Depois as nações envelheceram, e á lucta do povo e dos nobres, do clero

e dos reis, que era vida, crescimento e liberdade, seguiu-se o pacífico

triumphar da monarchia, a somnolencia do repouso doméstico, que era

decadencia. Então começaram a surgir de novo os motes do exarcha, os

monumentos com estátua. Luiz XIV que completou o absolutismo em França

teve a sua glosa áquelle mote: teve-a D. José I, que completou o

absolutismo em Portugal.

Após isto veiu a renovação. A Providéncia, que transformara o mundo

antigo pelas invasões do septemtrião, vai transformando as nações

modernas pelas agitações intestinas. Lá empregou o ferro e as trévas: cá

as revoluções e a discussão. A lei providencial é a mesma; só a fórma da

applicação é diversa.

A analogia entre a nossa épocha e a meia-idade é maravilhosa e completa

sob o aspecto da transformação social. Para ver isto é preciso saber

achar a philosophia da historia. Os elementos mudaram, mas a sua acção é

identica.

A eschola tem hoje a preencher a missão que o templo desempenhava ha

quatro para cinco séculos. O ferro e a barbaria que mataram a

dissolução, e amputaram a gangrena romana, abriram fundas feridas no

seio da civilisação: o bálsamo do evangelho veiu curá-las. As revoluções

e as doutrinas que vão dissolvendo organisações sociaes carunchosas e

impossiveis na actualidade, deixam ahi avultado fermento de desordem e

de licença: quem ha-de annullar este fermento é a illustração. Para isso

a eschola tem de substituir o templo.

Qual é o maximo vulto da idade media portuguesa?--É D. João I. O seu

monumento é a Batalha. Qual é o gigante da nossa regeneração social? D.

Pedro.

Não serei eu: sejam todos os corações que comprehendem a gravidade dos

nossos novos destinos de povo livre; todos os que crêem e esperam, todos

os que sabem quanta poesia pode haver nos testemunhos de gratidão

popular: todos os que respeitam as tradições nacionaes; todos os que

buscam na historia do passado doutrina para o presente; todos os que

intendem que a memoria de D. Pedro é uma cousa pura, sancta e

sublime;--sejam elles que digam se o monumento do Libertador deve ser a

eschola polytechnica ou o mote sediço do Sátrapa de Phocas; ser um

sýmbolo de progresso e de vida, ou um sýmbolo de decadencia e de morte.

II

Quando publiquei no n.^o 38 da Revista um artigo sobre a questão

indicada na epígraphe acima, disse eu, que a transformação do monumento

de pedra em monumento eschola se tinha convertido em these disputavel.

Disse o que me parecia ser a crença daquelles que se afastavam nesla

materia da opinião geral. Hoje vejo que me enganei, e que nem para esses

mesmos o negócio é realmente disputavel.

A única impugnação que, até o momento em que escrevo estas linhas,

appareceu contra as reflexões que fiz, foi o artigo lançado nas columnas

do _Espectador_ de 13 deste mês, que hoje (18) me veiu casualmente ás

mãos. Esse escripto provou-me que os fautores da pedra polida ainda

estão talvez mais persuadidos que nós de que defendem uma péssima causa.

Se assim não fosse, como haveria a menos boa-fé de transtornar

completamente as idéas contidas no meu artigo, para as combater depois?

Como se dariam asserções gratuitas por argumentos? Como se amontoariam

desbragadamente tantas contradicções flagrantes? Um homem a ponto de

afogar-se não faria mais meneios descompostos, mais tentativas inúteis,

mais movimentos para ir em menos tempo ao fundo. Os homens que pretendem

converter a columna de Phocas em um palimpsesto onde sacrilegamente

escrevam o nome de D. Pedro, afogam-se evidentemente. Que a misericordia

de Deus os tenha de sua mão!

Na introducção do artigo fui eu a materia sujeita das considerações do

jornalista. Aos elogios e censuras ahi lançados só direi uma cousa:

recuso o julgamento: recuso-o no bem e no mal, emquanto o juiz não

provar pelos seus títulos litterarios a competencia do tribunal. Para as

sentenças valerem costuma o julgador firmá-las com o seu nome. Sem isso

um fiel de feitos poderia em vez de os levar de porta em porta;

intrometter-se a sentenceá-los.

