nenhum pensamento reservado, nenhum destes motivos mesquinhos, que
tantas vezes nas questões de interesse público transviam os melhores
espiritos. Devo e quero crêr, que os seus receios nascem todos de uma
delicadeza excessiva de consciencia, de um erro de raciocinio causado
por um sentimento puro e nobre. Seria monstruoso e incrivel que as suas
palavras nascessem de outra origem; porque nenhum português haveria ahi
tão corrupto, que por capricho, por antipathia ou por qualquer outro
motivo abjecto, guerreasse a educação da mocidade, e quisesse converter
o monumento de um principe liberal e illustrado em monumento de uma
façanha de vándalos, que nos deshonraria aos olhos da Europa inteira.
Quando se tracta de uma questão que involve a memoria de um homem como o
Duque de Bragança, e da existencia do único instituto d'instrucção
superior nascido á sombra da liberdade, nós, geração pobre de gloria;
nós, que fortes em derribar as cousas dos tempos que foram, nos temos
mostrado tardos e débeis em reconstruir para o futuro, devemos debatê-la
sem chólera, e com animo desassombrado de paixões, como o requerem a
memoria de um grande principe e a importancia desse instituto.
As objecções capitaes a que se reduz tudo o que se tem dicto, tudo o que
se póde dizer por parte dos defensores da pedra contra o pão, são três:
1.^a, a falta de fé pública a respeito de uma somma destinada para certo
e determinado fim pelos contribuintes, applicada para fins diversos,
sejam elles quaes forem: 2.^a, que representando o monumento de D. Pedro
uma ordem de idéas exclusivamente moraes, quanto se ponderar ácerca da
utilidade de reconstruir a eschola polytechnica não vem ao intento,
porque todas essas ponderações pertencem a uma ordem de idéas
differentes: 3.^a, que essas duas ordens de considerações são como duas
linhas indefinitas parallelas, que caminham ao lado uma da outra, sem
que seja possivel encontrarem-se jamais.
Eis o que era substáncia se tem dicto, escripto e repetido por parte dos
defensores do monumento da praça pública; tudo o mais são accessorios;
são considerações que tendem a reforçar estes três argumentos
principaes. Examinemos a sua força. Se na verdade são solidos, é
necessario seguir a opinião quasi singular, e abandonar as ruinas da
eschola polytechnica, para que esta seja reconstruida quando e como se
podér. Se o não são, é preciso que o monumento de D. Pedro seja digno
delle: é preciso respeitar a opinião do país.
Pela minha parte intendo que o primeiro argumento é incontrastavel.
Sincera e lealmente o confesso. Quem contribuiu para qualquer obra
determinada, tem direito de exigir que essa obra se execute. Fosse ella
o maior dos absurdos, fosse a vergonha da arte e do senso commum, uma
vez que não offendesse a moral e as leis, a vontade dos contribuintes
devia ser respeitada. No caso presente havia um programma, bom ou mau,
para a feitura do monumento do Imperador; estava até escolhido o logar
onde se havia de erigir quando a subscripção se abriu. Os subscriptores
acceitaram aquellas condições: fez-se um verdadeiro contracto. A todas
as razões de conveniencia, que se façam, o menor dos contribuintes pode
responder:--«Não vos importe se é uma imprudencia, uma loucura, uma
brutalidade. As condições do meu contracto são estas: cumpri-as, e não
cureis dos meus êrros.»
E teria razão. O transviar o dinheiro do monumento para o mais útil fim,
sem consentimento daquelles que o deram, seria uma falta de fé pública;
mais: um verdadeiro latrocinio.
Mas não haverá algum meio de resolver a difficuldade? Ha, e muito
simples. Que as auctoridades propostas a este negócio declarem que é
lícito a todo e qualquer subscriptor retirar a somma que offereceu, se
intender que o monumento intellectual não satisfaz as condições da sua
gratidão. Depois disto abra-se uma subscripção sem limite no _quantum_
para os que não se offendem de ver a memoria de D. Pedro ligada a um
estabelecimento litterario. Parece-me que posso com certeza affirmar que
mais bolsas se hão-de descerrar para contribuir de novo, que para
receber o já offerecido.
