Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os

inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram.

Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a

qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido

diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de

terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas

boas, e os espiritos elevados.

Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir

d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os

sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado

voluntariamente, e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com

obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia

de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava,

porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e

tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra

do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia,

podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a

existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.

Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita,

perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente,

e que havia tomado as suas importantes revelações na devida

consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario

protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de

tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.

Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia

de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto

puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava,

e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia,

ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com

o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho

movel, e disse-lhe:

--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É

dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres.

Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe

observava que podia adoecer com tão aturado labutar, respondia-me que

Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas

vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de

perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho

producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não

tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa

quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher

de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o

necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades,

que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar

a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De

certo te não recordas já d'aquella tua _doação_... Eras muito criança

ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...

Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são

abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços

e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por

Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo

chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:

--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!...

Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me

consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não

repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que

tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era

o não poder chamar-te--filho--nem ouvir de tua bôcca o dôce nome

de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não

amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da

paternidade legal...

--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta

alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter

coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos

extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais

poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de

minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa

que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a

perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é

o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me

podia dar o céu?!...

--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu

Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este

indigno padre!...

Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos

mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se

passa no palacio de Sebastião da Mesquita.

Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este

verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda

se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram

salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os

quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando

com muita solemnidade a João Vidal:

--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que

devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em

poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves.

Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a

vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado,

e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o

carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a

revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado,

que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de

pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado,

aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe

igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela

religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas

mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser

perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu

pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que

orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel.

Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro,

que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as

especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a

leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de

Leopoldo...

--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu

amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.^a muito de

mercê, que me continue a graça de o servir... Quero considerar-me sem

parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.^a, e o seu

mais humilde criado...

--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o

quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e

não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta

é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em

ti o odio que tens a Leopoldo...

--Mas, senhor...

--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a

nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a

attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a

minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.

--V. exc.^a bem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio,

e que parece soffrer bastante...

--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.

Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a

uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da

gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até

ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que

deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o

velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.

--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os

motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que

são causa de um soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a

queixar-se de alguem d'esta casa?

--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por

ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força

de cuidados e attenções?!...

--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é

então que não frequenta esta casa como costumava?

--A minha doença...

--E como se chama a sua doença?...

--Ainda não consultei a sciencia, e...

--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos,

Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por

considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua

attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima

e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o

interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que

obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos

occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos

serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher do _rico

fidalgo_ e snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã

do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima

esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu

patrimonio Maria, e a casa de v. exc.^a, minha prima...

--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que

me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por

ella fosse levada á extrema miséria?... É injusto, senhor...

--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos

nobilissimos sentimentos de V. Exc.^a; mas cumpria-me consultal-a, e

pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei

faltar ao que devo a mim mesmo...

--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V.

Exc.^a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer

solteira, e...

--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas

minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria

melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas

despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e

valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho,

portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a

mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo...

O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?

--Desejaria saber dizer a V. Exc.^a as mesmas palavras que o coração

dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são

perfeitamente iguaes os meus sentimentos...

--Agradeço a todas...

Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um

pouco enfadado, perguntou-lhe:

--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas

importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz

nas mãos, e ao demudado da sua côr?...

--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser,

sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma

quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o

muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella

contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.^a, e

peço que me desculpe o interrompel-o?...

--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de

Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei,

para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco

engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em

compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou

praticar... Lembro-lhe, porém, João, que _só eu_ tenho direito a regular

as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa

ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes

parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro

nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos

Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o

brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso

parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa

está sempre vago para os homens de bem.

--Agradeço de toda a alma a V. Exc.^a a immensa honra que me concede, e

que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da

phrase... foi dictada por V. Exc.^a que me ensinou os deveres de

cavalheiro...

--Venham as condições!

--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae

praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por

que V. Exc.^a descobriu a mentira, que eu inventei para bom fim...

Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao

snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei

para muito longe, para onde me não possa chegar...

--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu

para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...

--É a mulher de meu irmão, senhor!...

João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal,

que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.

Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:

--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte ao

_primo_ João do que resolver.

