XX

Comtudo era impossivel que esta situação falsissima se prolongasse por

muito tempo. Estavamos todos embaraçados e constrangidos. Alberto,

passado o primeiro momento de extasi, caira n’um abatimento visivel.

Acudia-lhe o rubor ás faces sempre que apertava a mão a Claudio;

e este, inquieto e sombrio, estendia-lhe a mão com repugnancia, e

mostrava-lhe uma frieza quasi insultante. A partida de Alberto era a

unica solução possivel; sentia-o elle e não tinha animo para se apartar

de mim; sentia-o eu tambem e não tinha forças para lhe pedir que o

fizesse.

Certa da victoria, D. Antonia excitava Claudio a dar um golpe decisivo;

Carolina, furiosa por se ver burlada quando imaginara burlar-me,

juntara-se francamente aos meus inimigos, e, fazendo côro com sua

madrinha e seu marido, bradava que um tal escandalo, se continuasse,

era capaz de corromper a atmosphera de Bellas por tal fórma, que

nenhuma senhora honesta se resignaria a habitar n’aquelles arredores,

com medo de aspirar, nos haustos de um ar até ahi tão puro, pensamentos

adulteros e criminosas tentações.

O padre prior, que não percebia nada do que lhe diziam, apoiava tudo,

confirmando os appoiados com estrepitosas pitadas, disfarçando tambem

d’essa fórma os remorsos que sentia por abandonar assim a causa de

Alberto, com quem sympathisava desde que este, com generosa abnegação,

se prestara a substituir uma ou outra vez o proscripto Theodoro Leite

na mesa do voltarete.

Comtudo, eu e Alberto andavamos sempre arredios um do outro, e não

davamos o minimo pretexto para que este mysterioso drama tivesse o

desenlace que os nossos inimigos desejavam. Esta obstinação em não

favorecermos os seus planos irritava D. Antonia, e fazia-a commetter

erros de toda a especie. Mostrava-se umas vezes indignada com a

hypocrisia das pessoas, que sabem disfarçar aos olhos do mundo o

crime que descaradamente confessam em particular; outras vezes, pelo

contrario, mostrava-se amabilissima comigo e com Alberto, e por tal

fórma nos incitava a que passeassemos juntos, que esta insistencia

chegava a dar-lhe ares de desempenhar um papel pouco em harmonia

com a dignidade _meticulosa_ de que tanto blasonava. Só emmudecia

quando o sobr’olho fransido de Claudio, o meio sorriso de Alberto, e

os multiplicados signaes de Carolina lhe faziam perceber que a sua

impaciencia a fizera entrar n’um mau caminho.

Principiou então a adoptar um melhor systema; fingiu que se havia

esquecido de todo das suas suspeitas, e das minhas revelações; fingiu

confiar plenamente no que lhe eu dissera, e não querer por forma

alguma intervir no desenlace de tão penosa situação. Cuidou talvez

que, desassombrada da sua continua vigilancia, e do constante «álerta»

com que as suas provocações espertavam as minhas suspeitas e me tinham

sempre preparada para o combate, cederia á fascinação e me deixaria

indolentemente resvalar para o abysmo.

Enganava-se julgando que a lucta em mim era apenas filha do capricho

e da necessidade de disfarçar aos olhos de meu marido as minhas

criminosas relações. Não podia ella comprehender que o amor e a honra

se combatessem lealmente no meu peito, e que o meu espirito encontrasse

sempre novas forças no sentimento da propria dignidade para reter as

perfidas suggestões do coração.

Mas esse pelejar incessante prostrava-me e desfallecia-me. Minguava-me

não o valor, mas o alento physico para supportar as consequencias

da victoria. Eram terriveis para mim essas formosas e breves noites

de estio, passadas a velar na minha alcova solitaria, a ver a lua

espraiar-se no chão do jardim, e a voluptuosa penumbra a aninhar-se

nos recantos. Surprehendia-me a alvorada immovel na minha janella,

assistindo ao esvair da minha mocidade, fada cada vez mais pallida,

entre os primeiros clarões do horisonte matinal. E esses fugitivos

poemas, que me tinham consumido as horas nocturnas, murchavam-me a

flôr da juventude, que toda se desfazia em fragrancias, com que se

perfumavam essas vagas estrophes, que me voavam nem eu sei para onde,

nas azas da viração.

Assim passou uma semana.

