N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima
do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em
lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha
vergonha.
Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo
a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma
janella, voltou-se para a porta. Era Alberto.
Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle,
travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços:
--Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu?
--O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação,
o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...?
--Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama, tornava eu chorosa e
supplicante, diga-me que não ama Carolina.
--Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo um gesto de energica
repugnancia, oh! juro-lh’o.
--Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei que sou uma doida, que me
estou perdendo, que sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém
não pude, soffri muito, quando ella me disse que se amavam:--a dôr
foi... incomportavel.
--Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, e apertando-me as mãos
com impeto febril, soffreu, mas então... mas n’esse caso...
--Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu como louca; sim, é a
verdade, a verdade terrivel, fatal, ignominiosa.
--Ama-me! exclamou Alberto.
E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se temesse que lhe
rebentasse ao impulso da lava, que lhe refervia lá dentro. E, voltando
a travar-me das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho,
como se os houvesse abrazado a chamma de loucura que ardia nos meus:
--Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! deixe-me ouvir os eccos
innumeraveis que essa palavra magica me desperta no coração! Oh! não
me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui morrer com os olhos
enlevados n’esta visão beatifica...
--Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, oh! sonhemos depressa,
porque o despertar vem cedo, e o despertar é o opprobrio.
E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos meus pés, beijando-me
convulso as mãos.
--Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de
sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola
d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar
a sombra do estygma que o mundo nos inflige?
--E a consciencia... tornava eu.
--Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos
da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu
sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só,
Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco
de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome
querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto.
Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que
represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um
só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de
tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho
tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus
olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que
uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar
um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me,
e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me
para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um
pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas
calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para
te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a
estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio
occeano, a lampada do meu ermo sanctuario.
--Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me
d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais
a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero
aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor
de irmão.
--Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o
impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam
por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que
o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as
primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.
E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o,
disse-lhe brandamente:
--Alberto!
Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.
--Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos.
Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com
fervor, e saiu, dizendo:
--Amo-te!