que lembre aos vindouros, que não fomos ladrões (os que não o temos
sido): outro no caes do Sodré, que recorde que não fomos assassinos; e
assim por diante. Se todas as virtudes sociaes e communs devem ser
memoradas por monumentos, cubram-se delles praças, ruas, vielas, bêcos;
semêe-se por entre a cidade de casas outra cidade de agulhas e
obeliscos. Se uma virtude trivial desta geração lhe deve grangear um
monumento, haja equidade com todas as virtudes análogas.
E não vê o meu adversario, que rejeitando o monumento como meio de
recordar D. Pedro, ou falando poeticamente, de eternisar seu nome,
rejeita a biographia, o panegýrico, o poema que já pediu para elle? A
biographia, o panegýrico, o poema, são obras individuaes: não podem por
isso _lembrar_ a gratidão collectiva, mas só a gratidão individual, e
assim não representando o que se quere que represente o monumento, a
nossa gratidão, não tem valor monumental, salvo se pretendem que o
biógrapho, o panegyrista, o poeta, resuma toda a sociedade, seja um novo
Christo que pague a dívida universal.
E agora por poema me lembra um peccado velho. Disse-se que o monumento
substituia o poema, que nós não tinhamos sabido ou querido fazer. A
gente da Revista não sabe fazer poemas épicos, nem tem vontade de o
saber. Quanto as nossas forças o permittiam consagrámos ao Imperador,
não incenses bolorentos porque a tardança os apodreceu, mas as linhas de
gratidão e saudade que o coração nos inspirava quando a morte no-lo
roubou. O óbulo de pobres que tributámos á sua memoria ahi anda nas mãos
de todos. Digam outro tanto de si aquelles a quem o accesso poetico de
tão melindrosa gratidão e saudade cbegou a furo só depois de oito annos,
como um tumor frio que precisou de todo esse tempo para amadurecer.
Conheci um advogado velho, que em ouvindo destas, exclamava logo: _outro
officio_!
Mais; eu declaro por minha parte que se para chegar á posteridade a
_heroica_ virtude que tive de ser agradecido a D. Pedro, se ergue a
columna do Rocio, recuso a minha parte de glória, porque tenho medo de
que a posteridade se ria da fatuidade com que pretendemos occupar-lhe a
attenção, porque não fomos ingratos ao Principe que nos deu liberdade e
patria.
Vem o adversario com o argumento de que se a eschola polytechnica
restaurada pode intitular-se de D. Pedro, tão bem ou melhor o pode a
Universidade, que é a que representa completamente o pensamento da
civilisação. O que representa a Universidade e a eschola polytechica em
relação aos progressos sociaes do país, ou por outra, á sua civilisação,
sabe-o tanto o adversario, e toda essa gente que não quere a eschola
porque quere a columna, ou quere a columna porque não quere a eschola;
como eu sei turco ou chim. Mas, pondo esta questão de parte, (e desde já
lhe asseguro, que não é capaz de me fazer entrar actualmente nella) mui
categoricamente lhe declaro, que não me opponho á idéa de que a memória
de D. Pedro se una á universidade de Coimbra, ou a todos os institutos
litterarios, e que assim perde o seu tempo em chamar inconsequente e
tímido ao homem que disse: _Multiplicai os institutos de civilisação e
de progresso e consagrai-lh'os... que por toda a parte o nome de D.
Pedro... surja, sýmbolo da liberdade_. Pois quem diz isto recua diante
das consequencias, e é tímido? Exceptuo a Universidade ou outro algum
instituto similhante, de servir ao grande fim monumental? Chego às vezes
a persuadir-me de que o meu adversario me refutou sem lêr o que eu
escrevi.
Mais: se uma grande cidade se houvesse hoje de edificar no nosso país
seria bello e liberal o dar-lhe o nome de D. Pedro. Foi assim que os
Estados Unidos perpetuaram a memória de Washington. Que lhe parece isto
ao meu adversario? Não são bem egoístas, sophistas e atheistas aquelles
brutos dos americanos do norte em porem á cidade que creavam capital dos
Estados, a uma das cousas mais úteis deste mundo, o nome de Washington?
Oh lá se o são! Brutissimos.
