O padre Alvaro, foi residir, em companhia de seus paes, para a terra da sua

naturalidade, onde cumpria rigorosamente todos os deveres de seu ministerio

sagrado, procurando os infelizes para os consolar com a palavra e com a

esmola, fazendo colheita de lagrimas, e escondendo de todos as que lhe

vertia o coração. Vivia só para a caridade e para a dôr. Decorando, no

Evangelho, a vida de Christo, identificou-se com Elle no amor da

humanidade. Conseguiu augmentar ao casebre do seu patrimonio um novo e

separado repartimento, na solidão do qual, fóra das horas obrigadas aos

seus deveres, fechava cuidadosamente as suas mágoas.

O soffrimento de um filho, não póde ser, por muito tempo, estranho aos que

lhe deram a vida. Os bondosos lavradores de Esporões, conheceram, mais por

instincto do que por sagacidade, que seu filho padecia, e quizeram

profundar a causa de suas tristezas. Espreitaram-no a horas mortas, e

ficaram surprezos do que viram.

--Que peregrinação será aquella do nosso querido Alvaro, em noites de

tempestade, Maria?!--Perguntava o velho a sua esposa, ambos de volta de

suas pesquizas.

--Eu sei-te lá, homem! Só te digo, que isto tudo me faz chorar... Elle come

quasi nada, anda tanto por esses montes e outeiros, vae pelas cabanas á

cata dos necessitados, passa o pouco tempo que lhe resta de dia a lêr e a

escrever, e ainda sahe de noite e com um tempo assim!... Deus me perdôe,

mas quer-me parecer que o nosso filho se fez padre de mais!

--Não ha gosto perfeito n'esta vida, é certo. O prazer com que lhe ouvimos

a primeira missa, farta recompensa de todos os nossos sacrificios,

desandou, dentro em pouco, n'estas lagrimas! Mas deixa estar, que eu ainda

tenho vigor, e não canço nas minhas pesquizas, que podem trazer-nos

tranquillidade. D'aqui por deante, quero ser eu só a vigiar o nosso Alvaro,

porque fico mais á minha vontade. Tu, entretanto, ficas na cama a pedir a

Deus por nós, sim?

--O que tu queres, quero eu sempre, Antonio.

Uma das noites em que Alvaro foi espreitado pelo pae, entrou este, após a

sahida do filho, no repartimento da casa habitado pelo padre. Analysou, com

olhos paternaes, os mais insignificantes indicios de soffrimento, physico e

moral, que por alli estavam dispersos. Entre outros, pareceu-lhe descobrir

signaes de que o seu Alvaro cuspia sangue, supposição que fez verter da

testa, ao triste pae, esse humor rubro que nos circúla nas arterias e

veias. Encontrou no chão um papel com letras, que não sabia lêr, e

guardou-o. Na madrugada do seguinte dia, foi o lavrador á residencia do seu

parocho e velho amigo pedir-lhe o favor de lêr o escripto. Resava assim:

«Não, disse S. Gregorio, que o laço do matrimonio era o nucleo do genero

humano, o esteio da vida e o centro da piedade?

«Para quê, os concilios d'Elvira e de Trento?...

«Celibato puro!!...

«Para quê, decretar contra a natureza?!...

«Oh Christo? Não quizeste Tu nascer de Maria?... Se não tivesses por

consorte a Cruz da Redempção humana, fugirias Tu a completar, quando homem,

a Tua existencia no mundo?...

«Porque não ha de ser para todos os filhos do peccado, a mulher, resumo do

bem possivel, a casta mensageira entre o céu e a terra?!...»

O parocho, que era um padre intelligente e bondoso, pediu á sua ovelha, que

fosse depositar aquelle papel no mesmo sitio em que o achara, e passou,

depois, largas horas em colloquio amigo com o pae do que fôra seu

discipulo.

Quinze dias depois da conferencia do parocho com o velho Antonio, ao cahir

da tarde, chegava o lavrador, na rua de S. João do Souto, á cabeceira do

leito em que Eugenia, cadaverica, estava recostada. Houve um longo

silencio: ambos temiam o rompimento. Animou-se finalmente o velho a dizer:

--Então de que mal padece a snr.^a Eugenia, não me dirá? As mulheres sempre

são muito fracas! Pois a molestia que tem, é lá cousa para estar com esses

quebrantos?! Será isso mimo?...

