em these, porque Guisot diz que «um objecto se contém _quasi sempre_
mais complelamente na idéa que delle _temos_, que na idéa que delle se
_dá_.» Primeiro que tudo, bastava que Guizot deixasse excepções á sua
proposição para se não oppôr esta á proposição que o auctor do artigo
julgou contrária, e que não é de Locke, mas de todos os homens que teem
sabido dialéctica desde Aristoteles até Schelling. Não podia o
objecto--monumento--pertencer á excepção indicada por Guisot nas
palavras _quasi sempre_? Depois, tem acaso grande valor em ideologia
estas proposições, vagas por serem excepcionaes, sem excepções definidas
e determinadas? Parece-me que não.
Porém não é só isso. O que diz Guisot nada tem que vêr com definições de
theses ou de hypotheses: a doutrina contida nas suas palavras é evidente
e litteralmente que--«a idéa na sua existencia subjectiva é mais
perfeita e completa que na fórmula objectiva da linguagem com que a
exprimimos.»--O grande mestre de Historia nos tempos modernos não fez
mais do que dizer elegantemente uma verdade trivial, isto é, que as
línguas são incompletas e imperfeitas, e que nem sempre podemos ou
sabemos representar com palavras as concepções da intelligencia. Por
isso creio que ainda desta vez a Tentativa sobre o Intendimento Humano
do tontarrão de Locke não irá á fogueira da ama de D. Quixote.
Tinha eu dicto que no artigo do _Correio_ a que alludia, se definira a
idéa de monumento por uma hypothese, o que era errado modo de definir:
porque era applicar as condições do contingente e variavel ao absoluto e
necessario. Replica o meu antagonista que fizera muito bem porque ao
monumento _de que se tracta_ cabia esta definição. Isto merece
examinar-se por miúdo porque é exactamente aqui onde está o élo de todas
as equivocações do meu adversario.
Qual é o pensamento predominante em tudo o que elle tem escripto ácerca
desta materia? Qual é o seu alvo? Provar que o monumento de D. Pedro não
pode ser senão a columna do Rocio. Qual era o meu intuito? Provar
exactamente o contrário: que o monumento não só _podia_, mas _devia_ ser
outro. Como me cumpria proceder na discussão? Vejamos.
Eu tinha a estabelecer uma série de raciocinios, e tinha para isso a
attender a três idéas ou cousas, o monumento, a pessoa a quem era
dedicado e as que o dedicavam. Estes três elementos devia examiná-los um
por um, buscar as condições de cada um delles, e vêr como estas entravam
e actuavam na idéa complexa. Para seguir a ordem natural comecei pela
idéa--monumento--sem a confundir com as outras. É nisto que fiz mal,
segundo o meu antagonista! Paciencia!
Que tinha elle escripto? Que _um monumento é um ponto de contacto entre
a admiração e a glória_. Quero-lhe conceder por momentos que esta
definição seja exacta para a hypothese, como _agora_ diz; que não é uma
especie de trocadilho da Phenix-renascida; que se poderia reduzir á
linguagem chan e severa da philosophia. Mas foi o _seu_ monumento, a
_sua_ hypothese que elle definiu naquellas palavras, ou a idéa abstracta
de monumento? Foi esta incontestavelmente: ninguem que saiba lêr achará
outra cousa naquelle período. Assim a minha accusação de que se
confundira a these com a hypothese é verdadeira, como é verdadeira a
definição que lhe substitui.
O mais antigo escriptor por mim conhecido que definisse a palavra
monumento, é o romano Festo[9]. _Monumento_--diz elle--_é qualquer cousa
que se fez por memoria de alguem ou de alguma cousa_. Disse eu: _Um
monumento é um meio de transmittir ao futuro uma lembrança do passado_.
Entre estas duas definições tão irmans na substancia quanto distantes na
ordem dos tempos, não ha um escriptor que désse outra. Engano-me! Houve
o meu adversario.
E porque o fez elle? Porque confundindo a hypothese com a these, e
attribuindo a esta as condições que julgava absolutas naquella, deduzia
dahi a seu modo a necessidade de ser o monumento como o desejava;
entendia fazer luctar a idéa abstracta de monumento com a utilidade, e
excluir esta por aquella.
O laço, postoque involuntario, era demasiado grosseiro para que eu
caísse nelle; para que entrasse em uma discussão sem convirmos em
termos.
