Diz o Auctor da famosa anályse, que é bem singular a comparação do

noviciado dos jesuitas com o collegio dos nobres, feita pela commissão.

Pouco importa saber se tal comparação é singular: o que importava era

averiguar se ella vinha a ponto, e servia para o intento de provar que

era um descommunal destempero pretender que o collegio dos nobres fosse

apenas uma leve transformação ou antes continuação do noviciado

jesuítico. Para refutar tão ridículo sophisma foi que a triste commissão

d'instrucção pública da camara dos deputados, comparou o instituto e

fins do noviciado com o instituto e fins do collegio, e dahi concluiu

que nenhuma paridade havia entre as duas cousas; e eu torno a repetir

que ha tanta analogia entre ellas como entre o preto e o branco, entre o

mar e a terra, entre o Auctor da anályse e um homem que saiba

grammatica, logica e historia. O que, porém, iguala, senão vence,

qualquer das melhores scenas de Molière é vêr, tanto no relatorio do

projecto como na anályse, os Auctores destes dous papéis immortaes,

cheios de sancto respeito pela memoria do marquez de Pombal, como Cesar

perante a imagem da patria na passagem do Rubicon, desbarretarem-se e

curvarem-se ante o nome do grande ministro, senão em cada linha, ao

menos em cada parágrapho, mas no tocante á natureza, índole, e objecto

do collegio dos nobres, dizerem-lhe sem ceremonia: «mentes, oh grande

ministro!» Com effeito, o marquez de Pombal assevera no preámbulo do

regulamento deste instituto que o seu intuito era fazer resurgir nesta

nova creação os antigos collegios de _S. Miguel_ e de _Todos os

Sanctos_, estragados e successivamente aniquilados pelos jesuitas, a

quem o marquez attribue a decadencia litteraria de Portugal como lhes

costumava attribuir, creio eu, até o demasiado frio, ou o excessivo

calor. Já se vê, portanto, que bem longe de instituir no novo collegio

uma reminiscencia jesuítica, era o apagá-las todas que elle tinha em

mira; e de certo que Sebastião José de Carvalho entendia, como a

commissão d'instrucção pública, que o collegio não só nada tinha com um

noviciado da companhia, mas até lhe era diametralmente opposto em índole

e fins; aliás o largo preámbulo daquelles estatutos seria um absurdo,

uma especie de projecto de lei n.^o 58-A, ou uma casta d'anályse como a

que serve de contraforte a essa magnifica peça d'architectura

legislativa.

Neste ponto me vejo eu constrangido a mudar de tom e a tractar séria e

severamente o que na verdade o não merecera, se a dobrez e má fé

pudessem jamais ser apenas ridiculas, ainda quando afogadas em um

tremedal d'inépcias. Tinha dito o sr. deputado redactor do projecto de

lei n.^o 58, no seu relatorio--«_Pela extincção dos Jesuitas conhecendo

o governo que aquelles bens não eram delles instituiu o denominado

Collegio dos Nobres com os mesmos onus etc._»--Diz o Auctor da

anályse--«_a eschola não se intitula Collegio de N.S. da Conceição, como

determina o testamento que posto este objecto seja pela Commissão

tractado bem levemente, comtudo é vontade expressa do testador_ (pobre

grammatica!) _e tanta consideração mereceu esta circumstancia ao Senhor

D. José 1.^o, que não só deu igual denominação ao Collegio Real dos

Nobres, porém, etc._»--Deixando de parte a trapaça de confundir

_noviciado e collegio_, com o dizer que o testamenteiro determina, que o

novo instituto se intitule collegio de Nossa Senhora da Conceição,

quando o que nesse papel se dispõe é a instituição de um noviciado;

deixando de parte, digo, esta esperteza aldean, [2] farei só uma

observação sobre o que se contém nas duas passagens citadas, e

conhecer-se-ha a boa fé dos pios restauradores do collegio dos nobres.

Esta observação é simplicissima:--a data da carta de lei da instituição

do collegio é de 7 de março de 1761, e a da carta de doação da

testamentaria do almirante de Castella _e dos bens do noviciado da

Cotovia_, feita ao mesmo collegio, é de 12 d'outubro de 1765: de modo

que veiu a causa quasi cinco annos depois do effeito!--O nome que isto

merece não serei eu quem o lance sobre o papel, a consciencia dirá a

alguem qual elle seja.