--Vou dizer-lhe tudo por uma vez, snr. Antonio, antes que as forças me

faltem... Amo seu filho e sou amada por elle... Um padre e uma viuva!...

Deus castiga-nos, e bem o tinha agourado o meu confessor... _Elle_, está

cavando a sepultura, bem o vejo; e eu quero, e hei de morrer antes...

--Em quanto viverem os velhos como eu, não podem morrer assim depressa os

novos como vossas mercês, descancem... Mas porque não fallaram a tempo?!

Porque não confiaram de mim esses incuraveis amores, quando fossem ainda

horas de os legitimar aos olhos do mundo?...

--Não o quiz eu, snr. Antonio, porque tive mêdo de ajuntar ao meu crime o

seu odio, ou de praticar novo crime, levando Alvaro á desobediencia.

--Foram bons sentimentos esses, foram; mas fôra melhor que ambos tivessem

mais alguma confiança nos corações dos outros... Em fim, isso lá vae, e o

que não tem remedio remediado está. Agora, cumpre fazermos todos da nossa

parte para se viver o melhor possivel, o que se hade conseguir com o favor

de Deus...

A este tempo sentiu-se rumor á porta do quarto, e ouviu-se distinctamente a

voz de Thereza dizer: «É seu pae!...»

--Entra, Alvaro;--disse em voz clara e de modo a ser ouvido de fóra, o

sympathico e honrado velho. Entrou o padre, ajoelhou aos pés do pae, e

titubeou a palavra:--Perdão.

--Levanta-te, que és mais infeliz do que culpado, e para os infelizes

reservou Deus a sua divina misericordia. Sei tudo, e tambem o sabe tua

mãe. Não te louvamos nem condemnamos; choramos as tuas dôres, que são as

nossas, e procuramos-lhe allivio. É preciso que vivas, e que viva tambem a

snr.^a Eugenia. Eu mando, pela voz da religião que tenho n'alma, pela do

sangue e pela da honra, como a entendem os homens do campo. Se fôr

condemnado pelos fanaticos, já tenho a absolvição do meu santo pastor, que

mais vale. A um pobre, que sempre foi honrado, não falta a Providencia nas

occasiões precisas. Tu, meu Alvaro, vaes ser nomeado reitor da freguezia de

Santo Adrião de Penafiel, que assim m'o prometteu o snr. fidalgo de Porto

Carreiro, que nunca faltou á sua palavra. É um presente que me faz, disse

elle, por eu lhe ter pago com toda a pontualidade, ha quarenta e cinco

annos, um fôro, de dois carros e meio de pão meiado, limpo e sêcco. É um

fidalgo ás direitas, que sabe conhecer o que vale o suor da pobreza. Ora, a

reitoria, fica lá para o valle de Sousa, nas proximidades de Penafiel,

muito longe d'aqui. Eu e tua mãe de certo lá não poderemos ir; mas tu, que

estás na força da vida, virás amiudadas vezes visitar-nos. O snr. padre

reitor de Santo Adrião, tem na aldeia da sua naturalidade uma irmã viuva,

que póde ter um filhinho que talvez precise do auxilio do thio padre...

Repito, eu mando, e quero ser obedecido. Não sei o que dizem os livros

sagrados nem os profanos, porque me não ensinaram a lêr: tenho só aprendido

o que me diz a minha consciencia honrada. No tribunal do Deus justo, darei

eu as contas por tudo isto. Do escandalo, é que as não hei-de dar, porque

tenho toda a segurança nos bons sentimentos d'aquelles que preferiam a

morte, á quebra publica dos seus deveres.

Quando Antonio acabou de insinuar as suas ordens, dadas n'um tom prophetico

e inspirado, é que fez reparo no quadro que, havia já minutos, alli se via.

Estavam a seus pés, ajoelhados, cada um de seu lado, regando-lh'os de

lagrimas doces, os amnistiados da paternidade, que representa Deus na

terra.

Era bello de vêr-se a mocidade cadaverica pelo mal d'amor, abraçando

commovida até ás lagrimas, a honra envelhecida no rude trabalho do campo,

fresca e vigorosa como a carvalheira secular liberta da podridão das

cidades!...

