Passou-se o resto do inverno, sem que successo algum notavel viesse
perturbar a triste monotonia da minha existencia. Augmentavam a
cada instante a sombria taciturnidade de meu marido, o intoleravel
despotismo de D. Antonia.
Alberto vinha de quando em quando visitar-nos, e os poucos momentos,
que elle passava comnosco, eram para mim de ineffavel jubilo. A sua
indole viva e amena, a sua conversação sempre colorida e pittoresca, a
sua palavra eloquente exerciam em mim uma salutar influencia. As suas
visitas eram como as de um raio de sol ao preso encerrado n’um carcere
tenebroso.
A nossa ligação, por maior que fosse o desejo que D. Antonia tivesse de
a envenenar, não lhe dava para isso o minimo pretexto. Era a ligação
de dois condiscipulos, que se sentem attraidos um para o outro pela
uniformidade das suas idéas, pela commum predilecção consagrada aos
mesmos estudos. O franco e aberto sorriso, com que eu o acolhia, O
amigavel _shake-hands_ que trocavamos á despedida, não explicavam senão
sincera e cordial sympathia mutua.
Finalmente chegou a primavera. Alberto partira antes de terminar o
inverno, para a Ericeira, onde tinha parentes que o chamavam. Claudio
propoz-me irmos passar a primavera e o estio n’umas terras que possuia
na aldeia de ***, junto de Bellas.
Aceitei, e aceitei com enthusiasmo.
Quando já estava determinada a partida, e tudo preparado, subitos e
imprevistos negocios obrigaram meu marido a demorar-se em Lisboa. Não
quiz elle de modo algum que por causa d’isso transtornassemos a viagem
projectada. Despediu-se de mim affectuosamente, prometteu-nos, que,
assim que se pudesse desembaraçar, iria ter comnosco; depois viu-nos
entrar na carruagem, e esteve á janella até nos sumirmos saindo as
portas da cidade.
Estava um d’estes dias do principio da primavera, em que sopra ainda a
brisa aguda invernal, e em que o horisonte se cobre com um denso veu de
neblina. Caía uma chuva miudissima, e a baixa de Campolide apparecia
emvolta n’um manto de tristeza. O vulto do aqueducto desenhava ao fundo
os seus arcos magestosos e sombrios.
Envolvi-me na minha capa de viagem, e concheguei-me no fundo do
_coupé_. O movimento da carruagem era suave bastante, e proprio, a mais
não poder ser, para acalentar os meus sonhos. Primeiro quiz sustentar
a palestra com o auxilio de algumas banalidades; mas pouco a pouco
a minha imaginação não se poude conter, engolphou-se na região dos
devaneios, emquanto ao meu ouvido, que as sentia vagamente, resoavam as
palavras de D. Antonia, que me ía recitando, segundo creio, a lista dos
nossos visinhos do campo.
Eu, entretanto, contemplava a paizagem, que apresentava aspectos
diversos e pittorescos. De vez em quando um frouxo raio de sol rasgava
o manto de nevoas, e vinha dar uma certa animação ás campinas.
Espairecia o firmamento, e a magestosa curva do grande arco do
aqueducto moldurava ao longe uma vasta nesga de tela azul. A luz
amarellada do sol doirava os campos, que se apresentavam já cobertos
com o seu vistoso tapete de malmequeres. Depois corria-se de novo o
panno, e o scenario desapparecia com os seus explendores de um momento,
com o seu instantaneo colorido.
Involuntariamente comparei a minha vida monotona, e tendo apenas breves
intermittencias de luz, com aquella paizagem da primavera invernosa.
A imagem de Alberto fluctuou-me por instantes na phantasia.
Sorri-me ao lembrar-me do que diria a minha companheira de viagem, se
soubesse que vulto eu vira n’aquelle instante com os olhos d’alma.
Esse sorriso, por mais rapido que fosse, não escapara á vista perspicaz
de D. Antonia.
--De que se ri? perguntou logo.
Como que acordei sobresaltada.
--De nada, retruquei.
--De nada? Só a pessoas que não teem todo o juizo, acontece semelhante
coisa. É verdade que talvez agora se dê esse caso, accrescentou por
entre os dentes.
Encolhi os hombros.
--Pois olhe, continuou ella, que o que eu lhe estava dizendo era muito
sério. Provavelmente nem sabe o que foi.
--Confesso, respondi eu fazendo-me vermelha, que não percebi bem.
--Ah! não percebeu? Pois olhe, não era difficil. Por onde andará o seu
pensamento? Não percebe o que eu digo e não sabe de que se ri! Isso ha
de ser nervoso. Talvez precise de tomar banhos de mar... na Ericeira.
Começara o tiroteio. Já me admirava de que a trégua durasse tanto.
Conforme o costume, deixei passar a tempestade dos epigrammas, fazendo
porque o meu espirito se isolasse completamente d’este mundo, e voasse
para bem longe d’aquella atmosphera turvada.
Tinhamos já passado para deante da ponte do Carenque, e entravamos
n’essa estrada arida, núa, monotona, que põe em communicação entre si
Lisboa, a formosa rainha do Tejo, Cintra, a mimosa camponeza das serras.
O sol, proximo do occaso, conseguiu alfim romper a nebulosa cortina que
o cercava. Como a lampada moribunda projecta, nas vascas da agonia,
mais intenso clarão, assim o rei dos astros, antes de apagar no
horisonte a sua corôa de fogo, quiz inundar o céo com vividos reflexos.
Então o cerrado esquadrão das nuvens como que se revestiu de luminosas
couraças. Como captivo soberano, a quem a fortuna restitue o throno,
e que vê passar por deante de si humildes e curvados os seus proprios
carcereiros, assim as nuvens desfilavam, impellidas pelo vento, por
deante do sol, immovel no horisonte purpurado, como em vasto solio de
chammas. Aqui semelhavam corceis phantasticos, de arreios de ouro e
xaireis de escarlata, que voavam n’um insano galope; mais além nuvens
distantes, que se tingem de reflexos arroxados, passavam lentamente,
como graves magistrados envoltos nas suas bécas. A illusão chegou a
ponto, que a minha phantasia, começando, segundo o costume, a tomar
gosto n’esses devaneios, deu a cada nuvem um papel, e chegou a vêr bem
vivos, bem claros os vultos que imaginava.
Este cortejo de nuvens bojudas, que avançava magestosamente,
representava a meus olhos a camara municipal. Ouvia-lhes os discursos,
que o vento vinha indiscretamente segredar ao meu ouvido.
Aquell’outras que se conservavam fluctuando em torno do sol, e que mais
brilhantes se mostravam com as suas vestes de purpura recamadas de
oiro, eram os cortezãos que cercavam o regio throno.
As arvores, que fugiam, á medida que ia passando a carruagem,
affiguravam-se-me a plebe, que saudavam com enthusiasmo a cerimonia
celestial. O vento agitava-lhes os braços, que pareciam menear na
atmosphera invisiveis chapeus; dir-se-ia que os murmurios, que se
exhalavam das suas ramas, eram o bramir longinquo e indiscreto dos
vivas de um povo inteiro.
Era tão comica a attenção que eu prestava a estas cerimonias
phantasiadas, que involuntariamente, caindo em mim, desatei a rir.