Nesse caso, porém, requeiro desde já um monumento na praça do commercio

que lembre aos vindouros, que não fomos ladrões (os que não o temos

sido): outro no caes do Sodré, que recorde que não fomos assassinos; e

assim por diante. Se todas as virtudes sociaes e communs devem ser

memoradas por monumentos, cubram-se delles praças, ruas, vielas, bêcos;

semêe-se por entre a cidade de casas outra cidade de agulhas e

obeliscos. Se uma virtude trivial desta geração lhe deve grangear um

monumento, haja equidade com todas as virtudes análogas.

E não vê o meu adversario, que rejeitando o monumento como meio de

recordar D. Pedro, ou falando poeticamente, de eternisar seu nome,

rejeita a biographia, o panegýrico, o poema que já pediu para elle? A

biographia, o panegýrico, o poema, são obras individuaes: não podem por

isso _lembrar_ a gratidão collectiva, mas só a gratidão individual, e

assim não representando o que se quere que represente o monumento, a

nossa gratidão, não tem valor monumental, salvo se pretendem que o

biógrapho, o panegyrista, o poeta, resuma toda a sociedade, seja um novo

Christo que pague a dívida universal.

E agora por poema me lembra um peccado velho. Disse-se que o monumento

substituia o poema, que nós não tinhamos sabido ou querido fazer. A

gente da Revista não sabe fazer poemas épicos, nem tem vontade de o

saber. Quanto as nossas forças o permittiam consagrámos ao Imperador,

não incenses bolorentos porque a tardança os apodreceu, mas as linhas de

gratidão e saudade que o coração nos inspirava quando a morte no-lo

roubou. O óbulo de pobres que tributámos á sua memoria ahi anda nas mãos

de todos. Digam outro tanto de si aquelles a quem o accesso poetico de

tão melindrosa gratidão e saudade cbegou a furo só depois de oito annos,

como um tumor frio que precisou de todo esse tempo para amadurecer.

Conheci um advogado velho, que em ouvindo destas, exclamava logo: _outro

officio_!

Mais; eu declaro por minha parte que se para chegar á posteridade a

_heroica_ virtude que tive de ser agradecido a D. Pedro, se ergue a

columna do Rocio, recuso a minha parte de glória, porque tenho medo de

que a posteridade se ria da fatuidade com que pretendemos occupar-lhe a

attenção, porque não fomos ingratos ao Principe que nos deu liberdade e

patria.

Vem o adversario com o argumento de que se a eschola polytechnica

restaurada pode intitular-se de D. Pedro, tão bem ou melhor o pode a

Universidade, que é a que representa completamente o pensamento da

civilisação. O que representa a Universidade e a eschola polytechica em

relação aos progressos sociaes do país, ou por outra, á sua civilisação,

sabe-o tanto o adversario, e toda essa gente que não quere a eschola

porque quere a columna, ou quere a columna porque não quere a eschola;

como eu sei turco ou chim. Mas, pondo esta questão de parte, (e desde já

lhe asseguro, que não é capaz de me fazer entrar actualmente nella) mui

categoricamente lhe declaro, que não me opponho á idéa de que a memória

de D. Pedro se una á universidade de Coimbra, ou a todos os institutos

litterarios, e que assim perde o seu tempo em chamar inconsequente e

tímido ao homem que disse: _Multiplicai os institutos de civilisação e

de progresso e consagrai-lh'os... que por toda a parte o nome de D.

Pedro... surja, sýmbolo da liberdade_. Pois quem diz isto recua diante

das consequencias, e é tímido? Exceptuo a Universidade ou outro algum

instituto similhante, de servir ao grande fim monumental? Chego às vezes

a persuadir-me de que o meu adversario me refutou sem lêr o que eu

escrevi.

Mais: se uma grande cidade se houvesse hoje de edificar no nosso país

seria bello e liberal o dar-lhe o nome de D. Pedro. Foi assim que os

Estados Unidos perpetuaram a memória de Washington. Que lhe parece isto

ao meu adversario? Não são bem egoístas, sophistas e atheistas aquelles

brutos dos americanos do norte em porem á cidade que creavam capital dos

Estados, a uma das cousas mais úteis deste mundo, o nome de Washington?

Oh lá se o são! Brutissimos.

