Foi só no dia seguinte que reflecti bem no que se passara na vespera.
Foi então que me espantei de D. Antonia não ter tornado a apparecer
na sala. Um passeio a pé, por mais que o prolongasse, não podia ter
durado tanto tempo. Demais lembrou-me então que a tinha sentido voltar
meia hora ou tres quartos de hora depois de ter saido. Por que motivo
não viera para a sala? Havia n’isso o projecto de alguma infernal
armadilha? Ia dentro em pouco sabel-o.
D. Antonia não me deu palavra durante esse dia todo, coisa com que
eu folgava bastante; mas no outro dia, sem me ter prevenido da sua
chegada, appareceu meu marido, visivelmente agitado sob a sua mascara
de gelo.
Acolhi-o com jubilo. Sentia um certo contentamento intimo por ter
cumprido o meu dever. Estava satisfeita comigo mesma, o que já concorre
muito para se estar satisfeito com os outros.
Meu marido fallou-me com bastante frieza. Logo depois encerrou-se com
D. Antonia, e teve com ella uma larga conferencia.
Depois appareceu ainda mais agitado, passeou algum tempo, pegou no
chapéo e saiu.
D’ahi a pouco, voltou, sempre agitado, e fechou-se no seu quarto.
Á noite appareceram as visitas do costume, coisa que me espantou
sobremaneira, porque julgava que não voltariam tão breve.
Comtudo a condessa deu bem a entender que vinha a nossa casa em
attenção a Claudio, e só em attenção a elle.
Pouco me importava; o jubilo da minha consciencia dava-me novas forças
para luctar com intrepidez.
Alberto appareceu pouco depois. A sua entrada produziu sensação.
Claudio recebeu-o com uns modos meio frios, meio cordiaes. A condessa
mostrou-se distraida, D. Antonia ligeiramente motejadora, Carolina
extremamente amavel.
Alberto esteve perfeitamente senhor de si. Não o traiu o seu espirito
brilhante e jovial. Esteve desembaraçado no meio de todos aquelles
constrangimentos. Eu, que tambem não tinha motivo algum para estar
constrangida, auxiliei-o; a conversação animou-se. A condessa não tomou
parte n’ella; Claudio muito pouca; D. Antonia aventurou umas poucas
de insinuações, em que não reparamos; Carolina entrou na palestra
com finas observações, que se resentiam da sua indole essencialmente
sarcastica. Assim se passou uma noite muito agradavel.
Claudio que ao principio se mostrara nimiamente reservado, foi-se pouco
a pouco tornando mais expansivo.
Mas, no dia seguinte uma influencia severa agglomerava-lhe de novo na
fronte as nuvens, que se haviam por instantes dissipado.
Comtudo comecei a notar uma grande differença no procedimento de D.
Antonia, a meu respeito. Tantos tinham sido os cuidados, que tivera até
ahi para que eu não estivesse um instante só com Alberto, quanto era o
desejo que parecia ter agora de nos proporcionar os mais prolongados
_tête-à-tête_.
Pedia-lhe a elle muitas vezes que nos acompanhasse n’algumas excursões
que faziamos pelos arredores. Depois aproveitava um pretexto qualquer
e eclipsava-se. Ao cabo de uma longa hora de passeio, apparecia-nos
de subito meu marido, pallido, com o olhar sombrio, com a fronte
annuviada. A cordialidade serena, o jubilo até com que o acolhiamos
dissipavam logo todas as nuvens, e voltavamos todos tres para casa,
rindo e conversando como bons amigos.
Alberto era realmente admiravel. No meio d’aquella rede de intrigas,
que eu sentia confusamente, caminhava tão desassombrado como se não
estivesse pisando um terreno perfido, onde o mais leve descuido podia
perder a sua lealdade, e a minha reputação.
Não se ausentava porque via perfeitamente que a sua retirada daria á
calumnia o pretexto que ella anciosamente procurava: mas acceitava tão
desconstrangidamente o papel falsissimo que esta situação lhe impunha,
que parecia não ter o minimo conhecimento do trabalho subterraneo,
emprehendido pela devota sociedade de D. Antonia e companhia.
Eu mesma me espantava d’essa tranquilidade inalteravel, e suppunha que
fôra um sonho a scena que se passara n’essa noite, que tão profunda
impressão me causara. Precisava de admirar a rosa murcha, que trazia no
seio, para de novo me convencer da realidade de tudo isso.
Alberto nem parecia reparar na posição em que o tinham collocado, e
que devia dar em resultado maior intimidade. Era o que fôra sempre:
um conversador amavel, elegantemente frivolo, que tomava comigo o tom
d’uma respeitosa familiaridade.
Um dia, obedecendo a essa irresistivel attracção, que nos obriga
a chegarmo-nos á beira do precipicio, e debruçarmo-nos para elle,
ainda que saibamos que um momento de vertigem nos póde arrojar ao
despenhadeiro, ousei alludir á historia do seu passado.
