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UM CONTO PORTUGUEZ
UM CONTO PORTUGUEZ
EPISODIO DA GUERRA CIVIL
A MARIA DA FONTE
POR
MIGUEL J. T. MASCARENHAS
PORTO
Typographia Lusitana
84--Rua das Flores--84
1873.
DEDICATORIA
A MEU FILHO
GASPAR TEIXEIRA DE SOUSA MASCARENHAS
Dedico-te o meu unico livro.
Dos variados escriptos meus, é este só que aprecio, porque empreguei n'elle
todo o meu cabedal, vontade tenaz, e a escrupulosa consciencia dos quarenta
annos repletos de provações.
Principiado na convalescença de perigosa enfermidade, á cerca de quatro
annos, só hoje foi concluido. É certo que precisei estudar, e ler muitos
livros portuguezes de lei; mas a demora na conclusão do «Conto Portuguez»,
deve, como sabes, tambem ser attribuida aos meus constantes padecimentos
physicos, que me não consentem atturados trabalhos de nenhum genero.
Escolhi-te para esta dedicatoria, porque tens no peito por tua indole e
minha insinuação, bem gravados todos os nomes das pessoas a que devemos
eterno reconhecimento: és como um ponto de reunião dos nossos bons amigos
que assim me parece contemplar sem o melindre da preferencia.
Guimarães, 12 de Agosto de 1873.
Teu pae muito amigo
Miguel J. T. Mascarenhas.
PROLOGO
Não ha forças humanas que nos destruam as tendencias.
Quando o pae d'um antigo poeta latino castigou severamente o filho por
escrever poesias, ouviu do castigado um famoso verso heroico, como promessa
de não compôr mais versos.
Desde os onze annos de idade que sinto uma irresistivel attracção para as
letras.
Não frequentei escólas: apenas me ensinaram o--a, b, c. Em tal ignorancia,
como chegar á realisação dos meus ambiciosos sonhos, que todos eram de vêr
em letra redonda a minha «letra de mão»?!
Tive por unicos auxiliares da minha ambiciosa quanto ardua empreza, a muita
leitura, de boa ou má digestão, o muito ouvido, a muita vontade, e a muita
audacia, que é o fructo da ignorancia.
Tenho soffrido decepções amargas, por muitas das minhas impensadas
obrinhas: se eu fui escrevedor de gazetas!...
Remirei os meus peccados, com a publicação d'este livro?...
Sugeitei a primeira parte do «Conto portuguez» á censura d'um dos mais
eruditos litteratos do Minho, que se dignou fazel-a, com a pericia e
imparcialidade dignas d'elle. Os seus prudentes e sabios conselhos, a que
dei todo o peso, estiveram, por um triz, a matar a obra: depois de ler o
bom juizo do meu sensor, tudo que eu havia escripto me parecia horrendo.
Resolvi, pois, concluir, e dar publicidade ao meu «Conto» sem continuar o
prévio exame da pessoa competente a que me refiro. A rasão d'este proceder,
que parece atrevido, está no vehemente desejo de ver publicada a obra, e na
minha indole de hoje: tive já tanto de audacioso, quanto agora tenho de
poltrão. O estudo, os annos, e tambem as doenças, concorreram para a
mudança: vem sempre tarde o perfeito conhecimento da nossa ignorancia. Não
curo do concerto, para não desabar o edificio. Se continuasse a apresentar
o meu trabalho, como tencionei, ao mesmo excellente critico, e elle como é
de crer, lhe notasse os defeitos,--morria o «Conto» com toda a certeza:
morria, porque eu, por um erro apontado, desconfiava que fossem erros todas
as palavras.
Seria melhor?...
São exactissimas as citações que faço tanto na parte historica como na
romantica, colhidas em livros insuspeitos; e o que é acção do «Conto», sem
ter allusões determinadas, é, com tudo, verdadeira: são muitos factos, meus
conhecidos, desviados das épocas e logares em que se deram, atados e
compostos com a arte de que posso dispôr, e postos a cargo de imaginarios
personagens.
Resta-me dizer que, na pontuação, segui o systema de regular a escriptura
pelas pausas do discurso. Regras, deduzidas dos principios ideologicos, e
da grammatica geral, não estão ainda assentadas, e já é tarde para o serem.
Assim, entendi que não errava, seguindo opiniões esclarecidissimas, que
podem ser capitaneadas pela mui douta opinião do nosso immortal padre
Vieira, manifestada, por exemplo, n'este famoso periodo:
«Arranca o estatuario uma pedra d'essas montanhas, tosca, bruta, dura,
informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na
mão, e começa a formar um homem; primeiro, membro a membro, e depois,
feição por feição, até a mais miuda: ondeia-lhe os cabellos; aliza-lhe a
testa; rasga-lhe os olhos; afila-lhe o nariz; abre-lhe a bocca; avulta-lhe
as faces; torneia-lhe o pescoço; estende-lhe os braços; espalma-lhe as
mãos; divide-lhe os dedos; lança-lhe os vestidos: aqui desprega; alli
arruga; acolá recama: e fica um homem perfeito, e, talvez, um sancto, que
se póde pôr no altar.»
Guimarães, 12 de Agosto de 1873.
Miguel J. T. Mascarenhas.
PRIMEIRA PARTE
HONRA
«No que o mundo chama _honra_ ha muitas vezes mais vaidade que virtude».
(DR. CORRÊA DE LACERDA).
UM CONTO PORTUGUEZ
I
TREZ DONZELLAS
«....................
Tres, sim. Não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Tres são as Graças,
Tres, as Virtudes,
Tres.»
«_João de Deus_--FLOR DO CAMPO.»
Ao cahir da tarde de um dia que fôra borrascôso, no mez de Maria de 1846,
avistavam-se, em preparados assentos de terreiro povoado de arvores
floridas junto do atrio de nobre e vetusto domicilio, no valle de Sousa,
das cercanias de Penafiel, tres formosas donzellas em colloquio intimo. O
donaire de uma d'ellas e, a par de seu garbo senhoril, a riqueza e o bem
posto de seus atavios, estremando-a das companheiras, annunciavam a elevada
posição social a que pertencia. A natureza é que fôra egualmente prodiga
para todas tres, no tocante a dotes physicos. Possuiam essas feições
caracteristicas das nossas mimosas portuguezas--e não é cego patriotismo
esta asserção--que reunem o que ha de seductor em todos os typos do mundo.