Eu cito contra o meu adversario o exemplo de uma nação ainda virgem e
todavia civilisada e livre, querendo alevantar um monumento ao seu
libertador: entre estas circumstancias e as nossas ha paridade: dous
libertadores, duas nações livres, dous monumentos. Que cita elle contra
mim? Os tendeiros municipaes de França, os caiadores de ochre, os
arrasadores de monumentos, qualificados já devidamente por Victor-Hugo,
que vão alevantando uns bonecos aos homens notaveis nascidos na sua
terra, homens todavia obscuros comparados com D. Pedro. Aqui, confesso
que o meu adversario é melhor christão do que eu. É edificativa essa
abnegação da consciencia e razão nacionaes ante os grandes philosophos e
artistas vereadores das municipalidades de França. Só no céu elle poderá
achar a recompensa de tão christan humildade.
Quanto a Napoleão, que me importa a mim que lhe levantem a columna de
Smaragdo? Que tem Napoleão com D. Pedro? Bonaparte foi um Alexandre, um
César, um Trajano, um Attila, um Gengis-kan, ou tudo isso juncto; mas o
que elle não foi é Washington, ou D. Pedro. Escravisou e enluctou a
França para através da Europa roubada e assolada chegar a Waterloo.
Ergam-lhe a columna com estátua, que é justo. Mas, ao menos, como
soldado que fui de D. Pedro, deixem-me protestar contra a associação
bestial do seu nome com o nome do assassino do duque d'Enghien; do
salteador que roubou e opprimiu a Peninsula, como roubara e opprimira a
resto da Europa, até que chegou o dia em que começámos a adubar os
nossos campos com os cadáveres de cem mil desses garotos armados com que
nos regalara. D. Pedro foi tambem como elle soldado, mas honesto. Não
foi salteador nem assassino!
E depois, que é a columna e a estátua de Napoleão? A columna de Vendome
foi erguida em 1806 por elle proprio (os déspotas teem o cuidado de
fazerem os seus monumentos, porque lá lhes sobejam razões para não
esperarem que os outros lh'os façam): em 1814 tiraram a estátua de
bronze que elle pusera a si proprio no cimo da columna, para _fundirem o
cavallo_ da estátua de Henrique IV: em 1833 a monarchia de julho fez uma
revendida á monarchia de Luiz XVIII, e tornou a pôr o boneco. Se em
França volvesse o sceptro á linha dos Bourbons pegavam provavelmente no
novo boneco e faziam um sino, ou uma bombarda, ou um cavallo para
Philippe Augusto, ou para Luiz XVIII. E é destas historias ridículas que
se querem tirar condições determinantes para a edificação de um
monumento em que não ha paridade alguma com as circumstancias da cousa
citada? Miséria!
Para que vem o adversario citar-me a estátua de Guttemberg? Um ou mil
exemplos de monumentos, exclusivamente destinados a lembrar, sem nenhuma
idéa associada de proveito, nada provam contra mim, que estabeleci em
princípio não ser a utilidade ou inutilidade condição essencial de um
monumento, e que fiz depender de considerações alheias á natureza da
cousa e relativas só ao objecto lembrado e á vontade que lembrava, a
escolha das condições accidentaes da fórma. Os exemplos, que tenho
citado, e que podia citar aos centenares, são esses que matam a sua
proposição absoluta de que um monumento não póde ser útil, e já que me
levou a Moguncia, ahi mesmo, e na mesma praça da estátua de Guttemberg,
lhe darei mais um exemplo contra ella para fazer verdadeiro o proloquio:
_vir buscar lã e sair tosquiado_. Aquella praça chama-se de Guttemberg;
é dedicada ao célebre impressor, e todavia serve e _é útil_ para tudo
aquillo para que serve e é útil uma praça.
É preciso além disso que o meu adversario não se esqueça do que é o
monumento e do que foi Guttemberg. O monumento de Moguncia é
propriamente dedicado a um facto complexo, a invenção da imprensa,
symbolisado no homem que não a inventou, mas que lhe fez dar o passo
gigante de a converter de tabulária em móvel: antes e depois delle
muitos outros trabalharam em aperfeiçoar e completar esse invento, que
não é de um indivíduo, mas de uma nação, a allemã, e de um século, o XV.