É inconcebivel, mas é certo. Luctei tres dias com a tentação, afinal
não pude resistir, e aventurei a pergunta.
--Acredita na transmigração das almas? disse Alberto, em vez de
responder.
--Porque? tornei eu espantada.
--Porque, se acredita, ha de perceber perfeitamente a minha historia.
Isso em que me falla succedeu, se me não engano, a um Alberto, que
vivia no tempo de Noé. Depois, como sabe, veiu o diluvio. Affogou-se
nas grandes aguas o corpo e a memoria. A alma, desprovida d’essa
faculdade, transmigrou para este corpo, nado e creado em pleno
seculo XIX. Mas como ha de lembrar-se a coitada dos acontecimentos
ante-diluvianos?
Eu desatei a rir, mas devo confessar que senti um certo despeito. É
inexplicavel, não é? É inverosimil? Bem sei. Propuz o enigma, não
intentei resolvel-o.
Um dia Theodoro Leite mandou-me dizer que me desejava fallar, e com
muita urgencia.
Fui a casa d’elle. Theodoro e a entrevadinha receberam-me com o jubilo
habitual. Depois Theodoro acompanhou-me á volta, e pelo caminho foi-me
contando o que o obrigara a mandar-me chamar.
--A Quiteria, disse-me elle, que lhe ficou muito affeiçoada desde
a primeira noite em que a viu, e em que a minha querida filha
(permitta-me que lhe dê esse nome) se mostrou tão boa, tão amavel com
ella e com os outros creados, sentando-se junto d’elles na cosinha,
conversando com elles, ouvindo-lhes as historias, procedimento esse que
d’um modo tão notavel contrastava com o orgulho da tia de seu marido, a
Quiteria, pois, veiu ter comigo, e pediu-me que a avisasse, coisa que
ella não podia fazer, porque a minha filha está sendo a toda a hora
espionada pela Maria do Rosario. Disse-me ella que se anda tramando
lá por casa uma intriga terrivel, que tem unicamente por fim promover
uma separação entre Claudio e a minha querida menina, separação que hão
de fazer escandalosa, e cuja vergonha ha de recair toda sobre a sua
innocente cabeça.
Eu ouvia espantada esta revelação incomprehensivel para mim, porque
não podia adivinhar que mal teria eu feito áquella gente, para que me
tivessem declarado uma guerra tão encarniçada. Foi isso mesmo o que eu
disse a Theodoro, que me respondeu, sorrindo-se:
--Que mal lhes fez? Pobre innocente! Um crime imperdoavel, o de ter
vinte annos, uma formosura esplendida, uma indole boa e sympathica, uma
alma enthusiastica, e de juntar a tudo isto uma virtude immaculada.
Que mal fez a rosa ao caracol, para que este lhe entorne nas petalas
a repugnante baba? A luz, minha filha, não attrae unicamente as
borboletas, tambem attrae os morcegos, estes para de despeito a
apagarem, aquellas para se queimarem na chamma, que as enleva.
Satanaz, ao sair das trevas, vae insultar o sol. Quer viver socegada?
Não brilhe. Não quer que a mordam no calcanhar? Arraste-se como as
serpentes. Mas não; soffra antes, e levante a fronte acima d’essa turba
vil. Tenha sobretudo confiança em seu marido. É um espirito fraco, mas
um nobre coração. D. Antonia domina-o, porque a minha querida menina
ainda não tentou rebater-lhe a influencia. Tente-o, combata, seja
forte. Não permaneça na inacção, desça á liça para onde a chamam, e
calque aos pés a sua mesquinha adversaria. A sua indifferença anima-a,
a sua energia dissipar-lhe-ha os brios.
--Mas combatel-a, como, de que maneira? perguntei eu.
--Olhe, tornou Theodoro meigamente, eu lhe explico o mysterio da sua
vida. Claudio é um homem timido, acanhado, que precisa que lhe estendam
a mão para sair da sua habitual reserva; consagrou-lhe um profundo
amor, e viu coroados os seus votos d’um modo completamente inesperado.
A minha querida menina, creança que nada comprehende da vida, acceitou
das mãos de seus paes um marido, como acceitaria um vestido novo.
Nenhum dos dois deu o primeiro passo para essa intimidade conjugal,
que funde n’uma só duas almas, duas vontades, dois pensamentos: elle
porque não ousava, a minha querida menina porque não sabia. D. Antonia
apossou-se com habilidade d’esse espirito fluctuante, que julgara
por um momento que lhe escaparia indo-se prender n’outros laços.
Animada por essa primeira victoria, quiz levar a cabo o seu triumpho.