Jantaram um dia em nossa casa Carolina e Jeronymo. Quando acabamos de

jantar, fomos tomar café para a sala. Começava a cair o crepusculo,

um d’esses crepusculos de estio, serenos e harmoniosos. As janellas

abertas deixavam entrar os longiquos murmurios do campo, o melancholico

mugido do boi, que volta para o curral, o grito prolongado do pastor,

o som grave e religioso do sino das Ave-Marias, e d’envolta com estas

campestres melodias vinham tambem os vagos aromas que as flores das

noites rescendem n’essa hora mysteriosa.

Entrou Alberto, quando eu me fôra sentar ao piano, a pedido de

Carolina, que instava comigo para que tocasse um trecho da _Luiza

Miller_, muito da sua predilecção. Era uma das mais suaves e mais

melancholicas romanzas de tenor, uma das mais mimosas perolas d’esse

collar de melodias, que, n’uma hora de inspiração, Verdi desfiou sobre

o publico dilettante. O crepusculo já déra logar ás sombras da noite;

não havia ainda luar, mas estava tão estrellado o céu, e era tão suave

aquella penumbra que ninguem se lembrou de pedir luz. Agruparam-se

todos em torno do piano, e estava eu preludiando, quando entrou

Alberto, como já disse.

Interrompi-me á sua chegada, mas elle, apenas fallou ás pessoas

presentes, disse logo:

--Oh! minha senhora, teria eu remorso eterno, se por minha causa

ficassem os rouxinoes do seu jardim privados d’uma nota só d’esse

cantico delicioso, que lhes ha de ensinar a celebrarem ainda melhor

do que celebram os encantos d’uma noite estrellada. Continue vossa

excellencia.

--Chegou muito a proposito, senhor Alberto Mascarenhas, acudiu

Carolina; ia-se tocar a romanza do tenor; commettiamos um sacrilegio

confiando a um piano, ainda que tocado admiravelmente, o cantico

sublime, digno só de ser entoado pela voz humana. Valha-nos pois,

cante-nos a romanza.

--Por Deus, senhora D. Carolina, o que diriam os rouxinoes?

Excommungavam-me de certo, e encarregavam os mochos e as corujas de

executarem a sentença, poisando todas as noites no tecto da minha

hospedaria. Posso affiançar a vossa excellencia, que nas pontas dos

dedos da senhora D. Margarida está escondido um Mongini, que lhe vae

cantar admiravelmente a aria que me pede.

--Não, não, respondi eu rindo, engana-se. Mongini rasgou a escriptura,

de fórma que os meus dedos declaram positivamente que só estão

disponiveis para acompanhamentos.

--Bem, por minha causa não quero que se feche o theatro. Estou prompto

a obedecer ás ordens de vossas excellencias.

Alberto possuia uma bonita voz de tenor, pequena sim, mas dramatica,

se me permittem o termo. Reproduzia admiravelmente cada inflexão da

melodia, cada intenção do maestro. Identificava-se com a musica, e

perfumava-se de suave tristeza, ou irrompia em gritos de paixão, ou

tomava o tom elegante do galanteio frivolo, conforme cantava, ou o _Ah!

perché non posso odiar-ti_ da _Somnambula_, ou o _Mentré contemplo_ das

_Vesperas Sicilianas_, ou o _Questa o quella_ do _Rigoletto_.

Corri os dedos pelo teclado, e preludiei depois, fazendo brotar das

teclas as notas graves da introducção.

A extrema luz crepuscular illuminava escassamente o pallido azul do

céo, onde palpitavam as estrellas. A placidez da noite proxima, a

serenidade da atmosphera, o profundo silencio que reinava no aposento,

silencio quebrado apenas pelos frouxos e derradeiros murmurios do

dia, predispunham a alma para esse embevecimento mudo e extatico,

melancholico e religioso, que esse canto grave, simples, e vago como

uma melodia exhalada espontaneamente da harpa gigante da natureza, é

tão proprio para inspirar. A voz de Alberto ergueu-se pura, limpida,

mas levemente commovida. Creio que todos sentimos um inexprimivel

encanto ao ouvirmos as primeiras notas suaves e serenas, que tão bem se

casavam pelo tom e pela letra com o espectaculo que nos rodeava:

_Quando le sere, al placido

Chiarore d’un ciel stellato_

O canto espraiava-se pela planicie, ia expirar ao longe em languido

murmurio, e acordava milhares de eccos mysteriosos. Os campos,

adormecidos no voluptuoso regaço d’essa hora magica, despertavam ao

ouvirem essa harmonia, synthese admiravel das suas vozes confusas. Eu

estava profundamente commovida, sentia que Alberto cantava para mim

só, que era para mim que elle deixava expandir-se a sua alma em cada

uma das notas d’esse cantico. A sua voz era apenas um frémito, quando,

n’essa doce lingua italiana, recordava as meigas horas em que, de mãos

enlaçadas, fitavamos o céu onde esmoreciam os ultimos raios do sol.

