a vontade.
Nenhum dos mais fortes inimigos do homem, empenhado em fulminal-o, e
dispondo de todas as convulsões do mundo, teria conseguido produzir em
Leopoldo uma sensação semelhante á que sentira com a leitura da carta,
que o soldado lhe entregara. Por momentos, julgou-se victima de um
sonho, e o seu olhar desvairado era terrivel de vêr-se. Depois, de
subito, sahiu-lhe do peito um como rugido feroz, e todas as suas acções
foram impetuosas e allucinadas. Mandou tocar á retirada, entregou o
commando ao seu immediato, e precedeu muitas horas, tal foi a sua
vertiginosa carreira, a chegada da força ao quartel general. Alli, fez,
como lhe cumpria, o relatorio dos successos militares, de tal sorte
contradictorio e obscuro, que lhe não foi difficil obter a licença, que
febrilmente implorava, porque os superiores o suspeitaram victima do
começo d'uma alienação mental.
Era alta noite, e dormiam todos os habitadores do seu palacio, quando
Leopoldo chegou alli, vindo do acampamento. Quem o tivesse visto
jornadear de noite, ora esporeando o ginete de modo a fazel-o saltar por
todos os obstaculos, que lhe estavam defronte, ora deixando o caminhar
em direcção incerta, e com as rédeas soltas, dizia que era um sêr
phantastico dos que algumas vezes nos agitam o somno. Gastára algumas
horas a percorrer os arredores da sua principesca habitação, para
conseguir introduzir-se lá, sem que fosse apercebido.
Estava a romper a manhã, quando podéra obter entrada por uma janella
baixa, que ficara mal fechada, e caminhar, tateando, e com passos
incertos, até ao seu quarto de cama, onde se apossou do punhal que
pendia da cabeceira do seu leito, abrindo em seguida as janellas, e
expondo ao ar a sua abrazada cabeça.
Ao voltar a vista para o interior do quarto, já um pouco alumiado pela
frouxa luz do crepusculo, pareceu-lhe que a sua cama não estava deserta,
e foi ajuntar-se-lhe ás violentas commoções que o infernavam mais um
mixto de curiosidade e de terror, como teria o bandido que deparasse
inopinadamente, na casa que julgara dezerta, com uma testimunha de seus
crimes.
No leito de Leopoldo dormia tranquillamente o somno da innocencia, a
suspeitada esposa. Tivera que sahir dos seus aposentos, occupados até
então por ella e por D. Maria da Gloria, á chegada alli de D. Isabel,
para que esta ficasse junto da filha.
Reconhecida pelo marido a mulher da qual julgava possuir um
incontestavel documento de adulterio, as feições do dementado assumiram
as repugnantes proporções da mais repelente das mumias; e monologou
terrivelmente:
«Estás no teu sepulchro, maldita!... O mesmo leito que manchaste com a
infidelidade, será manchado pelo teu sangue villão!... Não mais
acordarás d'esse ultimo somno, em que os sonhos de megéra te hão de
trazer ainda junto dos labios o halito do canalha, que eu hei-de devorar
após de ti!... Far-te-hei abrir os olhos, apenas para vêres a tua carta,
que o diabo me levou ás mãos, e nem uma palavra te deixarei pronunciar,
porque antes terá este punhal atravessado o teu infame coração!....»
E, fazendo o que disséra, sacudiu violentamente a infeliz D. Anna,
apresentou-lhe diante dos olhos, mal abertos, a carta homicida, e
enterrou-lhe em seguida o punhal no peito!...
A desgraçada senhora, teve apenas tempo para dar um grito revelador da
suprema agonia, e cerrar os olhos.
Ao ouvir aquelle brado de morte, fitou o vingador de imaginaria affronta
um olhar tresvairado em redor de si, e ficou, como se estivera pregado
ao chão, sem forças nem deliberação para fugir. Estava assim havia já
muito tempo, quando se abriu uma porta, e entraram por ella duas pessoas
em traje de romeiros que andam em peregrinação. Os recem-chegados, ao
tomarem conhecimento da tragedia que tinham á vista, ficaram por um
pouco, como assombrados de raio: um d'elles, o que primeiro conseguiu
mover-se, foi cahir com a cabeça sobre a da assassinada, lavando-lh'a
com as lagrimas que vertia. O outro, com um sangue frio ainda mais
terrivel que o desespêro, aproximou-se de Leopoldo, encarou-o longo
tempo, como olharia para o maior dos monstros, e exclamou por fim:
--Assassino!... Miseravel e cobarde assassino de mulheres!... Não posso
eu ser o vingador d'aquella infeliz, porque--desgraça! disseram-me que
era teu irmão!... Mas Deus a vingará, malvado!... O teu futuro hade ser
de cruel expiação, crê!... O maior castigo que te espera, é o
prolongamento da vida que tens a viver!...