É reprehendida a commissão pelo A. da anályse de ter tractado levemente

a questão do título de Nossa Senhora da Conceicão, conservado pelo

collegio, e não pela eschola polytechnica, o que constitue, segundo o A.

da anályse, um dos ponderosos motivos para a extincção della. A

commissão tractou este objecto como todo e qualquer homem sensato o

tractaria, e persuadiu-se de que ninguem veria nisso o menoscabo da

religião, que de certo modo se lhe pretende attribuir. Membros tinha

essa commissão, cujas opiniões em materia de crença são assás

conhecidas, para que se não pudesse duvidar um momento do seu respeito á

divina philosophia do Calvario. Mas cumpre que eu diga ao A. da anályse,

que o christianismo não consiste em apoiar no céu interesses mesquinhos

da terra; que sómente aquelles que não teem a seu favor razões ou

factos, são os que costumam invocar o nome de Deus ou dos sanctos, para

resolverem questões materiaes e positivas; e que Jesu-Christo, o qual,

em cousas de religião, sabia ao menos tanto como o mui ascetíco A. da

anályse, preferia os publicanos e gentios aos escribas e phariseus,

porque para elle, entre todos os vicios e crimes que se aninham no

coração humano, o mais atroz e detestavel era a hypocrisia. Com effeito,

que significa no século actual occupar uma camara legislativa com

questões de beatas? Que tem o sublime evangelho do Crucificado com o

denominar-se tal ou tal edificio da Senhora da Conceição, da Assumpção,

das Dores, da Piedade ou d'outra qualquer invocação? Que teem com isso a

moral pública ou as virtudes privadas? O que é verdade é que se o

collegio dos nobres conservou algum vestígio do noviciado da Cotovia,

foi a força d'inspirar as artimanhas jesuíticas que fizeram apparecer no

anno de 1840 um parágrapho inédito e de materia nova, para addicionar ao

capitulo das unhas bentas, que se lê em certo livro attribuido a um dos

mais célebres membros da companhia de Jesus.

Se eu quisesse tocar em todos os erros, inexactidões e miserias, que,

tanto no relatorio do projecto de lei como na anályse, se encontram

ácerca da origem, natureza e circumstancias desses bens que hoje

constituem a dotação da escola polytechnica, faria um livro bem extenso

e bem impertinente, porque a substancia do commentario havia

forçosamente de ser da mesma especie da do texto; mas não posso deixar

de notar a insistencia verdadeiramente cómica com que se repete que não

foram os jesuitas os herdeiros do almirante, mas sim Nossa Senhora da

Conceição. Como o A. da anályse foi membro da junta da fazenda do

collegio, desejaria eu que elle publicasse as contas correntes do

noviciado da Cotovia, para se ver a importancia das remessas dos

rendimentos que os jesuitas mandavam para o céu, e como elles faziam a

divisão desses rendimentos,--os da testamentaria do almirante para a

Senhora da Conceição e os da herança de Fernão Telles para a Senhora da

Assumpção, _sua sanctissima irman_. Nem seria de menos curiosidade o

saber o nome do honrado mercador que lhes dava as letras de cambio

sacadas sobre algum dos banqueiros celestiaes, porque era esse um nome

digno de preencher a lacuna deixada no catálogo dos sanctos, pela

suppressão do de Bento José Labre, que a Rota-Romana pôs fóra do

Santoral, por ter sido o que muita gente é neste valle de lagrimas,

embusteiro e hypocrita.

Deixemos já esta _principal e importantissima_ questão dos bens do

collegio; questão de sandices historicas, jurídicas e canonicas; questão

de opas e bentinhos, balandraus e garnachas; questão entre productos

chimicos e productos culinarios; questão fétida de cubiça e egoísmo, a

qual era na verdade mais digna d'escarneo que de grave discussão; porque

ha neste mundo cousas tão ridículas, que tractadas sériamente communicam

a quem cai nesse erro uma boa porção da qualidade caracteristica da sua

natureza.

