João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do

morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua

custa, e mettendo-se n'ella, _com gente e armas tambem suas_,

acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D.

Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus

valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos, _grandes mercês e

honras_.

Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião

á Africa. Ficou captivo, e foi escravo _de dous senhores_. Resgatado,

_com muito trabalho e dispendio de sua fazenda_, foi cavalleiro professo

do habito de Christo.

Salvador da Costa e Almada, morador na _rua Nova do Muro_, embarcou para

a India, onde foi _cabo de_ _tres fustas_, que o governador, Mathias de

Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.

Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do

precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na

India, pelejando com grande valor contra os turcos.

Gaspar Leite Pereira, da rua do _Cano das Gasas_, que embarcou para a

India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargo _de

Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim_. Foi depois mandado, por El-Rei

D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.

Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India,

mostrou o seu valor, como diz _A vida do irmão Pedro de Basto_, liv.

2.º cap. 13.º

Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim

Ferreira na façanha da _Veiga das favas_, onde foi desbaratado o

exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a

Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves

desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira,

e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros,

obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.

Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei

de Castella D. João 1.º, serviu, _por sua traça_, de poderoso

instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi

o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito, _na ponte do

Sueiro, juncto á ponte de Servas_, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu

parte, que conseguira do porteiro e guarda da _porta do postigo_, que

esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa uma cuba em um carro; e,

aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli, _com trezentos de

cavallo_, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.

Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de

Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça,

deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para

servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór

de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.

André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a

mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de

Pernambuco.

Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem

o posto de capitão de infanteria.

João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua

quinta _de Pombeiro_, para se alistar _na milicia de Flandes_, onde, por

seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de

artilheria, com grande nome e fama.

Sebastião Salgado de Faria, que, _na guerra de Flandes_ foi _um dos

capitães de cavallo de couraças_ com melhor nome no exercito.

Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao

posto de _tenente de mestre de campo general_.

Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.

Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dos _privilegiados de Nossa

Senhora da Oliveira_.

João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria, e um dos que

promoveram a feliz acclamação de D. João IV.

João Rebello Leite, filho do precedente, que, no _primeiro rebate que em

seguida á feliz acclamação, os gallegos deram_ na fronteira do Minho,

foi prisioneiro e levado, _com oito feridas_, ao castello de

Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fez _uma fugida

valorosa_, chegando depois a mestre de campo, e, _com lastimosa

desgraça, morreu de veneno_.

João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em

que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de

campo de infanteria, _e de cavallos_; e, indo a Santarem _reformar o seu

terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua

mulata_.

Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo;

João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem;

José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos

de _capitães volantes_, no exercito da provincia do Minho.

Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.

Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, e _ajudante de

cavallaria_.

Antonio de Andrade e Valle, que foi _ajudante de Infanteria_.

João de Sousa e Lima, que foi _alferes do mestre_ de campo de

infanteria.

Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.

Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio

de Barros, que foi _capitão de volantes_.

Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatar nas

gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos

tudo, que respeita a Guimarães.

E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome

famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama,

Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa

do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita

no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego

e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e

musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas

mais eruditas do seu seculo.

Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios

e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores

de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da

mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta

a briosa raça de tão heroico povo.

E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na

actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão

admiravelmente fertil.

Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que

nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como

esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos

de nomear.

É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho,

residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e

de marfim, e celebre artista gravador de medalhas, algumas das quaes

teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.[10]

Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá

Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a

Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.[11]

É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro

cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.

São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os

senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de

Castro.

É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.

Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor

Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso

bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.

Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são

todos pessoas estimaveis, caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a

nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só

prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense,

tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta

por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense,

hoje como sempre, é por todos respeitada.

Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua

popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz

honrosa memoria.

Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de

Guimarães, tem desafiado a critica mordaz _dos fortes espiritos_ do

seculo, que a chamam _terra retrógrada_.

É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade

que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente

satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para

comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria,

muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.

Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas

n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um

certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam

o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no

presente.

O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que

nasceu na cidade do Porto.

Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores

para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes

capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes,

passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.

[8] Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S.

Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia

de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado,

por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir

em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos:

foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis

desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso;

tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio

de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa,

contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de

Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas

dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em

Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.

[9] Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por

epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada

a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada

que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao

espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma

escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da

ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa

Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e

Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no

manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o

titulo de _Sedatura Lusitana_ encontramos estes factos preciosos:

«_Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era

ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de

certo que teve a Gil Vicente._» Isto já bastava para acreditarmos

que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o

manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil

Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte

de D. João II, D. Manoel e D. João III «_Gil Vicente, filho unico

d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante_, e por tal

foi sempre muito _estimado dos Principes e senhores de seu tempo.

Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua

muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram

n'aquelle genero. Está sepultado em Evora._» O gráo de

authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por

que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue

esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel

Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi

procurador em côrtes.»

[10] O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil

Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de

medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa

antiga seiva artistica de Guimarães.»

[11] O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal»,

drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi,

e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos,

em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C.

M.

V

BABEL DE SABIOS

«Alli se ajunta bando de casquilhos,

A que o vulgo mordaz chama rafados;

..........................................

Altercam mil questões; promptos contendem,

Promptos decidem no que nada entendem.

(_Nicolao Tolentino de Almeida_)

--Antes queremos do de _Basto_, snr.^a Anastacia Mendes, do de Basto,

que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e

bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algum _peixe_

fresco?...

--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhor

_carninha_ do meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado

Deus, ninguem _mistura_...

--Não quer dizer isso, snr.^a Mendes... O que o Andrade pergunta é se

deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie

dos _infusorios_...

--Dos _rotarios_, snr.^a Anastacia, dos rotarios... Este Abreu é da

mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies

de viventes, que ha no mundo...

