--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu

amante...

--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e

admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com

indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas

brincado nos labios da donzella.

Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos

que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor

que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos

attendido.

O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes

dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado.

VI

UM BAILE EM COSTUMES

«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da

Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da

dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de

reconhecimento.»

«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças,

que lhe ensinára Aspasia.»

«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança,

para poder apparecer convenientemente nos bailes.»

(O PANORAMA DE 1837)

Abrira a nobilissima casa do _Arco_ os seus salões ao publico:

dizemos--_ao publico_--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era

prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro

do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade:

todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á

terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento,

isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto

fidalgo que recebia. Tal foi sempre o especial condão de toda aquella

sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.[12]

São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do

ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do

meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o

arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada,

e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos,

olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a

pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos

os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem

construida escadaria de pedra.

N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram

permittidas as _caraças_, tendo-se distribuido bilhetes, para os que

assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a

reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes.

Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão

de luzes, se não sentia a falta do dia.

O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos

que lá devessem apparecer.

Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as

nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião

da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre.

Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.

Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.

Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de

Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta

encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus

grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e

raminhos de violetas.

Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de

botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que

lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada

um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada

sobre a esquerda.

Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro

magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho

empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis,

e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga

e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias

de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas

familias.

Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica

provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.

Dos grupos camponezes foi composta uma _tocata_, de rebecas, clarinetes

e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros

improvisos do seu _desafio_, concluiram assim:

«Foi o velho rei David,

o primeiro dançador;

vamos nós tambem dançar,

cada um com o seu amor.

«Fazes mal, linda Maria,

convidar em lar alheio;

do temôr e d'altivez

a virtude jaz no meio.

«Não te pedi o conselho,

e vem tarde a correcção;

quem á festa convidou,

agradece a minha acção.

«O fidalgo que dá festa,

incapaz é de ralhar;

mas o sabel-o não deve,

ser motivo p'ra abusar.

«Digam todos que me ouvem,

se eu me quiz entremetter;

seja a resposta o signal,

para a gente s'entreter...»

E começou o baile, vivo, animado, delirante.

Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos

os convidados, tinham logar as _intrigas_ ou, sem cheiro de gallicismo,

as mystificações.

A _vivandeira_, sempre pelo braço do _soldado_, fôra a que mais valente

se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos,

simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos

bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes,

conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da

agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal

resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e

audaz do militar seu companheiro.

A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:

--Porque não está aqui tua mulher?...

--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?

--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um

marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua,

casa sem telhado, _marido sem cuidado, de graça é caro_...»

E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur

Soares:

--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa... _na

dôr de Maria_...

--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?...

--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor

cuidado...

--Porque talvez as desconheça...

--Não: é porque se não póde dividir _o __sentimento forte_...

--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...

--Não é culpado, mas é _causa de culpas_... Quando as conhecer, saiba

comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!

Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:

--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...

Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de

uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:

--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.^a uma

impertinencia: desejava _pagar-lhe o beneficio_ de me trazer a este

baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...

--Dizia minha avó, que _triste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo

calla_... Mas como é para ser _pago_ um favor, venha de lá a tua

impertinencia...

--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «_Queimou-se a fôrca,

cahiu o tyranno_».

--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido

o atrevido que te ensinou...

--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...

--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que

te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram a _fôrca_

pelo _punhal_, que é mais leve, _traiçoeiro_, e menos _apparatoso_...

O _careta_ vestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse

ao _fidalgo antigo_, que estava ao seu lado:

--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta

vivacidade?

--Não é a viuva irmã do dono da casa?

--É. Que juizo fórmas da sua alma?

--Parece que não desgostaria de vêr continuar a _pernear_ os

_malhados_...

--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu

das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas

palavras...

A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do

companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os

salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde

Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. A

_vivandeira_, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e

dirigiu-se ao velho fidalgo:

--A tristeza de que v. exc.^a está possuido, procede do conhecimento da

_fuga inesperada_ de uma donzella, companheira de infancia de sua

exc.^ma filha, não é verdade?...

--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que

julga ter para me interrogar...

--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a

que me refiro... Se V. Exc.^a désse licença...

--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.

--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu

incognito... É só pedir, em nome _d'ella_, perdão a V. Exc.^a se algum

desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e

bemfeitora mão...

--João, Arthur, meus amigos, venham cá!... É preciso obrigar esta mulher

a descobrir a cara...

--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da

casa...

--Quero-o eu!...

A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que

repentinamente conheceu a origem da altercação.