No dia 27 de agosto de 1819, recebia o primeiro sacramento da egreja, na

cidade de Braga, um recem-nascido do sexo masculino, a que foi posto o nome

de Arthur. Os padrinhos, por procurações de Sebastião da Mesquita Bandeira

de Mello e de D. Isabel de Abendanho e Sousa, foram Antonio da Cunha e

Maria do Espirito Santo, os honestos lavradores de Esporões, que deram a

existencia ao reitor de Santo Adrião de Penafiel.

Estava o padre Alvaro ha mais de tres annos de posse da reitoria, sendo

acatado e tido na conta de exemplar pelo povo, quando recolheu na sua

residencia uma irmã viuva com um filho. Cresceu o amor e o respeito do povo

pelo padre reitor e pela familia, na razão directa do augmento de

beneficios e de consolações que recebia. Eram seis mãos sempre abertas á

pobreza, e duas santas boccas a semearem palavras animadoras aos dous

sexos, o que o povo encontrava na residencia do reitor de Santo Adrião de

Penafiel. Por isso, o reitor, irmã e sobrinho, ganharam a estima geral, ao

ponto de fazerem dividir, nos corações de todos os habitantes do valle de

Sousa, a antiga e bem fundada sympathia pela familia do fidalgo Sebastião

da Mesquita.

Um dia, chegou ao conhecimento do publico, que havia luto na residencia do

padre Alvaro. Foi lá toda a gente da povoação. O reitor, leu,

commovidissimo, ao seu rebanho, uma carta que recebera do seu amigo e

mestre, o parocho de S. Santiago de Esporões. Dizia assim:

«Dei hontem sepultura a dois cadaveres, Alvaro, e dou hoje cumprimento a

uma triste imposição da amisade. Está devoluta a residencia do teu

patrimonio. Teu pae morreu ás dez horas, e tua mãe á uma da tarde do mesmo

dia. Presenciei a morte de dois justos. Disseram-me, para te communicar,

que iam pedir a Deus por ti... Resignação.»

As lagrimas do padre confundiram-se com as de todos que o escutavam.

Arthur, que então teria sete annos, trepou aos joelhos do sagrado pastor,

pousou-lhe os rosados e frescos labios nas faces crestadas pelo fogo das

lagrimas, e disse-lhe:

--Não chores, thio, que os avós estão no Céu. Sabes o que hasde fazer?

Manda occupar as casas, que elles deixaram, pelos pobresinhos lá d'essa

terra, sim?

--Pois sim, querido amor, e hei de dizer-lhes que foste tu o da

lembrança...

Arthur andou nos braços de todos, e foi devorado com beijos. N'esta

occasião, deu entrada na sala o fidalgo Sebastião da Mesquita, acompanhado

de uma creada, que trazia ao collo uma interessante menina de treze mezes

de idade. O povo formou respeitosamente duas alas, e o reitor recebeu, com

agrado, mais aquella visita.

--Que fez o meu afilhado para merecer tantos affagos?--perguntou o fidalgo,

depois de ter saudado a todos.

--O que havia de ser, snr. da Mesquita?... O rapaz parece não ter mau

coração: destinou a habitação dos avós fallecidos para residencia das

pessoas mais necessitadas da freguezia d'elles; e as boas almas d'estes

meus filhos todos, pagaram-lhe a lembrança em fartas caricias.

--Então já assim caminhamos para o Céu, snr. meu afilhado?! Muito bem,

muito bem!... Vou dar-lhe a primeira paga da sua nobre acção...

--E assim fallando tomou Arthur nos braços e, aproximando-o da filhinha,

fez com que se beijassem os dous innocentes......

Treze annos depois d'estas scenas, em dia de trabalho, e por horas em que

estão dezertas as egrejas das aldeias, entrava Sebastião da Mesquita no

templo parochial de Santo Adrião, e batia de manso nas costas de um padre,

que estava curvado sobre uma sepultura. Ao levantar-se o padre, tremeu

involuntariamente o fidalgo, de encarar nas transtornadas feições do seu

amigo.

--Nem tanta penitencia nem tamanha dôr, padre Alvaro, que podem não ser do

agrado de Deus. Não precisa, Arthur, agora mais que nunca dos seus

cuidados?

--Basta-lhe a protecção do nobre e honrado padrinho... A minha vida, está

n'esta sepultura, onde talvez cahisse uma condemnada ás penas eternas!...

--Não conta com a bondade do Pae para com seus filhos, e por uma culpa

involuntaria, desvanecida por innumeras virtudes, só quer vêr o castigo, em

vez do perdão?!

--E as leis da egreja?!...

