--V. Exc.^a despresa-me, minha nobre prima?... Tanto melhor, que posso usar

sem constrangimento dos meus direitos de fidalgo e de parente de V. Exc.^a

para annunciar ao mundo do bom tom, que a snr.^a D. Maria da Gloria

Mesquita Bandeira de Abendanho, está ligada pelos vinculos _do mais

apertado amor, com dispensa de sacramentos_, ao sobrinho do snr. reitor da

freguezia...

Ainda o snr. Leopoldo não tinha acabado de pronunciar bem a ultima palavra

do insulto, e já o som de uma estrondosa bofetada echoava nos ouvidos de

todos.

As discipulas de D. Maria deram um abafado grito e retiraram-se da janella,

a um pequeno impulso que lhes deu D. Maria. A fidalga, julgando ter sido

Arthur Soares que déra o castigo ao insolente, ficou sobresaltada, e

dirigiu-lhe, ainda que meigas, algumas censuras, a que o brioso mancebo

respondeu, que outra mão, mais prompta que a sua, castigára o desaforado

fidalgo.

Fôra o caso, que João Vidal, o escudeiro, andando na sua costumada ronda

pelas cercanias do palacio, e ouvindo parte do dialogo, aproximou-se

cautelosamente do sitio onde estava Leopoldo, e lá se conservou até ao

momento em que o insulto feito á sua nobre ama, o levou a estender a mão na

cara do petulante com força tal, que o snr. de Lencastre cahiu redondamente

no chão do pomar. Logo que se levantou, ardendo em ira, partiu para o

escudeiro de punhal na mão. João Vidal, suspendeu-lhe o braço homicida e

arrancou-lhe da mão a arma cobarde, em menos tempo, tudo isto, do que se

gasta a contal-o.

Vendo-se abatido, sem armas, e marcado pelo mais ignominoso ferrête que um

homem póde imprimir n'outro homem, Leopoldo vociferou:

--Por um escudeiro!... Vergonha eterna!... Juro que a vingança ha de ser

superior á affronta... Não posso medir-me comtigo, villão, mas quero e

hei-de vingar-me... Vingar-me de todos... Ouviram?! De todos!... E a ti,

canalha... escudeiro infame... hei de afogar-te como se afoga um cão

vadio!...

Proferidas aquellas selvagens ameaças, retirou-se o possesso, a passos

accelerados, não dando assim logar a maior castigo.

João Vidal, com toda a submissão e respeito, pediu á sua joven senhora

desculpa para o que fizera sem premeditação, e levado unicamente pela

violencia do insulto. D. Maria agradeceu-lhe com palavras vehementes, e

ordenou-lhe que entregasse o punhal ao snr. Arthur Soares, o que o

escudeiro fez, sem exitação, pedindo depois licença para retirar-se.

Arthur, surprezo com a ordem e a entrega, perguntou a D. Maria, que uso

devia fazer d'aquella arma.

--Guarde-a--lhe disse a fidalga--até que eu lh'a peça.

--É perigoso este instrumento na minha mão, senhora, desde que me vejo

causa involuntaria das mágoas de V. Exc.^a... Esta noite foi para mim ao

mesmo tempo a vida e a morte... Tive sempre horror ao crime, e vejo-me

levado pelo destino a ser necessariamente criminoso! Acolhendo em meu peito

sentimentos, que nem ao dominio dos meus sonhos quereria que pertencessem,

terei de luctar e de punir, de caminhar para a incerta felicidade por cima

do cadaver de um inimigo, vilissimo é verdade, mas bem nascido e

poderoso... O que devo fazer em tão apertada como temivel conjunctura?!...

Não devo escolher entre dous crimes, aquelle de que só eu venha a soffrer

as fataes consequencias?!... Nunca me persuadi de que havia de chegar uma

hora em que assim fosse abalada a minha austeridade em principios

religiosos!... Nunca imaginei que seria forçado a praticar, o que sempre

tenho rebatido com todas as forças de uma profunda convicção!... Adeus,

snr.^a D. Maria da Gloria!... Amanhã será entregue a V. Exc.^a esta arma

por pessoa de confiança.... Peço-lhe que ao recebel-a se lembre com alguma

saudade do martyr de umas certas crenças, talvez irrisorias n'esta epocha

de... progressos... Adeus!...

--Ordeno-lhe que fique!... Disse D. Maria com um tal assento de voz, que

obrigou Arthur a ficar como petrificado.

