Não passarei avante sem fazer menção de mais um passo, de mais uma

expressão do verdadeiro pensamento progressivo em instrucção pública,

expressão positiva que soou na camara dos deputados em 1839. Falo do

projecto de reforma do ensino primario pelo Sr. Tavares de Macedo.

Comquanto as minhas idéas no desinvolvimento de um systema legal sobre

este importante ou antes principal ramo d'administração, diversifiquem

das do illustre Auctor daquelle projecto, todavia não posso deixar de

considerar esse trabalho, nas suas disposições fundamentaes, como a

cousa incomparavelmente melhor que ácerca de tal objecto appareceu entre

nós. Se não se attender senão á generalidade delle, pode-se dizer que é

o complemento da lei de 15 de novembro; o meio de reforma directo após o

indirecto. Mas este papel, nem avaliado nem comprehendido, lá jaz

sepultado na commissão d'instrucção pública donde tem resurgido muito

latim e rhetorica, mas donde talvez só bem tarde surja uma lei que

represente o verdadeiro progresso do ensino público.

No anno de 1840, eu e o meu amigo o sr. Ferrer, cujas opiniões em

similhante materia concordam na maior parte com as minhas, tinhamos

resolvido apresentar á commissão um projecto de lei sobre a instrucção

primaria ou antes geral, que devia abranger as escholas elementares e as

primarias superiores, deixando para depois, ou para entendimentos mais

robustos, o trabalhar na lei ou leis das escholas especiaes. Tinhamos

nós entendido que a actual divisão d'ensino primario, secundario e

superior, é arbitrária, e não tem fundamento nem na organisação presente

da sociedade, nem na natureza do que se chama saber humano. A hierarchia

na instrucção pública é um anachronismo absurdo. Ha instrucção que todos

ou pelo menos o maximo número de cidadãos deve possuir: ha outra que só

pertence a classes e a individuos. Esta é a única divisão legítima, real

e logica do ensino público: com este intuito deviam ser redigidas as

leis sobre estudos cujo corpo havia de constituir o código d'instrucção

pública.

No presente anno, expulsos ambos da commissão a que pertenciamos, fomos

dispensados de cogitar mais em tal materia: guardámos por isso os nossos

trabalhos, que relativamente ao ensino geral se achavam quasi promptos,

esperando tempo mais favoravel a pensamentos de verdadeiro e judicioso

progresso. Quando os mares cruzados e os ventos ponteiros desalentam a

companha, o capitão prudente colhe as velas, e espera que o oceano se

aquiete para proseguir a viagem.

De tudo quanto se tem, pois, tentado a favor de uma reforma radical e

completa no desgraçado ramo da instrucção pública, sobrenada apenas a

escola polytechnica, contra a qual apparece um projecto, que noutras

circumstancias fôra apenas louco e ridiculo, mas que apresentado na

occasião em que os foraes ousam vir perante uma camara legislativa,

(como o jumento trajando a pelle do leão, cubertos com o manto da

justiça,) tem um caracter sinistro e significativo, porque é irmão gémeo

dos foraes, a que se prende e enlaça, senão pela importancia das

consequencias immediatas, ao menos pela unidade de espirito e pelas

consequencias remotas.

A questão da eschola polytechnica e do collegio dos nobres resume e

representa a questão immensa do systema d'instrucção nacional que hade

ser e da instrucção excepcional que foi e é; questão entre a educação e

melhoramento dos agricultores, dos artifices, dos fabricantes e a

propagação dos causídicos, dos casuistas, dos pedantes; questão entre o

trabalho e o ócio; questão entre a granja e o côro da sé; entre a

palheta do estampador e a metáphora do sermão; entre a machina de vapor

e o provará do rábula. Por isso ella é uma grave e importante questão.

