XV

Todos olharam para mim com espanto, e Alberto principalmente com

assombro. Comtudo inclinou-se sem responder, e foi pôr o chapeu no

sitio d’onde o tirara.

A condessa encolheu os hombros com despreso, Carolina riu-se, D.

Antonia lançou-me um olhar indignado, e o padre prior tomou uma pitada.

Depois sairam todos.

Ficamos sós, eu e Alberto.

Fui á janella e abri-a. Estava uma noite linda, a lua campeava serena e

placida n’um céo d’um azul purissimo, onde se espraiava sem obstaculo

a candida luz, que lhe fluctuava em torno, como véo de noiva. A brisa

suspirava brandamente na ramaria das arvores.

Vi sairem as nossas visitas, D. Antonia, e o creado que a devia

acompanhar na volta. Nem ergueram os olhos para a janella, onde eu

estava. Afastaram-se vagarosamente, conversando e rindo. A pouco e

pouco foi esmorecendo ao longe o echo dos seus passos e das suas

vozes, afinal esvaiu-se de todo, e outra vez reinou em torno de mim

essa placidez fremente, se assim me posso exprimir, das lindas noites

de primavera, noites em cujo magico silencio palpitam os canticos

mysteriosos das fadas, o leve ruido da flôr que desabrocha, o murmurio

da seiva, que circula no coração da arvore.

Eu sentia o passear agitado de Alberto na sala. A nossa posição era tão

embaraçosa, que nenhum de nós se atrevia a romper o silencio.

Emfim Alberto parou, e disse-me, tocando-me no hombro, e fazendo assim

com que eu me voltasse para elle:

--O que se passa aqui?

--Nada, meu bom amigo, respondi sorrindo-me; ou antes, passa-se uma

lucta mesquinha, cujas peripecias lhe causariam tedio.

--Em que o meu nome entra d’algum modo?

--Não, respondi hesitando.

Pois que lhe havia de dizer? Havia de lhe narrar as absurdas

insinuações de D. Antonia?

Alberto fitou os seus olhos nos meus, depois abanou a cabeça com ar de

duvida.

Eu larguei a janella, e fui-me sentar ao meu piano, que me chegara de

Lisboa n’esse mesmo dia.

Abri-o, e deixei correr vagamente os dedos pelo teclado. Alberto

foi-se encostar ao peitoril da janella. O seu nobre e pallido perfil,

banhado pelos raios da lua, tomava não sei que vaga expressão austera e

melancholica.

A doce influencia da musica banira do meu espirito as impressões

desagradaveis, que a scena antecedente me deixara. As azas brancas da

melodia arrastavam-me suavemente para os campos ethereos do ideal.

Pouco a pouco as notas que eu fazia brotar ao acaso do teclado foram

tomando uma fórma determinada, e, quasi sem eu ter consciencia d’isso,

os meus dedos despertaram no seu leito de marfim a serenata do _Marino

Faliero_.

Estremeci ouvindo o seu canto, ou antes o seu murmurio erguer-se

timidamente, e embalar-se na sua cadencia com tanta brandura, como as

aguas do Adriatico podem embalar no seu dorso uma gondola veneziana.

Cedi ao encanto, e o meu pensamento, que fluctuava incerto, entregou-se

ás voluptuosas caricias d’essa languida melodia.

Depois a musica expirou como havia começado: sem motivo, sem razão,

_comme un oiseau se pose_, diz Victor Hugo.

Alberto ouvira a serenata com a cabeça firmada n’uma das mãos. Quando

a ultima nota se esvaiu no espaço, ergueu a fronte, e dirigiu-se para

mim. Lampejava-lhe nos olhos um fulgor estranho.

--Minha senhora, disse-me elle encostando-se ao piano, sabe quem foi o

objecto do meu primeiro amor?

--Não, redargui espantada da pergunta.

--Foi vossa excellencia.

--Eu! tornei estupefacta e levantando-me.

--Socegue, minha senhora, vossa excellencia tem-me honrado com a sua

estima, e sabe que nem por sombras sou capaz de a offender. Mas vejo,

presinto que se está elaborando n’esta casa alguma intriga mysteriosa,

de que vossa excellencia é victima, e onde me fazem desempenhar um

papel, seja elle qual fôr. Devo-lhe por conseguinte plena e inteira

franqueza. Vou-lhe submetter um caso de consciencia. Depois de lhe ter

feito uma confissão completa e sincera, vossa excellencia dirá se devo

ou não tornar a pôr os pés n’esta casa.