--O snr. Arthur Soares, pensar em suicidar-se?!... Onde escondeu a

fortaleza do seu espirito robustecido pelo estudo?! Como assim esqueceu os

salutares conselhos de sua boa mãe, que o snr. Soares muitas vezes me tem

repetido?! Que fez das arreigadas crenças na religião de nossos paes, que o

snr. Arthur dizia ser a mais racional e acceitavel de todas as religiões,

mesmo desprendida do que n'ella ha de mysterioso e divino?!... Ah! snr.

Arthur Soares, que me parece imperdoavel essa allucinação!... Já não quero

fallar-lhe no abandono em que deixava as pessoas amigas, só pelo egoismo de

não soffrer na lucta! Isso prova que as melhores almas tambem têem suas

fraquezas... Lembre-se, senhor, que á vida de V. S.^a póde estar presa

alguma outra vida; e que, querendo fugir a matar um inimigo vil, quando

seja absolutamente indispensavel o fazel-o, póde assassinar _alguem_ com o

seu suicidio...

--Pois V. Exc.^a?!!...

--Adeus, snr. Arthur Soares! Durma tranquillo e guarde bem essa arma que

deve ser entregue por V. S.^a _em pessoa_ a mim, ou, de minha ordem, á

minha amiga e discipula Rosa...

Ditas estas palavras, retirou-se D. Maria da janella, que fechou de manso.

Arthur permaneceu no mesmo logar por largo espaço de tempo, immovel, com

os olhos fitos na formosa lua cheia, e o pensamento entregue ao vago de

estranhas e indecifraveis sensações. Accordou d'este delicioso e pungente

lethargo, á voz amiga de João Vidal, o escudeiro, que o acompanhou á

residencia do thio.

IV

MÃE E MADRE

«Espero que essas pedras, que em outras foram de escandalo, sejam em

v. m. padrões de espirituaes exemplos.»

(_Fr. Ant. das Chagas_--CARTAS ESPIRIT.)

Pelos fins do mez de janeiro de 1807, um cavalleiro envolto em larga capa,

acompanhado de seus lacaios e creados a pé, desmontou, seria meia noite,

defronte da portaria do convento e mosteiro, da invocação de Nossa Senhora

das Candêas, de freiras de S. Bento, que fundou, nas casas em que nascêra

na villa de Moimenta da Beira, o doutor Fernão Mergulhão, filho de Vasco

Mergulhão e de sua mulher D. Leonor de Lucena, pessoas nobres e de vastos

rendimentos.

O cavalleiro, bateu tão de rijo com a aldrava do portão, que a communidade

inteira accordou ao estrondo produzido pelos repetidos embates da massa de

ferro.

Em quanto as noviças alvoroçadas perguntavam em voz baixa umas ás outras,

o que poderia significar uma visita a taes deshoras, e que a muito

respeitavel abbadessa se erguia com inquietação, foi repetidas vezes

renovado o chamamento com furia egual, se não superior, á das primeiras

pancadas, até que a soror rodeira, toda espavorida, tendo-se vestido

precipitadamente e sem esperar as ordens da superiora, desceu até onde

podésse ser ouvida e, com a maior força que podia dar á sua voz

septuagenaria, perguntou:

--Quem, a esta hora, vem assim perturbar o repouso da vida claustral?!

--Muito digna soror rodeira, tende a bondade de annunciar á senhora

abbadessa, a urgentissima necessidade de escutar, por um pouco, a um de

seus mais proximos parentes e ao mais humilde de seus servos.

A este tempo, já a madre abbadessa estava ao lado da soror rodeira e,

reconhecendo a voz que a invocara, mandou que abrissem a porta sem demora.

Introduzido o cavalleiro no palratorio, depois de ter alcançado a benção da

abbadessa, fallou assim:

--Minha muito respeitavel e estimadissima thia e senhora! Venho aqui, a

horas bem importunas, implorar de V. Exc.^a a minha tranquilidade

domestica, porque ha já mezes que me é insupportavel a vida ao lado de

minha esposa e prima D. Leocadia.

Não sei porque artes minha mulher descobriu a existencia do João, d'esse

filho do peccado, que a minha boa thia e senhora quiz ter a caridade de

recolher dentro d'estas sagradas paredes. E, desde que o sabe, ameaça-me de

separar-se de mim e de levar todo o seu dote, que é, como V. Exc.^a sabe, a

maior parte da minha casa, se eu não entregar o pequeno ao destino que

ella lhe queira dar. Eu conheço o coração de Leocadia, e sei que ella é

incapaz de maltratar o Joãosinho, e por isso...