Sem esta medida prévia intendo que é moralmente impossivel mudar as
condições capitaes da feitura do monumento, e por consequencia
impossivel satisfazer as exigencias da opinião pública.
Consideremos agora os outros argumentos que pertencem á cousa em si, e
em relação á moralidade, não de um contracto, mas de um pensamento
nacional que reune e formula por certo modo três idéas distinctas--a de
um grande homem, a de um povo e a da posteridade.
Tracta-se de um monumento. Por onde se devia começar? Por definir bem
claramente aquillo de que se tractava. Fez-se isso? Não.
Sabemos o que significa essa palavra:--dir-se-ha. Pode ser; mas ahi se
imprimiu já--«que um monumento é um ponto de contacto entre a gloria e a
admiração.» - E porque se disse isto? Porque se tomou uma hypothese por
uma these; partiu-se do singular para o universal, do condicional para o
absoluto. A definição é falsa, e da sua falsidade nasceu talvez a
multidão de paralogismos intoleraveis, que todos temos lido e ouvido.
Um monumento é um meio de transmittir ao futuro uma lembrança do
passado. Essencialmente é só isto. Accidentalmente mil condições podem
variar o seu modo de existir, mas a condição unicamente absoluta deste
existir é o _lembrar_. Onde houver isto ha monumento: o livro e o
templo, o obelisco e a estátua, o palacio e a campa; a arvore e até o
chão defeso e condemnado a perpétua esterilidade podem ser monumentos. O
objecto lembrado, repito, é a condição exclusivamente absoluta de um
monumento.
A columna erguida em uma das praias do nosso Téjo em _monumento_ do
supplício de alguns regicidas, e o templo vizinho della, edificado no
sítio em que se perpetrou o delicto, serão pontos de contacto entre a
gloria e a admiração? Sê-lo-ha a cruz plantada no caminho deserto em
memoria do assassino que ahi despojou da vida o seu similhante?
Responda-se.
Posto isto, venhamos á hypothese.
Que pretendemos nós? Edificar um monumento a D. Pedro. E para quê? Para
lembrar á posteridade o que lhe deve Portugal--nós e os vindouros.--O
monumento é para elle; é para a sua memoria.
Quaes são os elementos deste pensamento? São a grandeza moral do
individuo, transmittida ao futuro, e a gratidão especialmente nossa, se
quiserem. Eis a sua expressão mais simples. São duas idéas. Dellas se
deve partir para resolver a segunda e terceira objecções capitaes que os
adversarios nos fazem.
Das duas idéas qual é a causa final do monumento, qual a sua condição
absoluta? A primeira. Qual o accidente? A segunda.
Em transtornar estas duas idéas, em lhes trocar os valores é que está
principalmente o êrro.
É _á nossa gratidão_ que levantaes o monumento, ou _á lembrança_ de D.
Pedro? Se é á primeira, afastai da vossa obra a menor sombra de
utilidade; porque proveito proprio e agradecimento annullam-se: este
será destruido, e o que não existiu não pode ser lembrado: se é a D.
Pedro, embora o monumento seja útil, utilissimo, a condição moral
necessaria fica satisfeita; o que varia é o que pode variar e ser
modificado, o accidente.
Engana o coração aquelles que vêem o egoismo na opinião geral sobre a
judiciosa transformação do intentado monumento. Logo mostrarei quanto é
vasia de sentido similhante accusação. Entretanto seja-me lícito
lembrar-lhes que involuntariamente são elles os egoístas, além de
egoístas orgulhosos. Não será mais egoísmo substituir como idéa
principal a da propria gratidão á da memoria de D. Pedro? Levantando um
monumento de que nenhum proveito resulta ao país, estes homens generosos
crêem pagar ao Libertador a dívida nacional! Pagam com o seu dinheiro a
liberdade que elle nos deu, e as esperanças de nossos filhos! Elles,
homens obscuros como nós, saldam contas com o grande Principe, atirando
alguns cruzados para se converterem em pedras que lhe sejam consagradas!