Accresce que em Guttemberg não houve intenção moral de progresso e
civilisação: elle nem sonhou quaes eram as consequencias da arte de
imprimir. Quando se lembrou de mobilisar os typos só curou de ganhar
mais dinheiro que os copistas ordinarios, a quem não era possivel dar
cópias tão baratas e em tanta abundancia. Restam provas disto. Nem pois
entre elle e D. Pedro ha paridade alguma, nem supponha o meu adversario
a Allemanha tão tonta que elevasse essa estátua mais do que como um
sýmbolo. Neste monumento não ha gratidão, ha lembrança dum facto
complexo que pertence a muitos homens.
Mas concedo-lhe que seja a estátua de Guttemberg o que elle quiser.
Pode-se oppôr todavia um facto isolado do presente á doutrina que
resulta do estudo de muitos séculos? Desprezar a historia desde as mais
remotas éras até ao nosso tempo para dar valor a este ou áquelle fado,
practicado hoje nesta ou naquella nação, e ahi mesmo contradicto logo
por outro facto análogo, não é um abuso intoleravel do argumento de
auctoridade?
Mas, acode o meu adversario, o que dizeis do carácter dos monumentos, e
da harmonia das suas condições accidentaes com o estado politico e moral
da épocha e do povo que os viu erguer, é falso. E porque é falso?
Vejamos.
Já eu mostrei que os obeliscos ou columnas monumentaes não se
alevantaram em Roma, senão desde que a tyrannia dos Cesares substituiu a
liberdade antiga. Responde-me o adversario, que antes disso não se
cultivava a architectura com _aproveitamento e protecção_, e pergunta-me
no fim, muito ancho, se o que eu disse é licção de logica ou de
historia.
Não era nada disso: era uma simples verdade: agora o que vai ler é que
talvez seja uma e outra cousa.
Se a sociedade romana no tempo que era livre comprehendesse a creação
desses obeliscos, que cresceram em volume e em número, não segundo o
progresso da arte mas com a sua decadencia, até a completa corrupção,
chamada byzantina; se ella cresse que os manes dos homens eminentes se
affrontavam de que á memória do seu nome se associasse um pensamento de
utilidade, como pareciam acreditar os tyrannos que depois a
escravisaram, não podia tambem ter alevantado columnas e obeliscos? Tão
rudes eram os antigos romanos, que não soubessem amontoar pedras sobre
pedras para fazer uma pyramide, ou uma agulha? Pois não tinham a columna
toscana, nascida na Italia antes da influéncia grega, para a collocar no
meio de uma praça como a collocavam num templo? Os negros semibárbaros
d'Axum puderam alevantar um obelisco: Thebas, a egypcia, pôde erguer
tantos: os Pharaós souberam construir as pyramides: todo o despotismo,
emfim, do oriente, estúpido e selvagem, deixou o sólo cuberto desses
vestigios de um orgulho exclusivo e insensato, e os contemporaneos dos
Scipiões, os vencedores da civilisada Carthago eram impotentes para
edificar um monumento de similhante género? Porque o seriam? Porque não
conheciam a arte grega, diz o meu antagonista. Ha paciencia que tal
soffra? Visto isso onde não houver columna corinthia, dorica, ou jonica
não ha columna, não ha obelisco exclusivamente monumental, não ha nada.
Faltava mais esta desgraça ao género humano. O obelisco de Luxor, que os
franceses dizem ter trazido do Egypto, o monolitho d'Heliopolis, que se
crê trouxera para Roma Caligula e restaurara Xisto V, (que dous
monumenteiros d'obeliscos!) tudo isso são contos da carochinha: os
egypcios não conheciam as três ordens gregas; como haviam, portanto, de
alevantar esses monumentos? Os franceses e os italianos enganam-nos
descaradamente.
O que eu nunca vi foi tanta lástima juncta.
E a Grecia? Porque não falastes na Grecia?--clama triumphante o meu
adversario. Pelas razões que lá estão no que escrevi: porque se falasse
na Grecia e no oriente, nos povos antigos e nos povos modernos, faria um
livro e não um artigo. Escolhi o romano entre uns, porque era o
principal delles: escolhi o nosso entre os outros porque era aquelle
cujos exemplos nos tocavam mais de perto. Como, porém, o meu antagonista
requer Grecia, terá Grecia e será em poucas linhas.