Eu cito contra o meu adversario o exemplo de uma nação ainda virgem e

todavia civilisada e livre, querendo alevantar um monumento ao seu

libertador: entre estas circumstancias e as nossas ha paridade: dous

libertadores, duas nações livres, dous monumentos. Que cita elle contra

mim? Os tendeiros municipaes de França, os caiadores de ochre, os

arrasadores de monumentos, qualificados já devidamente por Victor-Hugo,

que vão alevantando uns bonecos aos homens notaveis nascidos na sua

terra, homens todavia obscuros comparados com D. Pedro. Aqui, confesso

que o meu adversario é melhor christão do que eu. É edificativa essa

abnegação da consciencia e razão nacionaes ante os grandes philosophos e

artistas vereadores das municipalidades de França. Só no céu elle poderá

achar a recompensa de tão christan humildade.

Quanto a Napoleão, que me importa a mim que lhe levantem a columna de

Smaragdo? Que tem Napoleão com D. Pedro? Bonaparte foi um Alexandre, um

César, um Trajano, um Attila, um Gengis-kan, ou tudo isso juncto; mas o

que elle não foi é Washington, ou D. Pedro. Escravisou e enluctou a

França para através da Europa roubada e assolada chegar a Waterloo.

Ergam-lhe a columna com estátua, que é justo. Mas, ao menos, como

soldado que fui de D. Pedro, deixem-me protestar contra a associação

bestial do seu nome com o nome do assassino do duque d'Enghien; do

salteador que roubou e opprimiu a Peninsula, como roubara e opprimira a

resto da Europa, até que chegou o dia em que começámos a adubar os

nossos campos com os cadáveres de cem mil desses garotos armados com que

nos regalara. D. Pedro foi tambem como elle soldado, mas honesto. Não

foi salteador nem assassino!

E depois, que é a columna e a estátua de Napoleão? A columna de Vendome

foi erguida em 1806 por elle proprio (os déspotas teem o cuidado de

fazerem os seus monumentos, porque lá lhes sobejam razões para não

esperarem que os outros lh'os façam): em 1814 tiraram a estátua de

bronze que elle pusera a si proprio no cimo da columna, para _fundirem o

cavallo_ da estátua de Henrique IV: em 1833 a monarchia de julho fez uma

revendida á monarchia de Luiz XVIII, e tornou a pôr o boneco. Se em

França volvesse o sceptro á linha dos Bourbons pegavam provavelmente no

novo boneco e faziam um sino, ou uma bombarda, ou um cavallo para

Philippe Augusto, ou para Luiz XVIII. E é destas historias ridículas que

se querem tirar condições determinantes para a edificação de um

monumento em que não ha paridade alguma com as circumstancias da cousa

citada? Miséria!

Para que vem o adversario citar-me a estátua de Guttemberg? Um ou mil

exemplos de monumentos, exclusivamente destinados a lembrar, sem nenhuma

idéa associada de proveito, nada provam contra mim, que estabeleci em

princípio não ser a utilidade ou inutilidade condição essencial de um

monumento, e que fiz depender de considerações alheias á natureza da

cousa e relativas só ao objecto lembrado e á vontade que lembrava, a

escolha das condições accidentaes da fórma. Os exemplos, que tenho

citado, e que podia citar aos centenares, são esses que matam a sua

proposição absoluta de que um monumento não póde ser útil, e já que me

levou a Moguncia, ahi mesmo, e na mesma praça da estátua de Guttemberg,

lhe darei mais um exemplo contra ella para fazer verdadeiro o proloquio:

_vir buscar lã e sair tosquiado_. Aquella praça chama-se de Guttemberg;

é dedicada ao célebre impressor, e todavia serve e _é útil_ para tudo

aquillo para que serve e é útil uma praça.

É preciso além disso que o meu adversario não se esqueça do que é o

monumento e do que foi Guttemberg. O monumento de Moguncia é

propriamente dedicado a um facto complexo, a invenção da imprensa,

symbolisado no homem que não a inventou, mas que lhe fez dar o passo

gigante de a converter de tabulária em móvel: antes e depois delle

muitos outros trabalharam em aperfeiçoar e completar esse invento, que

não é de um indivíduo, mas de uma nação, a allemã, e de um século, o XV.