Se essas pedras fossem úteis havia um saldo contra elles: era uma
vergonha para esta geração, sim pobre, mas fidalga. Nós cremos outra
cousa. Cremos que a nossa divida é insoluvel, insoluvel a dívida das
gerações que vierem após nós: cremos que o monumento de D. Pedro não
deve ser um só; que não é unicamente no fronstipicio da eschola
polytechnica restaurada que se ha-de escrever o seu nome em lettras
cubitaes de bronze. Multiplicai os institutos de civilisação e de
progresso, e consagrai-lh'os; porque o primeiro élo da cadeia da nossa
regeneração moral e material parte do meio das suas cinzas, está sumido
na noute do seu ataúde. Que por toda a parte o nome de D. Pedro surja
entre nós como o de Tell entre os suissos, sýmbolo de liberdade: que por
toda a parte as gerações infantes tenham de perguntar ás gerações
adultas a significação deste nome, e ellas lhes possam relatar as
tradições de saudade que já ouviram recontar a seus paes. Se um
beneficio, incalculavel, porque os seus resultados pertencem a um futuro
indefinito e desconhecido, se retribue com meia duzia de pedras de
Pero-Pinheiro, digo-vos que tendes lá riqueza com que comprar para a
nação portuguesa não só a felicidade terrena, mas as proprias chaves do
paraiso.
Pelo amor de Deus não pagueis a D. Pedro! Despi a vossa vaidade de
pigmeus diante da sua memoria. O vulto do grande Principe é um vulto
gigante. Por muito que façais podeis estar certos de que a posteridade
não vos enxergará sequer, na penumbra immensa desse vulto, que se
alevanta sobranceiro no meio das nossas miserias como o cedro no meio
das çarças rasteiras.
Sede gratos, porque cumpris um dever: mas não queiraes associar a vossa
gratidão como idéa principal ao monumento do homem illustre, porque isto
é um orgulho ridiculo. Que importa ao futuro o vosso nome, ou, o que
ainda é menos, um de vossos affectos? Não mancheis o que é sublime e
sancto com o que seria trivial e burlesco--uma pequenina vaidade.
Vaidade--não cessarei de o repetir--só vaidade anda nesta guerra que se
faz ao pensamento público: é ella quem offusca o intendimento dos que o
combatem. A prova ahi está: deu-se como razão suprema--que ninguem
acreditaria que a erecção dum monumento fôsse um signal do _nosso_
respeito a D. Pedro, se aquella opinião se realisasse. O monumento é
pois consagrado, não a D. Pedro, mas a um sentimento nosso, a _nós_. Se
elle lembrar só o Imperador nada lembra; perde a sua significação de
monumento, porque _ninguem acreditará_ que tivemos tal ou tal affecto.
Os nossos nomes, as nossas virtudes não chegarão á posteridade com
gravissimo detrimento dos vindouros! Oh miseria das miserias humanas!
Talvez eu não intenda bem a questão. Digam-me se é um recibo de pedra,
que pretendemos fazer passar authenticamente, e em público, de que
_pagámos cm admiração_ até o último ceitil do que deviamos a D. Pedro.
Se é isso, tendes razão. Concluido este negócio estamos quites e livres.
Depois elle, se podér, que guarde do sepulchro o cabedal que lhe
entregámos. Podemos esquecer-nos delle. Se as revoluções da natureza ou
dos homens destruirem o monumento, nada temos com isso. Que a sombra de
D. Pedro conservasse melhor a sua propriedade.
De que lado estará o egoísmo, o cálculo mesquinho, a ingratidão até?
Parece-me que não é do lado da opinião do país. As vossas doutrinas
conduzir-vos-hão ao absurdo e á blasphemia moral: basta que tenhaes
logica.
Vós dizeis que um monumento forçosamente ha-de ser inútil. Esta condição
absoluta tinheis obrigação de demonstrá-la. Havia de levar-vos algum
tempo. Devieis começar por destruir metade dos monumentos do passado,
que vos desmentem. Achastes mais facil attribuir aos adversarios a
proposição diametralmente opposta, de que todo o monumento deve
necessariamente ser útil. Crestes que a defensão de um absurdo estava em
combater outro absurdo. Enganaste-vos. Nenhuma das duas proposições é
verdadeira, porque as idéas que representam não se conteem na de
monumento: nenhuma por isso destroe a outra. Pode haver considerações
que movam a erigir um monumento útil ou inútil; mas essas considerações
são alheias á essencia do objecto. Se todavia a vossa doutrina é que só
a inutilidade pode ser monumental, limitai-vos a prová-lo. Epigrammas,
que ferem em vão, convertem-se em semsaborias.