O adversario tinha feito o mesmo que faria, se pretendendo definir o
homem, tomasse a hypothesse de um mentecapto, e dissesse: _um homem é um
animal, que dá com a cabeça pelas paredes_, concluindo dahi que onde não
houvesse cabeçada em muro, não se poderia dar a entidade homem.
Quando _demonstrei_ a impossibilidade de applicar á these a definição da
hypothese, não avaliei esta em si: rejeitei-a como impropria para
tractar a questão com methodo; como trasladada absurdamente do concreto
para o abstracto. Agora, porém, vou mostrar como essa definição do meu
antagonista é falsa ainda em hypothese, não em uma ou outra, mas em
todas ellas.
Monumento--_ponto de contacto_ entre a _gloria_ e a _admiração_.
Temos três cousas nestas palavras, a glória, a admiração, e uma terceira
que as liga, o monumento. Mais nada. Venhamos á applicação.
Supponhamos que tiraes a vossa pública fórma romana e a lançaes no meio
do Rocio. Passa um século ou dous: um estranho ou um homem do povo, que
não saiba a nossa historia, chega ao pé do monumento, lê ahi o nome de
D. Pedro, vê emblemas allegoricos que não intende, vê baixos-relevos de
batalhas, cujos motivos e resultados ignora. Adivinhará elle o valor, a
significação real de tudo isso? Servirá a columna do exarcha de
conductor á electricidade que deve produzir a faísca? Á glória que deve
produzir admiração? Não ha elementos nenhuns intermédios, além do
obelisco, necessarios para que o homem que ignora, admire o homem delle
ignorado apesar do monumento? Se, como eu creio, dentro de um ou dous
séculos, aos olhos de gerações mais civilisadas que nós, os
conquistadores que assolaram a terra para satisfazerem as suas
desregradas paixões de ambição e cubiça, os homens que cubriram as
familias de lucto no seu proprio pais para irem derramar todo o género
de orphandade em terras estranhas; que abusando da força se assentaram
sobre as ruinas da liberdade para legislarem, não importa se bem se mal,
sem consultarem o voto da sociedade; se taes homens forem tidos pelo que
realmente são, por flagellos do género-humano, como servirá a vossa
columna de ponto _de contacto entre a gloria e a admiração_! Com a sua
estátua de bronze, com os seus baixos-relevos, com os seus emblemas, com
as suas datas de batalhas, com tudo o que quiserdes, não poderia ella
mudados os nomes e algarismos servir a qualquer dos grandes e
furiosissimos assassinos por grosso, que teem assolado o mundo e
convertido os homens em servos? A Alexandre, a Cesar, a Attila, ou a
Napoleão? Para saber as causas das batalhas de D. Pedro, e os resultados
dellas, a origem e os fins das suas leis, bastará o monumento
palimpsesto ou outro qualquer monumento? Não. É preciso a historia, e
uma historia onde a philosophia tenha discriminado os factos e
caracteres, e a sua valia e moralidade. É ella que pode estabelecer o
contacto da gloria e da admiração. Um monumento, imaginai-o como vos
approuver, nunca substituirá a historia; porque esta lembra, caracterisa
e julga, e os monumentos lembram sómente. Por isso elles a precederam;
foram a historia primitiva, a chronica árida e apenas balbuciada do
género-humano infante e bárbaro. A vossa definição é falsa: falsa ainda
na hypothese. Em these é mais que falsa; é ridicula.
Considerai um por um todos os monumentos desde o imperio dos Pharaós até
as monarchias modernas. Qual delles vos habilita por si só para julgar
os factos ou indivíduos a que foram consagrados? Nenhum. Como podeis
pois admirar sem julgar? Como pode um monumento servir de ponto de
contacto entre a glória e a admiração?
A nossa definição que é a única dada por todos desde o grammatico Festo
até o diccionarista Moraes, determina nos monumentos um valor constante,
sempre possivel, sempre verdadeiro, o meio de transmittir uma lembrança
aos vindouros. Apesar dos seus caracteres de exacção e de
universalidade; apesar das suas cans de tantos séculos o meu antagonista
rejeita-a. O motivo da rejeição é, segundo diz, o não definir ella nada;
_porque_, accrescenta, _monumentos podem ser até utensilios de
cozinha... os achados em Pompeia e Herculanum são_ meios _porque_ se
transmittiram _ao futuro lembranças do passado_.