--Suspenda, snr. meu sobrinho, suspenda o seu desnaturado pedido, que lh'o

roga esta velha, em nome do Nosso doce Salvador Jesus. Entregar a uma

inimiga declarada, o meu querido filho adoptivo, o innocentinho a quem

salvei a vida com desvélos e cuidados, que talvez custem--quem

sabe?--indelevel mancha ao convento de que sou indigna superiora?!...

Nunca, snr.! Nunca espere semelhante acção de sua thia... Deu-me ha tres

annos, por uma hora igual a esta, seu filho recem-nascido. Considerei-me,

quando me vi forçada a recebel-o para evitar escandalos, escolhida pelo

Nosso bom Deus, para exercer uma de suas infinitas obras de misericordia.

Vi-me attribulada para conseguir mitigar a sêde ao anginho, que dava gritos

dolorosos!

Fui eu mesma aos curraes buscar o leite necessario, e apartar depois a mais

formosa das nossas cabrinhas, para servir de ama ao innocentinho... Não me

foi possivel occultar por muito tempo, ás virtuosas madres minhas santas

companheiras, a existencia do menino n'este recinto protector. Todas ellas

tem affecto egual áquelle que eu dedico ao nosso bello Joãosinho. O nome,

que recebeu no sagrado baptismo, é o do milagroso santo padroeiro d'esta

villa, que ha de abençoal-o e protegel-o... É o enlevo de todas a triste

creancinha; é o cofre em que depositamos as joias das nossas affeições

mundanas. Este nosso affecto, não póde offender nem diminuir o que votamos

ao nosso doce esposo e bom Jesus, que é todo caridade, todo amor, todo

misericordia, todo compaixão para as fracas creaturas de que é pae

extremosissimo...... Assim que o meu querido filho adoptivo completar dez

annos, hei de separar-me d'elle, ainda que um rio de lagrimas me custe a

separação, porque não póde, nem deve, continuar a viver aqui; mas eu

escolherei o destino do abandonado infante. Pedirei ao nosso bom Deus, que

me inspire, e tenho fé em que hei de acertar... É esta, meu sobrinho, a

minha irrevogavel resolução. Recorde-se de que lhe ouvi, n'aquella noite

assignalada da entrega que me fez de seu innocente filho, a inaudita

blasphemia de que, se eu o não recebesse, o deixaria a qualquer canto de

uma estrada!... Um pae que profere taes palavras, perde, desde esse

momento, os direitos da paternidade... Snr. meu sobrinho! Digne-se Deus

esquecer os seus erros!...

Assim fallando, com um tom imperioso e sêcco, deixou a madre abbadessa

interdicto o seu interlocutor, que teve de retirar-se, não sem protestar

haver pela força e violencia, o que á boa paz não pudéra conseguir, ameaças

que ainda foram ouvidas pela respeitavel abbadessa.

Era fama por todo o Portugal, fundada em apparencias mais ou menos falsas,

que as noviças e senhoras religiosas do convento de Moimenta da Beira

attrahiam ás suas grades a flôr da mocidade das provincias da Beira e

Minho, não só pela notavel belleza de muitas d'ellas, mas, principalmente,

pelo modo affavel com que recebiam as suas visitas.

Dos mais assiduos frequentadores d'aquelle claustro, era um mancebo

elegante, distincto em acções e nascimento, que já havia sustentado

bastantes galanteios, com donzellas de todas as classes sociaes. Logo ao

principiar a juventude, creára compromissos de homem feito; e declarava a

sua vida intima, a todas as pessoas que o escutavam, com a leviandade

propria dos annos ainda verdes.

Fôra muitas vezes, sem elle o saber, espreitado pela respeitavel madre

abbadessa, em occasiões que se tornava expansivo com uma das mais lindas

noviças d'aquelle convento, que o attendia e mimoseava, ao palratorio, com

golodices e innocentes amabilidades.

Certo dia, foi-lhe alli entregue uma carta urgente, que pediu licença para

lêr. O contheúdo no escripto, fizera-o mudar o semblante tão salientemente,

que a formosa noviça não resistiu á tentação de perguntar-lhe, que má

novidade o pozéra assim.

--Está muito doente, um filhinho que tenho...

--Pois o snr., que é solteiro, tem um filho?!...

--Tenho, e quero-lhe tanto como se elle houvesse nascido do mais legitimo

matrimonio.