Parece-me ficar demonstrado que em relação á idéa de monumento e em
relação a perpetuar a memoria do Duque de Bragança a questão da
utilidade ou inutilidade de qualquer edificação, que se haja de fazer
com o intuito monumental, é uma questão ociosa. Vejamos agora o negócio
sob outro aspecto: vejamo-lo em relação a nós.
Quando surge um pensamento público; quando uma nação se congrega em
volta de uma idéa para a reduzir a um facto, ella deve considerar bem
attentamente o seu desenho antes de o executar. Uma nação é responsavel
perante as outras nações, como o indivíduo perante a sociedade a que
pertence. Esta responsabilidade, postoque exclusivamente moral, tem na
Europa um juizo inexhoravel onde será julgada; a sentença formula-a a
imprensa: a opinião é o tribunal que ha-de confirmar esta, e a historia
o registo onde para a perpetuidade se lançará o julgamento. Graves e
meditadas devem por isso ser as acções que pertencem ao corpo social; é
preciso que levem o cunho da moralidade, da decencia, da sabedoria. Sem
isto a condemnação é certa. Poderiamos na verdade affrontá-la, se as
gerações não fossem solidarias; se uma sociedade não fosse um indivíduo
cuja vida se prolonga através dos seculos, e que em cada um delles tem
direito a gloriar-se das suas boas acções passadas, como os outros povos
teem direito a lançar-lhe em rosto os êrros ou crimes que commetteu em
anteriores épochas da sua existencia. Uma geração não pertence
unicamente a si, pertence ao preterito cuja herdeira é, ao futuro, cuja
testadora será.
Esta doutrina nunca devera esquecer ás nações: nunca devera ser
desprezada pelos que as dirigem. Muitos arrependimentos tardios se
haveriam poupado: muitas maldicções teriam deixado de cair sobre as
cinzas de homens eminentes; muitas mais memorias virtuosas achariam os
povos no thesouro das suas recordações, e muito menos bétas negras
sulcariam as paginas dos annaes do género-humano.
Se considerado na sua essencia o monumento pode indifferentemente ser
uma columna ou uma eschola, um túmulo ou um hospital, uma pyramide ou um
sarcóphago: se o seu destino lhe não determina os accidentes como por
uma deploravel confusão d'idéas se tem pretendido, cumpre examinar quaes
condições lhe possa impôr a circumstancia de ser não só um monumento,
mas um monumento nacional; de ser uma edificação pública levantada á
memoria de um homem illustre. Aqui uma nova ordem de considerações se
apresenta: são umas de conveniencia, outras de decencia, outras emfim de
moralidade, e até de poesia, porque se ha-de attender a sentimentos,
tradições e affectos; porque uma nação que se esquece de tudo isto não é
só corrompida, é uma nação gangrenada.
A esta luz, em relação a nós, como povo livre, aos motivos que tornaram
illustre a memoria do Duque de Bragança, ás tradições humanas, e
sobretudo ás tradições domésticas, parece-me não só estar resolvida a
questão a favor da opinião pública sobre esta materia, mas até provar-se
que é moral e poeticamente impossivel o consagrar ás recordações de D.
Pedro o já proverbial _Monumento com estatua_, o mote architectonico de
classico abbadessado.
Pelo lado da conveniencia quasi é escusado dizer uma palavra entre a
pedra e o livro; entre o luxo de uma praça pública, e o alimento
intellectual da juventude; entre o obelisco que desaba ao rugir do
volcão subterraneo, ou do volcão popular ainda mais estupidamente
assolador, e o monumento prolífico da sciencia, que, uma vez derramada,
não destroem nem as revoluções dos homens nem as da natureza: não é
possivel discutir preferencias, tanto porque a discussão fôra ridicula,
como porque responsaveis para com o futuro, elle teria direito de
condemnar-nos por lhe havermos legado em logar de um instrumento de
civilisação para todo o país, uma pública-fórma de um velho dixe romano,
para adornar ou obstruir uma praça da capital.