Se o auctor dos artigos do _Correio_, a quem devo um conceito que estou
longe de merecer, não tivesse gasto todas as admirações possiveis sobre
a minha irreflexão, enfermidade mental a que, na sua opinião, não
costumo ser sujeito, eu faria aqui ácerca de similhante período todos os
encarecimentos da admiração. Perguntar-lhe-hei todavia, qual é a
significação das palavras _transmittir_--_meio_? _Transmittir_, se não
mente a etymologia, significa _mandar além_--e _meio_ neste logar só
pode significar _instrumento_. Posto isto, perguntarei mais: quando uma
cousa serve de instrumento é ella que actua, ou quem a emprega? O _meio_
de _mandar além_ qualquer objecto é que manda, ou a _intenção_ que se
serve delle? A que vem, pois, os restos desenterrados em Pompeia? Quem
foi que os pôs lá para nos lembrarem o passado? Perdoe-me o adversario
uma expressão grosseira, mas exacta: no que disse substituiu á ideologia
humana a ideologia dos cães. O cão, quando lhe atiram uma pedrada, morde
a pedra, em vez de morder a mão que a despediu. O pobre animal confunde
a vontade que actua com o instrumento passivo. Eis porque eu analysei as
idéas simples que compõem a idéa complexa de monumento: foi para não
cair nestas ideologias caninas.
Cá apparece um parágrapho que me faz tremer! Assevera o meu adversario
que armei um--sophisma tão graúdo que se não estivesse em lettra redonda
não o acreditaria. Virgem sanctissima! Grossa parvoíce disse eu! Que
foi? Vejamos:
«Segundo elle (este _elle_ sou eu) o testemunho de agradecimento por um
serviço era a annullação desse serviço; um meio de perpetuar a sua
lembrança, era um recurso contra a sua importancia. Segundo esta
doutrina quem escrever o panegyrico de um homem que admira, depois delle
escripto pode deixar-se da admiração, porque o louvor igualou o
merecimento. Um arco de triumpho fica sendo um meio de esquecimento, e
até uma illuminação será bastante para tirar aos que a fazem toda a
razão de admirarem aquelles a favor de quem é feita.»
«Não, os serviços de D. Pedro _não se pagam com umas pedras medidas e
cinzeladas_, mas _não_ é tambem _para lhe pagar os seus serviços_ que
nós nos lembramos de um monumento, é para satisfazer a necessidade da
manifestação do nosso reconhecimento para com elle--_só para isso_.»
Agora ahi vai para o meu processo de archisophista mais uma peça
importante: é a passagem do artigo do _Correio_ a que eu alludia na
inacreditavel parvoíce que escrevi, condemnando o orgulho insensato dos
que pretendiam _pagar_ em admiração (fraca moeda!) _o que devemos_ a D.
Pedro. Para repellir toda a idéa da utilidade no monumento do Imperador;
para desacreditar o alvitre de lhe dedicar uma eschola em vez de um
penedo lavrado á romana, dizia o _Correio_:
«Se quiserem podem affirmar que é um último beneficio que delle
recebemos, _mas que seja a paga em admiração do que lhe devemos em
serviços_, isso é que não; isso é que não se demonstra nem em três nem
em mil artigos.»
Isto não carece de commentarios. Nada é, pois, _segundo a mim_ de todos
esses _segundo elle_, amontoados por amplificação rhetorica. _Segundo a
mim_ é o que lá está no meu artigo; _que a nossa dívida é insoluvel,
insoluvel a dívida das gerações que vierem após nós_; eis o que eu
creio, e o que disse.
Confesso que chego a ter lástima do meu illustre antagonista!
_Fuerza de consonante a cuanto obligas,
Que haces que sean blancas las hormigas_!
Fique por aqui hoje: o resto será para outro ou outros dias.
V
Sed ego quae monumenti ratio sit nomine ipso moneor, ad memoriam
magis spectare debet posteritatis, quam ad praesentis temporis
gratiam.
Cicero.