Amo as creanças em geral, e estremeço aquella a que dei a existencia. Todos

os sacrificios seriam insignificantes para mim, quando se tratasse de

salvar innocentes creancinhas. Sou novo, mas quer-me parecer que em tempo

algum perderei os sentimentos de que já me orgulho. Só reconheço a

legitimidade do sangue, que é perfeitamente igual nos bastardos como nos

filhos do mais santo hymeneu.

--Graças, meu doce Senhor Jesus, que já encontrei o que fervorosamente

pedia á vossa infinita bondade!... Disse uma voz, sahida do interior das

grades, que ambos reconheceram ser a da senhora abbadessa.

Appareceu á grade, acto seguido, a trémula e veneranda cabeça da

respeitavel superiora d'aquelle sagrado recinto, resplandecente de uma

auréola de luz divina, e pediu, com a mais terna affabilidade, á noviça,

que a deixasse ter um segredo com aquelle bondoso e nobre cavalheiro.

Revelou a santa velhinha ao mancebo, como em seu poder cahira do céu o

pequenino João, que alli escapára ao abandono de paes desnaturados.

Disse-lhe que muito receiava que o pae do innocente, movido por vil

interesse, tentasse apossar-se do filho pela violencia, o que não seria

difficil conseguir em uma terra certaneja, onde não havia segurança nem

para o asylo sagrado das esposas de Jesus Salvador. Pediu-lhe pelas

sagradas dôres de Maria Santissima, que tomasse a seu cargo o futuro

d'aquelle infeliz, que ella, amando-o como carinhosa mãe, confiaria do seu

cavalheirismo, porque uma voz occulta, que nunca lhe mentira, lhe dizia que

podia confiar. E quando, em algum dia dos poucos que tinha para viver,

podesse haver ás mãos documentos que aproveitassem ao seu querido filho

adoptivo, lh'os faria entregar por modo seguro.

Logo que os soluços e as lagrimas da santa freira deram logar a ser ouvida

do mancebo, a quem fizera tão estranha revelação e ponderoso pedido,

disse-lhe, com uma solemnidade inesperada, que podia ficar tranquilla, em

relação ao futuro da creança, que elle, desde aquelle momento, tambem

adoptava por seu filho.

Ás onze horas da noite d'aquelle dia, quem penetrasse até á porta das

cellas das religiosas benedictinas de Moimenta da Beira, sentiria lá dentro

lagrimas abundantes, porque todas choravam a ausencia de Joãosinho, fragil

e inoffensiva creatura, que aquellas bondosas senhoras amavam com maternal

affecto.

Ha sempre, mórmente em terras de poucos e incultos habitantes, vigias

nocturnas, homens morcêgos, que devassam os mais insignificantes

acontecimentos da rua, e que levam a sua audacia até ao ponto de

pretenderem sujar o sanctuario da familia com inducções calumniosas,

tiradas dos incidentes presenceados, a que não sabem nem podem dar

verdadeira interpretação.

O fallar-se dentro do convento a deshoras, o bulicio de homens e cavallos,

por occasião da entrada e tambem da sahida da creança, alguns indicios da

existencia do pequeno João junto das freiras, o bom gasalhado que as

trataveis madres davam ás suas visitas, e os commentarios exageradissimos

dos vadios indagadores,--foram causas, tão indignas como infundadas, da

extincção d'aquelle convento.

É assim, muitas e repetidas vezes, a justiça dos homens.

Ao leitor attento, escusado talvez seria declarar, que o mancebo a quem foi

entregue o pequenino João, se chama, n'este conto, Sebastião da Mesquita. E

a creancinha, salva da sanha de uma terrivel madrasta e da cobardia de um

indigno pae, pela santa abbadessa,--madre e mãe adoptiva--tem aqui os nomes

de João Vidal, o escudeiro.

V

UM LEVITA

«Apostolo é o pae que se afadiga

Só para que descance o filho amado;

Apostolo é a rocha em que se abriga

Ave agoureira e pobre desgraçado;

Apostolo é a lagrima que amiga

Cae pela face em peito amargurado;

E esse monstro do Céu que solitario

Correu o mundo á busca do Calvario.»

(_J. de Deus_--FLOR. DO CAMPO.)

Em Santiago de Esporões--antiga vigairaria do arcebispado bracarense, onde

Martim Ribeiro fundou uma capella chamada de Nossa Senhora da Caridade, e

estabeleceu um celleiro para os pobres, com dinheiro por elle adquirido no

Brazil--residia, no anno de 1799, uma honesta familia de pequenos

proprietarios lavradores, composta de marido, mulher e um filho de nome

Alvaro, rapaz de cinco para seis annos de idade.