Accresce que em Guttemberg não houve intenção moral de progresso e

civilisação: elle nem sonhou quaes eram as consequencias da arte de

imprimir. Quando se lembrou de mobilisar os typos só curou de ganhar

mais dinheiro que os copistas ordinarios, a quem não era possivel dar

cópias tão baratas e em tanta abundancia. Restam provas disto. Nem pois

entre elle e D. Pedro ha paridade alguma, nem supponha o meu adversario

a Allemanha tão tonta que elevasse essa estátua mais do que como um

sýmbolo. Neste monumento não ha gratidão, ha lembrança dum facto

complexo que pertence a muitos homens.

Mas concedo-lhe que seja a estátua de Guttemberg o que elle quiser.

Pode-se oppôr todavia um facto isolado do presente á doutrina que

resulta do estudo de muitos séculos? Desprezar a historia desde as mais

remotas éras até ao nosso tempo para dar valor a este ou áquelle fado,

practicado hoje nesta ou naquella nação, e ahi mesmo contradicto logo

por outro facto análogo, não é um abuso intoleravel do argumento de

auctoridade?

Mas, acode o meu adversario, o que dizeis do carácter dos monumentos, e

da harmonia das suas condições accidentaes com o estado politico e moral

da épocha e do povo que os viu erguer, é falso. E porque é falso?

Vejamos.

Já eu mostrei que os obeliscos ou columnas monumentaes não se

alevantaram em Roma, senão desde que a tyrannia dos Cesares substituiu a

liberdade antiga. Responde-me o adversario, que antes disso não se

cultivava a architectura com _aproveitamento e protecção_, e pergunta-me

no fim, muito ancho, se o que eu disse é licção de logica ou de

historia.

Não era nada disso: era uma simples verdade: agora o que vai ler é que

talvez seja uma e outra cousa.

Se a sociedade romana no tempo que era livre comprehendesse a creação

desses obeliscos, que cresceram em volume e em número, não segundo o

progresso da arte mas com a sua decadencia, até a completa corrupção,

chamada byzantina; se ella cresse que os manes dos homens eminentes se

affrontavam de que á memória do seu nome se associasse um pensamento de

utilidade, como pareciam acreditar os tyrannos que depois a

escravisaram, não podia tambem ter alevantado columnas e obeliscos? Tão

rudes eram os antigos romanos, que não soubessem amontoar pedras sobre

pedras para fazer uma pyramide, ou uma agulha? Pois não tinham a columna

toscana, nascida na Italia antes da influéncia grega, para a collocar no

meio de uma praça como a collocavam num templo? Os negros semibárbaros

d'Axum puderam alevantar um obelisco: Thebas, a egypcia, pôde erguer

tantos: os Pharaós souberam construir as pyramides: todo o despotismo,

emfim, do oriente, estúpido e selvagem, deixou o sólo cuberto desses

vestigios de um orgulho exclusivo e insensato, e os contemporaneos dos

Scipiões, os vencedores da civilisada Carthago eram impotentes para

edificar um monumento de similhante género? Porque o seriam? Porque não

conheciam a arte grega, diz o meu antagonista. Ha paciencia que tal

soffra? Visto isso onde não houver columna corinthia, dorica, ou jonica

não ha columna, não ha obelisco exclusivamente monumental, não ha nada.

Faltava mais esta desgraça ao género humano. O obelisco de Luxor, que os

franceses dizem ter trazido do Egypto, o monolitho d'Heliopolis, que se

crê trouxera para Roma Caligula e restaurara Xisto V, (que dous

monumenteiros d'obeliscos!) tudo isso são contos da carochinha: os

egypcios não conheciam as três ordens gregas; como haviam, portanto, de

alevantar esses monumentos? Os franceses e os italianos enganam-nos

descaradamente.

O que eu nunca vi foi tanta lástima juncta.

E a Grecia? Porque não falastes na Grecia?--clama triumphante o meu

adversario. Pelas razões que lá estão no que escrevi: porque se falasse

na Grecia e no oriente, nos povos antigos e nos povos modernos, faria um

livro e não um artigo. Escolhi o romano entre uns, porque era o

principal delles: escolhi o nosso entre os outros porque era aquelle

cujos exemplos nos tocavam mais de perto. Como, porém, o meu antagonista

requer Grecia, terá Grecia e será em poucas linhas.