Chamava-se a fidalga D. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho:
por menos euphonico que pareça este ultimo appellido--seja dito aqui
ligeiramente--é muito nobre e muito peninsular.[1]
D. Maria achava-se no gôso de todas as caricias da familia, porque vira
fallecer, um após outro, cinco irmãos varões, ficando a ser, por tal falta,
o unico enlevo de seus nobres e abastados progenitores; como tambem
usofruia o respeito admirativo de todos os mancebos de muitas leguas em
redor de sua habitação, por ser esbelta; possuir cintura como de vespa; pés
pequenissimos; mãos a que todos os poetas--e os democraticos mais que
todos--chamam aristocraticas, por não encontrarem palavra mais
significativa do bello; rosto comprido; tez pallido-rosa; nariz um tanto
aquilino; olhos pretos, rasgados em fórma de amêndoa, e penetrantes; bocca,
ainda que não mui breve, attrahente e engraçada, pelos alvissimos dentes
que sustinha, e delicioso sorrir que semeava; cabellos que se lhe formavam
em natural e opulenta corôa; piso de alvéloa sobre gêlo, e... mais de
trezentos mil cruzados em dote.
Digamos em abono de poucos dos frequentadores da morada de D. Maria, que as
magnificas e rendosas propriedades da gentil fidalga, entravam, só por
ultimo, nos calculos que faziam, e nos sentimentos que manifestavam.
A donzella que apresentamos como principal heroina do nosso conto--que á
força de ser verdadeiro ha de parecer inverosimil--apenas desmentia os seus
nobilissimos antepassados na applicação ao estudo, e nos apreciaveis
resultados que de tal ia colhendo. Era já mais de mediocremente instruida,
e muito além do geral das senhoras portuguezas.
Sobre a instrucção, devia a Deus um talento investigador, que, junto ao
espirito repentista do sexo, dava á briosa fidalga proveitosas vantagens.
Sustamos este bosquejo da nossa estremada heroina, que muita occasião
teremos de pôr em relêvo seus dotes e qualidades.
As companheiras de D. Maria, chamavam-se Anna de Jesus e Rosa de Lima,
estimadas filhas de dous dos muitos caseiros da fidalga. Eram muito
parecidas, apesar de não conhecerem parentesco algum entre si, e tão
similhantes uma á outra, que muitas vezes as confundiam, e lhes trocavam os
nomes.
Fallaremos de fugida nos dotes physicos de Rosa e Anna: altas; delgadas;
fórmas airosas, ainda que incompletas; tez alva; olhos azues; cabellos de
fino ouro, e um todo encantador, que os modestos trajes não conseguiam
abafar completamente, antes deixavam transluzir suas occultas bellezas.
Anna de Jesus era docil; timida; e de umas crenças religiosas, que tocavam
na beatice. Ao avêsso, Rosa de Lima, era agil; viva; falladeira; sequiosa
de saber; crente, sim, na religião de seus paes, mas desprendida de certas
apparencias, a que ella sabia chamar _phantasias sagradas_.
Anna, interrogada, demorava as respostas que dava, e sahiam-lhe, por assim
dizer, coadas pelo receio de não acertar. Rosa, respondia a tudo com a
rapidez do relampago, e algumas vezes, com admiravel acerto. Ambas deviam á
boa indole, e amisade de D. Maria, o saberem lêr e escrever, quasi
correctamente, pelo que, e tambem pela convivencia com a esmerada e
voluntaria preceptora, mostravam uma util superioridade ás demais donzellas
da mesma classe.
A mais velha das nossas tres heroinas, que era a fidalga, contava apenas
dezoito primaveras.
Rosa, e Anna, ignoravam a edade que ao certo tinham, sustentando, com tudo,
o pueril capricho de que não era mais velha uma do que a outra.
Rosa de Lima, mal conhecera o pae, fallecido ha dez annos, que fôra desde
rapaz caseiro em uma das propriedades do casal de D. Maria, onde a viuva e
a filha foram conservadas, mesmo com prejuizo do bom amanho das terras,
como costumavam proceder os bons fidalgos portuguezes, em grata memoria
d'aquelles que bem os serviam. A mãe, alquebrada pelos trabalhos mais que
pela idade, tudo confiava da sua querida Rosinha. E sempre na filha tivera
embebidos os olhos, e a alma presa.
Rumorejava o povo contra o extremo maternal da mãe de Rosa, conhecida por
Emilia do Adro, attribuindo-lhe causas mysteriosas, o que mais d'uma vez
fôra origem de mágoas para o marido, José do Adro, o fallecido pae de Roza.
Quasi sempre, o povo condemna sem averiguar, d'onde lhe vem o ser pouco
certeiro nos juizos que fórma, embora tenham alvo, proximo ou remoto, os
rumores de que se faz echo.
Anna de Jesus, vivia na companhia de seus paes, ainda novos e vigorosos, e
de quatro irmãos mais velhos, que eram completos homens do campo.
Empregava-se no arranjo do bragal, e misteres internos, e quasi
desapercebida passava, a existencia da timida Anna, no centro de sua
laboriosa e rude familia.
Não deve ser estranhada a confiança que D. Maria da Gloria dava, como
iremos conhecendo, ás filhas de seus caseiros. E de certo o não estranham,
aquelles dos leitores que bem conhecerem a distincta affabilidade no trato
da verdadeira nobreza de Portugal, mórmente com as pessoas de condição
humilde.
Corre um tempo pouco favoravel á nobreza de sangue, no dizer dos que só
d'esta herança desdenham.
Respeitam-se todos os titulos hereditarios, menos aquelles, que provam uma
geração briosa, e heroica!
Porquê?
É facil a resposta, a quem a quizer dar em boa fé: ralha-se do que se não
póde ter. Adquirem-se bens de fortuna, distincções, tudo: só não é possivel
mudar-se o berço. E quantos o mudariam, se podessem, mesmo na occasião do
seu mais frenetico vociferar contra a nobreza herdada!...
Sejamos justos: haja consideração para tudo que o merece, que o bello é de
todas as classes sociaes.
Descender de boa extirpe, é indubitavel gloria, e tambem onus, que obriga a
muito.
Os que hoje adquirem nobreza,--e é comezinho o accesso,--se podessem
testimunhar d'aqui a trezentos annos os gabos de seus fidalgos descendentes
aos heroicos avós, não ficariam repletos de intima alegria?
Abrandem, pois, os propagadores demagogicos, as democraticas íras, em que
decerto já tem parte o muito plebeu auctor do conto, e deixem-nos dizer,
com um dos nossos doutos portuguezes, que não ha cousa mais estimavel e
bella, que a nobreza do sangue, junta á nobreza do coração: é uma saphira
engastada em oiro purissimo.
O colloquio das tres donzellas, fôra assim:
--Pareces-me hoje mais pensativa, ainda que de costume, minha estimavel
Anna, o que tens tu?