II

Quando o genero humano, no seu caminhar contínuo para a perfectibilidade

de que ainda está tão remoto, e a que nunca chegará porventura, é

agitado por uma idéa profundamente progressiva; quando as nações

peregrinas na estrada infinita da civilisação se lançam rapidamente para

o futuro, forçoso é que essa idéa se incarne em todos os modos d'existir

das sociedades, e que cada um delles sirva para a fazer triumphar: se em

uma ou outra das fórmas sociaes da actualidade ha harmonia com a idéa

que representa o futuro, esta a pule, melhora e completa: se pelo

contrário entre o que existe e o que deve existir ha desharmonia, o

pensamento que representa os factos que hão-de ser, ou transforma ou

destroe os factos que são, porque o resultado da lucta entre o passado e

o porvir nunca é duvidoso, ainda quando a favor daquelle e contra este

esteja casualmente a força material e ainda a moral, os interesses, os

hábitos e a inércia natural do homem. Clara é a razão disso: os dias das

nações são os annos, em quanto os annos para os individuos são a vida: o

sepulchro rareia de hora a hora as fileiras dos defensores das

instituições decrépitas; de hora a hora engrossa o berço as alas dos que

pelejam sob o estandarte da esperança. Assim o progresso social, lento e

imperceptivel muitas vezes para os individuos, é rápido para as nações.

A todos os momentos, no vasto cemiterio dos séculos chamado historia, se

grava sobre as campas das leis e dos factos, dos costumes e das

gerações, das opiniões e dos homens um memento para a curiosidade, para

a experiencia e muitas vezes para o escarneo. Nisto me parece

resumirem-se os annaes de todos os povos: isto é a substancia do que se

tem passado entre nós desde o anno de 1833.

Com effeito, quem póde duvidar de que a sociedade portuguesa, revolta

sobre os seus antigos fundamentos, transformou a propria existencia?

Quem póde duvidar de que a classe média ensaiando as forças adquiridas

lentamente, invade todo o genero de dominio, e estendendo uma das mãos

para as torres de menagem e a outra para as choupanas colmadas, diz ao

nobre que desça e ao humilde que se alevante? Quem lhe disputa hoje a

palma da intelligencia, da propriedade e da industria? A idéa de

liberdade civil e politica, idéa progressiva e de transformação é

representada por essa classe que, por isso, é forte e dominadora e para

ella e por ella se traçam e aperfeiçoam instituições e leis. Como, com

razão, diziam ha um seculo Luiz XIV e D. João v--_l'etat c'est moi_--com

razão diz hoje o mesmo de si a classe média. Virá um dia em que o

predominio desta classe se converta em violencia e oppressão, soando

para ella a sua hora de morrer, quando a idéa geradora do progresso

presente se corrompa e envelheça nas suas mãos. Que grande pensamento

social surgirá então? Não o sei; nem m'importa porque já não estarei

neste mundo: mas embora o sangue vertido pelos sectarios da liberdade,

quaes martyres do evangelho, não seja infecundo e a liberdade e o

christianismo, ora vencidos ora vencedores, venham, emfim, a conquistar

para si o imperio do género humano; sei que, bem como houve já tyrannias

aristocraticas e tyrannias monarchicas, haverá tyrannias burguesas,

tyrannias do balcão, da officina, da granja, da fabrica e até porventura

da imprensa, que ora ruge e agita o mundo em nome da igualdade civil dos

homens.

Actualmente, porém, ainda a religião da liberdade moderada é bella e

pura, ainda impulsiva do progresso, porque está ainda longe das

terriveis provas por que terá de passar. Esta crença que similhante a

todas as crenças, é uma idéa unica, repetida de muitos modos, trasladada

em muitos factos, se reproduz entre nós em diversas ou antes em quasi

todas as faces desse grande vulto de um povo chamado estado social. A

terra agricultada liberta-se, o privilégio annulla-se, o ócio

condemna-se, a economia proclama-se, a indústria nobilita-se, o engenho

tem emfim seu preço e valia. Visivelmente a nação faz-se burguesa. Ha

todavia ahi uma modalidade, uma face da sociedade importantissima, direi

antes capital, que esqueceu nas mãos do tempo que passou, e que este

guarda como um thesouro que não abandonará ao futuro sem combate, porque

é a sua última, mas bem fundada esperança. Esta modalidade, esta formula

é a instrucção pública. A instrucção pública em Portugal, tomada na sua

generalidade, nas suas feições caracteristicas e desprezadas as

excepções, nem pertence a este século, nem é progressiva, e por

consequencia nem realmente útil.