Dou-lhe um anno para me apontar uma columna ou um obelisco grego,

destinado a recordar a memória de um morto illustre, e erecto na épocha

da liberdade grega, que se afaste das três fórmulas--edificio de serviço

público--templo--sepulchro. Isto é categórico. Todas essas especies teem

ao lado da idéa _lembrar_ a idéa de _utilidade_: o templo porque servia

_tambem_ ao culto, o sepulchro porque _tambem_ servia para resguardar os

restos daquelles que ahi jaziam, porque era _útil_ para a religião dos

mortos.

Agora tudo o que se diz a respeito de deitar abaixo igrejas, arrasar

sepulchros, e outras gentilezas que vem no cabo do artigo e numa curiosa

nota appensa a elle, não lhe respondo, porque está abaixo até de uma

resposta jocosa. É um destes espalhafatos de fecho d'acto, em drama

ultra-romantico para o effeito de scena. Deixá-lo estar, que está muito

bonito.

Tambem o meu artigo ficou em pé ainda desta: deixá-lo estar igualmente

que está bem. Esperemos para a outra trovoada.

VI

ULTIMA VERBA

Talvez eu não devesse escrever mais uma única palavra a este respeito:

talvez alguem me lance o fazê-lo em conta de cobardia. Depois do auctor

dos artigos do _Correio_ se ter retirado do campo da argumentação, para

se declarar víctima da minha grossaria, falta de philosophia e boa fé,

devia elle merecer generosidade. Para dizer isto, não era necessario

deixar passar dez ou doze dias depois da publicação do meu artigo.

Evidentemente este período gastou-se em procurar argumentos contra mim.

Não appareceram. Saíu-se por esta porta. A invenção não é nova.

Comprehendo o doloroso da situação, e respeito-a. Respeitá-la-hia com o

silencio: deixaria aos que teem seguido esta discussão avaliar os

fundamentos da queixa, se a queixa fosse unicamente contra a minha falta

de educação e de philosophia: nisto não ha culpa: cada um tem a educação

que lhe deram e a philosophia que a sua intelligencia comporta. Mas á

queixa ajuncta-se a accusação; accusação de inconsistencia de doutrinas,

de immoralidade litteraria e de má fé nas citações. Isto é grave: grave

para mim. Não me importa que o adversario, tendo-lhe eu tambem feito a

segunda parte da mesma accusação, e tendo provado o meu dicto, se

julgasse absolvido de me responder. Eu não penso assim: talvez por

demasiado respeito á opinião pública. São modos de ver. Esta última

resposta é para mim mais uma necessidade moral, que uma necessidade

litteraria. Peço aos leitores da _Revista_ perdão de lhes roubar quatro

ou cinco columnas deste jornal a objectos mais importantes. Os foros da

intelligencia é lícito deixá-los calcar; os da consciencia nunca.

A pouca educação, com que tractei o adversario, é a primeira das minhas

culpas: vem depois as provas: em todas ellas nada se allega senão as

minhas affirmativas (provadas) de que o adversario _ignorava_ os

elementos do christianismo, não sabia definir, não raciocinava com

logica, não escrevia em português, e fizera um pedaço de ideologia

canina. Se (á excepção da última) em qualquer destas cousas ha

incivilidade, qual é a discussão litteraria ou scientifica onde faltem

accusações análogas, e que portanto deixe de ser incivil? Não a conheço.

A comparação que fiz de um argumento que se me oppôs com o argumentar

dos cães, é exacta mas grosseira. Eu mesmo o confessei; mas pedi perdão

ao adversario de a empregar. Os leitores, que julguem, se o homem que

faz isto pretende affrontar o seu contendor.

Quanto á falta de philosophia, como no _Correio_ se não responde á minha

argumentação, deixo tambem aos que nos lerem, avaliar quem nesta

discussão mostrou ignorá-la; quem mostrou conhecê-la.

Quanto aos crimes moraes, elles ahi vão.

Trunquei numa epígraphe um verso do evangelho de S. Matheus fazendo uma

mutilação sacrílega.

Resposta. Falta mostrar onde está o sacrilegio, e como é peccado citar

só certas palavras de um verso do evangelho, uma vez que não mudem o

sentido, e não o é citar um verso sem citar todo o evangelho. Cortei o

que era relativo aos sepulchros, porque não vinha ao intento, não servia

nem para mim nem contra mim: cortei o vocativo _Scribae et Pharisaei

hipocritae_, porque o homem grosseiro não quis dar estes nomes

injuriosos ao seu antagonista. Se porém faz muito gosto nelles, pode

restituir a integridade do texto, que eu nada tenho com isso.