--Pensará talvez nas Ladainhas, e no jejum, fidalga;--respondeu, pela
interrogada, a falladeira Rosa.
--Ora vamos, travessura da vida!... Já te prohibi que me chamasses fidalga,
como tambem te fiz vêr, o respeito que se deve a tudo que prende com a
religião que professamos. Bem deves conhecer, que tenho auctoridade de
mestra, e que posso chamar á palmatoria a discipula rebelde...
--Diz bem fidal... snr.^a D. Maria; e aqui tem a mão, sem fazer momices...
mas eu só digo estas coisas no intuito de animar um pouco a nossa Annitas,
que parece mesmo a figura da tristeza, quando não ha motivos para lagrimas.
--Tu pódes lá saber, o que vae no coração da nossa amiga, doudinha?
--Sabe de certo, minha senhora, porque entre nós tres não ha
segredos;--respondeu a custo a questionada donzella.
--Não ha, não... Juro por Santa Rosa de Lima, da qual tenho o nome e
desejara ter as virtudes, que a nossa scismadora, Anna de Jesus, me tem
revelado todos os seus mais vedados pensamentos... Por exemplo: se tem a
desventura de deixar uma noite cahir a candêa, e emborcar o azeite, para
logo prevê graves successos, que fielmente me vae narrar... Se estala um
vidro na casa, toda se encolhe, como a sensitiva, empallidece, treme, e
diz-me, depois, que grandes calamidades nos esperam... Se entra no meu
casebre, e vê que eu, por melhor disposição ou limpeza, deixei ficar a
minha cama com os pés para o lado da porta, faz tal exclamação, que devéras
me assusta; e...
--Basta, tontinha, basta... interrompeu D. Maria, entre frouxos de riso.
Não será possivel conseguir que tu deixes de atormentar, com as tuas
graças, a nossa commum amiga?
--Deixe-a fallar, minha senhora, que eu necessito ouvil-a, a vêr se perco
algum do meu natural acanhamento. Conheço-me defeituosa, e sinto não ter a
necessaria força para vencer os meus defeitos. Apraz-me sentir um aviso de
Deus, nas jocosas palavras da boa Rosinha.
--Nem tanto, pequena, que me arrependo já... Fazeres de mim, por obra do
Eterno, um propheta de saias, é mais pesado do que ouvir-te quantos
preconceitos aprendeste de teus crédulos parentes.
--Se tu confessas que foram aprendidos, como posso eu ter culpa das culpas
alheias?... Não é assim, minha senhora?
--Dizes pouco, mas sempre bem. É o resultado de quem pensa o que diz. O
favor que me fazes de _tua senhora_, é que eu não queria receber. Chamai-me
só D. Maria, já que não quereis habituar-vos a um tratamento mais intimo, e
proprio das nossas idades, como eu appetecia.
--Era o que faltava! As rainhas bem amigas são das damas do paço, e mais
estas ajoelham-se para beijarem a mão de sua real ama...
--Invejo-te a verbosidade e o talento, querida Rosa... Has-de chegar a
muito se fôres bem fadada por Deus.
--Vês, Rosinha, _minha vassalla_, que o mal da inveja tambem toca nas almas
como a da nossa Annitas!?
--Aquillo, senhora, não é inveja, é mostrar que _pensa o que diz_... mas é
muito de crêr que nem sempre _diga o que pensa_...
--Com a tua pessoa, em jogo de bons ditos, minha doutora, não ha partido...
Olhai!... Se não são visões do crepusculo, o que eu diviso, é muita gente
reunida na serra de Guilhufe!...
--É muito povo, é, snr.^a D. Maria! Responderam, a uma voz, surprehendidas,
as duas amigas da fidalga.
--É caso extraordinario! A esta hora, e n'um dia de serviço!... Ahi vem o
sobrinho do snr. reitor, que nos vai dizer o que significa aquelle
ajuntamento...
Interrogado, o recem-vindo, pelas tres donzellas ao mesmo tempo,
respondeu,--precedendo um cumprimento de cabeça, por lhe não darem logar a
outro--é... a «Maria da Fonte!»
[1] Na _Historia da casa de Lara_, e n'um manuscripto, de 1676, do
padre Manoel da Purificação Magalhães, vê-se
escripto==_Avendanho_==; mas os modernos senhores do nome,
assignam-se--_Abendanho_. A nobre familia dos Abendanhos, veiu para
Portugal no tempo de El-Rei D. Diniz. O seu brasão compõe-se de
cotta d'armas de prata, em campo azul, trespassada por tres setas
manchadas de sangue, com a legenda: _Sine sanguine non est
victoria_.
II
RUGIDO
«Não vêdes, que nos destruiremos a nós, e á nossa Republica, se
intentarmos cousas, que não podem ser, porque nos hão-de dar na cabeça
todos esses remedios?»
(_Vieira_--ARTE DE FURTAR.)
Ha palavras, que excitam o espanto dos ouvintes, sem visivel rasão
justificativa do enleio: aquellas--«Maria da Fonte»--tiveram esse condão.
Interrogado, e interrogantes, entraram silenciosos na casa solar de D.
Maria da Gloria, em direcção á sala chamada das visitas, onde estavam os
velhos senhores d'ella.
Não seremos exagerados dando o nome de palacio, á nobre e grande habitação,
que fazemos aqui figurar. Antes de se chegar á sala de recepção,
encontravam-se immensos salões e repartimentos, tudo a desafiar, pela
solidez, a acção do tempo, como são quasi todas as antigas edificações
portuguezas.
Na sala de visitas, para não desmentir o adagio muito nosso,--«Em Maio
florido, ainda ao brasido»--havia lume no fogão. Em cima de uma mesa
circular, estava um grande candieiro de metal amarello, com quatro bicos; e
postos nas demais mesas, castiçaes de prata, com vélas de cêra: moveis de
pau santo, cadeiras de espaldar, com botões de metal e arabêscos esculpidos
em sola, e denotando haver sido mudas testimunhas da passagem de algumas
gerações.
Nas duas portas, que nos topos da sala se defrontavam, estavam pendentes de
fortes lanças reposteiros de grossa baêta encarnada, em que se viam
bordadas as armas de familia. Ao lado dos reposteiros, occupando parte da
parede, pendiam dous grandes quadros, representando, um d'elles, S.
Sebastião, e o outro Santa Isabel, primores de arte do celebre pintor
portuguez Affonso Sanches Coelho, que foi protegido pelo snr. principe D.
João, pae de El-Rei D. Sebastião, e depois apreciado por Filippe II de
Hespanha, onde morreu mui favorecido da côrte.
