--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem

quero, entrar no mysterio d'esse _dote_ da minha _prima_ e _cara_

esposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e

nunca _esperei_ receber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha

mulher _julgar digno_ o receber esse dinheiro, receba-o muito embora,

que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.

--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção.

Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho um _dote_, que é meu,

entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar

que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a

esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que

haja quem se desaposse de _trinta mil crusados_, para fazer um beneficio

gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este

dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não

tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros

interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito,

e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu

dote.

--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v.

exc.^a um pequeno serviço.

--«A snr.^a D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»

A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como

interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de

comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o

«Conto portuguez».

Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria

da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada

a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como

seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em

que figuram agora mais dous actores:

--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho

encarregada por meu ex.^mo pae e senhor, peço-lhe licença para

apresentar-lhe o snr. João de...

--Conheço _bastante_, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e

fiel pagem, _que só poderia entrar n'esta casa, como entrou_,

acompanhando a sua dona...

--Engana-se v. exc.^a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos

do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos

sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é

bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e

dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo;

é, finalmente, irmão de v. exc.^a...

--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.^a D. Maria da

Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...

--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas

duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.^a, que dará

todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...

--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão...

Embora por motivos justificados, commetti um acto rude, e offereço-lhe a

face, para applicar n'ella a pena de Talião...

--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto

como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de

sentimentos da nossa querida prima e snr.^a D. Maria da Gloria, a

espontaneidade com que o abraço, mano João!...

--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder.

Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.^mo pae:

faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e

consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O

primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga

discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o

dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de

posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de

liquidar e receber...

Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria

ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao

ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se,

mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur

Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros

expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem,

abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:

--É á snr.^a D. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que

ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre

padrinho, e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de

igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da

verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar

na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da

cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade,

porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.^a D. Anna, que meu

padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo

n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de

infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do

Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo

isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia,

arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como

devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo

que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que

já era em seu poder...

--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae

sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o

encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?

--São, apenas, trinta mil cruzados.

--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil

cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que

possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter

meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo

Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?

--A esse consentimento, é nossa prima D. Anna que hade responder. Da

parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.^a como de cousa sua, que

é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D.

Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou

obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria

II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para

reunir-me ao exercito.

--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de

encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr.

Arthur Soares?

--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na

jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na

qualidade de soldado do governo supremo do reino...

Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com

que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que

occupavam na sala os differentes actores.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma

das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas

cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava,

no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia

maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de

Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de

pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado

por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um

magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão

esquerda.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu

confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação,

dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com

raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da

verdade.

D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida,

avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca

clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.

Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as

vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.

João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de

quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia

prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só

dos movimentos dos que o cercavam.

D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a

confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso

procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas

suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as

mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna,

vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado,

chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus

bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da

Gloria.--Era bello aquelle grupo!

Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos.

De repente, perdeu a côr, sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com

passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que

teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida

nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:

--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece

ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher

com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são

da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na

esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade,

e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos

denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o

symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu

braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe

entrega do movel em que lhe fallou a snr.^a D. Maria da Gloria, e

conversar em cousas de commum interesse...

E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou

conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o

irmão o salvava.

IV

O BERÇO DA MONARCHIA

«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca,

de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo

certissima a sua veneranda antiguidade.»

(O PANORAMA DE 1867.)

«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos

antes da éra christã.»

(PADRE CARVALHO)

«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a

cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de

linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do

tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda

hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho

adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra

por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos

industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis

por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no

anno de 1835, seis contos de reis.»

(GEOGRAPHIA DE URCULLU.)

Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada

modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas

existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o

nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima

cidade de Araduca, como querem muitos e mui abalisados auctores.

É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos

honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei

portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado

e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião

de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo

Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á

contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do

famoso Papa S. Damaso,[8] que mereceu, ao sexto concilio de

Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á

justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais

finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom

nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus

filhos, na guerra, nas artes, nas sciencias, em todos os ramos dos

conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos

elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do

cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade

no perdão das injurias.

Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos

de Guimarães:

Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e

distincto artista, que fez a Custodia de Belem.[9]

Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros

contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães,

pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e

oitenta.

João Gonçalves, mais conhecido pelo nome de _Engenhoso_, o introductor

do serrilhado na moeda.

Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes;

entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de

1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de

theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado

á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o

nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo

Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois

da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de

Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215.

Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira,

acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João

Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.

O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chanceller mór do reino, do

conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.

O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.

O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de

theologia na Universidade de Coimbra.

O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e

Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador

do Paço.

O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que

começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa,

de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de

Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da

meza da consciencia.

O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi

corregedor da côrte.

O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a

ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais

credito.

O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo

de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do

paiz.

O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel

Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro do _Axioma_.

O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada,

pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade

de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas,

_que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava

este sujeito para o seu maior credito_.

O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e

lente na Universidade de Coimbra.

O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo

Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por

El-Rei D. Pedro II.

O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo,

desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei,

e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.

O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia,

Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem

de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.

O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na

dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo

de habito de Christo.

O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do

Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.

O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.

O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da

mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e

desembargador do Paço.

D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo

de Annel, do arcebispado de Evora.

D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.

O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.

O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.

O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado

em Lisboa.

Manoel Gonçalves, o trovador, morador no _burgo_ da rua de Couros, que

foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.

Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho,

em _oitava rima_.

Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e

fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se

mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como

tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de

Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio,

antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.

Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o

exercito castelhano, alojado na _veiga das favas_; e que, por uma

cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim

Narizes.

Manoel Machado de Miranda, senhor do _casal dos Cavalleiros_, e

residente no seu _palacio do arco_, na rua de Santa Maria, poderoso

fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando

seus filhos a continual-os.

Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval

pelejada com os turcos.

Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de

capitão de infanteria, batalhando pela patria.

Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na

religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os

turcos.

Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na

religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel

valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em

guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria,

sendo mestre de campo de um _terço de volantes_, e capitão duma

_companhia de cavallos com o titulo de couraças_. Celebradas as pazes

entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi

occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a

recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo,

governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres

Vedras, e de S. João da Carvoeira.

João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos

no Alemtejo.

Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de

Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa

d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.

Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e

cazas do _Rocio da Tulha_, que, depois de ter batalhado n'este reino e

no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas

guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este

rei um alvará, (datado de 2 de março de 1501) «_em que lhe entregou, e

livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade

de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo

dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde,

e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e

parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das

mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se

forem suas proprias armas._»

Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor da _casa da rua da

Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça_, que acompanhou, com

grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na

tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde

fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap.

46.

Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D.

Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois

tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu

pae, honrando a patria.

Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18

annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de

Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.

Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão

da fortaleza de Maluco, na India.

Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor

e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de

hospedar, na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de

El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.

Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho, _que,

melhor que todos, realçou e eternisou_ seu nome. Foi mandado pelo

viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e,

sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a

sua patria, _foi posto na bocca d'uma peça de artilheria_, sem que um

tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não

matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi, _por subido preço_. Vingou

suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya, _que era senhor

de tres reinos_; e por este feito se accrescentaram ás suas armas _tres

corôas e um alfange_, como diz Diogo do Couto, na decada 4.^a, livro

4.º, capitulo 9.º

Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de

Chacel, na India.

Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no

tempo d'El-Rei D. Sebastião.

Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei, _morgado rico, e

possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria_, que acompanhou El-Rei

D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado,

embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os

turcos.

Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre

de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi

capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.

Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da

Pousada, _com suas casas_ _na rua do Val de Donas_, que serviu na guerra

da India, _contra os infiéis_, onde acabou a vida.

João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do

morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas

guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.

João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei, _que deixou

mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca_, para servir a

patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus

filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.

Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu

pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais

valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão,

ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 7 / 14 段