--E as leis da natureza; a misericordia divina; os votos de seus honrados

paes; a consideração, a estima, o respeito geral; as bençãos dos infelizes

e a tranquillidade da consciencia, pelo que toca a todas as demais acções

da sua vida?...

--Viverei, snr. Sebastião da Mesquita, e o tempo que me sobrar da

penitencia dal-o-hei á sua heroica amisade!

VII

RAPTOS

«Que póde valer á hebrêa

Sentir n'alma chamma infinda?

como a linda Ester ser linda,

e amada como Rachel?

Se o coração da judia

se entre-abre do amor aos lumes,

não lhe dá tempo aos perfumes

o seu destino cruel.»

(_T. Ribeiro_--SONS QUE PASSAM).

«O vicio está por tal fórma naturalisado que não ha razão para

espantos nem sequer para censuras.»

(_Camillo C. B._--O CONDEMNADO.)

Foi ephemero o triumpho para a revolução do Minho, denominada--Maria da

Fonte.--Cahiu o ministerio ao rugido popular, foi certo; mas a seis de

outubro do mesmo anno, o governo constituido ao grito dos revoltosos,

teve, por vontade régia, sorte igual á do seu predecessor. A esse facto,

que se deu fóra das praxes constitucionaes, chamou-se--_emboscada

palaciana_--e deveu-se a mais formidavel das guerras civis portuguezas.

A heroica cidade da Virgem foi o centro da resistencia ao chamado

governo de facção, constituindo dentro de seus muros, a nove de outubro

de mil oito centos quarenta e seis, uma _junta provisoria do governo

supremo do reino_, que ousou prodigios bem dignos de causa mais santa,

como seria a defesa da patria contra estrangeiro dominador. Exaltaram-se

os partidos, e de todos os angulos do paiz voava a mocidade portugueza a

alistar-se sob as bandeiras hasteadas em guerra fratricida. O

enthusiasmo guerreiro tocou o delirio. Raro, bem raro, seria

encontrar-se um portuguez de braços cruzados ante o flagicio geral.

Além dos bandos constitucionaes, achou tambem ensejo de desfraldar

bandeira o velho e respeitavel partido absolutista: respeitavel na sua

quéda, e ostracismo sem limite, pela coragem da abnegação, e pelo

inquebrantamento da sua fé. Este ultimo grito de revolta, chamou tambem

os velhos ao campo da batalha. Acabaram então os indifferentes: todos os

portuguezes, cada um a sabôr das suas paixões, ficaram empenhados na

luta.

Sebastião da Mesquita foi convidado por um general

estrangeiro--Mac-Donnell--, que se dizia commissionado do snr. D. Miguel

de Bragança, a tomar parte activa no pronunciamento ante-dynastico.

Recusou-se. Pediu-lhe o general que fizesse, ao menos, parte do seu

estado maior, para lhe dar conselho e força moral, e apresentou-lhe um

autographo do principe proscripto,[2] que fez abalo na rigidez do velho

fidalgo. Esta conferencia teve logar nos primeiros dias do mez de

novembro de mil oitocentos quarenta e seis; e não se passaram muitas

horas depois d'ella, sem que o aventureiro general visse caminhar ao seu

lado, para Villa Real, o respeitavel pae de D. Maria da Gloria, tendo

previamente recommendado ao seu afilhado, Arthur Soares, que auxiliasse

a esposa na vigilancia do seu casal.

Quem podesse espancar as trevas da tempestuosa noite de dezoito do mez e

anno referidos, e penetrar no terreiro da frente do palacio de Sebastião

da Mesquita, veria alli tres liteiras e seus guias, um formidavel

cortejo de lacaios, e cêrca de cem homens armados, todos recolhidos ao

maior silencio. O capitão d'aquella força e apparato, era o fidalgo

Leopoldo. Conseguira aquelle posto no exercito da rainha, em batalhão

addido á brigada do commando de um general que, por aquella epocha, se

aproximou da cidade do Porto, no intuito de lhe serem abertas pela

traição, que se dizia combinada, as fortes linhas defensivas do baluarte

da Liberdade.[3]

Não podemos averiguar como o snr. de Lencastre conseguira desviar

aquella força da sua direcção para as cercanias do Porto. O que sabemos

é que aquella gente caminhara de noite, por verédas escusas, no

manifesto intento de evitar encontros com os sublevados. O mais, ficou

sendo um segredo do voluntario capitão, e do general commandante da

brigada.