Na parede fronteira a nove rasgadas janellas, que olhavam para um lindo
jardim, e famoso vergel de fructiferas arvores, estavam suspensas de
grossos cordões de sêda, de côr verde, as arvores genealogicas dos
Mesquitas, Bandeiras, Abendanhos, Souzas, e Mellos; collocados por cima
d'ellas, seis antiquissimos retratos de antepassados d'aquelle solar.
Pelas mesas da sala, viam-se espalhados alguns livros, e periodicos da
época, merecendo especial menção um alto e largo volume, agasalhado em
veludo côr de rosa bordado a ouro, que dava a razão dos nobres appellidos
da familia, e, minuciosamente, contava as honras, e mercês a ella
concedidas, pelos monarchas, e senhores de Portugal.
Sebastião da Mesquita Bandeira de Mello, pae de D. Maria da Gloria, e
verdadeiro representante e possuidor d'aquella casa, era um velho fidalgo
portuguez, dos rarissimos que chegaram até nós, sabendo fazer acatar a
nobreza de sangue, que é ephemera sem a nobreza da alma. Era alto; direito,
apesar dos seus 70 annos; com fartos bigodes; olhos grandes,
castanhos-escuros; de olhar suave, que elle sabia, a proposito; tornar
imperativo; fronte elevada; cabellos brancos, e ar magestoso.
Affavel em extremo, só era Sebastião da Mesquita, intransigivel, com os
desvios da honra. Recebia gentilmente em sua casa todos que n'ella se
acolhessem, e mui difficil seria não voltar alli tendo-se lá entrado uma
vez. O verdadeiro culto, que prestava á nobreza, levava-o a ser nimiamente
sevéro para as fraquezas dos nobres. O que fosse fidalgo, havia de
mostral-o mais pelas suas acções do que pela ostentação de seus
pergaminhos: era este um dos invariaveis preceitos do velho nobre.
Não se attingiam de repente as sympathias de Sebastião da Mesquita.
Tratando a todos--nobres e plebeus--sem odiosas distincções, sabia occultar
as preferencias, que talvez sentisse. Ainda assim, sustentava, sempre que
se lhe deparava occasião, conversas demoradas e intimas com Arthur Soares,
sobrinho do reitor da freguezia, e, só este, no dizer dos analysadores,
merecia ao velho fidalgo reservadas prerogativas.
D. Isabel de Abendanho e Sousa, prima e esposa de Sebastião da Mesquita era
uma idosa senhora, que deixava ainda entrever alguns traços de belleza,
pelo meio das ruinas do tempo, e do soffrimento, com a prematura morte de
seus cinco filhos varões. Toda entregue á direcção interna do seu casal,
só á noite apparecia na sala das visitas, á hora do chá, servido o qual, as
pessoas estranhas á familia da casa, não a viam mais, até á mesma hora do
dia seguinte.
Manifestava certo respeito ao marido, muito voluntario que não imposto, e
adorava a filha, como unico existente penhor do seu inalteravel affecto ao
esposo.
A todas as pessoas apparecia D. Isabel com um mólho de chaves prêso á
cintura, o que lhe grangeou o epitheto de--_fidalga das chaves_--dito pelo
povo, á bocca pequena, sem o menor intento de offender a virtuosa e velha
fidalga. As chaves, companheiras inseparaveis de D. Isabel, provavam
unicamente, vigilancia e cuidado de boa dona de casa, que confia mais em si
do que nos melhores criados e familiares; e não diziam, de nenhum modo,
avareza, ou mesquinhez. E tanto isto assim era, que o povo igualmente a
denominava--_chaveira dos pobres_,--em grata allusão ás immensas esmolas,
que distribuia, e fazia distribuir, pela freguezia; além das que
diariamente se davam á porta d'aquella nobre casa, que, n'isto, se
assemelhava á portaria d'um convento.
Falta apresentar aos leitores, o cavalheiro que vae acompanhando as tres
donzellas.
Arthur Soares, sobrinho do reitor d'aquella freguezia, era homem de 27
annos de idade; sympathico; bem parecido; insinuante; grave; erudito sem
affectação; brioso; conveniente em todos os seus dizeres, e procedimentos;
sobrio em palavras; vestindo com modesto aceio, e tratando todas as pessoas
com respeito e dignidade. Quando mancebo, frequentara eschola de primeiras
lettras; e o seu verdadeiro estudo principiou aos quinze annos de idade, e
teve logar, sem presidencia de mestres, apenas auxiliado pelos livros de
seu thio reitor, e pela sua privilegiada intelligencia, e natural talento.
Era Arthur conhecido em muitas terras de Portugal, e, por todas ellas, a
nobreza de sangue lhe mostrava apparente agrado, desdenhando sempre do
plebeu, que entendia saber um pouco de tudo, e que dava seus ares de
fidalgo orgulhôso. Os capitalistas, os grandes proprietarios, os modernos
titulares, todos os homens de fortuna, emfim, olhavam de soslaio para o
litterato sem diplomas, que se atrevia a mostrar indifferença pelo
dinheiro, o rei do mundo.
Fóra da residencia de seu thio, n'aquella freguezia, só era visto Arthur
Soares em casa de Sebastião da Mesquita, seu padrinho de baptismo, que o
considerava do modo que já dissemos.
Ao entrarem na sala das visitas, as quatro pessoas que acompanhamos desde o
terreiro, ouviram-se badalar as _Ave-Marias_ no campanario da terra, o que
logo fez pôr em pé os velhos senhores da casa, dos quaes se aproximaram as
donzellas, e Arthur, e todos, com a devida reverencia, resaram em côro a
conhecida oração da Santissima Trindade. Acabada a resa, foi D. Maria
beijar a mão e a face de sua mãe, e, depois, curvando os joelhos, pediu a
benção ao pae, que lhe offereceu a face direita, onde D. Maria depositou um
respeitoso osculo.
As duas companheiras de D. Maria, pediram, de mãos postas, a benção aos
velhos fidalgos, que as acariciaram, chamando-lhes as lindas discipulas de
Maria, nomes com que Sebastião da Mesquita as dava a conhecer ás suas
visitas.
Arthur Soares, saúdou D. Isabel, beijando-lhe as extremidades dos dedos da
mão direita, e recebeu um amplo aperto de mão do fidalgo, acompanhado das
palavras--bem vindo, afilhado--e de um certo fitar, que n'elle demonstrava
contentamento, e interesse pela pessoa a quem o dirigia.