Alberto calou-se por um instante, passou a mão pela testa, como para

avivar a memoria do passado, e principiou depois em voz baixa e agitada:

--Foi ha tres ou quatro annos, supponho. Entrava eu na vida, e

relanceava os olhos em torno de mim com a ingenua curiosidade de

quem tudo vê envolto nos véos seductores do mysterio, e tomando o

aspecto de risonho enigma de tentadora resolução. Entre todas essas

miragens de que a nossa vista se namora, quando pomos o pé na orla

d’este deserto da existencia é a do amor a mais luminosa. As outras

visões apparecem-nos como simples oasis; esta surge-nos como paiz de

fadas. As outras serão sombras e frescura; esta, flores e fragrancias.

Como a todos, foi a canção amorosa a que primeiro despertou no meu

peito, vago canto sem assumpto, melodia sem letra, que me extasiava

como o trovar de passarinho invisivel emboscado na ramaria. Uma vez

encontrei-a a vossa excellencia com sua familia n’uma das quintas de

Bemfica. Obedecendo ao inexplicavel condão da formosura, os meus olhos

seguiram, ainda meio distraidos, o seu vulto airoso, que se sumia ao

longe nos meandros das lamedas. Momentos depois, tornei a encontral-a,

e a impressão fugitiva, que me produzira, avivou-se e recresceu de

intensidade quando me achei preso na esphera de fascinação magnetica,

que os seus olhos sempre possuiram. Vi-a então bem! Que formosa e fina

cabecinha a sua! Que primoroso oval o do seu rosto! E o aveludado

da sua tez, e o seu pisar tão gracioso, e mais que tudo a suprema

elegancia, a suavidade como que aerea das linhas do seu perfil e dos

contornos do seu corpo, tudo isso me enlevou, me deslumbrou por tal

forma, que não pensei mais senão em seguil-a e miral-a de longe, com

medo que essa visão do céo me fugisse de novo, e tornasse, despregando

as azas brancas, ao Empyreo, d’onde viera.

--Senhor Alberto Mascarenhas! interrompi eu, devéras enleada.

--Perdão, minha senhora, tornou elle com certa melancholia; não julgue

que estou evocando o passado, de proposito para lhe fazer uma especie

de declaração retrospectiva. Prometti-lhe ser franco, e para o ser abri

o livro da minha memoria, e reli-lhe as paginas taes como as escrevera

n’esse tempo. Desculpe-me se se encontra n’ellas alguma phrase, que

fira a sua susceptibilidade.

--Continue, murmurei eu com voz que mal se ouvia.

--D’esse momento em deante, minha senhora, continuou Alberto,

consagrei-lhe um amor mysterioso, que me deu infindas alegrias.

Povoou-se a minha solidão com uma imagem, em que todos os meus sonhos

se incarnavam. O encontral-a era para mim um prazer immenso; mirar a

janella cerrada do seu quarto causava-me não sei que doce commoção;

divisal-a a vossa excellencia encostada ao peitoril, ou devaneando

vagamente, ou lendo algum livro, era um extasi indisivel. Fugia para

o meu quarto, levando como thesouro precioso uma das fragrancias, em

que a flor se desata, um dos raios de luz que a estrella desprende da

sua fulgida corôa, sem que estrella nem flor tenham consciencia do

jubilo que inspiram. Encerrava-me sósinho, evocava o seu vulto, via-a

debruçar-se para mim, sentia-lhe os cabellos roçarem-me ao de leve

pela fronte, e estremecia como se a impressão ficticia do meu devaneio

fosse uma impressão verdadeira. Olhe, quer que lhe diga? Tenho saudades

d’essa loucura, e voltando os olhos para o meu passado, não encontro

n’elle horas mais suaves do que essas, em que, a sós com uma sombra,

fui lendo, estrophe a estrophe, o mais lindo poema de amor que nunca se

escreveu.