III

CIUME

«................................

Invejo-te, Camões, o nome honroso,

Da Mente creadora o sacro lume,

Que exprime as furias de Liêo raivoso,

Os ais de Ignez, de Venus o queixume:

As pragas do Gigante procelloso,

O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»

(_Manoel Maria de Barbosa du Bocage._)

O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque

participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do

coração humano.

Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam

tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das

pessoas sujeitas ao ciume.

O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus

castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez

indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de

favores, que lhe minguaram a burra.

O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias

sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o

castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez,

fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com

toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a

desfórra de uma resposta.

Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O

primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias,

não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela

resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando

verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo,

o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina

nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.

Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria

da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.

Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D.

Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um

terrivel inimigo.

Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós

com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de

que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada

severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco

civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.

D. Anna, como não tivesse a mais pequena mácula de que accusar-se,

attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle

sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste

senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo

aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos

livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do

Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre

os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.

Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:

«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura

licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle,

respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam:

Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a.

Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos

permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim.

Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e

femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só

carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o

que Deus ajuntou.»

Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou

pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro,

aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a

preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do

marido no seu quarto, Leopoldo, que espiava todas as acções de sua

mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por

cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que

finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos

sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e,

juntando a acção ás palavras, disse:

--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens

de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e

conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella,

levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu,

pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher, _se não é

por causa de adultério_, e casar com outra, commette adulterio: e o que

se casar com a que outro repudiou, commette adulterio: _E se a mulher

deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera._»

De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente

d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?

--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se

comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu

comprehenda?!...

--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de

lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...

--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento

entre nós...

--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde os _nobres_

teem obrigação de saber guardar todas as _conveniencias_: mas, aqui,

escusa a minha estimavel esposa de usar de taes _constrangimentos_...

Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente

para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos

quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulher _adultera_. Não lhe

parece?...

--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que

lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom

Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado

dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a

lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime

parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da

adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos

legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com

justiça?

--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seus _engenhosos_

corollarios, minha senhora... Mas, como estamos em _amigavel_

controversia, desejava ouvir a sua _esclarecida_ opinião sobre a

_igualdade_ dos deveres... Parece-lhe que o _adulterio_ é o _mesmo

crime_ da parte da mulher como da parte do homem?...

--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei

detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a

fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher

voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam

levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade

dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducções dos

homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...

--Para quem não tem _pensado_ no assumpto, desenvolve-o

admiravelmente!... Dou á minha cara esposa _sinceros_ emboras pelo bem

que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo da

_letradice_ com que ha pouco quiz honrar-me, que os _maus exemplos_ do

homem nunca podem lançar no leito nupcial um _pequenino ladrão_... A

minha _intelligente_ esposa comprehende-me bem, não é assim?

--Se o comprehendo, senhor, devo tambem _observar-lhe_ que os _maus

exemplos_ podem igualmente introduzir o mesmo _roubo_ em alheios

lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora

tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que

encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno

egoista.

--Dou lhe palmas, minha _cara_ esposa! Isso é que se chama saber

defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das

defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...

N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram

interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a

introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram

differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a

testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia

a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão

adoptivo...

--O seu rôsto, minha _boa_ esposa, formosissimo, mesmo quando _v.

exc.^a_ se acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora

explendido de brilhantismo, pelo contentamento que manifesta com a

noticia que nos deu a criada... Muito _feliz_ é esse snr. Arthur

Soares!...

--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a

felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o

sei presar como elle merece.

--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, por _um sério estudo_, o segredo

de tanto se fazer _apreciar_ das bellas... Vamos prestes ao seu

encontro, que estou já ancioso por começar as minhas _experiencias_...

D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e

a innocencia, são quasi sempre ingenuas.

Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares,

Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão do _amor sem

desejo_, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube

gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a

manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.

--Venho dar contas a v. exc.^a, e a seu illustre marido, do uso que fiz

da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil

crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro

de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre

impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança;

mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da

reconhecida bondade de v. exc.^a, passei quitação geral do seu dote pela

quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e

contar...

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 6 / 14 段