Dou-lhe um anno para me apontar uma columna ou um obelisco grego,
destinado a recordar a memória de um morto illustre, e erecto na épocha
da liberdade grega, que se afaste das três fórmulas--edificio de serviço
público--templo--sepulchro. Isto é categórico. Todas essas especies teem
ao lado da idéa _lembrar_ a idéa de _utilidade_: o templo porque servia
_tambem_ ao culto, o sepulchro porque _tambem_ servia para resguardar os
restos daquelles que ahi jaziam, porque era _útil_ para a religião dos
mortos.
Agora tudo o que se diz a respeito de deitar abaixo igrejas, arrasar
sepulchros, e outras gentilezas que vem no cabo do artigo e numa curiosa
nota appensa a elle, não lhe respondo, porque está abaixo até de uma
resposta jocosa. É um destes espalhafatos de fecho d'acto, em drama
ultra-romantico para o effeito de scena. Deixá-lo estar, que está muito
bonito.
Tambem o meu artigo ficou em pé ainda desta: deixá-lo estar igualmente
que está bem. Esperemos para a outra trovoada.
VI
ULTIMA VERBA
Talvez eu não devesse escrever mais uma única palavra a este respeito:
talvez alguem me lance o fazê-lo em conta de cobardia. Depois do auctor
dos artigos do _Correio_ se ter retirado do campo da argumentação, para
se declarar víctima da minha grossaria, falta de philosophia e boa fé,
devia elle merecer generosidade. Para dizer isto, não era necessario
deixar passar dez ou doze dias depois da publicação do meu artigo.
Evidentemente este período gastou-se em procurar argumentos contra mim.
Não appareceram. Saíu-se por esta porta. A invenção não é nova.
Comprehendo o doloroso da situação, e respeito-a. Respeitá-la-hia com o
silencio: deixaria aos que teem seguido esta discussão avaliar os
fundamentos da queixa, se a queixa fosse unicamente contra a minha falta
de educação e de philosophia: nisto não ha culpa: cada um tem a educação
que lhe deram e a philosophia que a sua intelligencia comporta. Mas á
queixa ajuncta-se a accusação; accusação de inconsistencia de doutrinas,
de immoralidade litteraria e de má fé nas citações. Isto é grave: grave
para mim. Não me importa que o adversario, tendo-lhe eu tambem feito a
segunda parte da mesma accusação, e tendo provado o meu dicto, se
julgasse absolvido de me responder. Eu não penso assim: talvez por
demasiado respeito á opinião pública. São modos de ver. Esta última
resposta é para mim mais uma necessidade moral, que uma necessidade
litteraria. Peço aos leitores da _Revista_ perdão de lhes roubar quatro
ou cinco columnas deste jornal a objectos mais importantes. Os foros da
intelligencia é lícito deixá-los calcar; os da consciencia nunca.
A pouca educação, com que tractei o adversario, é a primeira das minhas
culpas: vem depois as provas: em todas ellas nada se allega senão as
minhas affirmativas (provadas) de que o adversario _ignorava_ os
elementos do christianismo, não sabia definir, não raciocinava com
logica, não escrevia em português, e fizera um pedaço de ideologia
canina. Se (á excepção da última) em qualquer destas cousas ha
incivilidade, qual é a discussão litteraria ou scientifica onde faltem
accusações análogas, e que portanto deixe de ser incivil? Não a conheço.
A comparação que fiz de um argumento que se me oppôs com o argumentar
dos cães, é exacta mas grosseira. Eu mesmo o confessei; mas pedi perdão
ao adversario de a empregar. Os leitores, que julguem, se o homem que
faz isto pretende affrontar o seu contendor.
Quanto á falta de philosophia, como no _Correio_ se não responde á minha
argumentação, deixo tambem aos que nos lerem, avaliar quem nesta
discussão mostrou ignorá-la; quem mostrou conhecê-la.
Quanto aos crimes moraes, elles ahi vão.
Trunquei numa epígraphe um verso do evangelho de S. Matheus fazendo uma
mutilação sacrílega.
Resposta. Falta mostrar onde está o sacrilegio, e como é peccado citar
só certas palavras de um verso do evangelho, uma vez que não mudem o
sentido, e não o é citar um verso sem citar todo o evangelho. Cortei o
que era relativo aos sepulchros, porque não vinha ao intento, não servia
nem para mim nem contra mim: cortei o vocativo _Scribae et Pharisaei
hipocritae_, porque o homem grosseiro não quis dar estes nomes
injuriosos ao seu antagonista. Se porém faz muito gosto nelles, pode
restituir a integridade do texto, que eu nada tenho com isso.