E deixando-o, sem lhe tocar, foi apalpar o seio da assassinada:--«Ainda
lhe pulsa o coração, e o padre Alvaro está aqui!...» E saiu rapidamente
do quarto, voltando, minutos depois, acompanhado do pae de Arthur.
O ministro do altar, entrou no sagrado exercicio do seu alto e sublime
ministerio: serviam-lhe os dous romeiros de ajudantes, e Leopoldo estava
ainda, immovel, no mesmo logar, em que ficára de seguida ao crime.
O padre Alvaro foi tocar de manso no hombro do assassino, e disse-lhe
com brandura:
--Irmão! Ajoelhe, que está na presença de um Deus misericordioso e
vingador!
Ao contacto d'aquella mão, e ao sussurro d'aquellas palavras, fez
Leopoldo um movimento de cabeça, assomou-lhe aos labios um riso idiota,
e tartamudeou:
--Não acordem a minha segunda esposa... Com esta casei eu por amor...
Não me hade trahir que é nobre... O punhal está guardado... Ella
disse-me que era uma arma villã, e eu escondi-o no peito da Anna... Hade
amar-me depois da batalha... Sou general, e hei de vencer... Terei um
duello com o meu rival... Depois, a felicidade... E meu filho, que me
não conhece!... Meu filho, que me chama assassino, que me cóspe injurias
a todo o instante, que me espanca sem piedade!!... Perdão!...
Perdão!...
--A loucura e os remorsos na propria hora do crime!... Aquella que ajudo
a bem morrer, é menos desgraçada do que o seu assassino!...
Haverá quem não trema da vossa justiça, meu Deus?!...
FIM DA SEGUNDA PARTE
TERCEIRA PARTE
REMORSO
«Para que venha sobre vós todo o sangue dos justos, que se tem
derramado sobre a terra...
(S. Lucas, XI; vida de N. S. Jesu-Christo).
I
GRATIDÃO
Tira-me já do p'rigo, amigo honrado,
Depois solta a prelenda.
(_Filinto Elysio_--APOLOGO)
É menos vulgar a existencia do homem grato do que a do homem sabio; mas
a compensação do rigor d'este axioma, está na raridade com que se faz um
favor desinteressado. Contam-se em pequenissima quantidade as pessoas
reconhecidas; mas é grande o numero das que sabem calcular o provento,
mais ou menos proximo, de suas generosidades.
O genero de maior consumo no mercado da vida humana, é o egoismo, a que
chamaremos, por antonomasia, o _verme do coração_.
Os factos, porém, de todos os tempos, levam-nos a exceptuar a mulher da
regra geral do egoismo do homem, por que é d'ella, na maior parte das
suas acções, a santa abnegação: a mulher perde-se pelo amor, o homem
gloria-se com elle; a mulher serve á ambição do homem, e é por elle
escravisada; a mulher morre sempre por seus filhos, e o homem renega-os
muitas vezes...........................................................
.......................................................................
Quasi á mesma hora em que tinham logar as tragicas scenas do final da
segunda parte d'este livro, e quando ellas ainda eram ignoradas pelos
restantes habitadores do palacio, recebia D. Maria da Gloria, recolhida
nos seus aposentos, uma carta que abrira, sobresaltada, com prévio
consentimento de sua mãe, e que dizia assim:
«_Exc.^ma e respeitavel senhora_:
«O meu camarada Arthur Soares, retido no seu leito por virtude de um
ferimento grave, mas não mortal, que recebeu em um ataque dado pelo
inimigo ás linhas d'esta cidade, incumbe-me de escrever a V. Exc.^a em
seu nome, para que termine o cuidado com que deve estar a Exc.^ma Snr.^a
D. Anna, pelo silencio d'elle, depois de um formal chamamento. Só uma
impossibilidade absoluta, como aquella que se deu logo em seguida á
recepção da carta que o chamava, é que estorvaria o meu camarada e
amigo, como elle affirma, de voar a cumprir as ordens de sua exc.^ma
irmã adoptiva. Muito mais do que as consequencias do seu ferimento, tem
o meu camarada sentido o vêr-se até impossibilitado de escrever; e eu,
accedi aos seus rogos, para o tranquillisar, e abreviar a sua cura;
podendo V. Exc.^a ficar certa--pela cruz da minha espada o juro--que,
finda esta carta, esquecerei completamente o seu conteudo. Não vae
dirigida á snr.^a D. Anna, porque tendo sido roubado, quando cahira no
campo, o meu camarada Arthur, fez parte do roubo a carta que aquella
respeitavel senhora lhe escrevera; e o ferido receia que ella fosse
parar ás mãos _d'alguem_, que, por má interpretação, tenha ficado com
suspeitas, as quaes augmentariam, por certo, sendo mais esta
interceptada.