Estabelecida certa liberdade familiar, promovida pelos velhos fidalgos,
occuparam as cadeiras proximas do fogão, Sebastião da Mesquita, D. Izabel e
Arthur Soares. D. Maria e as suas discipulas procuraram outro lado da sala,
onde podessem confidenciar, á vontade, os mil nonadas, que são os encantos
dos annos verdes, e, algumas vezes, até dos já illustrados pelo estudo.
Rosa, e Anna, ficaram de pé, aos lados da cadeira, occupada por D. Maria:
só tomavam assento na presença dos velhos fidalgos, quando estes
imperativamente o ordenavam. Sebastião da Mesquita e D. Isabel--diga-se a
verdade--não desgostavam d'aquella prova de submissão, e quasi sempre se
esqueciam de lhe pôr termo. É que o barro, por mais apurado que seja, tem
asperezas, que só em pó se desfazem.
Passado pouco tempo, D. Isabel sahiu da sala, e o fidalgo estabeleceu com
Arthur o seguinte dialogo:
--Que pesadelo o fez triste, como parece estar, snr. meu afilhado?
--Tenho que dar a v. ex.^a a desagradavel noticia de que o povo se agita em
desordem, começada por não sei que «_Maria da Fonte_» das proximidades de
Lanhôso, e temo que os tumultos cresçam até á altura de revolução, porque a
semente lançada pelas paixões partidarias hade produzir os benésses a que
miram os curas da imprensa desenvolta.
--É cousa essa, snr. Arthur Soares, que não deve surprehender aquelles que,
como nós, acompanharam de longe as dissensões, e os desacertos, da familia
liberal, a que não pertenço pela communhão de idéas, mas que desejára, como
portuguez, vêr prosperar, para o bem de todos. E o que diz e faz o povo?
--O povo diz, _que abaixo o ministerio e as contribuições_, e queima os
mappas, que se mandaram encher, para um novo systema de contribuições,
reprovado, sem analyse séria, pelos partidos da opposição, que incutiram
nas massas ignorantes o absurdo de que aquelles papeis serviriam de
documentos para hypotheca da propriedade aos inglezes!
--Quando haverá seriedade nos homens politicos, que assim fazem brinco de
uma nação?!
--Neguei até hoje, o meu voto aos bandos politicos militantes, que já da
gloriosa ilha Terceira vieram eivados do mal, que devia affectar o heroismo
de um povo, e d'um rei-soldado. Os feitos praticados dentro das muralhas da
invicta cidade da Virgem, dariam assumpto para uma epopéa, se não tivessem
a macula de fratricidas... Perdôe v. ex.^a o modo de vêr da moderna
eschola, que isto de nenhuma sorte escurece a grandeza, d'aquellas épochas
de conquistas, e de independencia, em que nobres antepassados de v. ex.^a
manejaram a espada, com proveito, e immortal honra d'estes reinos. Bem
sabe, que sou liberal...
--Sei que é homem de bem, snr. Arthur Soares, e não me repugna a liberdade
de que V. S.^a é apostolo. Á licença, ao desenfreamento de paixões
interesseiras, ao que promove a desunião da familia portugueza, é que um
soldado da independencia, como eu fui, não dará em tempo algum o seu
preito. É V. S.^a o mesmo que confessa,--e dizem outro tanto todos os
liberaes de boa fé--que muito é para temer a desintelligencia que lavra
entre os que tanto precisavam de união. Tambem eu partilho esse receio pelo
meu paiz, sem que n'isto tome parte qualquer tendencia que possa haver em
mim, para applaudir outra fórma de governo. O que eu desejo, antes das
proprias conveniencias, é o bem geral, o engrandecimento d'este torrão
abençoado, em que nasci, e onde queria morrer portuguez. Estas continuadas
luctas intestinas, que nos trouxe a constituição, desdizem da felicidade
por ella annunciada, e quem sabe o que poderão causar-nos!...
--Talvez a perda da nossa autonomia... É possivel. Mas as grandes
transformações sociaes, snr. Sebastião da Mesquita, não se operam sem
abalos mais ou menos fortes. Consinta-me V. Exc.^a, que ainda confie no
futuro. Entre os vultos liberaes, ha caracteres nobilissimos, completamente
devotados á causa nacional. Se conseguirem aproximar d'elles, aos altos
cargos da governação publica, todos os homens competentes sem distincções
partidarias, póde a náo do estado tomar norte, e trazer-nos éras de paz e
de prosperidade.
Foi n'esta altura interrompido o dialogo por um escudeiro de habito de
Christo, que vinha dar parte a Sebastião da Mesquita de que se achava o
terreiro coberto de povo, e á sua frente o Exc.^mo Leopoldo de Moraes
Lencastre, do Marco de Canavezes, que pedia licença para entrar.
Antes de dizermos a ordem que Sebastião da Mesquita deu ao escudeiro,
lembraremos de passagem duas cousas: primeira, que não sirva de prejuizo ao
cofre nacional, pela falha de direitos de mercê, a noticia de haver
_escudeiros_ com habito de Christo, porque é facto averiguado que os houve,
e não sabemos se ainda existem alguns. Eram homens de merecimento, a
maioria d'elles soldados companheiros de seus amos, e de provado valor e
lealdade.
Segunda: que na rapida descripção que fizermos da guerra civil
contemporanea, seremos completamente isentos de sympathias pelos partidos
ou grupos que dividem os politicos de Portugal. Respeitamos todos os
homens, não temos odios nem invejas, e ajuizamos das cousas com o justo
criterio da imparcialidade.
Sebastião da Mesquita, levantou-se e disse ao escudeiro, que mandasse
entrar toda a gente. D. Isabel, veiu á sala um pouco perturbada, e
perguntou ao esposo, para dizer alguma cousa, se queria que fosse servido o
chá. Sebastião da Mesquita, respondeu placidamente, que era magnifica
occasião de beber agua quando estivesse o povo na sala, porque se viesse
com más tenções fugiria d'ella como de sua figadal inimiga... Via-se que
Sebastião da Mesquita, estava ou queria mostrar-se tranquillo e jovial.
D. Isabel foi tomar logar no centro das tres donzellas, que ficaram mudas
de espanto pela ordem que ouviram dar, e não de todo livres de receio,
embora tivessem sempre observado no povo extrema consideração pelo velho
fidalgo. Conservaram-se com tudo impassiveis, como estavam costumados a
proceder todos os familiares do fidalgo, quando este manifestava a sua
vontade.
Arthur Soares, collocou-se á esquerda do padrinho com tão natural aspecto,
como se fôra a continuar a conversa interrompida.
