Fiquei longo espaço com o rosto escondido nas mãos; quando ergui a
cabeça, estava D. Antonia deante de mim.
Fluctuava-lhe nos labios um sorriso de triumpho; lampejava-lhe nos
olhos um fulgor infernal. Vencera, conseguira o seu fim, colhera o
fructo dos seus longos esforços; e eu despenhara-me dos pincaros do meu
orgulho no abysmo para onde me tinham impellido.
Sempre aquelle vulto me apparecia nas horas em que me sentia resvalar
para a vergonha. Dir-se-hia a imagem de Satanaz, procurando occasião
propria para me roubar a alma, e levar-m’a para o Barathro. E não era
um sorriso diabolico o seu?
Senti correr-me um calafrio pelas veias. Mas depois reagi contra esta
primeira fraqueza, e, colhendo na minha propria exaltação energia
bastante para affrontar aquella mulher infernal, ergui-me e fitei
n’ella os olhos scintillantes.
--Está tão agitada! exclamou D. Antonia com ironia. Já principia o
remorso?
--Já! disse-lhe eu com intimativa. Está satisfeita? Reveja-se na sua
obra.
--Na minha obra! tornou ella, pondo as mãos, e erguendo-as ao céu! Só
isto me faltava! Diga antes que se realisa o que eu prophetisei sempre!
Não querem ouvir as verdades, e aqui está o que succede! Não attendeu
aos meus conselhos, deixou-se antes levar pelas suggestões do demonio,
e o resultado foi perder-se sem remissão. Lavo d’ahi as minhas mãos; eu
avisei-os a todos.
Injuriaram-me, criminaram-me, e a final voltam-se contra mim. Já estou
costumada a isto. Deus m’o levará em conta.
--Mas o que succede? tornei eu indignada. Que supposição está formando?
--Oh! tornou ella rindo; não é difficil adivinhal-o. Se já o não
tivesse sabido por outro lado, a sua agitação tudo me diria. Compete-me
agora avisar meu sobrinho do perigo em que a sua honra está.
--Avise-o, tornei eu; mas diga-lhe tambem que está mais em segurança
confiada a mim do que se estivesse nas mãos d’uma d’essas hypocritas
beatas, que tão impudentemente infringem a moral que professam.
--Como quer que eu lhe diga semelhante coisa? respondeu ella; quer que
o illuda ainda, quer que lhe aperte bem a venda que a minha sobrinha
com tanta habilidade lhe poz nos olhos? Engana-se; não sou para esse
papel. Julgar-me-hia sua cumplice se assim procedesse. A desculpa do
vicio é um ultrage á virtude. Quem não quer ser lobo não lhe veste
a pelle. Deseja ver-me protectora d’essa vergonhosa ligação, que me
confessou tão descaradamente? Engana-se, minha Philis. Procure outras
para esse cargo. Ora não ha, hei-de-lhe arrancar a mascara.
--Não a tenho, bem vê; mas fite bem os seus olhos no meu rosto, e verá
que não córo.
--Porque não tem vergonha.
--Porque não tenho de que me envergonhar, logo que as accusações que
me são dirigidas tomam esse caracter offensivo. Se uma fatalidade
inexoravel despertou no meu peito um sentimento que não pude dominar,
póde estar certa que nunca lhe sacrificarei o meu dever. Combatel-o-hei
com energia, e hei de arrancar do meu coração essa planta funesta, que
tanto a meu pesar viçou e cresceu n’este jardim, que se obstinavam em
conservar deserto. O calice de amargura bebel-o-hei até ás fezes, sem
que os outros o cheguem sequer aos labios. Soffrerei em silencio, e com
dignidade. Que mais podem exigir de mim?
--Isso é muito poetico effectivamente, respondeu D. Antonia com ironia,
estou que outros mais justos a adorariam como uma santa, mas duvido que
o meu sobrinho esteja disposto a admirar e a apreciar estas subtilesas
com que se disfarça um adulterio parecido com todos os adulterios.
Eu de mim confesso que não percebo essas bonitas phrases. Uma mulher
casada não deve pensar senão em seu marido, e tratar da sua casa. Foi
isto o que toda a vida me ensinaram. Essas frandulagens de romance
são boas para enganar os parvos. Era melhor que tratasse de cumprir
fielmente as suas obrigações de esposa e de christã.
--Oh! isso é de mais, respondi eu altiva. Exigem de mim o cumprimento
de um dever, esse dever tenho-o eu cumprido, e hei de cumpril-o sempre
com inabalavel intrepidez. Sacrificar-lhe-hei a minha vida inteira,
deixarei fenecer n’essa atmosphera gelada a flor da minha juventude.
Mas o sanctuario recondito da minha alma não consentirei que m’o
invadam. N’esse domino eu só, n’esse abrigo os affectos intimos, a que
presto culto no segredo da minha consciencia. D’essa região sagrada
defenderei até a morte a inviolabilidade. É o ninho dos meus sonhos, a
urna do balsamo, que me allivia um pouco as dores lancinantes do meu
viver atroz. Não lhe toquem, não a profanem. Tudo o mais lhes cedo,
tudo o mais sujeito á sua despiedosa fiscalisação.
Persigam-me, atormentem-me, analysem cada um dos meus actos,
interpretem-n’os favoravel ou desfavoravelmente; estou a isso
resignada. Mas quando a final, depois de haverem saciado o seu odio
implacavel, me deixarem tranquilla por um instante, não queiram violar
o meu asylo, não queiram perturbar a paz do meu espirito, não queiram
envenenar com o seu halito impuro essa atmosphera serena, onde fluctua,
não queiram macular com a sua baba asquerosa as rosas, em cujo calice
se baloiçam as minhas brancas borboletas. Esse direito sagrado, essa
liberdade inalienavel do pensamento serão defendidas por mim ate á
morte. Só o amor conhece as palavras mysteriosas que descerram as
portas d’esse tabernaculo; o dever, gélido, frio, insensivel, não
póde ultrapassar os limites da vida exterior, que está unicamente
debaixo da sua alçada. Diga isto mesmo a Claudio, já que meu marido
prefere relacionar-se comigo por via de emissarios a appellar para a
minha franqueza. A minha vida, as minhas acções pertencem-lhe; não lhe
pertencem nem o meu coração nem os meus pensamentos. Estampe na minha
fronte o ferrete da infamia, se alguma vez eu lhe der direito a que
suspeite que trahi a fé conjugal, e puz em perigo a honra do seu nome.
Mas se ainda assim tentar arrogar-se sobre mim um direito, que nem os
mais despoticos tyrannos têem podido reivindicar; se intentar algum
acto escandaloso, que me deshonre aos olhos do mundo, lembre-se que
toda a vergonha e toda a responsabilidade cairão sobre a sua cabeça, e
que os mais severos moralistas não ousarão justificar o procedimento
de um homem, que, deixando sua esposa entregue a todas as tentações da
mocidade e a todos os vituperios da calumnia, se acha com direito de
exigir mais do que o escrupuloso respeito dos deveres do matrimonio,
e persegue no mais intimo arcano de um coração feminil os timidos
devaneios de um amor que elle nunca se deu ao trabalho de requestar.
E, deixando ficar D. Antonia estupefacta com a vehemencia do meu
discurso, saí da sala precipitadamente, e fui-me refugiar no meu
quarto.