«Começa o incógnito por dizer que escrevo sem referencia ao artigo da

Revista, nem ás minhas idéas, e não ha um parágrapho em todo aquelle

papel, que se não refira a ellas, truncadas, transtornadas, postas a uma

falsa luz, é verdade, mas sempre a ellas.»

É para dar logo, na concepção geral do escripto, a prova da sua

competencia para avaliar a minha pouca logica.

Eu fiz a distincção que era necessario fazer entre a idéa absoluta de

qualquer monumento e as condições variaveis delle: provei que a idéa não

importava senão o _lembrar_; que a fórma, as circumstancias, os motivos

que o faziam erguer eram accidentaes em _relação a elle_: falei da these

antes de falar da hypothese. O bom do incógnito confunde tudo isto, e

diz que eu faço da gratidão um accidente. Com esta trapaça, duas ou três

exclamações e alguns pontos de admiração, crê o pobre homem ter

respondido a uma ordem severa de raciocinios.

O que é uma hypothese? É a modificação de uma these por circumstancias

variaveis e accidentaes. Se a gratidão é condição absoluta da idéa,

_monumento_, um padrão posto para recordar a cheia de um rio significa

um testemunho de gratidão á cheia: a memoria destinada a perpetuar a

lembrança de um grande crime, é uma prova de gratidão ao criminoso. Eis

ao que se devia responder, e não se respondeu, nem se responderá nunca.

Onde disse eu que a gratidão era um accidente _em relação a nós_? O que

disse foi exactamente o contrário: foi que ella era um dever nosso. O

que eu acho soberanamente estúpido e ridículo é o querermos lembrar á

posteridade as nossas importantissimas personagens porque desempenhamos

uma obrigação moral. Se não a desempenhassemos era então que deviamos

ter um monumento, mas monumento de condemnação e infamia.

A gratidão é uma idéa necessaria em relação a nós: condicional em

relação ao monumento. Provai que esta doutrina do artigo é falsa, e

depois fareis exclamações e admirações, que por si sós apenas são boas

para ventilar questões de pontualidades amorosas em grade de freiras.

No artigo impugnado asseverou-se um facto: isto é, que a opinião pública

preferia o monumento eschola polytechnica ao monumento palimpsesto de

Phocas. Diz-se que não o provei. Como e para quê? Escrevia para o

público, e o público tinha a consciencia de que eu falava verdade. Agora

porém o adversario colloca-me ainda em melhor terreno: teve boa-fé uma

vez.--Foi engano, por isso não lh'o agradeço.

Confessa ter existido o facto asseverado por mim. Concordamos pois todos

nesse ponto. Logo a sua existencia é incontestavel. Pretende que a

opinião pública mudou: isto é, affirma que um novo facto veiu substituir

o primeiro. Sou eu que devo provar este, ou elle que deve provar

essoutro? A resposta está no Genuense.

Para contrabalançar o voto da razão pública cita-se a opinião de uma

alta personagem. Não sei quem é, nem o desejo. O que, porém, sei é que,

seja qual fôr a altura dessa personagem, nestas questões de doutrina, o

seu voto não significa mais do que uma unidade.

Diz o _Espectador_ que os seus adversarios se _escoram_ na _base_

falsissima, de que não se poderá edificar a eschola sem que se deixe de

alevantar o monumento a D. Pedro. Pondo de parte a gíria tacanha com que

se dá por provado o absurdo de que o monumento de D. Pedro significa

forçosamente a pública-fórma do mote do exarcha Smaragdo, e que uma

eschola, um templo, ou outra qualquer cousa não pode ser monumento;

pondo de parte essa gíria, porque é vergonhosa e parva, direi só, que

não foi isso que eu tractei de provar. O que provei foi que em relação

ao Imperador, ao século em que vivemos, á philosophia da historia, aos

caracteres politicos da sociedade portuguesa actual, a hypothese de que

se tracta, o monumento que se pretende erguer, deve ser uma eschola e

não uma cópia mesquinha de um triste monumento de decadencia de outra

nação. Se a eschola polytechnica existisse ainda intacta, o monumento

com estátua não seria por isso menos absurdo, e moralmente impossivel.