O escudeiro, entrou de novo na sala com uma grande salva de prata e sobre
ella uma espada antiga, com cinturão, que, sem dizer palavra, offereceu a
Sebastião da Mesquita. O velho fez repentinamente um gesto de espanto, que
o escudeiro presenceou sem pestanejar; em seguida sorriu-se, como se
disséra--lembraste bem,--e pendurou a espada á cinta, com a pericia propria
de um antigo official de cavallaria. Logo depois, era annunciado, e dava
entrada na sala, o Exc.^mo Leopoldo de Moraes Lencastre, que foi recebido
friamente: nas tres donzellas, é que se poderia notar a apparição d'um tal
ou qual rubor intraduzivel para os circumstantes, ao conhecerem o fidalgo
moço.
--Sou o mais dedicado servo de V. Exc.^a meu presadissimo primo e senhor da
Mesquita;--principiou por dizer o fidalgo Leopoldo, acompanhando estas
palavras de mesura palaciana, a que Sebastião da Mesquita correspondeu com
um ligeiro curvar de cabeça.
--Tenho a honra de me dirigir a V. Exc.^a em nome da soberania popular,
para que se digne acceitar o commando dos bravos camponezes da comarca, que
na cidade acabam de reduzir a cinzas os vexatorios papeis, que um
ministerio obnoxio, pelos actos despoticos que pratíca, semeára pelo reino.
A provincia do Minho, ao grito da heroina «_Maria da Fonte_,» está toda
revolucionada; e dentro em pouco chegarão os gritos do povo aos ouvidos da
corôa, que deve fazer justiça immediata, como o requerem as anómalas
condições em que se acha o systema constitucional. Ninguem mais competente
do que V. Exc.^a, meu nobre primo e snr., para conduzir o povo até ao paço;
logar em que os nossos nobilissimos antepassados já tiveram a honra de
sustentar na presença da magestade os direitos da nação, com a coragem
revelada n'aquellas memoraveis palavras, que a historia legou ás futuras
gerações:--«Se não, escolheremos outro rei que melhor saiba governar e
dirigir a briosa nação portugueza!»--Aguardo as determinações de V. Exc.^a,
que fielmente serão communicadas aos que por ellas esperam nos proximos
salões deste palacio; bons lavradores que me pediram fosse eu o interprete
dos sentimentos d'elles perante V. Exc.^a Não consenti que entrassem n'esta
sala, para deixar tranquillas as damas, primas e senhoras minhas, ás quaes
só agora tenho occasião de tributar o mais respeitoso dos meus cultos e a
mais submissa das minhas homenagens, pedindo-lhes humildemente, que se
dignem perdoar o não ter eu praticado desde logo este dever, em attenção a
que estava pouco senhor de mim com a delicada e obrigatoria missão de que
fui encarregado.
Quando o fidalgo do Marco deu assim por terminado o aranzel, acenou
Sebastião da Mesquita ao escudeiro, que comprehendendo seu nobre senhor,
abriu de par em par as portas e reposteiros, dando livre accesso ao povo,
que estava agrupado pelos immediatos aposentos. Foram pouco e pouco, como
possuidos de acanhamento, entrando na sala os populares, activos e
laboriosos lavradores, sempre cortezes como todos os habitantes do Minho,
mas faceis de inflammar com perfidas insinuações, principalmente ácerca do
perigo que possa correr a religião que professam, e o lar que possuem.
Eram variados os trajes d'aquelles homens amotinados, e variadissimas as
armas de que cada um estava munido: ainda assim, predominavam os fatos
domingueiros a que é obrigada a casaqueta de botões amarellos, e as
espingardas de fechos com pederneira. Todos entravam desbarretados e
convenientes. Sebastião da Mesquita ia provocando a entrada com as
animadoras palavras:--«Vinde, vinde, bons homens.» E assim que todos o
podiam ouvir, virou-se para o mensageiro, e fallou n'estes termos:
--Ouvi com a devida attenção e serenidade, o que teve a bondade de dizer-me
meu primo e snr. de Lencastre. Respondendo ao povo, que me escuta, respondo
tambem a v. ex.^a Esta espada, que já serviu a nossos avós, para emprezas
importantes em prol d'estes reinos, e sempre em defeza do sagrado solo da
patria,--nunca será por mim empunhada contra portuguezes e irmãos. Fui
soldado da independencia, e não quero outra gloria. Quem deseja conduzir o
povo pelo caminho da revolta contra os poderes bem ou mal constituidos,
póde ter ambições a saciar, mas falta-lhe bem dentro n'alma a nobreza de
sentimentos, unica que póde distinguir da massa geral dos homens, os
fidalgos e as pessoas illustradas.
«Porque os principes, ou aquelles que governam o reino, abusem do seu
poder, não é rasão para que os povos abusem dos seus direitos. Os homens
prudentes, devem conhecer os demais. Aos não poucos annos que tenho, devo
eu o não poder ser facilmente enganado... Não se queria o meu braço, não,
que já mal póde com a espada... O que se vinha aqui buscar era o bom nome
do velho, para servir de joguete a pequenas ambições... Não precisa o snr.
meu primo Leopoldo d'este fraco auxilio. As tendencias que manifesta para
tribuno popular, devem leval-o rapidamente ao parlamento, que é o caminho
aberto ás modernas glorias... Seja feliz, e deixe-me descer socegadamente á
sepultura. E vós, homens do trabalho, recolhei-vos ao seio de vossas
familias, que devem soffrer com os vossos desvarios, e desconfiai sempre
dos pareceres que vos levam á porta os voluntarios zeladores dos vossos
interesses... Lembrai-vos, que não se devem despresar as lições da velhice,
que são as da experiencia. Minha prima e presada esposa, digne-se v. ex.^a
mandar abrir a adega, para que esta boa gente mate a sêde. Maria, as tuas
interessantes discipulas ficam esta noite a fazer-te companhia, para assim
escaparem a algum _discurso_ dos campeões de praça... Snr. Arthur Soares e
meu bom amigo, queira ter a summa bondade de acompanhar este bom povo até
ao terreiro, e vêr se póde com a sua eloquencia acabar de convencêl-o da
verdade encerrada nas minhas trémulas palavras. Meu primo, querendo v.
ex.^a dar-nos a honra da sua presença, logo que voltem minha mulher e o
snr. Arthur Soares mando servir o chá.
--Agradeço, mas não posso acceitar nem conservar-me aqui mais tempo depois
do que v. ex.^a acaba de pronunciar...
--N'esse caso,--interrompeu Sebastião da Mesquita--peço as ordens de v.
ex.^a... João, acompanha meu primo até ao portal.
Ao receber a ordem do amo, o escudeiro foi postar-se atraz de Leopoldo.
Este, fulo de cólera açamada, virou a espalda e sahiu com o povo, que
escutára o fidalgo com todo o respeito e silenciosa attenção, e que foi tão
rapido na sahida como morôso havia sido na entrada.