«Não obstante estar o meu camarada livre de perigo, os homens da
sciencia recommendam toda a cautela, e marcam ainda alguns dias de
recolhimento ao ferido.
«É de V. Exc.^a m.^o att.^o v.^or e cr.^o
«_O tenente da 2.^a comp.^a de voluntarios do Minho_.»
Desde o começo da leitura, que D. Maria da Gloria ficára excessivamente
pallida e trémula; mas a sua dôr, por demasiado violenta, não deu
accesso ás lagrimas. D. Isabel que sentira o estado da filha,
perguntou-lhe o conteúdo da carta, que ella teve a coragem de lêr
segunda vez, de modo que fosse ouvida por sua mãe.
--Assustas-me, querida Maria, mais com essa dôr surda, do que se te vira
coberta de pranto... É então incuravel o affecto que nutres por Arthur?
--Só a morte o póde curar, minha respeitavel e muito presada mãe e
senhora: se até agora o podesse duvidar, recebia n'este momento a mais
solemne das provas... É a primeira vez que lastimo a minha condição de
nobre, que me embarga o vehemente desejo de ir ser a enfermeira de
Arthur... Dava ametade da minha existencia, para ser hoje uma camponeza,
livre dos preconceitos e obrigações sociaes, que podesse seguir os
impulsos do coração sem constrangimento nem temôr...
--E conheces bem, filha, as qualidades do homem por quem assim queres
sacrificar-te?!...
--Conheço, e vai tambem avalial-as a minha querida e santa mãe: Arthur,
sabe que é amado por mim, adora-me, e nunca da sua bôcca sahiu uma
palavra, que meus paes não podessem ouvir. Podia estar ao meu lado,
gosar a todo o instante d'esses prazeres innocentes e celestes, que só
dá o verdadeiro amor, e fugiu-me, para não prejudicar a minha reputação,
porque receia não poder desposar-me. Todas as acções de Arthur, são de
uma fidalguia exemplar, unica, inimitavel. Encarregado por meu illustre
pae de saber como a Annitas era tractada pelo marido, obteve a convicção
de que ella era desprezada por ser plebêa e pobre: disse-o, por carta, a
seu padrinho; esperou que o brioso fidalgo acudisse logo á sua
protegida, á que adoptara por sua filha, á que obrigara a casar-se com o
seu tyranno; demorou-se a protecção, e Arthur, que apenas fôra
companheiro de infancia da nossa Anna, sem nenhuma obrigação legal ou
moral, só porque ella não tivesse de soffrer mais alguns dias, alcançou
do thio, o venerando padre Alvaro, todo o importe do futuro
d'elle--trinta mil crusados--que veiu entregar a Leopoldo, dizendo que
era o dote de sua mulher, enviado por meu respeitavel pae!...
--É grande, muito grande, o que me contas, Maria!... Por isso tu o amas,
filha, e creio agora comtigo na impossibilidade de venceres o teu
amor... Meu primo já sabe d'esse facto?
--Não sabe, minha senhora, porque Arthur rogou muito que se lhe
occultasse.
--Então, Maria, sou eu que te digo, que pódes ter esperança de casar com
Arthur. Teu pae é um fidalgo excessivamente orgulhoso da sua raça, bem
sei; mas é tambem pela sua excedente alma, bom apreciador de todas as
acções que ennobrecem quem as pratica.
--Não podêmos contar com este segredo, minha querida mãe, porque jurei a
Arthur que o não revelaria, e não sei faltar aos meus juramentos.
--Mau é isso: no entanto, confiemos em Deus.