Taxa o _Espectador_ de pueril e não sei de qne mais o alvitre que dei,

de se chamarem os contribuintes a levantarem as suas quotas no caso de

não approvarem o monumento-eschola. Este modo liberal, decente,

moralissimo, de consultar a opinião daquelles que teem direito a serem

consultados na materia; de respeitar a propriedade e a vontade

particular naquillo em que deve ser respeitada, merece o profundo

desprezo do auctor do artigo. Estou bem longe de suppor que as suas

acções como homem e como cidadão sejam conformes com as suas doutrinas

moraes; mas estas pelo que se vê aqui são tão exactas e sans, como as

idéas que tem ácerca de monumentos.

O resto do artigo é todo do mesmo gosto. Versa sobre o presupposto

miseravel e ridiculo, que fora do mote _monumento com estatua_, não ha

salvação monumental possivel. Se eu me occupasse um minuto em responder

á máchina de sensaborias que sobre este fundamento de palha se

alevantou, merecia bem meia duzia de palmatoadas. Era uma creancice

intoleravel.

Querem um _ex digito Gigas_? Ahi vai:

«... em todos os seus periodos (os do meu artigo) achamos reproduzidos

um ou outro dos dois _sofismas_, se não _paralogismos_, _de sobre_ que

assenta a machina engenhosa, mas só engenhosa, que nos propusémos

derribar.»

Isto traduz-se assim:--...achamos reproduzidos um ou outro dos dous

_argumentos falsos por má fé de quem os emprega_, se não são cousa muito

mais condemnavel, se não são _argumentos falsos, por êrro no raciocinio

e não por má fé_.

Aqui teem o meu mestre de logica.

Quando os admiradores do mote do Rocio pretenderem defendê-lo, façam

cousa _tangivel_. Emquanto assim não o fizerem estejam certos de que os

deixarei barafustar calado. Não tenho tempo nem paciencia para refutar o

que está refutado por si.

III

Um artigo destinado a refutar o que ácêrca desta importante questão eu

escrevera no n.^o 38 da Revista começou a apparecer no jornal _o

Correio_. Pela forma em que está escripto merece attenção e resposta.

Tê-la-ha, e plenissima: plenissima se não me engana a persuasão, em que

estou de que essa causa que defendo é a da philosophia, da civilisação,

do christianismo, disso a que Guisot chama o aspecto poetico da

historia, e finalmente a causa do senso commum.

Nunca esperei, receber na minha vida uma tão longa lição de exegese. Se

a valia não é grande pela substancia, é-o pela extensão e pelo stylo.

Não sei se o auctor foi levado a fazer um tão largo commentario pelo

temor de que eu, novo Juliano Apostata, tentasse dar em terra com o

magestoso edificio da religião. Se foi, peço-lhe que se tranquilise.

Hão-de passar muitos séculos por cima dos meus ossos e a cruz ainda

ha-de hastear-se triumphante sobre a terra. Não a teem derribado as

tempestades: não tema tambem que um verme, que nasceu para logo morrer,

pudesse fazê-la tombar do seu pedestal eterno.

A verdade é, ao menos assim me parece, que o digno auctor do artigo

acreditou, que eu me tinha collocado em uma situação falsa: que estava

em contradicção com o evangelho, e que por isso devia aproveitar uma

cousa que na questão era um incidente, e convertê-la em parte integrante

della, para dahi tirar alguns epigrammas e diversas amplificações, que o

são quasí todos os períodos do meu respeitavel adversario, ainda que

elle o não queira.

E donde nasceu esta persuasão que o induziu a começar tão infelizmente

um artigo, que talvez seja uma obra admiravel? Nasceu, perdoe-me elle,

do errado presupposto de que o evangelho se pode estudar em qualquer

fragmento de citação, posta á frente de livrinho francês de estreias

annuaes, ou dalgum folhetim de Julio Janin. Estas fontes podem-se

aproveitar, por exemplo, quando queremos citar versos de um poeta que

nunca lemos, e cuja lingua não intendemos. Ás vezes a compra sai

avariada, mas é mais barata, passamos por eruditos, e a cousa não tem

consequencias. O espírito do christianismo, esse é que não se colhe de

relance no tôpo de um capítulo de romance; estuda-se na Bíblia, que é

volume mais grosso e pesado que os lindos nadas da crítica de folhetim;

estuda-se nas obras dos Padres, e nas tradições da igreja. Sinto

dizê-lo, para apóstolo tão fervoroso o meu adversario está, se não

analphabeto do cathecismo christão, ao menos muito esquecido do que elle

ensina.