N’aquelle coração angustiado e hesitante semeou a duvida; transformou
em calculo o que era ignorancia da vida. Disse-lhe que a facilidade
com que a minha filha acceitara o casamento com um homem a quem não
amava era resultado da corrupção prematura, que despresava os deveres
do matrimonio. Aproveitou as mais leves circumstancias, desenvolveu
com uma sagacidade infernal os mais subtis indicios. A entrada em
scena de Alberto veiu dar-lhe um optimo pretexto. Seu marido resiste
ás suggestões continuas de D. Antonia, mas ha de chegar um instante
em que succumba. D. Antonia, combinada tacitamente com as suas boas
amigas, quer apressar o desenlace, espera que um momento de fraquesa
leve a minha querida menina a dar um passo errado, que se ha de logo
aproveitar. Espiam-na constantemente; em casa não faz um movimento só,
que a Maria do Rosario lh’o não espreite; no campo, nos seus passeios
com Alberto Mascarenhas, póde estar certa de que por traz de cada sebe
ha um ouvido á escuta. Seu marido está n’uma posição intoleravel; o
coração reage-lhe contra a evidencia apparente, que D. Antonia lhe
mostra; mas, atormentado por uma duvida incessante, vagueia como o
espectro do ciume procurando uma certesa material, que, ainda que o
fulmine, o livre d’aquelle estado. Tudo isto eu deduzo facilmente do
que a boa Quiteria me disse; porque a pobre velha tem praticado por
sua conta um systema de contra-mina, e, emquanto a Maria do Rosario
está com o ouvido collado á porta do seu quarto, vae ella escutar as
palestras de Claudio e de D. Antonia. Desculpe-a, coitada. O que a
impelle a proceder assim, é a amisade que lhe tem.
--E o que me aconselha então? acudi eu baixando a cabeça, que me
vergava ao peso d’aquellas revelações.
--O que lhe aconselho, minha filha? A lealdade e a franquesa. Deixe
essa gentalha extraviar-se pelos atalhos, e caminhe desassombradamente
pela estrada real, inunde de luz as suas intrigas tenebrosas, e
vêl-as-ha fugirem como demonios nocturnos, surprehendidos pela
alvorada. Entre na intimidade de seu marido, não se envergonhe de
tomar a iniciativa, conte-lhe com franqueza a historia de todas essas
intrigas, que a perseguem, faça-o ler na sua purissima consciencia,
porque assim a tem, não é verdade?
--Oh! sim! tornei eu com exaltação.
Mas depois não sei que pensamento importuno me acudiu ao espirito, e me
incendeu as faces em vivo rubor.
--Vamos; seja forte! acudiu Theodoro beijando-me com ternura na fronte.
Não vacille nem um instante, não vergue ao peso da cruz.
--Descance, meu amigo, tornei eu melancholicamente. Não me assusta o
soffrimento.
E despedi-me d’elle, mais animada do que nunca até ahi estivera. Havia
alguns dias que uns devaneios indefiniveis me atormentavam. Sentia um
vago e doloroso prazer em aspirar a brisa embalsamada das noites de
maio. Os effluvios do jardim coavam-me nas veias não sei que ardor
incomprehensivel. O meu coração pulsava com violencia quando os raios
da lua, infiltrando-se voluptuosamente na minha alcova, me vinham
fallar de ignotos mysterios. Ao cair da noite sentava-me ao piano, e,
deixando correr os dedos pelas teclas, escutava em extasi a suave e
mansissima harmonia, que despertava então. Surprehendia-me a mim mesma
contemplando a flôr secca, a rosa murcha, que me abrazava o seio. Que
symptomas funestos eram estes? Receava adivinhal-o.
Mas o passo aconselhado por Theodoro ia livrar-me de tão importunos
pensamentos. Tudo quanto elle me dissera ácerca do caracter de Claudio
achava-o eu extremamente verdadeiro, agora que reflectia em muitas
circumstancias, que primeiro me tinham passado despercebidas. Não
duvidava do bom exito do plano do meu velho amigo. Assim tudo se
conciliava, e o futuro afinal apparecia-me desassombrado. Ia entrar
finalmente no porto, depois de tantas tempestades. Ia encontrar no
amor de meu marido um escudo contra as perseguições mesquinhas de D.
Antonia, e um asylo contra os estranhos pensamentos, que me perseguiam.
Ia ser feliz emfim!
Pareceu-me que me tiravam de cima do peito um peso enorme, e respirei
com desaffogo. Estava ao pé de casa. Subi a escada com pé ligeiro,
cheguei á porta da sala, e abri-a alegremente.
Mas, assim que entrei, estaquei de subito e senti no peito uma dor
aguda, como se um ferro m’o atravessasse. No vão d’uma janella um homem
e uma senhora conversavam intimamente, e com tanta animação que nem
deram pela minha chegada, nem ouviram a bulha, que eu fizera abrindo a
porta. Pallida como uma defuncta, fui-me aproximando a pouco e pouco,
e só quando cheguei a dois passos da janella é que elles repararam em
mim. A senhora soltou um grito, o homem fez-se levemente corado.
Eram Alberto e Carolina.