Para ter ácerca deste negócio uma opinião segura cumpre ter bem

presentes os caracteres da intellectualidade nacional nos differentes

períodos da nossa civilisação; importa não esquecer que cada principio

politico que domina em um país requer um systema particular d'ensino

público; que uma monarchia absoluta (como por exemplo a Prussia) cujas

leis sobre instrucção nacional são admiravelmente adaptadas ao governo

representativo, tê-lo-ha forçosamente para as gerações futuras, mas sem

convulsões nem ruido, e que uma monarchia mista como a nossa, que

conservar o systema de ensino público creado pelo absolutismo, e só para

o absolutismo conveniente, terá necessariamente este, ou uma democracia

insensata e feroz, precursora da tyrannia. Similhante objecto, portanto,

para o qual governantes e governados olham com vergonhoso desprezo,

involve nada menos que os destinos sociaes da geração que virá após nós;

encerra nada menos que as causas da futura servidão ou da futura

liberdade.

Depois, que significa num país constitucional a desigualdade completa

das classes, relativamente ao ensino público? Com que razão ou justiça

haverá a cargo do thesouro estudos custosos para os legistas, para os

theólogos, para os militares, para os médicos, para os cirurgiões, e não

ha-de haver uma granja-modêlo para se tornarem consumados na sciencia de

agricultar os possuidores de grandes propriedades ruraes; escholas

industriaes para se fazerem insignes em suas profissões os donos ou

directores dos grandes estabelecimentos d'indústria; conservatorios

d'artes e officios para o aperfeiçoamento dos individuos que se dão ás

artes fabris? São porventura ilotas os homens d'acção e espartanos só os

homens d'especulação? São porventura aquelles membros inúteis do corpo

social, e estes os que os sustentam? Sobre cujos hombros pesa o maior

vulto dos impostos d'ouro, de trabalho e de sangue? E que obrigação tem

a grande maioria dos contribuintes de suarem e tressuarem para que se

hajam de conservar os grandes estabelecimentos da chamada instrucção

superior, e no fim terem um juiz a quem pagam pelas contribuições geraes

do estado, um advogado a quem remuneram da sua algibeira quando delle

precisam, um médico que os sára ou mata quando lhe dão dinheiro? É,

responder-se-ha, porque a sociedade carece da existencia destas classes.

Convenho: mas não carecerá a sociedade de lavradores, de fabricantes,

d'artifices? Eis o verdadeiro ponto da questão, que é representada, de

um lado pelo systema antigo, de outro pelo moderno: de um lado pelo

collegio dos nobres, do outro pela eschola polytechnica.

Livre seja para os individuos o cultivarem as letras; nobre e honroso é

tudo quanto nos alevanta da terra: mas o governo de um país não é uma

academia de poetas e d'eruditos: o governar um país é o feitorisar uma

grande casa: deve por isso o feitor ser positivo, economico e severo

calculador. A instrucção pública é um arroteamento, e embora na terra

cultivada de novo haja um cantinho para flores, é certo que as searas,

as pastagens, as mattas e os pomares são o principal objecto dos

cuidados de um bom administrador: de tudo o que nas sciencias e nas

letras é puramente intellectual se compõe o jardim da república; mas a

renda della, os fructos de que se sustenta, só os produzem as sciencias

applicáveis e applicadas. Tudo o que não fôr organisar o ensino nacional

sob a influencia deslo pensamento, é não entender nem a sociedade, nem a

nossa épocha, nem as circumstancias peculiares de Portugal.

Digo circumstancias peculiares de Portugal, porque além das

considerações geraes já tocadas, ha uma especialissima e de grande monta

que nos diz particularmente respeito. Vem esta a ser a de que estamos

excessivamente pobres; triste verdade, da qual abraçados com a sombra

van do que fomos, não ha ahi voz que valha a persuadir-nos. Necessario é

ao pobre o ser activo e industrioso, e não será de certo com o antigo

systema d'instrucção que o povo português progredirá na indústria.