Que disse eu? Que a _doutrina de Jesus_ era converter a pedra em pão; em

pão do corpo, e em pão do espirito. Será isto verdadeiro ou falso? Em

que se resume toda a doutrina moral do christianismo? No sermão da

montanha, o qual tambem vem resumir-se na idéa fundamental da crença do

Calvario:--a caridade. A caridade, porém, em que consiste? Em fazer por

Deus todo o bem aos homens, tudo o que lhes pode ser _util_; corporal,

intellectual e moralmente. E quem seguirá a doutrina do

mestre:--aquelles que applicarem os seus haveres, as suas forças, ou a

sua intelligencia á esmola, e esmola é tambem a educação que melhora os

costumes, ou aquelles que desbaratam tudo isso para fazer triumphar uma

idéa absurda, sem proveito humano, pagan, mesquinha e insensata? Quem

intende o espirito do evangelho: aquelle que á obra humana pretende

associar um pensamento de civilisação e de beneficencía, ou aquelle que

a pretende exclusivamente dedicada não tanto á gloria alheia como á

propria vangloria? No meu christianismo, que me parece ser o dos

apóstolos, e das tradições christans, é incontestavelmente o primeiro.

As reminiscencias do meu adversario armaram-lhe um laço cruel.

Lembrou-se de duas passagens do evangelho de que eu não falara, e

esqueceu-se completamente daquillo a que eu alludira, a _doutrina de

Jesus_. Pois esta doutrina está em duas passagens singulares relativas a

duas circumstancias especiaes em que o Salvador se achou, ou no complexo

dos seus preceitos, das suas sentenças claras e positivas, dirigidas ao

género-humano? Que se diria daquelle que valendo-se das palavras de

Jesus: _Não vim trazer a paz, mas a espada_, concluisse dahi que o

espirito do christianismo era o promover os grandes assassinios

collectivos entre as nações, chamados guerra? Não quero dizer eu do

auctor do artigo o que se diria desse homem, isto é que nunca tinha lido

o evangelho.

Serviu-se o diabo na tentação do deserto das palavras pão e pedra no

sentido natural: servi-me eu dellas casualmente no sentido figurado.

Daqui concluiu o meu adversario, que eu attribuia a Jesus doutrinas

oppostas ás suas. Confesso que não sei responder a isto: tanto como o

meu impugnador desceria a responder-me, se, argumentando das phrases

francesas do seu artigo, de que se poderia servir por seiscentos motivos

diversos, concluisse dahi que elle era francês e não português.

Mas já que foi buscar duas passagens do evangelho para me provar que eu

não tinha razão em querer um monumento-eschola, não serei tão descortês

que lh'as regeite. Venham esses passos, que servem maravilhosamente ao

intento. Muito velho era o diabo quando Jesus veiu ao mundo. Era velho e

manhoso, e disso não faltam provas. Diabo parvo ainda ninguem imaginou.

Logica devia sabê-la: um rapaz aprende-a bem num anno: melhor a devia

ter aprendido Satanás em tantos séculos. Sabia tambem que esse a quem

tentava era um Deus. Posto isto, que fez elle? Fez-lhe um argumento _per

te_, que se póde exprimir assim syllogisticamente:

O Filho de Deus converte as pedras em pão:

Tu dizes que és Filho de Deus:

Logo converte as pedras em pão.

Que respondeu Jesus? Que o homem não vive só de pão, mas _tambem_ da

palavra de Deus. Distinguiu; não contestou a maior nem a menor; e disse

sublimemente o que eu homem rude repeti grosseiramente. O pão que elle

dava aos homens era o do corpo e do espirito; eram _tambem_ os corações

de pedra, as intelligencias broncas ou pervertidas que alimentava com a

luz, com o verbo de Deus. E de feito foi este proceder que o divino

Mestre deixou como doutrina aos que pretendessem seguir o caminho da

cruz. Agora: quem intenderá o pensamento do Crucificado, aquelles que

pugnam pela eschola que alumia e moralisa, ou os mantenedores da pedra

bruta que não é alimento nem do corpo nem do espirito? Responda quem

quiser.