Quando a aristocracia resumia a sociedade, nos séculos médios, os nobres

edificavam castellos roqueiros, agglomeravam as multidões servas à roda

delles, e fechados no seu alcácer não conheciam outra occupação que não

fosse a caça ou a guerra; outro passatempo que não fosse, para os

melhores os jogos guerreiros e os deleites da mesa; para os peiores o

roubo, as violencias e as tyrannias. Para taes homens a cultura do

ânimo, as letras e a sciencia soavam como palavras sem significado: a

força physica ajudada da destreza era quem por assim dizer graduava as

hierarchias: os dotes do entendimento eram como officios fabris; e ainda

o alfageme que temperava uma boa espada se tinha por homem de maior

conta que o clérigo a cujo cargo estava o notar ou escrever os

contractos, as missivas ou as memorias dos reis ou das familias. Quem vê

um velho códice do século XIII ou XIV até nelle acha um emblema

daquellas épochas: as bíblias, as decretaes ou as obras dos sanctos

padres, que quasi exclusivamente constituíam a sciencia d'então, tinham

certo aspecto guerreiro e de força physica: as pranchas de carvalho ou

castanho que lhes serviam de guardas; os bronzes ou ferragens que os

adornavam, e o seu volume e peso enorme os tornavam, em caso de apertado

cêrco, bons tiros para trons ou engenhos. A guerra era a idéa que

representava a meia idade: ella gerou as cruzadas; as cruzadas geraram a

navegação, e a navegação produziu os descobrimentos e conquistas, donde

nasceram o commercio e a industria da moderna Europa. Idéa progressiva

era pois essa; e o nobre que se envergonhava de saber ler e escrever

tinha nisso tanta razão relativamente á sua épocha, quanta hoje tem o

mais obscuro cidadão em exigir da sociedade que dê gratuitamente a seus

filhos a instrucção primaria, chave com que elles poderão abrir o vasto

repositorio do sustento do espirito.

No princípio do século xv a monarchia que crescera à sombra da

fidalguia, herdeira das forças que diariamente lhe roubava, veiu emfim

pôr-lhe um pé de ferro sobre o gorjal estalado: debalde ella se revolveu

e escumou trabalhando por erguer-se para combater: no fim desse mesmo

século já a lucta era impossivel: D. João II provou-o irrecusavelmente a

D. Fernando de Bragança e ao duque de Viseu, nas theses d'Evora e

Setubal, theses de cutello e punhal.

Em quanto, similhantes a duas rodas movidas em direcção contrária por um

plano inclinado, a monarchia subia e a aristocracia descia, subia e

descia com ellas a litteratura daquella e a ignorancia desta. D. João I,

que assentara verdadeiramente a pedra angular do absolutismo na lei

mental, foi tambem quem começou a dar ao seu país um impulso litterario,

e D. João II que em politica pôs o remate ao edificio começado por seu

bisavô, e levou igualmente as letras ao grau de esplendor a que as vemos

chegadas nos começos do reinado de D. Manuel, grau d'esplendor

concentrado como era um foco no célebre livro publicado por Garcia de

Resende, intitulado o _Cancioneiro_, o qual resume e representa a

litteratura do século decimo quinto.

Mas o que foi a litteratura portuguesa da época Joanina e da Manuelina

que veiu após ella? Qual era o carácter predominante da instrucção

nacional nessa épocha? Era o especulativo puro, o metaphysico, no rigor

da significação grega desta palavra. Os reinados de D. Duarte, D.