Quando os diamantes e o ouro do Brasil vinha inundar Portugal de

riquezas; quando D. João V comprava a Roma, a venal, as pompas

pontificaes para alegrar seus ócios; quando este principe, émulo de Luiz

XIV, incumbia ás artes bastardas e corruptas do seu tempo que lhe

erguessem a magnífica ninharia de Mafra, então era preciso entulhar de

frades, de capellães, de cónegos, de monsenhores, de principaes,

d'escribas, de desembargadores, de caturras, de rimadores d'epithalamios

e de elegias, d'oradores academicamente impertinentes, o insondavel

sorvedouro das inutilidades públicas. Como doutro modo devorar as

entranhas da America? Esta era a grande indústria portuguesa d'então;

para ella se deviam affeiçoar os estudos. O thesouro do estado

substituia a acção dos homens. Com agentes espertos para vender

diamantes na Hollanda e obreiros habeis para cunhar ouro nos paços da

moeda, estavam suppridos trabalhos, instrucção popular, actividade,

tudo. Era aquella uma épocha brilhante; mas passou. De quanto possuiam

nossos avós só nos resta uma tradição saudosa, o arrasamento industrial,

e a triste realidade da miseria pública.

Cumpre-nos acceitar esta com hombridade, isto é, resignados e resolvidos

a recuperar com o trabalho o que perdemos com o ócio. As conquistas não

voltarão mais, porque já não ha novos mundos para devastar, e as nossas

esperanças devem dirigir-se para um solo fértil, visitado pela benção de

Deus; para a intelligencia nacional, de que a providencia não foi escaça

comnosco. Para converter aquella em manancial de riqueza, e esta em

instrumento de prosperidade é mister accommodar ás necessidades

presentes o systema d'instrucção pública; e do que fica dicto me parece

deduzir-se com evidencia que o actual, nos seus caracteres essenciaes, é

inteiramente contrário a essas necessidades.

Além disso, quão cruel decepção é o facilitar desordenadamente a chamada

instrucção secundária, quando apenas ella se pode considerar como o

primeiro passo na carreira universitaria, e quando em um país pequeno

como o nosso, o número dos que seguem essa carreira deve ser tão

limitado? Vemo-nos afogados em um mar de doutores, e não temos talvez

dez individuos capazes de construir as mais simplices máchinas modernas

d'agricultura ou d'indústria: direi mais, não temos talvez cinco que

saibam da existencia dellas. A consequencia deste estado de cultura

intellectual, falsa, inapplicavel e violenta, é que as muitas esperanças

mentidas, as muitas ambições recalcadas, todos os annos arremessam para

a arena dos bandos civis centenares de corações generosos, que

insoffridos ante um prospecto de miseria, se arrojam ás lides politicas,

para perecerem ou prearem no cadaver defecado do património da

república. E ainda o mal seria menor se ao lado desta decepção houvesse

alguma grande verdade: se uma eschola d'applicação material estivesse

patente á juventude entre cada dez daquellas em que se ensinam

disciplinas puramente litterarias. Ao menos havia para ella a escolha!

Mas não acontece assim. Para os mancebos de medíocre engenho,

desprovidos de protecção e inhábeis em enredos politicos, sobre o ádito

da instrucção pública em Portugal está escripto um dístico, invisivel

aos olhos dos desgraçados, mas fatal, immutavel e terrivel, o dístico

que o cantor ghibelino de Florença escreveu com a sua penna de bronze

sobre a porta do inferno:

_Per me si va tra la perduta gente:

Lasciate ogni speranza voi ch'intrate_!

A nossa legislação sobre ensino público é pela maior parte moralmente

assassina, e os seus assassinios vão medidos pelos sonhos de Nero e

revestidos do carácter de Judas; porque tomando a mocidade inteira como

um individuo, ella saúda e beija as víctimas, para as apunhalar em massa

nos seus futuros destinos.

Era, pois, preciso quanto á instrucção especial restringir o número das

escholas puramente litterarias; crear e generalisar os instituitos

destinados ao aperfeiçoamento particular das classes verdadeiramente

productivas e industriaes. O que se chama instrucção secundária não é

nem pode ser senão uma dependencia universitaria, e posto que espalhada

pelo país, devia reduzir-se e conter-se de certo modo no gremio da

universidade, moldar-se pelo espirito della, e suppri-la unicamente dos

alumnos de que ella, ou, para melhor dizer, a nação carecesse. Nisto

consistiria uma parte essencial da verdadeira reforma.