Se o meu illustre impugnador foi infeliz em se valer da historia da

tentação no deserto, não o foi menos no texto que buscou para epígraphe.

Judas era um hypócrita que pretendia enganar Jesus. Invocando a

_utilidade_ dos homens contra a acção de Maria que derramava o bálsamo

sobre os pés de Christo, seriam as doutrinas dos Phariseus, dos

Sadduceus ou dos Essénios, que invocava, ou a do Redemptor? A não o

termos por um mentecapto só esta podia ser; e que só esta era se torna

evidente da resposta de Jesus. Nas vésperas do dia em que o Filho do

Homem devia ser crucificado, acceitava de bom animo o testemunho de

affeição que lhe dava Maria. De que modo desculpou elle a irman de

Lazaro? Negou a doutrina que Judas invocava? Não, por certo; não podia

fazê-lo. Teria condemnado a sua vida passada, teria desmentido o verbo

do Pae. O que fez foi confundir o hypócrita recordando-lhe que elle

Jesus era um Deus, que os ía deixar, e que neste momento solemne aquelle

signal de affecto fôra uma boa obra; porque fôra a caridade no seu mais

alto sentido; fôra o amor de Deus.

Era com a caridade na sua expressão ideal que Jesus confundia o

hypócrita, como confundira o demonio, que pensava o podia levar pela

soberba a fazer um milagre escusado, com a expressão mais pura do

beneficio, lembrando-lhe que o homem não precisa só do alimento do

corpo, mas tambem do alimento do espirito.

Que fazem, pois, os que abusam das palavras de Christo em circumstancias

especiaes para condemnarem a sua doutrina? Fazem o que faziam Satanás e

o hypócrita, que abusavam dessa doutrina, um para o tentar pela soberba,

outro para blasphemar da caridade para com Deus á sombra da caridade

para com os homens.

Os que condemnam a obra da illustracão para defender a obra bruta,

condemnam as palavras com que o Messias repelliu o tentador. A eschola,

que instrue e civilisa, é tambem um instrumento religioso, porque a

civilisação nasceu do christianismo, e trabalha para elle afugentando as

miserias e vicios humanos, que na maxima parte não são mais que habitos

ou tradições da barbaria. A eschola, que revela as grandezas de Deus nas

condições do universo, e que ensina os meios de ser laborioso e útil aos

homens, tambem é um verbo de cima. Aquelle que intender as harmonias dos

mundos ha-de forçosamente crêr em Deus; aquelle que pela sciencia

obtiver os meios de ser laborioso com utilidade, sê-lo-ha e será

virtuoso, porque a virtude é por via de regra a companheira do trabalho.

Quem é o alliado do Iscariotes e de Satanás:--eu ou o meu antagonista?

Aconselho-o sinceramente a que se deixe de considerar o negócio da sua

pública-fórma do mote do exarcha romano pelo lado religioso. O estudo do

christianismo não é o seu forte. Não me cite o evangelho que eu conheço

um pouco melhor do que elle. Cite-me antes Shakspeare.

Ficarei na questão incidente. Publique-se o resto do artigo e então

verei se na questão principal posso luctar com tão duro athleta. Nessa

occasião tractarei do que neste comêço publicado se encontra relativo já

á folha avulsa do livro de Montfaucon, que se pretende transmutar em

pedra e transferir da Bibliotheca para o Rocio.

_P. S._ Neste momento acaba de me chegar á mão o resto do artigo do

_Correio_. Para não occupar demasiadamente as columnas da Revista com

este objecto, fique esse resto para outra vez. A mina é riquissima.

_Evangeliso vobis gaudium magnum, quod erit omni pupulo_.

Ajuda, 23 de junho.

IV

Arrogantiam et superbiam et os bilingue detestor.

Proverb. cap. 8.

Vae vobis... qui ornatis ... monumenta justorum.

Ev. Mathoeis cap. 23.