Porque eu chegara a convencer-me que tudo aquillo era verdade e não

ficção, que era eu a heroina da opera, elle o meu apaixonado, e quando,

todo embevecido n’essas recordações, Alberto, como que esquecendo-se do

presente, concentrou toda a sua alma, toda a sua paixão n’aquelle grito

immenso de amor e de jubilo:

_Allor parea l’Empireo

Aprir-se all’alma mia_

não pude conter mais os sentimentos, que me trasbordavam do peito, e

deixando cair os braços e interrompendo o acompanhamento, contive a

custo os soluços e deixei as lagrimas silenciosas golpharem-me dos

olhos e inundarem-me as faces.

Alberto calou-se de subito, os ouvintes levantaram-se dizendo: «O que é

isto?» Meu marido approximou-se logo de mim, relanceando para Alberto

um olhar cheio de odio, e perguntando-me rudemente: «O que tem?»

--Nada, nada, respondi eu com voz bastante firme; uma dor violenta que

me surprehendeu, mas que já me passou.

--No coração? perguntou D. Antonia com fingida ingenuidade.

--Sim, no coração, respondi eu com altivez; mas comprimi-a já.

--Essas dores são muito más, tornou ella, vem quando menos se esperam.

--Mas não vencem apesar d’isso, continuei eu.

Claudio ouvia este dialogo com modo sombrio.

--A senhora D. Margarida, acudiu Carolina, é muito nervosa, e as

pessoas nervosas facilmente se deixam impressionar pela musica. Demais

a mais o senhor Alberto Mascarenhas cantou com tanto ardor, tanto de

coração, que não admira que produzisse este effeito.

--Engana-se, minha senhora, respondi eu; nada tem com este incommodo

passageiro o canto e a musica; vou-me deitar em cima da minha cama um

instante, e voltarei restabelecida.

--Vá, vá, tornou D. Carolina cariciosamente. Desabafe que lhe ha de

fazer bem.

Não lhe repliquei, e saí. Quando cheguei ao meu quarto, foram-me

allivio as lagrimas. Entre a minha afflicção, comtudo, avultava uma

idéa fixa. «Não, dizia eu comigo mesma, isto não póde durar. Vejo

dois caminhos abertos deante de mim, o do amor e da perdição, e o da

salvação e do martyrio. Ou entregar-me á paixão fatal, que me domina,

fazer a vontade a esta gente e procurar no amor de Alberto consolações,

que me abafem os remorsos, ou fazer cessar esta lucta perigosa, dizendo

a Alberto que parta, encerrando as lagrimas no peito, e engolphando-me

brutalmente n’esta existencia mesquinha, que me ha de assegurar a

consideração da condessa, a estima de D. Antonia e a tranquillidade

talvez. A tranquillidade? Palavra d’ora em deante sem sentido para

mim! Se conquisto a paz exterior, as tempestades nem por isso deixarão

de me bramir no coração. Mas que importa? O cumprimento de um dever

nunca deixa de ser acompanhado por intima satisfação, e será esse o

magico talisman que abrandará o soffrimento, a que a minha vida vae

ser condemnada. É preciso, é indispensavel que Alberto se ausente.

Ausentae-vos com elle, sonhos tentadores, perigosos devaneios, frémitos

da juventude, que se revolta contra o cilicio, aspirações do meu

espirito para o mundo luminoso, d’onde o dever o repelle.»

Armando-me de coragem, desci á sala, decidida a pedir a Alberto uma

entrevista, para lhe explicar francamente a minha situação, e rogar-lhe

que me facilitasse o sair d’ella.

Já lá estavam a condessa, o padre prior e a baroneza.

Como a tactica de D. Antonia consistia em me deixar a maior liberdade,

julguei que poderia facilmente fallar de relance a Alberto. Mas o ciume

de Carolina parece que fôra excitado pela scena do piano, de forma que

não fez senão interpor-se constantemente a nós ambos, e não nos deixou

sós nem um instante.