Mas ha ahi uma classe mista e numerosa, classe condemnada a viver do

trabalho diario, e sem a qual de nada serviria a cultura industrial dos

fabricantes, dos mestres d'officinas, dos proprietarios ou rendeiros

ruraes. E esta a dos operarios, no sentido mais vasto e completo da

palavra. Para a instrucção de similhante classe é que não existe o menor

vestigio d'ensino público, e todavia a ella pertence o maior número de

cidadãos revestidos de direitos politicos e sujeitos aos encargos

sociaes.

Dir-se-ha que principalmente para estes estão espalhadas pelo reino mais

de mil escholas primarias, onde podem receber uma instrucção limitada e

humilde como os seus destinos. Erro lamentavel! Ainda suppondo que em

escholas elementares, sem methodo, sem superintendencia, sem

regularidade, sem mestres, não digo habeis mas soffriveis, se possa

ensinar alguma cousa, que são as vossas escholas primarias? Apenas um

repositorio d'instrumentos para aprender, depois de os saber menear. Ler

ou escrever não é instrucção definitiva, é meio de a alcançar: ella

começa além destes rudimentos, e além destes rudimentos qual é o ensino

que vós offereceis ao homem do povo? Que fonte de vida intellectual e

moral pusestes vós na estrada da sua laboriosa peregrinação na terra? Um

Eutropio e um Quintiliano. E que lhe importa a elle o vosso Eutropio e o

vosso Quintiliano? O que elle vos agradecera fôra que o habilitasseis

com os elementos das sciencias naturaes, accommodados tanto á sua

capacidade como aos seus destinos: que lhe revelasseis os conhecimentos

applicaveis á vida material: que lhe ensinasseis o desenho linear, a

geometria práctica, os rudimentos e factos importantes da physica, da

chimica, da botanica, e as regras geraes d'hygiene popular; que o

instruisseis na doutrina clara e simples do evangelho, para não ser um

idólatra ou um malvado. Eis o que elle vos tivera em mercê, depois de

lhe haver sentido a utilidade, e não os latins, os gregos, as rhetoricas

e as ontologias, que nenhuma applicação teem ao melhoramento da sua

existencia de trabalho e de privações, para a qual não ha outra

consolação, outro refúgio, outra esperança, senão ou a bruteza da

taberna, ou o prospecto do repousar na valla plebea e sem nome de um

cemiterio, e depois della as promessas de _Deus ao que chora e será

consolado_.

A creação das escholas primarias superiores é uma necessidade do século,

do país em que vivemos, da missão civilisadora do governo

representativo, da caridade religiosa e até resultado de um direito dos

cidadãos. Ellas constituem a educação do povo, porque o ensino primario

elementar é um dever e ao mesmo tempo uma propriedade de todos; do nobre

e do humilde; do abastado e do pobre; e o ensino especial é a educação

de classes excepcionaes, limitadas, diminutas. Urge que essas escholas

se instituam, e se não temos meios para as accumular ás escholas

preparatorias de duas ou três especialidades, cerceem-se estas, e dê-se

ás multidões a instrucção que ellas exigiriam talvez á força, se não

ignorassem a importancia della para a futura felicidade de seus filhos.

A eschola polytecnica é essencialmente a eschola normal, ou, para melhor

dizer, profissional, donde podem sair homens habeis para mestres

d'escholas primarias superiores, verdadeiramente populares e úteis. Tudo

o que estes devem ser obrigados a ensinar, e que se não inclue nas

disciplinas professadas na eschola polytechnica, facil lhes é de

adquirir sem mestres, ou noutra parte. É por isso; é porque creio e

espero na regeneração intellectual e moral do povo português, por meio

dum novo systema d'instrucção pública, ao qual pertence e de que hoje é

única representante a eschola polytechnica, que eu respeito esta, e a

defendi e defendo quanto me permitte a pobreza do meu cabedal d'engenho.

Sem outros motivos de ódio ou affeição por ella, sem damno ou proveito

pessoal na sua existencia, posso dizer desse instituto e dos seus

adversarios o que Tacito dizia dos imperadores romanos: _Mihi Galba,

Otho, Vitellius nec injuria nec beneficio cogniti_.