Os apoucados lavradores, por mais de uma vez em tempo de más colheitas,

tiveram de recorrer ao celleiro dos pobres, restituindo o emprestimo,

quando mais farto era o anno, com o _avanço_ de seu alvitre, segundo o uso

e lei do estabelecimento de Martim Ribeiro, que não marcou limite ao juro

para os que o queriam e podiam dar.

É de mui antigas éras o costume portuguez, pronunciadissimo na provincia do

Minho, dos paes imporem o destino aos filhos, quasi ao sahirem da pia

baptismal. Este erro,--que tem origem na falta de illustração do povo, e

tambem, o que peior é, em calculadas conveniencias familiares,--dá em

resultado a troca de vocações, padrinho mal de muitas immoralidades e

ruinas. Algumas vezes sem o quererem, na idêa até de evitarem imaginarios

prejuizos, são os paes que forjam a completa desgraça de seus filhos,

marcando-lhes, sem escrupoloso exame, a estrada a proseguir no transito da

vida, trilho sempre difficil de aplanar, e impossivel de vencer sem

desastres, para os que o percorrem violentados.

Os pobres lavradores de Esporões, convencionaram fazer do seu unico filho

um vigario. Ter um padre na familia, ouvir-lhe a primeira missa e vêl-o

cura d'almas, é a suprema ambição dos camponezes.

Alvaro, havia de ser padre, porque seus paes o queriam. Tinham feito todos

os calculos; as propriedades que possuiam chegavam para o patrimonio; e

para as despezas da ordenação, quando minguassem os rendimentos, passariam

fome se tanto fosse necessario. As fortes e decididas vontades, não

conhecem obstaculos.

Chegou a hora de Alvaro tomar logar nas aulas de Braga. Alcançara-lhe o pae

alojamento na rua de S. João do Souto, em casas da morada de uma viuva bem

reputada e muito moça ainda, que havia calculado augmentar o pequeno

rendimento de seus poucos haveres com o lucro proveniente de apatroar um

estudante.

É d'este modo que bastantes familias, nas populações onde ha lyceus e aulas

publicas, diminuem as suas occultas necessidades.

Chamava-se Eugenia Soares a viuva, que o era de um alferes do exercito

portuguez, e contava vinte e duas primaveras no anno em que acolheu ao seu

lar o estudante Alvaro da Cunha. Este, havia completado 16 annos de idade,

e preparava-se para fazer exame do latim, que principiara a estudar na sua

aldeia, tendo por bom professor o parocho da freguezia.

Eugenia, não houvera filhos do seu matrimonio, nem conhecia parentes

proximos que lhe fossem amparo. Vivia em companhia de uma creada, que já o

fôra de seus paes antes d'ella nascer, que lhe queria como a filha, que

todos os dias recordava as virtudes de seus velhos e fallecidos amos, e que

era a sua unica conselheira e amiga. Antes de resolver a entrada de um

estudante em sua casa, consultára Eugenia a sua Theresa, que apenas

objectára dever ser o admittido ainda rapaz e não homem feito. N'aquelles

felizes tempos, só depois dos trinta annos completos se gosava o nome de

homem.

Quando a velha Thereza precisava de sahir ás compras, Eugenia e Alvaro

prestavam-se mutuo auxilio nos afanos domesticos. Nasceu assim entre elles

uma innocente intimidade, que os deleitava. Succedia repetidas vezes ter

Alvaro a delicadeza de preceder a patrôa no amanho das iguarias,

confundindo o seu trabalho com o de Eugenia, e dando isto logar a toques de

mãos tão singelos como perigosos nas edades em que o calor do sangue

traspassa a cuticula, e póde, pelo contacto, communicar as doenças physicas

e os ardores moraes: d'aquellas, e d'estes, ha a temer, após a

communicação, a reciprocidade de padecimentos, sendo o amor o mais fatal de

todos, por ser incuravelmente nervoso.

A viuva e o estudante adoeceram da terrivel molestia, que se não cura tendo

a séde na alma.

Decorreram cinco annos.

Faltava ao ordinando um exame, para completar o seu estudo e ficar preso á

egreja. Mais alguns mezes passados, e acabaria o engano das almas de

Eugenia e Alvaro, que já durava muito, livre de vicissitudes e de

impurezas.

Chegou o menorista, de ter passado as férias grandes na sua aldeia, sem

grande pesar de haver deixado a companhia dos paes, que trocava por outra

havida por mais terna: é assim o coração humano.

