XVIII

N’um momento cheguei a casa. Apeei-me, atirei as redeas para cima

do pescoço do cavallo, e subi a escada impetuosamente. Ia lavada em

lagrimas; que me importava que me vissem? Estava consummada a minha

vergonha.

Abri a porta da sala e entrei. Não estava ermo o aposento. Ouvindo

a bulha dos meus passos, alguem, que se encostava ao peitoril d’uma

janella, voltou-se para a porta. Era Alberto.

Eu perdera completamente o imperio sobre mim mesma. Corri para elle,

travei-lhe das mãos, e disse-lhe com a voz entre-cortada pelos soluços:

--Não é verdade? Não é verdade que a não ama? Aquella mulher mentiu?

--O que é isto, minha senhora? tornou Alberto, no auge da inquietação,

o que quer isto dizer? Que inexplicavel infortunio...?

--Oh! mas diga-me, diga-me que a não ama, tornava eu chorosa e

supplicante, diga-me que não ama Carolina.

--Oh! respondeu elle n’um impeto, e fazendo um gesto de energica

repugnancia, oh! juro-lh’o.

--Obrigada! obrigada! murmurei eu; bem sei que sou uma doida, que me

estou perdendo, que sou uma mulher vil, indigna da sua estima; porém

não pude, soffri muito, quando ella me disse que se amavam:--a dôr

foi... incomportavel.

--Soffreu! respondia Alberto com voz tremula, e apertando-me as mãos

com impeto febril, soffreu, mas então... mas n’esse caso...

--Amo-o; não é isso que quer dizer? tornava eu como louca; sim, é a

verdade, a verdade terrivel, fatal, ignominiosa.

--Ama-me! exclamou Alberto.

E, soltando as mãos, levou-as á fronte, como se temesse que lhe

rebentasse ao impulso da lava, que lhe refervia lá dentro. E, voltando

a travar-me das mãos, com os olhos incendidos n’um fulgor estranho,

como se os houvesse abrazado a chamma de loucura que ardia nos meus:

--Ama-me! Oh! não me falle! não me falle! deixe-me ouvir os eccos

innumeraveis que essa palavra magica me desperta no coração! Oh! não

me acorde d’este sonho! peço-lh’o, deixe-me aqui morrer com os olhos

enlevados n’esta visão beatifica...

--Sonhemos, dizia-lhe eu debulhada em lagrimas, oh! sonhemos depressa,

porque o despertar vem cedo, e o despertar é o opprobrio.

E caí prostrada n’uma cadeira; elle ajoelhou aos meus pés, beijando-me

convulso as mãos.

--Que importa? E cuidas que este momento de felicidade não paga de

sobejo todas as amarguras d’uma longa vida? Julgas que esta auréola

d’amor que nos circunda a fronte, não tenha luz bastante para derrotar

a sombra do estygma que o mundo nos inflige?

--E a consciencia... tornava eu.

--Depois, depois, dizia-me elle, não pensemos n’isso agora. Apaguemos

da nossa vida por um instante só esses longos annos que separaram o meu

sonho d’adolescente d’esta ineffavel realidade. Por um instante só,

Margarida... Margarida, Margarida, deixa-me saborear o prazer louco

de te repetir mil vezes syllaba a syllaba, lettra a lettra, esse nome

querido, que tantas vezes balbuciei sósinho no segredo do meu quarto.

Deixa-me impregnar cada uma das suas melodias no amor immenso, que

represei no coração, e que trasborda afinal. Filha, bem vês, peço-te um

só instante para me pagar de tantos annos de angustias, de seculos de

tormentos. Não é muito, não; concedes-m’o? Oh! meu Deus! mas eu tenho

tanto que te dizer! não posso, não sei, adivinha, sim? Fita os teus

olhos nos meus, lê n’elles, estrophe a estrophe, o louco poema, que

uma voz ignota me canta no coração. E lembrar-me eu que pude suspeitar

um instante que deixara de te amar, e uma palavra tua perturbava-me,

e um sorriso teu enlouquecia-me, e uma attracção indizivel chamava-me

para aqui. E pude fingir que fazia a côrte a Carolina, só para ter um

pretexto de ficar junto de ti, o pretexto de te livrar das suspeitas

calumniosas! E fingi corresponder ás suas impudentes provocações, para

te ver sempre, sempre; porque és tu a minha vida, a minha mocidade, a

estrella da minha noite, a flor do meu deserto, perola do meu sombrio

occeano, a lampada do meu ermo sanctuario.

--Oh! tenha dó de mim, Alberto, salve-me d’esta vergonha, livre-me

d’esta vertigem; não vê que as suas palavras augmentam cada vez mais

a incrivel fascinação que me arrasta para o abysmo? E eu não quero

aviltar-me; ame-me, já que a fatalidade assim o quer, mas com um amor

de irmão.

--Sim, Margarida, sim, de irmão. Não vês como te adoro! Ordena o

impossivel, e pratical-o-hei. Oh! mas estas louras tranças, que ondeiam

por deante dos meus labios, deixa-me beijal-as, são estas mesmas as que

o sol doirava, quando te vi, aéria fada, como que fluctuar entre as

primeiras sombras do crepusculo. Beijo as minhas recordações.

E beijava-me os cabellos espargidos no collo; mas eu, repellindo-o,

disse-lhe brandamente:

--Alberto!

Elle parou e fitou em mim um olhar submisso.

--Deixe-me, continuei eu; saia, que já ouço o tropear dos cavallos.

Alberto travou-me das mãos, contemplou-me um instante, beijou-as com

fervor, e saiu, dizendo:

--Amo-te!

A flor secca: romance · 第 39 / 55 题