E aqui vem a ponto repellir a infundada accusação de egoísmo que se nos
faz, porque preferimos o monumento-eschola ao monumento-columna. O que é
o egoísmo? É o amor exclusivo de si, o curar unicamente dos proprios
interesses sem considerar os de mais ninguem. O egoísmo é essencialmente
individual. Mas para quem pode a eschola polytechnica produzir fructos
de bençam? Para nós os homens feitos, para nós os que pretendemos que
ella seja o monumento de D. Pedro? Certo que não. Rudes ou cultivados,
ignorantes ou sabios, já não vamos assentar-nos a esse banquete
d'illustração. É a mocidade que lá tem seu logar, é o futuro que ha-de
saciar-se nessa fonte caudal de civilisação e de verdadeiro progresso.
Onde está pois o egoismo?--Se alguma cousa do coração entra nisto, é
exactamente o contrário; é a abnegação.
Attribuirmos aos adversarios motivos maus numa questão de similhante
natureza, para tornarmos odiosa a opinião que impugnamos, é confessar
indirectamente que sentimos a fraqueza das nossas doutrinas. Estas armas
são faceis de menear, e não faltaria bastimento dellas aos que pelejando
com raciocinios são accommettidos no sanctuario da sua consciencia. Não
as empregarei eu, porque nada provaria esse esgrimir insensato. Deixando
o egoísmo, os interesses mesquinhos, as causas occultas a quem de
direito pertencerem, tractarei de considerações mais graves.
Um monumento não é uma invenção moderna: desde a origem das sociedades a
arvore solitaria se plantou para a recordação dos homens, para as
recordações se amontoaram as pedras á borda das torrentes ou sobre os
visos dos outeiros. Todos os tempos e todas as gentes deixaram mais ou
menos subtilmente escriptas, mais ou menos completas estas memorias de
si. Os monumentos teem portanto uma historia, e logo uma philosophia.
Vós os que vos alcunhaes de grandes philosophos, e nos olhaes com
sobrecenho de superioridade, indagastes acaso os resultados dessa
historia buscando por tal modo alguma luz para das normas geraes deduzir
as condições da hypothese? Não!--É que isto era apenas consultar a razão
do genero humano, cousa bem escusada tendo vós a vossa razão tão logica,
tão fina, tão profunda como fica provado.
Que nos diz em resumo a historia dos monumentos? O que nos dizem todas
as cousas; todos os aspectos do passado:--que a idéa caracteristica de
qualquer épocha, o facto capital e íntimo de qualquer sociedade se
reproduz em todos os seus modos d'existir. Entre os monumentos de um
país e cada uma das suas épochas ha sempre uma harmonia, harmonia a que
por via de regra se ajuncta a do aspecto moral do indivíduo eminente
cuja memoria se quis transmittir á posteridade, ou, tractando-se de um
sucesso, a da natureza deste. De similhante verdade, sentida, mas ainda
não raciocinada e talvez unicamente della, nasceu a applicação da
alegoria ás edificações monumentaes.
Seria longo, daria um livro, o voltar desta synthese á anályse miuda dos
factos que a comprovam em todos os logares, em todos os tempos e nos
monumentos cuja data é conhecida, e conhecida a historia da geração que
os alevantou. Não cabe aqui esse vastissimo trabalho: contentar-me-hei
com algumas observações mais notaveis e de mais immediata applicação ao
negócio que hoje se ventila entre a opinião pública, e esses espiritos
que se crêem mais illustrados do que ella.
Muitos monumentos como o que se pretende dedicar a D. Pedro, muitas
columnas com estátuas e sem ellas alevantaram os romanos aos seus homens
eminentes: duas apenas se conhecem que precedessem o estabelecimento do
imperio, a de Menio e a de Decillio, monumentos obscuros de que só faz
menção Plinio. Com o progresso do decair romano multiplicou-se esta
especie de padrões, que marcam, ou a servidão dos romanos como os que
profusamente espalharam os primeiros césares, ou tristes victorias que
ao desmoronar-se aquelle colosso da civilisação antiga, unicamente
serviam para tornar mais tormentosa a sua lenta agonia.