O estudante deparou com Eugenia physicamente mudada, e sobresaltou-o tão

rapida alteração. Viu pallida, magra, chorosa e pensativa, a mulher bella,

como sempre nos parece a do amor, que deixara, quarenta dias antes, com

todo o viço de uma feliz mocidade. Fez-lhe um montão de perguntas, e só

teve lagrimas em resposta.

As gotas de humor aquoso que sáem a pares dos olhos da mulher estimada,

transformam-se em ferros agudos, a rasgarem fundo na alma do homem que as

sente.

Seccaram-se as lagrimas: como? Ao sol do amor, que o menorista fez nascer

do soffrimento.

A mudez de Eugenia promoveu a de Alvaro. Em casos taes, o silencio é o

requinte do sentimento.

A noite d'aquelle dia passou-a o estudante a scismar. Quando pelas fendas

da janella do seu quarto conheceu o alvorecer, vestiu-se e sahiu. Não fez

reparo em achar apenas cerrada a porta da rua, por que a sua preoccupação

estava sobranceira aos factos materiaes. Caminhou sem direcção premeditada.

Ao passar no largo da Sé, viu aberta uma porta lateral da egreja, e foi

orar. Acabada a oração, reparou n'um vulto encostado a um confissionario,

em posição de penitente, e estremeceu: não a vira, adivinhara Eugenia

n'aquella confessada.

O que atravessou o espirito do ordinando por aquelle encontro?

Nem elle o saberia dizer. Só com grande esforço, conseguiu recolher-se a

casa e deitar-se vestido sobre a cama. Passadas horas, e já quando se

tornou reparada a falta de Alvaro á primeira refeição, entrou a velha

Thereza no quarto do estudante e perguntou-lhe se estava doente.

--Doente, e muito. Diga á snr.^a D. Eugenia, que estou vestido, como vê, e

que lhe peço a mercê de vir fallar-me.

Eugenia, entrou no quarto de Alvaro, e aproximou-se do leito com

sobresalto. O doente, levantou rapidamente a cabeça e, sem dar tempo a

perguntas, disse:

--A senhora tem a bondade de mandar a Thereza procurar um portador que vá

já buscar meu pae?

--Para quê?!

--Para sahir d'esta casa e d'esta terra immediatamente, a vêr se posso

curar-me do mal que me assaltou esta manhã, e passar o resto da vida como a

passam meus paes... Já não quero ser... _padre_!

--Foi _elle_, foi, Alvaro, que me aconselhou a despedir-te!... Mas eu

amo-te, ouves? e não quero que me fujas... Deus não póde ser tão severo

como diz _aquelle_ seu ministro; ora não?... E eu morria se tu me

faltasses; tenho a certeza de que morria... Vês? Só agora, que deveria

proceder de modo bem opposto, se attendesse aos dictames do meu confessor,

é que rompo o véu do meu coração!...

A severidade, talvez egoista, de um padre indelicado, accelerou o natural

desfecho d'aquellas relações.

A missão melindrosa do confissionario, mais ainda que a do pulpito, só

devia ser confiada a cabeças muito sãs, e a purissimas almas.

Alvaro, ficou e sarou logo: bem dever era, que ficava e que sarava. Depois

de scenas assim expansivas, é que nós não _ficamos_ pela continuação da

pureza no sentimento.

Na epocha propria, fez o estudante o exame que lhe faltava, e ficou

habilitado a tomar ordens ecclesiasticas. Seguraram-lhe os paes o

patrimonio em todos os seus bens, e vieram pernoitar á cidade, em companhia

do filho, na vespora do dia em que elle devia ficar para sempre ligado á

egreja, que houve por bem condemnar os seus ministros á mais terrivel das

solidões,--á solidão d'alma!

Chegada a hora da ceremonia, foram vêr o religioso e solemne apparato, os

paes de Alvaro, acompanhados por Eugenia e pela creada Thereza. Quando o

ordinando appareceu revestido do habito clerical, cahiu a desditosa

Eugenia, com o sangue gelado, nos braços de Thereza. A boa da serva, ficou

tambem semi-morta.

Estavam finalmente realisados os ambiciosos sonhos dos velhos lavradores de

Esporões.

Alvaro, era presbytero!

VI

CELIBATO

«Deus me livre de discutir materia tantas vezes disputada, tantas

vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do mundo, e pelos que

sabem a sciencia do céu!»

_Alex. Herc._--EURICO.

Um conto portuguez: episodio da guerra civil: a Maria da Fonte · 第 2 / 14 段