Já perdera as esperanças de lhe fallar, e até já me despedira d’elle

e das outras visitas que se retiravam, quando, ao atravessar a saleta

para subir para o meu quarto, encontrei Alberto, que subia de novo para

buscar alguma coisa, que lhe esquecera.

Travei-lhe da mão, e disse-lhe apressadamente:

--Preciso muito de lhe fallar: ámanhã, ás duas horas da noite, venha

ter comigo ao jardim. Enviar-lhe-hei a chave.

Alberto ficou mudo d’assombro. Eu nem lhe dei tempo a responder-me. Saí

precipitadamente, e, ao abrir a porta, esbarrei n’um vulto.

Era a Maria do Rosario.

--Que estava aqui a fazer? perguntei eu com indignação.

--Nada, minha senhora, respondeu ella com toda a naturalidade; vinha

apagar as luzes.

E entrou effectivamente para a sala.

Era possivel que fosse essa a verdade, e, se o não fosse, que me

importava? Denunciasse-me embora; eu ia jogar a ultima carta, e estava

disposta a confiar-me cegamente ao destino.

Comtudo, até para dar esse passo, que me devia salvar da vergonha,

precisava de humilhar o meu orgulho aos pés de uma creada; é verdade

que essa creada, antes amiga, era a boa Quiteria, a pobre velha,

que tão desinteressadamente se dedicara a mim. Só d’ella me podia

valer para conseguir que fosse entregue a Alberto a chave, que era

indispensavel para a nossa ultima entrevista.

Portanto, no dia seguinte chamei-a ao meu quarto, e como ligava muito

mais apreço á opinião da boa e pobre Quiteria do que á da altiva D.

Antonia, e da virtuosa condessa, contei-lhe pela rama a historia das

minhas relações com Alberto, não lhe fallei em subtilesas de coração,

mas disse-lhe que, vendo-me calumniada por causa d’aquelle homem,

queria ter uma conferencia com elle para lhe pedir que se retirasse

e não me expuzesse mais, ainda que involuntariamente, aos juizos

desfavoraveis das pessoas com quem estava condemnada a viver. Terminei

rogando-lhe que se encarregasse da missão que eu desejava confiar-lhe.

--Minha boa menina, respondeu-me a Quiteria, tenho dado fé das

intrigas, que a cercam, e sei perfeitamente que a senhora D. Margarida

está innocentinha como um anjo do céu. Dá-me vontade ás vezes de

esganar os seus perseguidores! Já não fallo no senhor Claudio, que

esse no fundo é muito boa pessoa, assim elle soubesse ser dono da sua

casa. Mas a senhora D. Antonia, Deus me perdôe, parece mesmo que tem

o demonio ao lado que lhe está aconselhando a maldade. E a Maria do

Rosario? Ai! que boa peça! Anda sempre, como o outro que diz, com o

santo nome de Deus na boca, e o diabo no coração. Aquillo até chega a

ser heresia. Por isso todos lhe teem raiva, e se não fosse por minha

causa, o meu Simão já lhe tinha quebrado os ossos, quando a pilhava a

espreital-a, e a ir metter no bico da senhora D. Antonia tudo quanto a

menina faz! Mas eu que sou muito sua amiga, porque vejo que é boa com

a gente pobre, e que não se contenta em lhes dar uma fatia de pão, com

modos de quem dá uma facada, como fazem essas beatas fingidas; mas que

é meiga, affavel com elles, que os trata bem, e não lhes faz sentir a

sua humildade e a sua dependencia, que não ha coisa mais triste, santo

nome de Jesus. Andar uma pessoa a comer as sopas d’outrem...

--Mas o que é que ia a dizer, tia Quiteria? interrompi eu, porque a via

disposta a amontuar incidentes sobre incidentes, e a perder o fio da

oração principal.

--Ah! é verdade, já me esquecia... Tenha paciencia, minha boa senhora,

que isto de velhas gostam muito de dar á lingua, e, em ellas começando,

não ha fazel-as parar. Misturam alhos com bugalhos, e nunca chegam ao

fim, como succedeu na noite em que a menina chegou, que me enredei por

tal fórma, que não acabei de contar a historia do fr. João. Que elle

sempre viu a alma do pae...

--Mas vossemecê estava a dizer outra coisa, tornei eu, já impaciente.