Diz o _Correio_, que eu substituí a palavra _egoísmo_ á palavra
_interesse_, para lhe demonstrar, que a accusação de egoistas que fizera
aos que pretendiam a eschola-monumento era van.
Não fui eu que fiz a substituição de má fé: foi elle; e eu mereceria a
denominação de orate, com que o meu delicado adversario me mimoseou no
parágrapho último do seu artigo, se lhe acceitasse essas transformações
de expressão, com que elle pretendia esquivar-se aos golpes da logica.
No seu 1.^o artigo, § 2, linha 2.^a, tinha elle estabelecido formalmente
o _provará_ de egoísmo contra nós: foi isto que eu refutei: para me
responder substituiu ao egoísmo _interesse_: defendendo o meu artigo
devia eu acceitar esta mudança desleal da questão para um falso terreno,
ou constrangê-lo a vir para o verdadeiro? Não quero que seja o publico:
seja elle quem o decida.
Acha o auctor dos artigos do _Correio_, que muito bem cabia na
discussão, em que lidávamos, o tractar a questão da unidade de
pensamento nas obras de arte, e se esta unidade ficava destruida pela
associação do bom ao bello, porque _era mais uma idéa só_. Chego a
envergonhar-me, pelas letras portuguesas, de que se imprimam entre nós
similhantes proposições, ainda que seja num jornal politico, que não tem
obrigação de ser literario. O princípio mais grave e fecundo das
modernas theorias da arte, para tractar o qual, em si, e muito mais no
terreno em que o adversario o collocou, é preciso suscitar todas as
questões alevantadas entre a antiga e a moderna eschola, jogar com as
doutrinas mais abstrusas da esthética e da critica da razão práctica,
não passa de _uma idéa mais_, que se poderia discutir, provavelmente á
hora da sésta, fazendo o chylo, e como por debique! Repito, chego a
envergonhar-me de que quem se atreve a pôr em letra redonda os seus
escriplos, fale e insista sobre cousas, cujos rudimentos mostra
desconhecer tão completamente, que julga poder-se contrahir a um
parágrapho de artigo, o que só pode ser materia de longo e trabalhado
livro. Não sei se offendo o meu adversario; mas não é esse o meu intento
no que vou dizer. Fez-me lembrar com isto a quadra do nosso Tolentino:
Pediu-me certa senhora,
Pela qual ainda hoje peno;
Que lhe fizesse um soneto
Ainda que fosse pequeno.
Sou accusado de má fé por substituir a denominação de _interesseiro_,
que elle dera ao monumento-eschola, pela de _útil_. É verdade que o fiz.
Fi-lo, porque tomei a palavra _interesseiro_ por lapso de penna, ou êrro
de imprensa. Parecia-me impossivel que o adversario ignorasse tão
completamente o valor das palavras da sua língua, que não soubesse que
um _homem_ pode ser _interesseiro_, mas uma cousa só pode ser _útil_ ou
_interessante_. Peco-lhe perdão de ter avaliado em mais do que devia o
seu conhecimento do idioma patrio.
Muito agoniado está comigo o meu adversario! Não tem razão, que eu sou
bom moço, e não lhe quero mal. Teve a crueldade de me accusar aos
vereadores das communas francesas de eu os haver injuriado. Que lucra
elle em me vêr pagar alguma multa municipal por acórdão daquelles
sapientissimos e venerabilissimos varões? Nada.
Uma das causas porque o adversario me julga indigno de mais favores
seus, é a irreverencia, com que tractei Napoleão, aquelle grande e
_generoso_ homem, de quem diz o ignorantissimo e insolentissimo conde de
Toreno[10], que o seu procedimento na invasão e occupação de Portugal
foi digno dos tyrannos brutaes da idade média, o _generoso_ conquistador
que subjugou a nossa resistencia, occupando o país em som de paz, e
impondo-nos logo uma contribuição de cem milhões de _resgate_; que
profanou os nossos campos, roubou os nossos vasos sagrados para que os
seus generaes tivessem dinheiro com que se embriagar e frequentar os
prostíbulos da Babilonia do Sena; daquelle grande homem, cujo nome sôa
como um dobre por finado em quasi todas as familias dos nossos irmãos,
porque os ossos das víctimas que elle nos fez ainda não apodreceram de
todo debaixo da terra. Sou indigno de combater com o homem que quere
associar o nome de D. Pedro a esse nome!... Sou! Confesso e acceito essa
honrosa e portuguesa indignidade.