Mas alguem notará que eu tenha a eschola polytechnica na conta de

eschola normal d'ensino primario superior, quando o seu nome e os seus

fins apparentes suscitam a idéa duma eschola exclusiva de preparatorios

para estudos militares. A verdade é que a sua organisação e a natureza

das materias nella ensinadas a constituem principalmente uma eschola

central. Que importa a denominação das cousas quando se tracta da

substancia dellas? Chamem-lhe noviciado da Cotovia para satisfazer os

pseudo-devotos, que eu contento-me com isso e continuarei a considerá-la

como o que realmente é.

Agora por esta derradeira idéa me recordo de que fazia um papel em

resposta ao A. da _Analyse do Parecer da Commissão d'Instrucção

Publica_. Tinha-me completamente esquecido disso, aliás não escrevera o

que fica escripto. Fôra contradicção flagrante com minhas opiniões falar

grego a quem não o entende, nem pode enlendê-lo. Voltemos ao bom do

Analysta, que o até aqui ponderado de certo não é para elle.

Este homem, se foi delicioso em direito, em historia e em theologia

mystica, é sublime em questões d'instrucção. Quanto a elle a eschola

polytechnica é um objecto de luxo e o extincto collegio uma necessidade.

Para ventres insaciaveis, para gastrónomos, sem dúvida: para a

verdadeira instrucção, para a instrucção de que o povo português carece,

é tal proposição um desmarcado absurdo. O porque, escuso dizê-lo de

novo: o leitor o terá percebido já pelas ponderações que fiz.

Torceu o Auctor da anályse as palavras do parecer para pôr a commissão

em contradicção comsigo mesma. Recurso de quem não tem outro! Tinha ella

dicto que a applicação dos bens do noviciado da Cotovia á dotação do

collegio fôra um bom e judicioso pensamento, e deu a razão: porque assim

ao menos não se estragaram e perderam esses bens. Daqui se vê que a

mente da commissão não era nem louvar nem deprimir a parte litteraria do

collegio; mas nestas palavras e no approvar a extincção delle é que o

bom do analysador acha a contradicção.

É das que não teem resposta.

Poderiamos ter accrescentado que ainda por outra razão era bem

instituido o collegio: porque os fins da sua creação se adaptavam á

monarchia absoluta: mas este argumento seria mais um motivo para

revalidarmos a sua extincção.

Todavia não se creia que ao menos elle satisfez as miras do grande homem

e grande déspota que o instituira. Existem provas irrefragaveis de que

esse instituto, cujo cadaver se quere revestir de um sudario de matizes

e ouropel, foi desde o seu princípio o que lhe chamou a commissão, uma

excrescencia litteraria, uma enxertia aleijada, um membro monstruoso no

corpo da instrucção secundária, da propria instrucção secundária dos

tempos que já lá vão; que foi, além disso, o que lhe não chamou a

commissão e eu lhe chamo aqui, uma sentina de corrupção, d'ócio e de

luxo, uma sanguesuga inútil da substancia que devia ser applicada ao

ensino público geral.

Costume é meu provar o que digo; por isso chamarei a juizo duas

testemunhas irrecusaveis.

A primeira é o proprio marquez de Pombal. Em 1772 viu-se elle obrigado a

reformar os estatutos daquella casa, por consulta da Mesa Censoria, de

agosto de 1771, e tanto no preámbulo do alvará sobre isto passado, como

nas disposições delle se revela que ahi reinava a desordem e o escándalo

em tudo; na fazenda, nas letras, na disciplina e nos costumes, suppondo

até uma dessas disposições (a 8.^a) a práctica de vicios infames, isto

quando o collegío tinha apenas 11 annos d'existencia. A segunda

testemunha é o célebre professor de philosophia, Bento José de Sousa

Farinha, o qual em uma memoria que sobre este estabelecimento dirigiu a

D. Rodrigo de Sousa Coutinho, faz reflexões mui judiciosas ácerca delle,

suppostas as idéas daquelle tempo, e pinta com vehemencia as desordens,

o luxo espantoso e a falta de educação litteraria, que ahi reinavam:

lamenta as sommas enormes que se despendiam com este collegio, cujo

meneio custava perto de 800:000 cruzados cada dez annos, uma boa porção

dos quaes saía do subsidio litterario, por onde os professores eram

pagos, e propõe várias reformas que nunca se executaram. É notavel essa

memoria, e sinto não poder transcrevê-la neste papel. Pela reforma do

marquez de Pombal vê-se o que era o collegio dez annos depois de creado;

pela memoria ver-se-hia o que elle era depois de meio século de

existencia.