_Crença idolatrada do seu coração_ chama o meu adversario á
pública-fórma em pedra do mote do exarcha, em que se pretende escrever
por entrelinha ou rasura o nome de D. Pedro: crença idólatra, chamarei
eu antes a essa adoração cega das pedras de Pero-pinheiro: cega como a
dos primeiros discipulos do propheta de Yatrib, que se atiravam ao ferro
inimigo para morrer nelle, pensando ganhar o céu e sujeitar a terra
inteira aos destemperas do Koran. E a idolatria um grande peccado: Deus
allumie o auctor dos artigos do _Correio_ para que a abandone, e se
volte ao evangelho, que já provou exuberantemente haver de todo
esquecido.
Os commettimentos, que elle me faz, são todos de quem combate com os
olhos fechados como os Musslims primitivos, que muitas vezes achavam a
morte onde esperavam encontrar a victória. Ahi vai mais uma lamentavel
prova dos perigos das crenças idólatras.
No segundo parágrapho do primeiro artigo publicado no _Correio_ ácerca
da questão ventilada, e ainda neste mesmo artigo dirigido contra a
Revista, são taxados de egoísmo os que querem a eschola emvez da
columna. Repelli eu aquella accusação _definindo_ o que era egoísmo, e
mostrando que na feitura da eschola, nenhum interesse existia para nós
indivíduos. Como ao que eu disse não havia resposta, o meu antagonista
achou mais facil _suppor_ condições do egoísmo o amor _da familia, dos
amigos, da patria, dos vindouros_! Isto é incrivel, mas lá está
escripto. Os que defendemos a eschola temos esse egoísmo; nem o
abandonaremos, se para adorar, não o bezerro de ouro, mas os penedos de
Pero-pinheiro, nos é necessario renegar os affectos mais bellos e puros
do coração humano.
Lembro de passagem ao Correio que _ego_ em latim significa _eu_ em
português; que Kant, com quem logo no seu primeiro artigo nos quis
metter medo (abrenuntio!) fecha todo o universo no _eu_, e _não eu_; e
finalmente que egoísta é o que concentra todos os seus affectos no _eu_
e abstrai completamente do _não eu_.
Tenho pena de que os limites de um artigo de periódico me não consintam
examinar os deliciosos parágraphos sobre a unidade de pensamento nas
obras artisticas, para vermos _cuja era a intelligencia de quem todos se
haviam de rir_. É na verdade admiravel a innocencia com que ahi se
rejeita a condição do bom no bello; com que se condemna a estethica de
Kant, do mesmissimo Kant, que o meu adversario mettera na sua phalange e
com quem, por um triz, nos não mata logo a princípio! Permitta Deus que
neste negocio de Kant, não ande alguma emburilhada como a de Shakspeare!
Umas perguntinhas porém irão aqui por amostra. Entre outras cousas a que
se nega a possibilidade de ser útil é a um livro sublime, sob pena de
universal risada. A Biblia é ou não ao mesmo tempo sublime e útil? É.
Quem a dictou? Deus. Não parece ao meu antagonista um pouco grosseiro
rir da intelligencia de Deus?
Sobre o resto da primeira parte do artigo, só sei exclamar como
Hamlet--palavras!--palavras!--palavras! A que veem ahi todas as especies
de monumentos onde a idéa moral de utilidade para os vindouros se
poderia associar a est'outra idéa moral, a de lhes recordar o
Libertador? Como se prova que para haver coherencia é necessario que o
monumento tenha por condição todo o género de utilidades? Onde disse eu
que na idéa absoluta do objecto se encerrava forçosamente como qualidade
primeira a idéa de uma utilidade, quanto mais de todas as utilidades?
Não foi exactamente isso que eu declarei um absurdo creado pelos
sectarios da opinião contrária para o combaterem com o outro absurdo, de
que é condição absoluta de todo e qualquer monumento o ser inútil? De
que modo conclue o meu antagonista do princípio que estabeleci, de que
um monumento não tem por condição essencial senão o lembrar, que para
ser logico hei-de querer que elle seja sem remissão útil de seiscentos
modos? Que logica é esta? Ou eu estou doido, ou o meu adversario cego na
adoração extatica dos seus _penedos idolatrados_.
Eu fiz nascer a conveniencia e propriedade de ser o monumento de D.