Affonso V e D. João II resplandeceram de moralistas, de historiadores,

de poetas, de mysticos e ainda de oradores; tudo quanto representa o

mundo das idéas. Porém a sciencia do mundo material, onde apparece ella

durante esse largo período? Apenas na eschola de Sagres. Todavia que

livro ou que homem produziu essa eschola? Nenhum. Os nomes que figuram

por aquelles tempos pertencem unicamente á mathematica, e na mathematica

especialmente á astronomia. Ainda assim os sabedores conspícuos neste

ramo de uma vasta sciencia eram quasi todos judeus e raros estrangeiros,

devendo-se o incremento que ella teve, por um lado á superstição, porque

se cria na astrologia; por outro lado á ambição porque, já muito havia,

as mentes dos principes volviam idéas de descobrimento e conquista. Não

era, pois, entre nós a mathematica mais que uma enxertia, uma excepção

ou antes uma aberração das tendencias litterarias do país, devida a

causas estranhas ao carácter da organisação social deste, e por isso de

modo nenhum contrária á verdade do princípio estabelecido.

Esta verdade demonstra-se á priori e á posteriori; pelos raciocínios e

pelos factos. Com effeito, a monarchia absoluta nascera da especulação;

era filha da jurisprudencia romana e do direito canónico; além disso os

principes, substituindo successivamente o temor ao amor, precisavam de

rodear o throno das pompas religiosas e civis: cumpria que a côrte por

piedade e devoção fosse mais vizinha de Deus que dos homens, que nella o

altar fosse cosido em ouro, o fumo do incenso suavissimo e denso, a

oração fervente e nobre; que os affectos nas canções dos poetas

cortesãos fossem incomparavelmente mais ideaes que nas rudes trovas do

romeiro ou do jogral popular; que a prégação do orador sagrado fosse

mais eloquente e polida que a do missionario rude; que os paços dos reis

fizessem, em fim, um contraste espantoso com as estúpidas alcáçovas dos

grandes, para que estes acceitassem a servidão dourada que elles lhes

offereciam, e que ao mesmo tempo o vulgo sentisse pesar sobre si,

ignorante e grosseiro, intelligencias puras e formosas de quanta

formosura ha no mundo moral; e bemdissesse o predominio dellas, porque a

grande logica popular lhe dizia que effectivamente ellas deviam

predominar. É por isso que a monarchia absoluta em toda a parte e em

todo o tempo, em que se não converteu em tyrannia bruta e feroz, foi

sempre intellectual, mas de uma intellectualidade perfumada, macia e

brilhante, de uma intellectualidade estéril, porque applicada

exclusivamente ao especulativo; intellectualidade de sala, de theatro,

de galeria, de púlpito, de foro; intellectualidade boa e moral, que

derrama lagrymas e esmolas sobre os miseráveis, mas que lhes recusa o

baptismo da instrucção material, que não os obriga a trabalhar, nem os

pune quando elles o recusam, nem promove o aperfeiçoamento industrial do

país, contentando-se de uma caridade impotente, porque em vez de tomar o

povo por alvo, toma o indivíduo, similhante áquelle que em cidade

devorada de sêde, em vez de conduzir para lá por aqueducto perenne as

águas caudaes de fonte vizinha, andasse offerecendo de porta em porta

sorvetes e limonadas de cheiro e sabor delicados; intellectualidade,

emfim, de privilégio, que põe no logar da instrucção necessaria ao

commum dos homens, a que serve só aos homens excepcionaes, e chama-lhe

com simpleza comicamente infantil, _instrucção pública_, sem que ella

sirva de nada ao público, que se compõe do grande número das massas

populares, dos homens activos; dos agricultores e dos industriaes, dos

fabricantes e dos mercadores, e não dessas classes diminutas em número,

a que os economistas não consentem que eu chame improductivas, mas que

pelo menos chamarei semi-productivas.

Devia ser, portanto, o carácter da instrucção pública em Portugal até os

nossos dias, o que fora desde o reinado de D. Duarte, porque até os

nossos dias durou a monarchia absoluta, mansa e bondosa quasi sempre,

posto que quasi sempre desalinhada, gastadora e descuidada. É por isso

que, considerando attentamente a historia da instrucção pública entre

nós, vemos nella as tendencias exclusivamente litterarias, no sentido

restricto desta palavra. Na reforma dos estudos de D. João III, de D.

João IV, do marquez de Pombal sempre a mesma côr, o mesmo espirito, a

mesma expressão. Era que a monarchia absoluta creava e reformava para

si; para o seu tempo, para a sua índole. A monarchia absoluta tinha o

instincto da vida e em segui-lo tambem tinha evidentemente razão.