Logo que foi evacuada a sala segundo as ordens de Sebastião da Mesquita,
caminhou este até ao pé das donzellas, pôz a mão direita sobre o hombro
esquerdo da filha, encarou-a por longo tempo com visivel commoção, e
disse-lhe com lagrimas na voz: Deos te dê melhor sorte, Maria!... Depois,
cingiu Rosa e Anna com o braço esquerdo, e disse a todas com igual ternura:
Deos vos proteja, minhas filhas!...
III
AO LUAR
«Na minha terra, uma aldeia,
Por noites de lua cheia,
É tão bella! é tão feliz!...»
.............................
(_João de Lemos_--CANCIONEIRO.)
Leopoldo de Moraes Lencastre, filho segundo da nobre familia dos alcaides
móres de Coruche, achava-se--por fallecimento do primogenito--na posse do
morgadio.
Era importante a casa de seus maiores, dispersa por quasi todo o reino.
Leopoldo administrava mal e esbanjava muito, sem gastar, ainda assim, mais
que o rendimento.
Corriam differentes versões ácerca da morte inesperada do morgado, que
todas formavam um pessimo conceito do herdeiro forçado d'aquella nobre
casa. No entanto, Leopoldo mostrára-se angustiado com a morte do irmão, e
parecia gosar a herança com a tranquilidade de espirito propria dos
innocentes. Deixára Coimbra quando frequentava o quarto anno da faculdade
de direito, para tomar conta da casa, e voltára mais tarde a concluir a
formatura.
Dotado de um caracter ardente, Leopoldo, era ambicioso de glorias, que
sonhava de um modo unico. Sacrificava todos os bons sentimentos, á
satisfação do amor proprio. Na consciencia d'elle, havia só logar para a
sua personalidade. Nunca encontrou espelho que lhe reflectisse outro
objecto, além da sua figura.
O mundo era para o fidalgo doutor apenas um palco, destinado a receber-lhe
as scenas comicas ou tragicas; e os espectadores estavam magnetisados, para
só attentarem n'elle e nas suas acções. Não havia torpeza que lhe
embargasse o caminho do Capitolio, nem falta que o fizesse exitar no
trajecto. Mettia algumas vezes na gaveta das conveniencias a sua altivez,
para de lá sahir depois mais furiosa, alcançados que fossem os premeditados
fins. Era mais insaciavel com o seu orgulho, do que um miseravel com as
suas necessidades: os cuidados, agitações e pesares communs a todo o homem
quando se dilata a esphera dos prazeres, affeições e sentimentos, só
accommettiam o moço doutor na hora em que se convencia de que o mundo
desviava os olhos das suas façanhas.
Leopoldo era physicamente favorecido da natureza, e suppríra, com o estudo,
o que lhe faltava em talentos. Foi-lhe facil estabelecer escóla sua, e
rodear-se de manequins, que serviam magnificamente aos seus desejos. É
crescido o numero de parasitas que, algumas vezes, se prestam para
caudatarios, e que são sempre tubas, ainda que rouquenhas, de famas adrede.
E não se verificava, com relação a Leopoldo, o preceito de ser a lisonja
moeda falsa que empobrece quem a recebe; muito ao avêsso ia logrando
insinuar-se na opinião publica, que foi, e é, e ha de sempre ser, a tonta
filha das apparencias.
Quando Arthur Soares, encarregado pelo fidalgo Mesquita de fallar ao povo,
estava desempenhando a commissão, foi interrompido por Leopoldo, que
pretendeu ridiculisal-o. Deu isto causa a uma discussão entre os dous,
algum tanto animada, que acabou pelo povo ir dispersando, e Arthur Soares
deixar bruscamente o adversario fidalgo, entrando de novo no palacio de
Sebastião da Mesquita, com o qual passou algumas horas mais.
Na sahida para a residencia de seu thio reitor, ao passar por baixo das
janellas do quarto de D. Maria, teve Arthur Soares de prestar attenção ao
chamado da fidalga senhora, que, com as suas discipulas, estava gosando o
luar e a belleza da noite, e lhe perguntára como havia conseguido que o
povo recolhesse a suas casas.
--Tudo consegue a prudencia, minha senhora, quando não é capa de occultos
interesses. O povo estava illudido por palavras pomposas que eu expliquei
em linguagem chã, fazendo-lhe conhecer o sentido interesseiro de quem lh'as
havia dito: convenceu-se e tranquillisou-se. O fidalgo, primo de V. Exc.^a,
é que se não convenceu nem me agradece... Creio que adquiri n'elle um
verdadeiro inimigo.
--Pouco deve importar ao snr. Soares a inimisade do snr. Lencastre. V. S.^a
tem a nobreza das suas acções, que não podem invejar cousa alguma ás do meu
fidalgo primo.
--Não me parece tanto assim, snr.^a D. Maria;--arriscou-se a dizer a timida
Anna--O snr. Lencastre é pessoa muito estimavel e virtuosa, no meu humilde
parecer...
--Estimavel; virtuosa e _carinhosa_, deves acerescentar, minha beatinha,
porque o tal senhor teve artes para ganhar a tua affeição...
--Valha-te Deus, Rosa, que vês tudo pelo mau lado... Eu sou muito amiga do
snr. Lencastre, como o seria de qualquer outra pessoa que conhecesse, e que
nunca me fizesse mal...
--Parece-me, menina Anna, que a Rosinha foi mais verdadeira agora do que
mordaz ou satyrica, como graciosamente lhe chamam;--disse Arthur
Soares.--Se não, haja vista esse denunciativo rubôr que mais de palpite do
que auxiliado pelo luar, d'aqui imagino vêr...
--Peço desculpa de ser contra a sua opinião, snr. Arthur, mas entendo que o
pejo, manifestado nas faces, póde ter variadas origens. A Rosinha tambem
córou, e talvez eu córasse egualmente, quando meu primo entrou no salão; e,
com tudo, não creio que em nós exista sentimento algum reservado.
--Nunca dei entrada no meu espirito a qualquer suspeita prejudicial á
inexcedivel virtude de V. Exc.^a, e á que adorna as suas interessantes
discipulas, o que não obstou a que eu fizesse reparo--confesso-o--em certo
embaraço que descobri em todas, na occasião a que V. Exc.^a se refere.
--Eu explico ao snr. Arthur Soares a razão do nosso abalo;--disse
repentinamente Rosa.--Annitas, córou, porque o fidalguinho lhe não é
indiferente...
--Tens cousas...