Pedro uma eschola em vez do obelisco de Trajano ou de Phocas, não da
natureza da cousa em si, mas de uma ordem de considerações relativas ao
Imperador e a nós, as quaes deviam determinar as circumstancias
accidentaes do monumento. Combater essas considerações: mostrar que
ellas não são _determinantes_, isso intendo eu: mas confundir tudo;
tanto o que é relativo ao lembrado, como á cousa que lembra, como aos
que querem fazer lembrado; tirar de uma ordem de raciocinios argumentos
contra uma ordem de raciocinios diversos, é pôr o cháos e as trevas no
logar da harmonia e da luz: é mostrar que se não sabe ou não se quere
avaliar idéas complexas, que se não concebe ou se não quere conceber o
que seja a anályse. Eis porque se repugna á definição rigorosa da idéa
generica _monumento_. A clareza, o methodo, as deducções logicas e
precisas matam os defensores da pedra.
Quere o meu adversario refutar-me? Prove que um monumento não é um meio
de lembrar, que é alguma cousa mais ou menos ou diversa: prove que a
natureza da idéa monumento repugna sempre e em todos os casos á natureza
da idéa utilidade. Se fizer isto a questão está acabada. Se o não podér
fazer, demonstre ao menos que na hypothese actual as considerações que
me fazem crêr, que uma eschola é o monumento mais proprio de D. Pedro,
não são verdadeiras; que outras considerações mais exactas determinam
que o accidental do monumento seja um obelisco ou uma columna; mas que
essas considerações se apresentem sólidas, leaes, contrárias
verdadeiramente ás minhas, e não traga argumentos como aquelle por onde
termina a primeira parte do seu artigo, no qual querendo sustentar a
these de que _um monumento é um ponto de contacto entre a admiração e a
gloria_, diz que os dous monumentos do regicidio de D. José I, postos no
logar do crime e do supplício provam contra mim, porque a _columna e o
templo podiam reunir-se num só monumento, e a casa de Deus expressar
duas idéas, a recordação dolorosa do delicto e o agradecimento á
providencia, isto segundo a minha opinião_. A minha opinião é que um
monumento deve lembrar: que a _fórma_ da lembrança, as _circumstancias_
que a acompanham podem ser diversas. Em que prova pois o templo ou a
columna contra mim? Confesso que não intendo, e a muita mais gente ha-de
succeder isso. Emvez desta affirmativa inexplicavel, eu peço ao meu
adversario que mostre _qual gloria fazem admirar_ aquelles dous
monumentos, que eu citei, como poderia citar milhares de outros, para
lhe demonstrar que era falsa a sua definição generica do objecto
monumento.
Pedi acima considerações leaes: o meu adversario auctorisou-me a
pedi-las com o modo porque começa o seu segundo artigo. Aproveitou uma
virgula trocada na imprensa para affirmar que eu _concedo licença de
sermos gratos_ a D. Pedro: porque disse que no monumento o lembrar era o
essencial e a _gratidão, nossa e dos vindouros, ou especialmente nossa
se quiserem_, era o secundario, o accidental. Quem lêr o que escrevi
verá, junctando os dous parágraphos, em que exprimi essa idéa, que o _se
quiserem_ se refere ao _especialmente nossa_, e não _a gratidão_.
Suppõe-me o auctor do artigo tão insensato, que declarando ser a nossa
dívida a D. Pedro insoluvel e a gratidão um dever, concedesse no mesmo
artigo, na mesma página, como _um favor_ a liberdade de sermos gratos?
Não; elle não o suppõe; mas como um homem que se affoga segura-se a um
palito, ao ar, e até ás proprias ondas, assim elle lançou mão de uma
vírgula trocada, para salvar uma causa perdida. Por quem é lhe peço que
não imite Camões nas águas do Mecon: deixe ir ao fundo a columna romana:
olhe que não vale os Lusiadas. Lembro-lhe até que não busque outras
razões para sustentar uma opinião insustentavel, se quere que ella
prevaleça. Levado á evidéncia que o mote do exarcha é uma cousa
anachronica, estúpida, insolente para com a memoria de D. Pedro, sem
poesia, sem verdade, sem senso commum, e que uma eschóla deveria ser o
monumento do homem da civilisação, esteja certo de que será mais facil
arrasar todas as escholas de Portugal do que deixar de se erguer a tal
tranca de pedra; esteja certo de que os nossos Angelos Mai de obra
grossa com tanto mais afferro se agarrarão ao seu palimpsesto, quanto
mais absurdo elle fôr. A historia desta bemdicta nação no presente
século lhe é fiadora sobeja disso, em todos os seus aspectos.