Tudo o mais que sobre a questão litteraria se encontra na anályse,

refutava-se plenamente de um modo: transcrevendo-a. Mas como isso fôra

uma inutilidade, visto estar ella impressa, que os homens entendidos na

materia leiam essa farragem, se puderem navegar por entre aquelle mar

aparcelado de confusão de idéas e de solecismos atrozes: não quero maior

castigo a seu Auctor.

Como não tenho por agora tenção de tornar a tractar este objecto, salvo

se a isso me violentarem fortemente, não deixarei de examinar, antes de

pôr termo a este papel, o terceiro ponto do negócio, a questão economica

entre os dous institutos.

III

Os piedosos restauradores das opas e balandraus, para em tudo serem

infelizes até desarrazoam com a cousa mais certa, constante e corrente

deste mundo, os algarismos. Em bulindo nelles sai desvario inevitavel.

Para prova disto bastava uma passagem do relatorio do projecto de lei

n.^o 58 A. Diz-se ahi que a herança do almirante constava de 80 contos

em padrões de juro, e de muitos outros bens. Supponhamos que estes

valiam quasi outro tanto, isto é, 60 a 70 contos; teríamos de capital

150, somma exaggerada, mas que admitto para o cálculo. No mesmo

relatorio se accrescentam estas notaveis palavras:--«_aquella tão

quantiosa herança da qual somente em obras do collegio, suas officinas e

cêrca se gastaram desde o anno de 1761 até o do 1767 a enorme quantia_

(o que os homens das medalhas e garnachas não gastam é grammatica) _de

tresentos e cincoenta contos de reis_.»--Agora pergunto eu, ha ahi

paciencia humana que comporte um disparate similhante? O juro dos

padrões era de cinco ou seis por cento: concedamos que o resto do

capital, em fazenda, todo fosse productivo e désse igual renda: seis por

cento de 150 contos montam a 9 contos que, multiplicados por, 7 annos,

dão 63: como se gastaram, pois, em 7 annos, 350 contos desses bens, a

não os vender todos pelo dobro do seu valor, sem escapar sequer a

cabelleira mais doméstica do almirante? Comparados com estes

calculadores, Newlon e Euler foram apenas uns pobres sandeus!

Não se creia, porém, que a anályse ficasse devendo nada ao relatorio.

Estas duas miríficas producções são como os pastores de Virgilio: _et

cantare ambo et responder e parati_: entresachadas uma na outra,

armava-se com ellas uma écloga digna da Fenix Renascida. Vamos a vêr os

calculos da anályse.

Diz-se nesta que da creação da eschola polytechnica e extincção do

collegio dos nobres resultara para o estado um augmento annual de

despesa de 13:338:430. A commissão tinha affirmado que houvera uma

economia de mais de oito contos de reis. Quem erraria a computação?

Examinemo-lo.

A despesa do pessoal da eschola polytechnica e a importancia dos premios

que se conferem aos alumnos, importam, segundo a lei do orçamento de 31

de julho de 1839, em 16:826:453. Nesta somma não se comprehendem os

soldos dos officiaes militares, porque este vencimento não é em verdade

despesa feita com a eschola. Suppondo que a esta quantia se haja de

junctar não só a de 2:000:000, que, segundo a opinião da commissão de

instrucção pública, a eschola pode gastar com os seus estabelecimentos,

mas tambem a de 4 contos que o Auctor da anályse destina para estes e

outros misteres, será o total das despesas da eschola polytechnica

22:826:453.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 08 · 第 4 / 14 段