--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que

censura... A fazenda, que procuravamos é da familia dos _zoophytos_...

--_Medusas_, snr.^a Anastacia, _são medusas_...

--Não é tal, são _radiarios_...

--São _enthelmentes_...

--São _arachnides_...

--São _crustaceos_...

--São _annelides_...

--São _molluscos_...

--São _mammaes_...

--São _amphibios_...

--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios

falladores: a dos _insectos_, a dos _peixes_, e a das _aves_...

--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó mais

_peixote_ de todos os Peixotos do mundo?!...

--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que

não sabe lisongear os principes do... talento... _Bias_, um dos sete

sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um

tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...

--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Os _meninos_ são

engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, e _caluda_...

Chegou hontem _cousa_ de _arregalar_ o olho... Parece, pelo menos,

_varoneza_... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os,

de certo... E que palminho de cara!... Parece mesmo a _Madanela_ da

procissão de passos..

--Bravo!...

--Bravissimo!...

--Excellente!...

--Soberbo!...

--Magnifico!...

--Surprehendente!...

--Bom achado!...

--Optima descoberta!...

--Venha essa phenis!...

--Appareça a bella!...

--Surja a estrella polar!...

--Dê entrada a feiticeira encantadora!...

--Queremos ouvir a cantadeira!...

--Venha a nós, a filha d'Eva!...

--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o

nôjo da vida... Deixe-me com os seus _eruditos_ hospedes, snr.^a

Anastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios...

Correspondo ao que de mim lhes disse a nossa _ingenua_ patrôa, senhores

curiosos!...

--É arrebatadora!...

--Explendida!...

--Sublime!...

--Não busquem outros synonimos, amaveis _sabios_, que já consumiram

palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a que _especie de animaes_

fico pertencendo agora?...

--Á dos Anjos!...

--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva

chamar-lhe?...

--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores... E como se chama... _V.

Exc.^a_? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos

que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem

de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que

viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares;

outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes

de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como

são os seus, minha formosa?

--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das mais _espinhosas_...

Appellidos... Diga-me, meu caro snr. _encyclopedista_, os Bandeiras, e

os Mesquitas, serão dignos da minha... _formosura_?...

--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre

portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, na _batalha do Touro_, que um

cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu

com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne,

El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão

n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no

leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido

de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o

mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V

passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia

dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os

mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia,

sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns

nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles, levantaram uma

bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por

este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em

campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e

uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com

uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de

Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a...

uma leôa...

--Acho-os _encarnados_ de mais... A côr do _sangue_, apesar das _garras_

com que _V. Exc.^a_ me honra, affecta-me a sensibilidade nervosa...

Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da sua _historica_

dissertação, creio que estavamos na altura dos... _animaes anjos_?...

--Distingo: existem anjos _animaes racionaes_, desde que a cubiça, ou o

amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo

peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um

moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua

patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a

quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a

primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que

eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o

cofre de todas as sciencias, e de Marte a _vazilha_ da intrepidez, me

declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de... _V.

Exc.^a_!...

--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa

Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte

inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesar me deu

esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui

nada... Deixo a _moralidade_, á perspicacia do snr... Peixoto...

Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?

--Para em tudo lhe dar prazer, snr.^a... das anecdotas... Sem embargo do

seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia,

dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés

faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da

medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros

espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o

talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano

metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de

vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro

soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas

manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto

abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da

invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a

peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz

das bellas!...

--_Copia_ admiravelmente de _memoria_, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe

que, para _v. exc.^a_, só poderá servir de _espelho_ o lago em que

_Narcizo_ se namorava da sua esbelta figura...

--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que

levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me

com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher, que

reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz

emparelhar...

--É _nimiamente modesto_, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos

espelhos, contar-lhe-hei a origem dos _orgãos_... São uns instrumentos

de _vento_, compostos de _folles_, _teclado_, e grande numero de

_canudos_... Querem os _chins_, que a invenção de tal instrumento seja

devida ao seu imperador _Hoang-Ti_, que existio, antes de Jesus Christo,

2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar a

_v. exc.^a_ um _magnifico órgão_...

--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos os _instrumentos_

possiveis?...

--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares

sagrados não pódem agradar aos... _materialistas_...

--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o

materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a

reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na

pessoa de minha... adversaria...

--Tambem é _diccionarista_?... A definição que acaba de fazer parece-me

_textualmente_ lida n'um dos modernos diccionarios...

--Serei tudo que quizer chamar-me, menos _plagiario_. São exclusivamente

minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia

innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem

descaradamente as minhas famosas theorias sobre...

--Sobre _principios elementares de mathematica_, talvez, em que és

fortissimo... Ora, acaba com a sécca, que nós tambem sômos gente, e

sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...

--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira...

Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa do _Arco_?

--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...

--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim;

e como só se tiram as _caraças_ na occasião da ceia, querendo conservar

o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?

--Talvez aceite...

--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar

todos os teus intentos... Se fosse em _Villa Pouca_...

--O Arco é mais popular...

--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta,

é que tu não peças, _á tua Convidada_, qualquer remuneração pelo favor

que intentas fazer-lhe...

--Eu não costumo sustentar _assedio_ por muito tempo; costumo, sim,

tomar as praças _d'assalto_...

E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar

a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar

os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim

queria ultrajar.

O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle

momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:

--Se quizer, _senhor atrevido_, eu substituo esta senhora, para a

realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, o _abraço_ entre nós,

ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, que

não tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que

d'elle se queria fazer auctor...

A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da

surpreza:--O snr. João?!....

--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo

que sou _filho d'alguem_...

A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após

uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse,

sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 8 / 14 段