Disse eu, e repito, que o _essencial_ no monumento é o transmittir á
posteridade a grandeza moral do individuo, e o accidental _nelle_ a
gratidão. «Proclama-se, portanto, (observa o meu antagonista) que a
_inutilidade irrisoria é o essencial_, e que a virtude indispensavel _é
o accessorio_.» Onde affirmei eu que o lembrar D. Pedro era _inutilidade
irrisoria_? Pois o homem que quisera ver derramadas por todos os angulos
da monarchia recordações de D. Pedro intende que seja irrisorio o
recordá-lo? É por certo involuntario, mas é um falso testemunho que o
adversario me levanta. O que escrevi corre impresso; julgue-o o meu mais
cruel inimigo e diga se ha ahi uma phrase ou uma palavra que o auctorise
a attribuir-me similhante pensamento. Portanto!! Portanto, o quê?
Bastava ter visto de longe uma eschola de logica para nenhum ente
racional tirar similhante illação das premissas que o _Correio_ foi
buscar ao meu artigo.
Havendo estabelecido que a condição unicamente essencial do monumento é
o lembrar, concluí dahi que a fórma, os motivos, ou outra qualquer
circumstancia da sua erecção eram accidentes, eram _qualidades
segundas_, e que o ser ou não _util_ em nada lhe mudava a essencia.
Resulta desta doutrina inexpugnavel, que todas as vezes que se fala em
útil ou inútil, se ha-de suppor salva a idéa moral e poetica de
_recordar_, porque tal idéa involve a existencia do monumento, e se eu
intendesse que este era absolutamente inútil, não seria tão parvo que
dissesse--faça-se uma eschola em vez de uma columna; diria--não se faça
nem uma cousa nem outra, porque o recordar D. Pedro é escusado. Quando
falei de utilidade falei da conveniencia de erguer um monumento, que
fosse tambem prolífico, um monumento que associasse ao pensamento do
_bello_, que é a sua essencia, o pensamento do _bom_, que é uma condição
esthética. Dar estas explicações no meu artigo tive vergonha de o fazer;
tive vergonha de tractar os leitores como creanças de babadouro e
andadeiras.
A bulha que o meu adversario faz com eu dizer que a gratidão ou outro
qualquer affecto ou razão determinante do monumento é accidental e por
isso accessoria, é uma miseria que o faria crêr estudantinho imberbe, e
ainda nem sequer chegado ao Genuense, se outras circumstancias dos seus
artigos não revelassem nelle o homem habituado ás lides intellectuaes da
imprensa periódica, a sustentar o pró e o contra. O _ser accidental_ não
é o contrário de ser importante, grave, bello ou moral; é o contrário de
_ser necessario_. Não poderia alevantar o monumento a D. Pedro a saudade
filial ou a de um amigo que nada lhe devesse; o orgulho de um ricaço, o
enthusiasmo militar que só visse no Imperador o grande capitão? Deixaria
de ser monumento se estes ou outros quaesquer fossem os motivos
determinantes? Ninguém o dirá. Logo o essencial é o lembrar, e a
gratidão o accidente. Dou dez annos ao meu adversario para que ache uma
resposta a isto, que tenha o senso commum.
Graças a Deus, que encontro emfim uma doutrina clara, precisa, opposta
francamente á minha! A final o meu impugnador declara «que a posteridade
não necessita que lhe lembremos D. Pedro; que não é preciso mandar fazer
um pregoeiro de pedra e cal encarregado de estar lembrando aos vindouros
uma idéa que nem pode fugir, nem desvanecer-se.» Bem! Isso agora
intende-se. O monumento não é para memorar D. Pedro, porque isso seria
uma tolice, _uma calumnia á posteridade_: logo é para _lembrar a_ nossa
gratidão: logo o monumento é destinado a recordar que nós homens que
hoje vivemos cumprimos um dever trivial, o sermos agradecidos a quem nos
fez beneficios. Já vejo que percebi o pensamento que vinha embrulhado no
primeiro artigo de _Correio_, e que o exprimi com clareza e exacção no
meu artigo. O monumento do Rocio é destinado a dizer:--Lembrae-vos
_vindouros de que nós os homens, que viviamos em 1843, não fomos
ingratos_.