No interior do palacio, e no quarto reservado a D. Maria da Gloria, onde

tambem estavam Rosa e Anna, que ficaram sendo constantes companheiras da

fidalga desde a ausencia de Sebastião da Mesquita, á mesma hora da

chegada ao terreiro do já descripto e bellicoso apparato,--havia uma

conversação, a que o leitor, ainda hoje, tem direito de assistir:

--Conheço agora, minhas boas amigas, toda a verdade do rifão--«diz-me

com quem vives, saberei os fracos que tens.»--Estou supersticiosa com a

nossa Annitas! Não sei o que me adivinha o coração... A ausencia do meu

illustre pae e do João Vidal, e o escrupulo do snr. Arthur Soares, em

não querer pernoitar n'esta casa, são naturaes acontecimentos, bem o

conheço, mas despertam-me uns certos receios que até hoje não conhecia

em mim!...

--Querem vêr que ainda lhe lembra a má catadura do irritado primo

n'aquella noite de luar?!... Não pense em tal, minha querida snr.^a D.

Maria, que a tempestade, se o foi, passou sem resultados fataes, e só

deve restar d'ella, ao seu auctor, o pesar de a ter provocado.

--É de certo pela minha natural timidez que eu, partilhando os sustos da

snr.^a D. Maria, vejo cahir sobre nós a tempestade, como a Rosa lhe

chama, e fazer-nos victimas do seu louco furor...

--Por melhor o fará Deus, Anna... Comtudo, parece-me prudente não

desprezar estes presentimentos, accordar a minha presada mãe e senhora,

e pôr os criados de atalaia...

--Credo! o que ahi vae!... E o mais é que são capazes de reunir em mim,

ao pêso d'esta tenebrosa noite de inverno, o mêdo do terror de que as

sinto possuidas...

E as tres donzellas, como se fossem tocadas por occultas molas, saltaram

fóra dos leitos, e vestiram-se apressadamente.

Ao mesmo tempo que se manifestava nas tres donzellas o máu presentimento

revelado no dialogo a que fizemos assistir o leitor, sentira igual

panico a velha fidalga D. Isabel de Abendanho e Sousa. Não são virgens

estes casos. Muitos exemplos attestam o ter sido uma familia atacada de

funestas ideias, e de iguaes padecimentos physicos, em alguns de seus

membros ao mesmo tempo, vivendo até distanciados uns dos outros. Não

sabemos se ha sciencia que explique o phenomeno; mas é certo que se tem

dado.

Fez a dona da casa levantar os criados, que collocou de sobre-aviso,

indo em seguida escutar á porta do quarto da filha, para certificar-se

de se havia por alli em que fundar os seus receios. Na mesma occasião

era aberta a porta por D. Maria e, juntas as quatro habitadoras do

palacio, confidenciaram os seus mysteriosos sustos. Teriam apenas tempo

de trazer a lume a mais diminuta parte de suas apprehensões, quando

sentiram tropel de criados, tomando a direcção do quarto, que procuravam

a senhora fidalga, para, entre temerosos e espantados, lhe darem parte

de que o palacio estava cercado de tropa.

Foi então que aquellas quatro mulheres, tímidas momentos antes por

ideias de imaginarios perigos, mostraram que o sangue frio e a coragem,

quando chegam as verdadeiras tempestades da vida, não são qualidades

alheias ao sexo chamado fragil.

Era, com tudo, tarde para se tomarem acertadas providencias contra

qualquer aggressão. Um dos serventes da casa, comprado pelo ouro de

Leopoldo, abrira uma das portas do palacio. Foram, pois, surprehendidas

as tristes senhoras pela multidão de homens armados, á testa dos quaes

se via o imprudente auctor d'aquelle attentado, e impossibilitadas de

resistir aos intentos de seus perseguidores.

Entre alguns dos criados do palacio, e a força violadora d'aquelle lar,

houve uma pequena luta--até aquelles serem subjugados pela vantagem

numerica--perecendo apenas n'ella o criado traidor, ás mãos dos

assalariados por aquelle que lhe comprára a fidelidade.

As tres donzellas foram brutalmente amarradas e conduzidas ás liteiras.