Mas hoje que a sociedade foi revolvida e se assentou sobre bases todas

inteiramente diversas das antigas, e muitas vezes oppostas a ellas,

poderá esta fórmula social, este baptismo da civilisação, chamado

instrucção pública, seguir um rito condemnado e por isso herético,

expressão e parte de instituições cadavéricas, e por isso como ellas

cadáver? Absurdo.

O pensamento da reforma já penetrou em muitos espiritos: o Instituto

creado em 1835 pelo Sr. R. da Fonseca Magalhães foi a primeira expressão

delle, e ninguem pode roubar a este ministro a honra que disso lhe ha-de

resultar na posteridade, porque elle foi então martyr desse pensamento.

Quanta ignorancia, quanto pedantismo, quanto medo da civilisação havia

por almas curtas e rasteiras; quanta preguiça, quanta incapacidade havia

por nossa terra, tudo gemeu, gritou e grasnou insultos, ponderações,

reflexões eruditas, argumentadas, soporíferas. Foi um rebate geral em

nome do digesto e dos supinos, dos canones e da syntaxe figurada, da

exegese e dos affectos oratorios, da graça efficaz e do _Humano capiti

cervicem pictor equinam_, do código theodosiano e das sorites de

Genovesi. Não houve remédio; a campa caíu sobre a physica, a chimica, a

botanica, a mathematica, a astronomia, e em cima della assentaram-se

remoçados, alindados, triumphantes, o digesto, os supinos, os canones, a

syntaxe, a exegese, os affectos, a graça, o _humano capiti_, o código, e

as sorites. Então as cinzas de João Pastrana, do padre Alvares, do

licenceado Martim Alho, do doutor João Façanha, de Cataldo Siculo, de

Jeronimo Caiado agitaram-se como querendo renascer á vida, e do fundo de

seus sepulchros soou uma voz sumida que dizia--_Io triumphe!_--_io

triumphe_![3]

Era um ridiculo espectáculo! Mágua foi que ura homem de sciencia

renegasse della, para servir miras apoucadas ou torpes!

Depois veiu a revolução de setembro! eu inimigo della, que condemnei

essa loucura, que ainda a condemno, não serei tão cobardemente parcial

que negue ter-se entendido melhor então, no meio das exaggerações

liberaes dessa épocha, a questão nacional da instrucção pública. No

instituto houvera um defeito: aquella fonte de sciencia verdadeira, que

se abria caudal e perenne, caía de mui alto, e a custo podia satisfazer

as necessidades da instrucção popular: e a organisação da escola

polytechnica com os cursos theoricos e applicados satisfaz melhor os

fins d'utilidade geral, que deve ter toda e qualquer instituição

scientifica sustentada a expensas da nação. Por outra parte na lei de 17

de novembro evidentemente se dá o primeiro golpe no velho systema da

instrucção secundaria, e se nesta lei não se revela todo o esforço

necessario para derrubar um collosso que se apoia em preocupações

insensatas, a circumstancia de ser primeira tentativa absolve

completamente seu auctor. Assim mesmo ella foi sophismada e inutilisada:

os lyceus nunca se organisaram, e o latim e a rhetorica encantoados por

toda a parte como dantes, riem-se da lei que os aposentava nas capitaes

dos districtos: diariamente se pedem á camara dos deputados cadeiras de

latim: parece que os agricultores de Portugal, como o Triptolemo

d'Walter Scott, pretendem arar e cavar pelo systema de Virgilio,

Columella e Varrão; que as _tigna bina sesquiquipedalia_ de Cesar são os

modêlos das nossas construcções; que nas tusculanas de Cicero se acham

as receitas necessarias para estampar chitas ou tecer burel e saragoça;

que na historia natural de Plinio se encontram todos os apontamentos

precisos para conhecer os usos domesticos e as virtudes medicinaes das

plantas do nosso país; e que, emfim, na _Ars amandi_ d'Ovidio, nas

poesias de Catullo ou no Satyricon de Petronio Arbitro está a flôr e

nata da crença no nosso Deus, dos principios da nossa moral, dos

incentivos do nosso amor da liberdade e da patria!

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 08 · 第 3 / 14 段