--Ah! é verdade. Isso é o que importa agora, e não o saber-se que o

pae de João lhe confessou que fôra a pouco e pouco mudando os marcos

das terras dos visinhos, e que não teria a sua alma descanço e andaria

penando por este mundo em quanto essa justiça não fosse reparada.

--Sim, sim, tia Quiteria, mas vossemecê dizia...

--Ah! é verdade, voltando cá á boa alma de Maria do Rosario, que me

parece que já está a arder no inferno pelas mexeriquices que tem feito,

e as desgraças que póde crusar, sempre lhe direi, minha menina, que

o demonio da mulher ouviu-a hontem dizer ao senhor Alberto que fosse

ao jardim, e, segundo o seu costume, foi logo dizer tudo á senhora D.

Antonia. Ouvi-a eu com estes ouvidos, que eu não sou surda, graças a

Deus, a vista é que se me vae debilitando alguma coisa, e os dentes

esses viste’-los? Nem eu. Pois ouvi-a estar a contar tudo isso, e ouvi

tambem a senhora D. Antonia dizer assim: «Ora graças a Deus! vejâmos

agora se meu sobrinho ainda acha algum pretexto para se esquivar a

fazer o que deve, e se, depois de ter visto com os seus proprios olhos,

ainda estiver pouco disposto para isso, nós arranjaremos as coisas de

maneira que elle não tenha outra saída. O caso é não se ter vossemecê

enganado nas horas.»--«Não enganei, não, minha senhora, respondia a voz

de falsete da Maria do Rosario, ás duas horas no jardim.» Mais nada

ouvi porque senti passos aproximarem-se da porta, e não tive tempo

senão de me safar. Ora agora veja a menina se não será melhor adiar

a entrevista para outra occasião. Olhe que ellas estão prevenidas, e

fazem-lhe alguma.

Reflecti alguns momentos antes de dar uma resposta. Os sentimentos

do meu coração, vencidos pela idéa do dever, não tinham ficado

completamente domados, e protestavam ainda contra a oppressão, a

que os votara. Fugia d’esse vedado paraiso do amor, mas, fugindo,

relanceava para elle os olhos, como a chorosa Eva ao sair do Eden, se

voltava a contemplal-o, com o peito a arquejar de saudades. Sorria-me

tentadora a idéa fatal de esquecer nos braços de Alberto a vida e

as suas obrigações, o mundo e as suas amarguras, de fugir com elle

para algum eremiterio arredado do bulicio social, ufanando-me do

estygma, aceitando o escandalo para conquistar o amor, como se aceita

o martyrio para se conquistar a palma. Bem sei que seria de pouca

dura essa felicidade criminosa, que o remorso seria o meu algoz, e o

enfado, que algumas vezes me entreluzisse nos olhos do meu amante,

pugentissimo castigo; mas o que era tudo isso em comparação da longa

vida de estiolamento que eu ia passar n’esse carcere domestico?

Lembrei-me dos amores de D. Branca e de Aben-Afan. Horas breves de

felicidade compradas por uma vida inteira de horrido desgosto; e o que

destruira esses amores tão violentos? Um gesto de fastio do moiro wali,

saudoso das suas pelejas e do seu poder. Teria eu maior condão que D.

Branca, Alberto mais desprendimento do mundo, do que Aben-Afan? Não

lhe leria nunca nos olhos o desgosto de se ter prendido em laços, não

authorisados pela sociedade, e de se ver privado dos gosos mundanos?

Mas isso que importava? Se a gentil abbadessa, depois de ter visto e

amado o arabe formoso, se houvesse sepultado logo no gélido mosteiro,

não seria ainda maior a sua tristeza? Não seria a sua vida uma longa

noite, em que nem sequer luziria um raio do sol extincto sim, mas que

por instantes brilhara no horisonte? Longa noite sem o luar d’uma

recordação? Não seria então que o poeta podia deveras exclamar:

.... Mas é vida

Esse viver que se alimenta em lagrimas?

Agitada por estes encontrados pensamentos, persisti na idéa de deixar

ir o batel do nosso destino ao som da agua, para onde o impellisse

a corrente do acaso, ou antes, o que era mais christão na forma,

senão no fundo, entreguei á Providencia o cuidado de reger o leme,

e confiei-me cegamente ás ordens do Divino Piloto. Cumpriria o que

resolvera, iria pedir a Alberto que se affastasse de mim, porém, se a

fatalidade interviesse de novo, se a mão implacavel dos que me tinham

collocado á beira do abysmo me despenhasse n’elle, não opporia a minima

resistencia, e deixar-me-hia cair nos braços que me recebessem.