Diz o _Correio_, que eu substituí a palavra _egoísmo_ á palavra

_interesse_, para lhe demonstrar, que a accusação de egoistas que fizera

aos que pretendiam a eschola-monumento era van.

Não fui eu que fiz a substituição de má fé: foi elle; e eu mereceria a

denominação de orate, com que o meu delicado adversario me mimoseou no

parágrapho último do seu artigo, se lhe acceitasse essas transformações

de expressão, com que elle pretendia esquivar-se aos golpes da logica.

No seu 1.^o artigo, § 2, linha 2.^a, tinha elle estabelecido formalmente

o _provará_ de egoísmo contra nós: foi isto que eu refutei: para me

responder substituiu ao egoísmo _interesse_: defendendo o meu artigo

devia eu acceitar esta mudança desleal da questão para um falso terreno,

ou constrangê-lo a vir para o verdadeiro? Não quero que seja o publico:

seja elle quem o decida.

Acha o auctor dos artigos do _Correio_, que muito bem cabia na

discussão, em que lidávamos, o tractar a questão da unidade de

pensamento nas obras de arte, e se esta unidade ficava destruida pela

associação do bom ao bello, porque _era mais uma idéa só_. Chego a

envergonhar-me, pelas letras portuguesas, de que se imprimam entre nós

similhantes proposições, ainda que seja num jornal politico, que não tem

obrigação de ser literario. O princípio mais grave e fecundo das

modernas theorias da arte, para tractar o qual, em si, e muito mais no

terreno em que o adversario o collocou, é preciso suscitar todas as

questões alevantadas entre a antiga e a moderna eschola, jogar com as

doutrinas mais abstrusas da esthética e da critica da razão práctica,

não passa de _uma idéa mais_, que se poderia discutir, provavelmente á

hora da sésta, fazendo o chylo, e como por debique! Repito, chego a

envergonhar-me de que quem se atreve a pôr em letra redonda os seus

escriplos, fale e insista sobre cousas, cujos rudimentos mostra

desconhecer tão completamente, que julga poder-se contrahir a um

parágrapho de artigo, o que só pode ser materia de longo e trabalhado

livro. Não sei se offendo o meu adversario; mas não é esse o meu intento

no que vou dizer. Fez-me lembrar com isto a quadra do nosso Tolentino:

Pediu-me certa senhora,

Pela qual ainda hoje peno;

Que lhe fizesse um soneto

Ainda que fosse pequeno.

Sou accusado de má fé por substituir a denominação de _interesseiro_,

que elle dera ao monumento-eschola, pela de _útil_. É verdade que o fiz.

Fi-lo, porque tomei a palavra _interesseiro_ por lapso de penna, ou êrro

de imprensa. Parecia-me impossivel que o adversario ignorasse tão

completamente o valor das palavras da sua língua, que não soubesse que

um _homem_ pode ser _interesseiro_, mas uma cousa só pode ser _útil_ ou

_interessante_. Peco-lhe perdão de ter avaliado em mais do que devia o

seu conhecimento do idioma patrio.

Muito agoniado está comigo o meu adversario! Não tem razão, que eu sou

bom moço, e não lhe quero mal. Teve a crueldade de me accusar aos

vereadores das communas francesas de eu os haver injuriado. Que lucra

elle em me vêr pagar alguma multa municipal por acórdão daquelles

sapientissimos e venerabilissimos varões? Nada.

Uma das causas porque o adversario me julga indigno de mais favores

seus, é a irreverencia, com que tractei Napoleão, aquelle grande e

_generoso_ homem, de quem diz o ignorantissimo e insolentissimo conde de

Toreno[10], que o seu procedimento na invasão e occupação de Portugal

foi digno dos tyrannos brutaes da idade média, o _generoso_ conquistador

que subjugou a nossa resistencia, occupando o país em som de paz, e

impondo-nos logo uma contribuição de cem milhões de _resgate_; que

profanou os nossos campos, roubou os nossos vasos sagrados para que os

seus generaes tivessem dinheiro com que se embriagar e frequentar os

prostíbulos da Babilonia do Sena; daquelle grande homem, cujo nome sôa

como um dobre por finado em quasi todas as familias dos nossos irmãos,

porque os ossos das víctimas que elle nos fez ainda não apodreceram de

todo debaixo da terra. Sou indigno de combater com o homem que quere

associar o nome de D. Pedro a esse nome!... Sou! Confesso e acceito essa

honrosa e portuguesa indignidade.

