XIV

Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na impressão que produzira,

mas logo recuperou o seu habitual desembaraço, e depois de cumprimentar

todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e para D. Antonia,

dizendo:

--Desculpem, minhas senhoras, se venho por esta forma surprehendel-as.

Imaginem vossas excellencias que me vejo obrigado a estabelecer-me

em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, que, sob pretexto de

que hei de ser o seu herdeiro, houve por bem, emquanto não me lega

os seus haveres, fazer de mim uma especie de intendente d’elles.

Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, tem feito estudos

comparativos sobre a probidade dos intendentes considerada debaixo do

ponto de vista da natureza humana, e concluiu que o melhor gerente de

quaesquer bens é aquelle que os deve herdar. Debalde protestei contra

a theoria; fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já uns

tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas em massos de

titulos pulverulentos, e embaraçado por todos os Talleyrands saloios,

que a natureza espalhou com mão prodiga por este sitio. Mas de repente

lembrou-me que me dissera Claudio que tencionava passar a primavera e

o verão n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com elle. Chego,

dizem-me que ainda está em Lisboa, mas que vossas excellencias estão

cá; subo e tenho a honra de lhes apresentar os meus respeitos.

--É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, observou D. Antonia.

Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar malicioso, Jeronimo fez

um commentario em voz baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o

sobr’olho.

--Nós quasi que o esperavamos, continuou D. Antonia.

--A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de revelação sobrenatural;

porque eu posso-lhe jurar que ha tres horas não pensava ainda em vir

aqui.

--São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido.

--Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto

rindo; poderei por acaso alimentar esperanças?

--Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as

suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas.

Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da

conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de

palestra.

--Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.

--Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o

seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da

conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor

desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar

em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas

de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas

frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e

gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra

na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais

deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o

supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com

o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas,

ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas

admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto

mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando

vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano

tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar

antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos

saudosos um do outro.

Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por

isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as

pessoas presentes.

--É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.

--E que cynismo! accrescentava Jeronymo.

--Que falta de habilidade! murmurava Carolina.

--Que escandalo! rematava D. Antonia.

O padre prior tomava pitadas.

--Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, mas não posso continuar

a ser testemunha de uma scena d’estas.

--Tem razão, senhora condessa, dizia a minha inimiga intima, não

imagina como estou afflicta. Não tenho remedio senão avisar meu

sobrinho.

Todos se levantaram.

--Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta.

--Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, Carolina?

--Sem duvida, redarguiu esta.

--Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia fitando os olhos em

mim e em Alberto, e accentuando muito cada palavra, que me resolvo a

acompanhal-as um pedaço.

Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, e fiz-me vermelha

de colera. Alberto levantou-se e foi para pegar no chapeu.

A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia

referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e

estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e

disse-me ao ouvido:

--Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos!

Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já

bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de

reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e

na minha presença, exclamei:

--Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique!

A flor secca: romance · 第 35 / 55 题