Alberto ficou um pouco enleado, ao reparar na impressão que produzira,
mas logo recuperou o seu habitual desembaraço, e depois de cumprimentar
todas as pessoas presentes, dirigiu-se para mim e para D. Antonia,
dizendo:
--Desculpem, minhas senhoras, se venho por esta forma surprehendel-as.
Imaginem vossas excellencias que me vejo obrigado a estabelecer-me
em Bellas por causa dos negocios de um tio meu, que, sob pretexto de
que hei de ser o seu herdeiro, houve por bem, emquanto não me lega
os seus haveres, fazer de mim uma especie de intendente d’elles.
Meu tio, segundo vêem, é um profundo philosopho, tem feito estudos
comparativos sobre a probidade dos intendentes considerada debaixo do
ponto de vista da natureza humana, e concluiu que o melhor gerente de
quaesquer bens é aquelle que os deve herdar. Debalde protestei contra
a theoria; fui obrigado a vir até Bellas, onde tenho passado já uns
tres dias divertidissimos, enterrado até ás orelhas em massos de
titulos pulverulentos, e embaraçado por todos os Talleyrands saloios,
que a natureza espalhou com mão prodiga por este sitio. Mas de repente
lembrou-me que me dissera Claudio que tencionava passar a primavera e
o verão n’esta sua casa de campo, e resolvi vir ter com elle. Chego,
dizem-me que ainda está em Lisboa, mas que vossas excellencias estão
cá; subo e tenho a honra de lhes apresentar os meus respeitos.
--É sempre bem vindo, senhor Alberto Mascarenhas, observou D. Antonia.
Ao ouvirem este nome, Carolina sorriu-se com ar malicioso, Jeronimo fez
um commentario em voz baixa ao ouvido da condessa, e esta franziu o
sobr’olho.
--Nós quasi que o esperavamos, continuou D. Antonia.
--A mim? perguntou Alberto. Isso é caso de revelação sobrenatural;
porque eu posso-lhe jurar que ha tres horas não pensava ainda em vir
aqui.
--São presentimentos, acudiu ironicamente a tia de meu marido.
--Extremamente lisongeiros para este seu adorador, tornou Alberto
rindo; poderei por acaso alimentar esperanças?
--Póde... pois não, continuou ella trocando uma vista d’olhos com as
suas devotas companheiras, póde tel-as e muito bem fundadas.
Alberto ficou um pouco enleado, reparando n’estes mysterios da
conversação. Eu já os percebia, por isso procurei mudar logo de
palestra.
--Então aborreceu-se muito na Ericeira? perguntei.
--Não minha senhora, respondeu Alberto com a facilidade que o
seu espirito privilegiado tinha em seguir todas as direcções da
conversação. Eu sou d’aquelles que consagram ao oceano um amor
desinteressado. Ha immensa gente que diz: «Gosto do mar, mas do mar
em tempo de banhos» assim como dizem tambem: «Gosto de Cintra, mas
de Cintra na estação em que a sociedade elegante procura as suas
frescas sombras e os seus ridentes panoramas.» Eu não; gosto do mar e
gosto de Cintra sem segunda intenção; do mar no inverno, e de Cintra
na primavera, do mar sem barracas na praia, de Cintra com Seteais
deserto. Já vê por conseguinte vossa excellencia que tive este anno o
supremo goso, que podem ter todos os namorados, o de estarem sós com
o objecto da sua affeição. Eu e as vagas conversámos sem testemunhas,
ellas contaram-me historias tão maravilhosas, eu confiei-lhe poemas
admiraveis, e tanto mais admiraveis quanto eram ineditos, e tanto
mais ineditos quanto nem chegavam a formular-se em palavras. Quando
vier o tempo do amor official pelas praias ouvirá o pobre oceano
tantas apostrophes de poetas, que não tive animo de o torturar
antecipadamente; pois ainda assim, entendemo-nos e separámo-nos
saudosos um do outro.
Eu estava prestando attenção ao frivolo palrar de Alberto, sem por
isso deixar de ouvir a palestra em voz baixa, que se travara entre as
pessoas presentes.
--É uma entrevista em fórma, dizia a condessa.
--E que cynismo! accrescentava Jeronymo.
--Que falta de habilidade! murmurava Carolina.
--Que escandalo! rematava D. Antonia.
O padre prior tomava pitadas.
--Desculpe-me, D. Antonia, tornava a condessa, mas não posso continuar
a ser testemunha de uma scena d’estas.
--Tem razão, senhora condessa, dizia a minha inimiga intima, não
imagina como estou afflicta. Não tenho remedio senão avisar meu
sobrinho.
Todos se levantaram.
--Vou-me retirando, disse a condessa em voz alta.
--Nós tambem, continuou Jeronymo. Não achas, Carolina?
--Sem duvida, redarguiu esta.
--Está tão bonita a noite, continuou D. Antonia fitando os olhos em
mim e em Alberto, e accentuando muito cada palavra, que me resolvo a
acompanhal-as um pedaço.
Era o mesmo que despedir Alberto. Percebi a intenção, e fiz-me vermelha
de colera. Alberto levantou-se e foi para pegar no chapeu.
A condessa e Jeronymo cumprimentaram-me friamente. Eu sentia
referver-me no peito a indignação, que ia lavrando pouco a pouco, e
estava quasi chegando ao seu paroxismo. Carolina veio beijar-me e
disse-me ao ouvido:
--Tens bom gosto, mas sempre são ambos uns tontinhos!
Alberto ia a dirigir-se a mim para me cumprimentar; mas eu, sem ter já
bem a consciencia do que fazia e cedendo só ao irresistivel desejo de
reagir contra essa authoridade, que todos se arrogavam em minha casa, e
na minha presença, exclamei:
--Perdão, senhor Alberto Mascarenhas, rogo-lhe que fique!