Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem

feridas batalhas, um vivissimo fogo de fuzilaria, despejado sobre as

suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.

Travou-se combate.

No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a

brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:

--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa

justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride

nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado

pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa

carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar,

retiro-me eu immediatamente.

--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não

desisto do meu empenho em aprisionar o _manêta_.

--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é

sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não

creio que nos tornemos a encontrar.

Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.

Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de

Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17

mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem

aprisionado o seu aventureiro commandante.

Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João

Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção

a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda

sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde

suster o velho fidalgo uma exclamação de espanto, reconhecendo sua

mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se

silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára

seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais

profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da

Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu

e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas

consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O

velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á

esposa:

--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és

digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta

a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para

a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem,

hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são,

n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito.

Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe

agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com

agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e

por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho.

Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...

--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho

reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr

indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes,

despacho-me a mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.^a. As

minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a

demora da snr.^a D. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me

apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o

abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr.

Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v.

exc.^a me causava.

--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.

Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se

agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do

combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do

general _inglez_, como elles chamavam a Mac-Donnell.

O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o

commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais

expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes

conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda

a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.

Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e

proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina,

declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer

infracção.

Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima

povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a

cavallo, que chegára alli á desfilada.

Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só

homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um

signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo,

em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a

familia.

Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar

satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de

todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!

Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom

Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria,

teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato

ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um

completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina.

Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os

pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que

apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão

seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da

donzella!

Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas

peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia,

narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos,

e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.

No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um

raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda

tristeza, mal que terminára a narrativa.

--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das

outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do

jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.

IX

AMOR

AMOR é a palavra, o brado eterno

Solto por Deus ao vêr já feito o mundo,

Que fez tremer as abobodas do inferno

E o sol ficou da côr d'um moribundo:

A primavera, estio, outomno, inverno,

Terra, céu, alma pura, bicho immundo,

Tudo ahi cabe á larga de tal modo

Que n'essa concha Deus se fecha todo.»

(_João de Deus_--FLORES DO CAMPO.)

Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de

Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as

viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um

sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e

Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro

jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.

A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal

da cidade do Porto.

A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos

ornatos. Os seus aprasiveis parques e bellissimos jardins, com

magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente

encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na

vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.[4]

Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera

conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas,

ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para

evitar outra fuga como a de Rosa.

Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais

asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse

concedido o eden por homenagem.

Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a

que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua

virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o

seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que

elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma,

denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz

do dever e da consciencia.

Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço

com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera

das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais

frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras

vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue

ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa

constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa

sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga

moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que

ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito

ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na

vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que

d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este

estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento

procedimento do fidalgo primo.

Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus

instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem

ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado

e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade

soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava

entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse

prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia

facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os

seus caprichos, desfazendo-se-lhe d'este modo, como fatua bolha de

sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella

rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.

Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de

amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse

sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos

os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da

alma, a inspiração de Deus!...

O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre

o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a

tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica:

amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!

Que terrivel lucta!

Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre

orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima,

dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões

humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel

peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter,

elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos

privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a

Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!

Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma

força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de

modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre

que podia, ignorando as encarceradas as repetidas ausencias a que era

obrigado o seu fidalgo carcereiro.

Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle

escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.

Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa

destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga

da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e

vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim

disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na

ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça,

sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma

fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar

assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo

espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto,

mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para

a parte do palacio, occupada pela docil Anna.

Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos

sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem

que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da

Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de

proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as

janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e

amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as

borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadados de

setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a

encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D.

Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de

uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá

dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao

mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos

vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com

effeito de ouro do mais subido quilate.

Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os

arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés

um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o

embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este

modo:

«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de

instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!

«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu

sósinho o salvador de v. exc.^a, mas as cautelas tomadas pelo infame

obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita.

«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.^a.

Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em

bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da

Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil

instrumento no malvado que o sabe usar.

«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.^a como creio

em Deus.

«_Arthur_».

Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de

felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o

fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que

ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus

subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita

dera-lhe animo para fallar:

--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!...

Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?

Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.

--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor

torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...

--Infame!...

--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor

governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da

alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá

transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz

tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e

augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura...

Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a

irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua

nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim

este sofrimento na conta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso

por mim!...

--Infame!...

--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma

paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes

como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar

para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as

differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua

formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os

seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me

fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão,

senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo

humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos,

todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos

seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes...

A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu

saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade

ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia

as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em

que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se

fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra,

uma singela esperança...

--Infame!...

--Oh! que é de mais!...

N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para

ceder á violencia da sua paixão atrozmente insultada pelo sangue frio da

nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas,

na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado

por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor

d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.

O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para

recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante

resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que

se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a

ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria,

para lhe dizer com voz pausada e debil:

--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.^a

fica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus

criados, e servos de V. Exc.^a para a guardarem com profundo respeito,

mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que

tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima

vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Este

_malvado_, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que

pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão com

_lagrimas_ de sincero arrependimento...

--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o

primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o

considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus

remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca

deveria ter servido nas emprezas a que está vesado.

E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã.

Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram

seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha

e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido

na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.

--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e

pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens

n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a

todos os seus companheiros. Póde retirar-se.

Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos.

Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito,

levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem

acanhamento, e disse-lhe:

--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.^a nunca

por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da

Gloria!...

Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só

d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma

hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de

perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a

barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer!

[4] Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de

Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços,

fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz

o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello

romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da

Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta,

como n'outras descripções e nomes proprios d'este nosso _conto_, na

parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas

determinadas.

X

RELIGIÃO

«O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar

o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que

permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»

(_Fr. A. das Chagas_--C. ESPIRITUAES.)

Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas

vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu

unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as

donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que

requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado,

e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados

estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um

relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era

arcebispo de Braga.

Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em

ataque ás forças realistas, mandara fazer na manhã do memoravel dia

vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram

juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general,

ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese

bracarense para o acompanhar na sua marcha.[5] Aterrado o bondoso padre

por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a

precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de

Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da

Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas

horas em secreta e intima conferencia.

Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu

physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não

parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina

mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as

indeleveis impressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria

levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle

vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre

aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e

á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao

padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja

quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas

commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias

vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua

razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das

paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos

que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os

estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de

Arthur Soares.

Eram constantes da parte do apaixonado mancebo as deserções do seu

arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita,

porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 4 / 14 段