Alguns dos principes a quem essas memorias foram consagradas, como os
Antoninos tiveram uma triste illustração: foram nobres e virtuosos no
meio da corrupção e vileza do seu povo de escravos. Outros a tiveram
ainda mais triste, porque deshonrosa aos olhos da philosophia; porque
foram apenas ambiciosos de gloria militar, que cubriram a terra de
estragos e sangue, como de Trajano com tanta razão observa Gibbon.
Outros finalmente as tiveram no meio dos ultimos transes do imperio,
como Phocas, tyranno estúpido e feroz, a quem o exarcha Smaragdo pôs
tambem uma columna com estátua não sei em que praça da velha Roma, que
baqueava já, e se desfazia em pó entre as mãos robustas dos barbaros.
Taes monumentos eram na verdade um sýmbolo da épocha e da sociedade que
os erigia: sýmbolo morto de um povo que se dissolvia; existencia
infecunda para o bem moral ou material dos homens, e por isso em
harmonia com a velhice horrenda de um imperio que se aniquilava:
memoria, emfim, de individuos que não faziam outra cousa senão presidir
mais ou menos vergonhosamente ao desfazer de uma grande ruina.
Mas que foi D. Pedro? Foi o homem da liberdade; foi o homem da
regeneração; foi o homem do pensamento vivificador; foi o homem que nos
acordou do lethargo da servidão e do opprobrio para nos pôr no caminho
da vida social e da esperança. Que somos nós? Uma nação que renasce, que
espera, que tem futuro, se não esquecermos os exemplos e as doutrinas
que o Duque de Bragança nos herdou. Se D. Pedro não foi um conquistador
como Trajano, que chorava por não poder imitar o grande mentecapto
chamado Alexandre o grande; se o ingenho de D. Pedro era energico,
activo, creador, bem differente do de Antonino, o Pio, cuja vida se
escoou no repouso da sua villa Lanuvia; se fôra atrocidade infame
comparar D. Pedro com o brutal e hediondo Phocas, porque insistis em
macaquear para seu monumento a columna de Trajano, de Antonino ou de
Phocas? Porque subis ao vosso balcão, e continuaes a deitar o mote
_monumento com estatua_, como o exarcha Smaragdo o deitava a um povo
agonisante do balcão do senado de Roma? Se crêdes, e esperaes da patria,
porque quereis que nossas mãos de homens livres vão desenterrar ao
grande cemiterio romano--_A Antiguidade Explicada_ de Montfaucon--um
dixe de antigos déspotas pagãos, para o dedicar por cópia a um rei
liberal e christão? Se tendes a furia das imitações, ao menos não
exijaes que imitemos a obra de uma nação serva e moribunda.
Venhamos já aos tempos modernos. São as tradições humanas mais proximas
de nós; são principalmente os exemplos domesticos que condemnam a vossa
pretensão de consagrar ao Duque de Bragança um monumento improprio do
indivíduo a quem é dedicado e da sociedade que lh'o dedica.
No berço, na infancia e na juventude das nações modernas a idéa
predominante e caracteristica da vida social foi o pensamento religioso.
E com razão. O christianismo era para essas épochas a civilisação, pelas
doutrinas moraes; a força, pelo enthusiasmo da fé. Assim a religião
determinou o accidental dos monumentos. Os templos foram os padrões
postos á memoria dos individuos eminentes e dos successos gloriosos. O
egoísmo tinha sido o sentimento que absorvera todos os sentimentos e
idéas da vida decadente, ou antes do lento morrer do imperio, e por
consequencia os seus monumentos haviam sido tambem essencialmente
egoístas, isto é, essencialmente inúteis. Modificados pela idéa capital
da sociedade os da idade média foram prolíficos e civilisadores: a
cathedral e o mosteiro correspondiam como sýmbolo e como realidade á
eschola moderna; como sýmbolo, porque a religião foi nessas eras quasi o
único instrumento do progresso moral; como realidade, porque no mosteiro
e na cathedral progrediu a intelligencia humana até que appareceu a
imprensa. A utilidade social aggregou-se por esse modo á execução dos
monumentos. É isto o que nos diz a historia da Europa nesse período, e
em especial a historia do nosso país.