A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizer _uma

impertinência_, foi a que primeiro a protegeu:

--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro,

tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou

burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha

filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a

descobril-o...

--Se V. Exc.^a quer, snr.^a condessa, eu levo comigo essa menina para o

convento...

--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa

do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.

--Mas, minha boa irmã, V. Exc.^a bem sabe que devemos ao primo e snr.

Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só

pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu

hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...

--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que

lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço

fazer distincção ao meu excellente irmão das _qualidades_ dos seus

convidados... V. Exc.^a não se considerou, para assim fallar, o dono

d'esta casa...

--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.^a aqui.

--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.

--V. Exc.^a minha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser,

no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?

--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de

Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções,

assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.

--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente

para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?

--A V. Exc.^a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço

habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a

especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á

sua habitação...

--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos

favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de

pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel,

concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o

não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre...

Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.^as o

accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa

bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi

repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este

baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora

mão... Queria fazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em

conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!...

De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta

infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...

--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar,

a mulher que... que eu não conheço!...

E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella,

retirando-se vagarosamente.

O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas

scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.

As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.

[12] Quando a snr.^a D. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de

Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em

casa do fallecido snr. do _Arco_. Constou ao povo, que o palacete

estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr:

os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado,

titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse

dos seus _tamancos_, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.

VII

TORMENTOS INTIMOS

«Correu-me a vida outr'ora delirante,

Tive faceis amores, ledas glorias,

Julguei-me um dia amado e outro amante,

Sonhei promptas victorias,

E vi, em limpo céu formoso e puro,

Brilhante erguer-se o vulto do futuro.

Tumulto, agitação, rumor, bulicio

Compoz o meu viver.--Mas eis que um dia

Paro e vejo o tremendo precipicio--

A vida, que vivia,

Era vida ficticia e descorada...

Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»

(SILVA LEAL JUNIOR.--PRIMAVERA.)

Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita,

depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de

lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria,

occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este

muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da

Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da

donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os

motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si

indelevel estigma.

Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se

mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a

donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa

do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se

relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade

importante, a da chegada á terra de uma _rapariga de truz_, que parecia

ser de _facil accesso_, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com

toda a minuciosidade.

Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára

muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era

effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa,

e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»

Depois que João conseguira fazer retirar os _petisqueiros_ adoradores de

Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar,

persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez,

com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente

irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira

do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus

paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o

seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal

arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a

existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D.

Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não

prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores,

resolvera fugir, e dar-se como _perdida_, embora tambem estivesse

resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais

arriscados perigos.

João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois

de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella,

que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua

fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as

reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle

via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella

queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os

amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel

que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia

de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia

um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos

da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento

sério.

Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra;

que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe

devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.

Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a

donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo

ácerca do que entre elles se déra.

No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada

defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de

Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soares ás

_linhas_ do Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da

causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem

elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se

secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.

Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que

era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle

affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o

convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era

certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa

estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder

os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira,

que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas

provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o

fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho

de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe

désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de

fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por

mortalha.

Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra

tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias

sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se

achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do

nosso tempo.

Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o

sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este

desgraçado, que amava sem esperança, e que odiava por ciumes, era um

severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever,

movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de

servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular:

n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.

Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que

se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no

baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella,

perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda

innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da

que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu

natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento

contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.

Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças

physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no

futuro de sua filha Maria da Gloria.

Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de

uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é

cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos

remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores

resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.

O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do

berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava,

escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:

«_Minha muito presada Maria_:

«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te

um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te

socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu

merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de

Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a

que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia

da minha escolha.

«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o

bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa

saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que

ella mais ama.

«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,

_Sebastião._»

D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho,

a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer,

com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua

discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por

Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava

ameaçada, com aquella ordem paterna.

O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor

exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia

praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda

assim, soffria constantemente, e muito. Havia uma campa na sua parochial

egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas

penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de

que fôra peccador.

Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os

personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D.

Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia

pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no

respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.

VIII

A MULHER CAHIDA

«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos,

e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de

ignominia.»

(_A. H._--Fragmento de um livro inedito.)

Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham

querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a

mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe

e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós

a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que

a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o

villipendio, que lhe dá em premio!

A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para

agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material

que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em sua idade adulta,

porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós

córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de

umas certas condições sociaes, que nos imprimem a _legitimidade_:

levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente

religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por

seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e

de bruxa!

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 9 / 14 段