A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do

seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um

elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia

de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as

commentar mentalmente.

Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de

Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da

junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados

publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo

de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita,

em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto

sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo

pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos

realistas, depois da morte de Mac-Donnell,[6] se terem reunido ao

exercito da junta do Porto.

N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca

de Arthur Soares a boa nova de ter descoberto o carcere das donzellas,

que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho

fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade

e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.

Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle

entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu,

ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não

encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando

susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em

pranto a seduzida Anna.

Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de

regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de

novo reunida.

Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de

todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria,

n'estes termos:

--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...

--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.^a fazel-a

ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.

--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a

nobreza e honradez da tua resposta!...

Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e

caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.

--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?

A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...

O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora,

alçou assim a voz:

--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma

solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o

edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!..

Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe

faltou para resistir á seducção!...

Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era

o não admittirem réplicas.

N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente

do palacio, um extraordinario bulicio.

O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli

tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e

aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.

Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em

poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os

prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e

cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos

empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho

havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os

que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer

ao poder das leis.

A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira,

com a interferencia de um tenente que folgara de ter occasião de

subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e

trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de

Lencastre.

--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o

logar do ajuste.

--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.^a Rosa, e a minha cobardia, se

m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr.

tenente...

--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.

E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão,

onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero

resultado da busca a que procedera Arthur Soares.

--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu

prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e

peça-lhe a honra de ser sua esposa...

--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...

--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o

canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por

sua mulher legitima.

--N'esse caso... se V. Exc.^a me affiança...

--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a

transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a

mentira... Para a capella, senhores!...

O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no

casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado

raciocinio que a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela

seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença,

em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o

sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.

Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de

muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da

estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario,

sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente,

d'esta vez, a sua respeitavel palavra.

O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no

triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros

estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços

sahiriam!

De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos

para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os

guardava. Estava domado o leão!..

Por quem?...

Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto,

da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até

ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e

silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da

veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...[7]

Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia

popular, no palacio de Leopoldo.

O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:

«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»

[5] O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia da

_intimação_ e da retirada do exc.^mo arcebispo primaz.

Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem,

pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de

pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e

comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo,

foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que,

em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes,

foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas

verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença

social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A

sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado

de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do

Evangelho--_Fili, peccasti; non adjicias iterum_.

«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e

pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría

as victimas para as immolar?

«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como

mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da

Europa.

«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no

funccionario como achamos no individuo.

«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação

injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no

amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)

[6] Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara

á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um

sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo»

de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz

assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por

diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»

[7] Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo

povo o castello de Vianna.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

SEGUNDA PARTE

CRIME

«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»

(_Chron. de Cister_.)

I

ABYSMO

«Ai do viandante que não vê caminho!

ai do mesquinho sem a luz da fé!

ai! que, na falta d'um amor sublime,

triumfa o crime, do ludibrio ao pé!

(_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM.)

Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos

ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou

papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o

trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar

pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«_Em

romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil_:»--escreveu com

muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.

João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em

parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o

escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiança que lhe

devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no

livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do

escudeiro a Leopoldo.

A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio

mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D.

Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção,

a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios

de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua

mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já

reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.

Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o

preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi

preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer

seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o

captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de

tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir

é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de

seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de

soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e

cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo,

pelo desprêso a este votado.

Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da

Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se

conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acções

intimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobre

_donzella_, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.

Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar,

em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços

habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo

daquella carta:

«Colhi a fatal certeza de que a snr.^a D. Anna soffre a seu marido

constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa

intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, que

_occultas razões_ determinaram a violencia do seu casamento com uma

_rapariga pobre_! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os

signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»

Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto

de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido

ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes

e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias,

porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que

esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o

velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio,

que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da

entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu

empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a

situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos

annos e nos brinquedos infantis. Tomada a resolução, seguiu-se o emprego

de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.

Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a

D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas

descriptas no capitulo--_Amor_. Recostada em magnifico sofá, e vestida

com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra

discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento

Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as

commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:

--Consinta-me, snr.^a D. Anna...

--Snr.^a D. Anna!...

--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não

serei eu que o esqueça. V. exc.^a soffre. Deixe-me aproveitar estes

momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe

esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber

se v. exc.^a era feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em

harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá

v. exc.^a confiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do

mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?

--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes

aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê

esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta

sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um

lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu,

que só por favor conhecia o palacio da minha querida mestra e senhora D.

Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde

moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os

modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos

serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano,

a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as

antiguidades, os _recocós_, as reliquias de toda a arte misturadas com

os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que me _cérca_, de

que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e

que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e

nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...

--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que

significam, senhora D. Anna?...

--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...

--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de

condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer

o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas

palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar

bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente

nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que

eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.^a manifesta?...

--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo

Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para

onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como nos contos de

fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...

--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim

depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a

cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V.

Exc.^a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado.

Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda

a gente. Os haveres de V. Exc.^a, se não podem equiparar-se aos de seu

illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o

tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por

escripto, a auctorisação que lhe peço?

--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.

Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de

escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho

firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os

agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito

entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda

a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos

caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas

naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na

sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o

porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza,

dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a

conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe o

favor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa

para o interior do palacio.

Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da

consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.

--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira

collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com

direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.

--Ouvirei, senhor Leopoldo.

--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo

que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...

--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma

agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e

lealmente affeiçoado.

--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha

ausencia, para a visita com que V. S.^a quiz honrar esta casa?...

--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.^a, devo suppor que

a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.

--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é

segredo para mim?...

--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D.

Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta

auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber

toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»

--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É

para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...

--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que

S. Ex.^ma esposa _não é pobre_, e que, para cobrar o que lhe pertence, é

que eu vim pedir-lhe este escripto.

--E que validade descobre V. S.^a n'esse papel, que não é authenticado

por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...

--A esposa de V. Exc.^a ignorou até hoje, que era senhora de fortuna,

como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde

ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais

esclarecimentos. V. Exc.^a tem o direito de receber, querendo, o dote da

snr.^a D. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual,

sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa

alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do

liquidado e recebido por mim.

--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.^a não ha de

recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...

--Sempre ás ordens de V. Exc.^a, para o que fôr do meu brio.

Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente

do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu

antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo

ciume.

II

FIDALGUIA

«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou

por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de

seus antepassados.»

(_V. d'Almeida-Garrett_--HELENA.)

A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.

Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas

as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram

nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo

leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas

paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as

delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos

desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as nações a

que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou

barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava

nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com

soberbas razões, se devem orgulhar.

Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos

nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais

respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio

portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaram _leão dos

mares_, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o

justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais

remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.

Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres

antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos,

e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este

logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos

heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os

Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de

seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da

patria.

Sabemos que á civilisação repugna a _conquista_, embora tenha de

conformar-se com os _factos consummados_; mas quem ha que duvide da boa

fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria,

eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se

devem attribuir as suas heroicidades.

Mas ser _nobre_, nem sempre quer dizer ser _fidalgo illustre_. A nobreza

póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre

bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as

virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e

quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.

Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que

não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e

optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.

Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma,

reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem

distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra

companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu

que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára

infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e

levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar

para Anna um nascimento e um dote.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 5 / 14 段