Aberto, extraordinariamente agitado, deu um passeio na sala, e foi

a final encostar-se de novo ao peitoril da janella. Os effluvios da

primavera adejavam no ambiente, por onde os espalhava a doida brisa

sacudindo as azas impregnadas n’essas fragrancias. Os raios da lua

vinham já espraiar-se no chão do aposento. Eu, inclinada para o

piano, pensava n’esse mundo novo, que se me apresentava, n’esses

novos horisontes, que se rasgavam deante da minha phantasia. Esse

amor mysterioso que acompanhara, sem que eu o visse, o meu passado

esplendido e risonho, illuminava-me agora as trévas do presente com um

raio d’esse fulgor extincto, como a lua, que, invisivel em quanto o

sol campeia no firmamento, surge mal assoma a noite, e vem pratear as

sombras com um reflexo ao clarão diurno.

--Se soubesse, tornou Alberto voltando para mim, como a sua imagem me

acompanhava sempre! como o seu nome, que eu logo soubera, me acudia

constantemente aos labios! como eu gostava de o pronunciar! como eu

devorava os romances em que esse nome apparecia! como eu o associava

a todas as minhas commoções! Se ouvia uma opera predilecta, quando a

musica me elevava ás regiões do extasi, era o seu nome como a chave de

oiro que me abria as portas d’esse mundo ideal! «Margarida, amo-te,»

balbuciava eu, quando Desdemona suspirava a aria do _Salgueiro_; quando

Violeta gemia o seu adeus ao mundo; quando escutava esse cantico

sublime de amor e tristeza, que se chama _Lucia_. E se por acaso tinha

a felicidade de a ver no theatro, como os meus olhos se cravavam no seu

rosto querido, como eu seguia a impressão que a musica produzia na sua

alma, e que se espelhava nos seus olhos!

A noite continuava serena, perfumada, voluptuosa, e os raios da lua

vinham esmorecer languidamente no chão do aposento.

Eu ouvia essas confidencias com um sentimento inexprimivel; doce,

quando me deixava embalar pela melodia d’essas magicas palavras que

dizem amor e mocidade; amargo quando pensava na vida tal como o acaso

m’a fizera, e nas graves consequencias que podia ter para mim essa

declaração intempestiva.

--Durou esse sonho pouco tempo, como todos os sonhos, tornou Alberto;

mas deixou-me para sempre uma recordação indelevel. Lembro-me, como

se fôra hoje, da ultima vez que a vi, antes de me ausentar de Lisboa.

Encontrei-a em casa de um dos velhos amigos do meu pae, o visconde

de ***, passeava vossa excellencia no jardim, quando eu entrei.

Acompanhavam-na sua mãe e a viscondessa. Meu pae, o visconde, o

pae de vossa excellencia e outros amigos estavam tomando café n’um

dos kiosques. Era em junho, e ao pôr do sol. Succedera a frescura

do crepusculo ás calmas abrasadoras do dia. Reinava em terra e céo

perfeita serenidade. O firmamento d’um azul purissimo. O Tejo, ao

longe, doirado pelos ultimos raios do sol, que se sumiam no occaso.

Um d’esses raios ficara tambem como preso ás arvores do jardim. Vossa

excellencia passeava de cabeça descoberta, e a mansa brisa, que se

erguera, fazia-lhe arfar os cabellos castanhos claros em vagasinhas

d’oiro, quando o raio de sol alcançava beijal-os. O seu passear

vagaroso e indolente, as suaves ondulações do seu corpo, o fulgor

um tanto amortecido dos seus olhos, o frémito dos seus labios, que

aspiravam a aragem embalsamada, tudo se casava tão bem com a languida

voluptuosidade da tarde expirante!... Fiquei como deslumbrado por

tanta formosura, palpitou-me com violencia o coração, e nem tive animo

nem força para me approximar de vossa excellencia. Infelizmente ou

felizmente (eu sei?) estava para se retirar. O visconde foi-se despedir

de vossa excellencia e de sua mamã, e a viscondessa acompanhou-as.