O meu adversario sentiu um ataque de nervos, porque leu o que eu disse
ácerca de Napoleão, porque limitei a sua glória á de Cesar, á d'Attila,
á de Gengis-Kan, e porque finalmente me honro de pertencer á minha
épocha, e de olhar para esse género de glória com mais lástima que
admiração, deixando aos grandes philosophos o extasiarem-se diante de um
campo cuberto de cadáveres humanos; ou ao escutarem o som dos tambores e
trombetas em revista de tropas, género de philosophia em que sempre lhes
ha-de levar vantagem, no primeiro caso o algoz, no segundo o rapaz de
oito ou dez annos. Estimo saber o effeito de nevralgia que isso produziu
no meu adversario, para lhe dar um conselho sincero e de amigo,
attendendo a que as nevralgias são um género de molestia mal conhecida
ainda, e que o podem matar. Recommendo-lhe que não leia J. B. Say, que
tem em mui pouco Bonaparte como administrador, chegando a ponto a sua
estupidez de seguir a opinião contrária á do meu adversario, isto é, que
elle em vez de ter feito bem á industria francesa, lhe fez mal[11]. Que
não leia C. Comte, o célebre auctor do _Tractado de Legislação_, que
teve a insolencia de dizer que em socialismo Bonaparte fez retrogradar a
França para a barbaria[12]; que não leia Lamartine, aquelle grandissimo
alarve de Lamartine, que commetteu a atrocidade de fazer peior do que
eu, de comparar a épocha de Augusto Cesar, com a de Bonaparte, no que
ellas tiveram de tyrannico, de abjecto, de anti-poético, de horroroso e
de desprezivel[13]; que não leia o ignorantão e rombo Agostinho Thierry,
que, falando das doutrinas de jurisprudencia, chama ao tempo do imperio
um lodaçal[14]. Veja o adversario o caso que aquella alimaria faz das
leis de Bonaparte, que tanto o enchem de admiração! Que não leia Byron,
Walter Scott, Alfredo de Vigny, e emfim nenhum destes escriptores que a
Europa estupidamente applaude como maximas intelligencias em _poesia_,
em _politica_, em _philosophia_, porque se o fizer as nevralgias hão-de
matá-lo. Só lhe peço, a elle _innominado_, que tenha dó de mim, que tive
a desgraça de _assim pensar_, como todos esses tontos, a quem elle,
cuberto de glória literaria, possuidor de um nome, que reboa nos quatro
angulos do universo, não desceria a combater, sem que o nôjo lhe
produzisse uma nevralgia fatal.
Tenho a infelicidade por via de regra quando quero estabelecer o methodo
nos meus artigos, de andar a saltar ora aqui ora alli pelos parágraphos
do adversario. Isto, é provável que proceda da minha estupidez e falta
de ordem nas idéas. Não é provavel; é certo. Acabarei por onde elle
principiou, e será de um modo sério e severo.
O meu adversario invocou contra mim os artigos, que appareceram sem nome
em outro jornal, e que se me attribuem; invocou-os para achar
contradicção entre o meu pensar de hoje e o meu pensar d'então. Este
procedimento não o qualificarei. E quem sabe se eu poderia fazer uma
terribilissima represália? Não o sei, nem o quero saber. Prefiro deixar
talvez inintelligivel uma das minhas epígraphes, que ignoro se
incommodou o meu adversario. Para dizermos de artigos de differentes
jornaes não assignados, ou só em parte assignados, que são do mesmo
escriptor, é ordinariamente necessario abusar de confidencias
particulares. Este homem grosseiro e immoral nunca porém o faria, se a
hypothese actualmente se désse. Seja o que for, isto apenas é uma
digressão, provavelmente insensata: vamos ao que importa. Acceito
plenamente por meus os artigos que se me attribuem. _São meus_:
repito-o. Não ha sobre isso que duvidar.