Cria eu que todas as vezes que em negócio importante para uma nação,

para uma sociedade inteira, esta concordasse geralmente em resolvê-lo de

certo modo, esse modo seria sempre o mais conveniente e judicioso.

Quando, não todos os individuos, mas a maioria dos individuos de todas

as classes e condições, concordassem sobre a fórma de reduzir a facto um

pensamento, que significaria tal accordo senão a cousa mais d'estimar e

respeitar e que mais rara é de encontrar neste mundo, a opinião do

_senso commum_? Quando uma tal opinião se apresentasse incontestavel,

cria eu que as resistencias seriam impossiveis por absurdas: cria que

ante a razão da sociedade a _razão_ (?) individual seria pelo menos

modesta. A questão do monumento do Duque de Bragança veiu, porém,

desenganar-me do meu êrro. Numa effusão de sinceridade um dos defensores

da pedra contra o Verbo confessou a existencia dessa conformidade de

opiniões; mas porque algumas mudaram, combatem-se furiosamente as

daquelles, que intenderam não haver fundamento para abandonar o voto do

_senso commum_.

Á vista disto teremos talvez de confessar que o criterio da verdade nem

sequer na razão pública se encontra. Assim cada dia da vida nos destroe

uma crença e gera em nossa alma uma dúvida. O scepticismo completo será

acaso o termo final do cogitar humano?

Esta idéa é repugnante: esse abysmo de incertezas aberto nas fronteiras

da morte é horrendo. Atterra-me pelo menos a mim, e por isso combato. É

guerrear por medo. Quando se entenebrecer a estrella polar da razão

humana, que facho nos alumiará neste mundo, que, como diz o

Ecclesiastes, Deus entregou aos disputadores? O que valha a razão

individual, ainda cultivada e erudita, provam-n'o os artigos do

_Correio_ ácerca do monumento a D. Pedro.

O que eu disse foi condemnado em pêso pelo meu antagonista como um

montão de sophismas. Não me fez espanto. Já uma alta personagem (alta

personagem não é synonimo d'alta intelligencia) pertencente a isso que

por ahi governa, ou legisla, ou administra, ou anda em carruagem, ou dá

banquetes, observou _profundamente_ que os meus _sophismas_ não mereciam

respostas. A quem escreve e discute, responderei discutindo como Deus me

ajudar: a quem rosna com sufficiencia estúpida; a quem crê que ao vestir

a farda bordada se despe a animalidade pura que deu a berço, que hei-de

eu responder? Duas palavras só, e serão resposta cabal a essas

excellencias ridículas:

«Estão verdes, excellentissimo!»

A questão de doutrina evangélica suscitada pelo meu illustre adversario

tractei-a num artigo anterior. Era necessario separar esse incidente da

materia principal. Os muitos parágraphos gastos por elle a proposito de

uma phrase minha, fazem suspeitar que lhe custava o vir ao ponto

substancial da discussão. Havia além disso naquelle incidente uma

accusação contra mim de anti-christianismo. Os homens que intendem

alguma cousa da religião de Jesus sorriram por certo de tal accusação;

mas desgraçadamente não falta quem a ignore. O adversario despedaçara a

base _única_ da doutrina moral do christianismo, a caridade, essa norma

posta por Deus para aferirmos por ella _todas_ as nossas obras:

interpretara erradamente, ía a dizer blasphemamente, duas passagens do

evangelho; e assentara a éthica religiosa... em quê? Nem eu o sei! Em

nada fazer util á humanidade. _Nada_, digo, porque eu tinha affirmado

que a doutrina de Christo era a beneficencia corporal e espiritual, dar

aos homens o pão do corpo e o pão do espirito. Segundo elle isto não

passa de uma theoria de Satanás e de Judas. Era injúria que escapara aos

encyclopedistas. Cumpria refutá-la: assim o fiz, e creio que o meu

antagonista ficaria plenamente satisfeito.

Agora segui-lo-hei passo a passo pelo que pertence á questão principal,

naquellas partes do seu discurso, que a minha rudeza me consentir

intender. Humildemente confesso que ha algumas tão sublimes que não pude

atinar com o que provavam, não digo contra a minha opinião, mas contra

ou a favor de qualquer opinião deste mundo! Queira Deus que não seja

assim!

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 08 · 第 11 / 14 段