A velha fidalga presenceou tudo com denodo varonil, sem fazer o mais

leve rumor, representando, na sua mudez e aspecto sublimes, uma perfeita

estatua de concentrado soffrimento. Era uma «Vilhena» a meditar vingança

condigna de tão atroz delicto. Ao arrancarem-lhe as donzellas,

disse-lhes D. Isabel com voz severa:

--A infamia não vence a honra. Sabei morrer sem vergonha, que eu vos

abençôo como Deus vos abençoará. Adeus, Maria!...

Retirados que foram os assaltantes com as suas presas, ficou o palacio

occupado pelos fieis creados, agglomerados em volta de sua ama D.

Isabel. Esta heroica matrona, teve força para recolher ao coração as

lagrimas da saudade, o fel do desespero e do seu justificado odio ao

malvado parente que a deshonrava, e para dizer com apparente

tranquillidade aos que a cercavam:

«Quizera antes ter de vos lamentar mortos, e de vos mandar suffragar as

almas, do que vêr-vos aqui sem aquellas em defesa das quaes deveriam

todos acabar seus dias, porque eram vossas amas, vossas enfermeiras, e

vossas amigas... Já agora não ha tempo para mais reflexões. Apparelhae

todos os cavallos que estão nas cavallariças,--um d'elles para que eu o

possa montar--soltae os animaes recolhidos nas lojas, colhei todos os

retratos de familia que encontrardes, e deitae immediatamente fogo a

este palacio. Não deve mais ser visto de meu marido, o logar onde um

fidalgo villão insultou a mulher e a filha de um verdadeiro nobre.

Reparae que eu _quero_ caminhar para a residencia do snr. reitor,

alumiada pelas chammas da casa que foi habitação de meus avós!...»

Foram rigorosamente cumpridas as ordens da fidalga, que effectivamente

caminhara para casa do reitor ao clarão que despedia o fogo lançado de

seu mando ao seu solar, e ao som do toque de sinos a rebate, que o

incendio provocara.

A meio caminho da residencia encontrou D. Isabel Arthur Soares, que o

toque dos sinos despertara, ao qual referiu o succedido.

Duas horas depois das scenas narradas, quem fosse á sala do oratorio da

residencia, encontraria uma senhora e um homem--dous velhos--ajoelhados,

a orarem ao Creador. Eram o reitor e a fidalga D. Isabel.

Á mesma hora, passeava Arthur Soares, como louco, no seu quarto,

brandindo um punhal, aquella detestavel arma, já conhecida do leitor,

que D. Maria lhe legára.

[2] Verdadeiro ou imitado, mostrava Mac-Donnell ás pessoas mais

importantes do partido realista, um escripto do punho do snr. D.

Miguel de Bragança.

[3] É notavel a linguagem d'esta proclamação: «Portuenses!--O

general *** volta de novo com a força de seu commando a aproximar-se

das linhas do Porto. Elle não confia em si. Confia na traição. Mas

engana-se. A junta está prevenida. Ninguem ousará dentro dos muros

do Porto levantar um grito criminoso, fazer uma tentativa culpada.

Ninguem o ousará. E ai d'aquelle que o ousasse! As medidas

convenientes estão tomadas. Porto! A Europa nos contempla! Com a

ajuda de Deus, pela intercessão da Virgem, protectora de nossas

armas e de nossa gloria, o Porto será sempre vencedor--nunca

vencido. A liberdade nos inspira! Os escravos que vem trazer os

ferros, e a assolação a esta cidade ficarão petrificados deante de

nossas bayonetas. O Porto é a cabeça de Medusa deante da qual os

tyrannos estremecem e gelam de terror.

.........................................................

«Confiemos na protecção do eterno, e no esforço de nossos braços.

Transmittamos á posteridade uma nova pagina de heroismo--a nossos

netos uma rica herança de gloria, e um grande e novo exemplo de

valor. Ás armas cidadãos! Ás armas! por Deus, e pela liberdade:

e--Viva o Porto!--O Porto sempre grande, sempre intrepido, sempre

heroico, indomito, invencivel!--Viva a Nação!--Viva a Liberdade!--E

ás armas!--Palacio da junta provisoria do supremo governo do reino,

em 8 de Dezembro de 1846.»

(Omittimos tudo que podesse recordar odios pessoaes.)

VIII

COMBATE

«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto

na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo

orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe

importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se

despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no

momento dos seus amorosos ardores.»

(_A. Herculano_--EURICO.)

Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia

19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no

capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes

posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general

Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e

honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e

que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 3 / 14 段