Vossa excellencia colhera uma rosa, que beijava distrahida, ao

aspirar-lhe o perfume; affastou-se, fui-a seguindo com os olhos,

vi-a subir vagarosamente os degraus da escadaria, e quando chegou ao

terraço para onde deitavam as portas do palacio, vi-a encostar-se á

balaustrada, e fitar vagamente os olhos no horisonte affogueado, no

rio onde o oiro se ia transformando em purpura, e nas montanhas cujos

pincaros se azulavam com a distancia. O seu vulto, estampando-se por

essa forma na atmosphera transparente, com a fronte cingida por uma

vaga auréola, tendo por traz de si um foco de chammas em cada vidro,

que os ultimos raios de sol incendiavam, tomava como que o aspecto

phantastico de uma d’essas fadas do Rheno, que apparecem ao pôr do

sol, com a harpa de oiro ao lado, sentadas nos fraguedos do rio.

Distrahidamente deixou cahir a rosa que tinha na mão; depois desviou-se

do parapeito, e desappareceu no interior do palacio.

--Que memoria a sua! disse-lhe eu, sorrindo-me.

--Hesitei um instante, continuou elle sem parecer que reparava na

minha interrupção; antes de ir levantal-a: depois não me pude conter,

e fui-me approximando como que distrahidamente do sitio onde estava

a flor cubiçada. Apanhei-a n’um relance, beijei-a, e guardei-a no

peito... Nunca mais me separei d’ella, continuou com voz abafada;

essa visão da minha adolescencia esvaiu-se como se esvaem os sonhos,

esse louco amor extinguiu-se como era natural, mas a flor secca nunca

mais me deixou; é o meu talisman, que serve para evocar ás vezes esse

periodo luminoso da minha vida, esses doces annos que se sumiram para

sempre no abysmo do passado.

E, tirando do peito uma rosa murcha e amarellecida, passou-a para as

minhas mãos.

Deslisou-me dos olhos uma lagrima e foi cair nas petalas sem viço da

pobre flor, sem que esse amargo orvalho lograsse reverdecel-a. Assim

tambem os meus prantos não poderiam restituir-me alegria descuidosa que

perdera.

Alberto viu a lagrima, e disse-me:

--Comprehendo-a; essa flor, deixada cahir distrahidamente quando não

havia ainda saudades na sua vida, exerce no seu espirito a mesma

fascinação que no meu exercia. Guarde-a, dou-lhe n’isso a prova de que

para sempre quebrei com o meu passado.

--Não era necessario, disse eu; aprecio tanto o seu nobre caracter, que

nem por um instante duvido de que me não teria feito essa confidencia,

se não consagrasse simplesmente um affecto de irmão á esposa do seu

amigo.

--Ah! isso juro-lh’o, tornou Alberto pondo a mão no peito, se não me

sentisse completamente livre, e desassombrado, se o meu coração me

désse inda rebates d’amor, que se devia extinguir, não teria entrado

n’esta casa. Teria vergonha de mim mesmo, se não pudesse agora fitar os

meus olhos nos seus com purissima serenidade. Mas se julga que apesar

d’isso, não devo tornar a vir aqui; se julga que esta memoria d’um amor

passado, é uma offensa para vossa excellencia, e um acto de deslealdade

para com o meu amigo, se julga que uma recordação involuntaria,

espelhando-se no meu rosto, póde dar uma arma aos calumniadores, diga

uma palavra e estou prompto a retirar-me.

--Seria uma vileza aos meus proprios olhos, respondi eu serenamente, o

rebaixar-me a ponto de transigir com a calumnia. Esta casa está sempre

aberta ao amigo de meu marido, ao homem leal de quem agora aperto a mão.

E estendi-lhe a minha que apertou commovido.

--Bem, disse-me elle rindo, tirou-me um grande peso de cima do peito.

Agora peço as ordens de vossa excellencia.

Foi pegar no chapéo; e depois, voltando para mim, e apertando-me de

novo a mão continuou:

--Desculpa-me o ter-lhe dito tantas loucuras?

--Desculpal-o, porque? redargui eu sorrindo-me. Leu-me um bonito

romance, ouvi-o com attenção; agora fechamos o livro, e voltamos á

realidade.

Alberto ficou suspenso por instantes, depois respondeu:

--É isso mesmo. Tem vossa excellencia muita razão.

E saíu.

Eu fiquei algum tempo pensativa junto do piano; depois levantei-me,

soltei um suspiro d’allivio, peguei n’um castiçal e dirigi-me para o

meu quarto.

Dava meia noite.

A flor secca: romance · 第 36 / 55 题