Era esta a ultima prova e a mais fatal das indecisões do meu caracter,

tão pouco proprio para as luctas da existencia.

Por isso respondi á boa mulher:

--Embora, tia Quiteria; cumpra-se o meu destino: o que resolvi está

resolvido. São puras as minhas intenções, mas já não tenho forças para

luctar com as minhas perseguidoras. Quanto mais depressa isto acabar,

melhor. Estou anciosa pelo descanço, ainda que seja o repouso do

tumulo, ou o do opprobrio.

--Ah! a minha menina que se deita a perder! tornou a Quiteria com modos

supplicantes. Pois quer dar essa gloria ás suas inimigas? Não faça tal.

E demais, continuou ella, desatando a chorar, isso é tentar a Deus, é,

como quem diz, dar cabo de si com as proprias mãos.

Travei, commovida, das mãos de Quiteria, e disse-lhe:

--Obrigada, minha boa amiga, obrigada por essas lagrimas. Ah! se

as pessoas que a desprezam do alto da sua soberba, tivessem o seu

coração!... Mas, tia Quiteria, bem vê que uma vida assim não pode

continuar. Estou cançada, estou prostrada por esta lucta sem treguas

nem fim. Acarinhada, mimosa em casa de meus paes, vim para esta casa,

nunca mais tive nem socego nem alegria. As pessoas do meu trato

quotidiano só tinham para mim rostos severos ou frios. Não tive

affeições, não tive familia. E, não contentes com isso, isolaram-me

do mundo, e cercaram-me com uma gélida barreira de desconfianças, de

suspeitas, e de calumnias. Esforcei-me, luctei por sair d’este circulo

de ferro; não pude. Já me sinto sem forças nem alento. No tumulo talvez

me deixem tranquilla, ou, se me expulsarem d’esta casa, talvez encontre

descanço ahi no fundo de alguma choça abandonada. Não é melhor assim?

E as minhas lagrimas confundiram-se com o pranto da minha humilde amiga.

--Pobre senhora! pobre senhora! dizia ella, soluçando; pobre pombinha

sem ninho! antes Deus a tivesse feito nascer n’uma choupana! viveria

socegada, e todos a haviam de estimar, como merece.

--Antes, antes, Quiteria, respondi eu melancholica, bastantes vezes,

no silencio da noite, lancei a Deus esse grito de revolta contra o

martyrio sem causa.

--Mas, minha menina, continuou a velhinha limpando as lagrimas, que

ainda lhe banhavam as faces, se por força quer fallar esta noite ao

senhor Alberto, ao menos faça-me uma coisa.

--Qual é?

--Mude a hora da entrevista; mande dizer ao senhor Alberto que venha á

meia noite.

--Á meia-noite, tia Quiteria! Quasi a essa hora se vão as visitas.

--Então o que tem? O senhor Alberto que espere. Olhe, a senhora D.

Antonia, o que deseja é ver se a apanha lá, e por conseguinte esteja a

minha menina certa que lhe não ha de pôr obstaculos.

--Oh! isso sei eu.

--Então está combinado?

--Pois sim! tornei eu com a indifferença do fatalismo.

--Ora bem! disse a Quiteria muito satisfeita. Assim talvez ainda as

possamos lograr! Deus está por nós. Elle nos ajudará. Fique a menina

descançada que d’aqui a duas horas está o senhor Alberto avisado.

E, despedindo-se de mim, dirigiu-se para a porta; mas, quando ia a

levantar o fecho, parou, como se lhe houvesse esquecido alguma coisa,

e disse:

--Ah! já me não lembrava!...

--O que é, tia Quiteria? perguntei eu com interesse.

--O João...

--Qual João? tornei a perguntar, porque já nem pensava na historia do

frade.

--Ora, qual João! o que viu a alma do pae...

--Ah! é verdade, interrompi eu rindo, então o que lhe succedeu?

--No dia seguinte restituiu as terras furtadas aos seus donos, as

outras vendeu-as, e foi-se metter n’um convento. E aqui está como fr.

João vestiu o habito de frade, e foi sempre um homem exemplar.

E muito satisfeita por ter afinal contado a sua historia toda, a tia

Quiteria abriu a porta e saíu.

A flor secca: romance · 第 41 / 55 题