O meu adversario sentiu um ataque de nervos, porque leu o que eu disse

ácerca de Napoleão, porque limitei a sua glória á de Cesar, á d'Attila,

á de Gengis-Kan, e porque finalmente me honro de pertencer á minha

épocha, e de olhar para esse género de glória com mais lástima que

admiração, deixando aos grandes philosophos o extasiarem-se diante de um

campo cuberto de cadáveres humanos; ou ao escutarem o som dos tambores e

trombetas em revista de tropas, género de philosophia em que sempre lhes

ha-de levar vantagem, no primeiro caso o algoz, no segundo o rapaz de

oito ou dez annos. Estimo saber o effeito de nevralgia que isso produziu

no meu adversario, para lhe dar um conselho sincero e de amigo,

attendendo a que as nevralgias são um género de molestia mal conhecida

ainda, e que o podem matar. Recommendo-lhe que não leia J. B. Say, que

tem em mui pouco Bonaparte como administrador, chegando a ponto a sua

estupidez de seguir a opinião contrária á do meu adversario, isto é, que

elle em vez de ter feito bem á industria francesa, lhe fez mal[11]. Que

não leia C. Comte, o célebre auctor do _Tractado de Legislação_, que

teve a insolencia de dizer que em socialismo Bonaparte fez retrogradar a

França para a barbaria[12]; que não leia Lamartine, aquelle grandissimo

alarve de Lamartine, que commetteu a atrocidade de fazer peior do que

eu, de comparar a épocha de Augusto Cesar, com a de Bonaparte, no que

ellas tiveram de tyrannico, de abjecto, de anti-poético, de horroroso e

de desprezivel[13]; que não leia o ignorantão e rombo Agostinho Thierry,

que, falando das doutrinas de jurisprudencia, chama ao tempo do imperio

um lodaçal[14]. Veja o adversario o caso que aquella alimaria faz das

leis de Bonaparte, que tanto o enchem de admiração! Que não leia Byron,

Walter Scott, Alfredo de Vigny, e emfim nenhum destes escriptores que a

Europa estupidamente applaude como maximas intelligencias em _poesia_,

em _politica_, em _philosophia_, porque se o fizer as nevralgias hão-de

matá-lo. Só lhe peço, a elle _innominado_, que tenha dó de mim, que tive

a desgraça de _assim pensar_, como todos esses tontos, a quem elle,

cuberto de glória literaria, possuidor de um nome, que reboa nos quatro

angulos do universo, não desceria a combater, sem que o nôjo lhe

produzisse uma nevralgia fatal.

Tenho a infelicidade por via de regra quando quero estabelecer o methodo

nos meus artigos, de andar a saltar ora aqui ora alli pelos parágraphos

do adversario. Isto, é provável que proceda da minha estupidez e falta

de ordem nas idéas. Não é provavel; é certo. Acabarei por onde elle

principiou, e será de um modo sério e severo.

O meu adversario invocou contra mim os artigos, que appareceram sem nome

em outro jornal, e que se me attribuem; invocou-os para achar

contradicção entre o meu pensar de hoje e o meu pensar d'então. Este

procedimento não o qualificarei. E quem sabe se eu poderia fazer uma

terribilissima represália? Não o sei, nem o quero saber. Prefiro deixar

talvez inintelligivel uma das minhas epígraphes, que ignoro se

incommodou o meu adversario. Para dizermos de artigos de differentes

jornaes não assignados, ou só em parte assignados, que são do mesmo

escriptor, é ordinariamente necessario abusar de confidencias

particulares. Este homem grosseiro e immoral nunca porém o faria, se a

hypothese actualmente se désse. Seja o que for, isto apenas é uma

digressão, provavelmente insensata: vamos ao que importa. Acceito

plenamente por meus os artigos que se me attribuem. _São meus_:

repito-o. Não ha sobre isso que duvidar.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 08 · 第 13 / 14 段