--Não me interrompas, que ter coração não fica sul a pessoa alguma, O amor,
é toda a historia da vida das mulheres, como diz um livro, que a snr.^a D.
Maria me ensinou a lêr e entender.--Eu córei, por que antipathiso
solemnemente com uns certos modos do snr. Lencastre, que já me fez a honra
de dizer que eu era bonita e espirituosa... A snr.^a D. Maria...
--Eu, menina, não desejo n'este momento ter interpretes dos meus
sentimentos... Subiu-me calor ás faces, porque... estava um tanto
indisposta...
--É já tarde, minhas senhoras, e eu vou até á residencia de meu thio, onde
espero conciliar o sômno, vendo o soberbo luar d'esta lindissima noite,
atravez dos vidros da janella do meu pequeno quarto. V. Exc.^a, snr.^a D.
Maria, continue a gosar, em companhia das suas innocentes amigas, o arôma
das flôres do jardim e do pomar, a fagueira brisa d'esta bellissima noite
de primavera, o suave cantico da voadôra cotovia e da poetica philomella, o
murmurio da agua nos proximos tanques, a magestosa pallidez da lua cheia,
que tudo isto ajuda a nutrir a imaginação com illusões nascidas da candidez
da alma, muito mais carecida de taes alimentos do que a fria razão.
--Quer o snr. Arthur Soares dizer-me com esse trecho poetico, que não
gostou de que eu interrompesse a Rosinha?... Apreciava bem mais ouvir a
franqueza de que sabe usar, do que escutar-lhe um subterfugio, aliás
lindissimo na fórma... Eu, digo-lhe abertamente, snr. Soares, porque não
tenho motivos para occultal-o, que o meu pejo procedeu de haver ha muito
reconhecido em meu primo Lencastre, qualidades e sentimentos improprios de
um cavalheiro. Magôa-me bastante ter de fallar assim de um fidalgo, que é
meu parente; mas não quero que os meus gestos sejam mal avaliados,
principalmente por V. S.^a, que é um amigo d'esta casa, a quem meu pae
devéras estima.
--Não me accuso, snr.^a D. Maria, de ter provocado a irritabilidade
nervosa, que me parece descobrir em V. Exc.^a, porque me diz a alma que eu
era incapaz de lhe promover o mais leve desgosto. O dia em que eu me
conhecesse origem de qualquer dissabor, para a familia do snr. Sebastião da
Mesquita--póde V. Exc.^a crêl-o--seria o ultimo da minha vida.
--O que disse, não foi queixa, snr. Arthur Soares. Quiz apenas _ser eu_, a
dizer a V. S.^a os meus sentimentos... Se perdeu com isto de ouvir a
narrativa com a natural eloquencia e graça de que dispõe a minha amiga
Rosa, deixo-os agora á vontade, para...
--Sou eu que me devo retirar, snr.^a D. Maria... E retiro-me com a
convicção bem formada de que _nunca mais_ as minhas palavras, dirigidas ao
snr. Arthur Soares, poderão melindrar a minha presada senhora, amiga e
mestra, porque hei de medital-as muito...
--Ficam ambas, com certeza, porque uma e outra se encontram empolgadas pelo
gavião!...--Disse uma voz sahida do pomar, que todos reconheceram ser a do
snr. de Lencastre.
Facilmente se avalia a commoção em sentidos diversos, que soffreram todos
os actores d'esta scena, ao conhecerem o novo e audacioso interlocutor,
sahido de entre as arvores do pomar que o occultavam, e collocando-se
sobranceiro á parede do jardim, em frente da janella occupada pelas tres
donzellas, ficando alguns metros separado de Arthur Soares.
--Não me surprehende, continuou a dizer o fidalgo moço, dirigindo-se para a
janella,--que a snr.^a Rosa concebesse um arranjinho de vida commodo,
fazendo presente do seu coração e de seus volumosos espiritos ao snr.
Arthur Soares; e que este eminente litterato tome posse de tudo, para cada
vez dar maior brilho ao seu verniz de urbanidade e brios... Agora, o que
devéras me faz descrêr de quantas virtudes podem honrar o coração humano, é
o vêr que a snr.^a D. Maria da Gloria esqueceu rapidamente a distancia que
a separa de um plebeu, embora um tanto polido, que nunca se atreveria a
pensar sequer na honra de conseguir, á custa dos maiores sacrificios, o que
V. Exc.^a tão de barato lhe concede!... Manifestar _ciumes_ ao snr. Soares,
minha nobre prima, é declarar-lhe que o ama!...
--Eu já sabia, snr. de Lencastre, que uma certa grosseria de habitos
formava a base do seu codigo cortezão; mas nunca me persuadi que V. Exc.^a
quizesse lá escripta a villania de um procedimento como o que acaba de ter!
Os nossos lacaios, se alguma vez são apanhados a devassar alheias causas,
fogem espavoridos da feia acção que commetteram... O meu nobre primo
_afidalga-se_ com um manifesto de curioso, e delator das vidas alheias,
abrindo com chave de mui duro e enferrujado ferro, o coração de uma
senhora, que lhe não deu o direito de se tornar seu vigia, e muito menos
seu mentor. Só a meu pae quero dar conta dos meus procedimentos, e nenhum
receio me dominava se o santo velho fosse um dos espectadores d'esta scena,
só pouco edificante desde que V. Exc.^a entrou n'ella... Peço ao snr.
Arthur Soares, que seja completamente alheio ás palavras e acções do snr.
meu primo; peço-lho pela amisade que tem á minha familia.
--É esse o mais espinhoso dever, que V. Exc.^a me podia impôr...
--Socegue o paladino da nobre castellã, que não tem de medir armas comigo,
porque lhe não acceito o repto... E V. Exc.^a, nobilissima snr.^a D. Maria
da Gloria, fique sabendo que a um perfeito acaso devi o ficar conhecendo
dos adiantados, prósperos e sublimes amores de V. Exc.^a, com o sobrinho do
senhor reitor... Se me interesso por alguem, não é de certo por V.
Exc.^a... Ha talvez ao lado da minha nobre prima quem saiba nutrir
aspirações mais fidalgas... Muitas vezes acontece haver discipulos, que
podiam ensinar os mestres...
--Das lições de V. Exc.^a é que ninguem aproveita... disse sacudidamente
Rosa, que ha muito ardia por fallar, e que era contida pelo respeito devido
á fidalga, e por se achar affectada com a inesperada direcção d'estes
acontecimentos, que lhe descobriram o coração.
--Já me tardavam as provas de seu despeito, menina... Apraz-me têl-a por
inimiga: das mulheres formosas, só nos deve magoar a indifferença...
--E o despreso, snr. meu primo?...