VII

Admiro-me ás vezes agora das torturas que me causavam aquellas

accusações, tão despreziveis e tão absurdas. Mas eu era uma creança,

e não podia conceber que o azedume e o despeito levassem uma mulher,

que vivera toda a sua vida engolphada n’aquellas intrigas pequeninas,

a torturar por divertimento e só por divertimento. Revoltava-me o

absurdo, em vez de me fazer rir, e pungia-me principalmente o proposito

firme que eu vira que D. Antonia formara de contrariar todas as minhas

predilecções, de me obrigar a descer áquella esphera, em que ella vivia

deliciosamente.

Parecia-lhe impossivel até que houvesse alguem que se occupasse em

outras coisas, ou que n’outras coisas pensasse. Quando expunha alguma

das suas frivolas theorias, queria que todos as acceitassem com muita

reverencia, e, se não manifestavam logo a sua adhesão, recebiam uma

chuva d’epigrammas, porque eram consideradas do partido opposto

ao seu, não podendo D. Antonia perceber que o verdadeiro motivo do

silencio, em que todos ficavam quando ella fallava, era a perfeita

indifferença que inspiravam as suas insipidas e dogmaticas banalidades.

Se eu fosse capaz de comprehender aquella indole essencialmente

mexeriqueira, teria logo despresado os seus ataques, por mais insolente

que fosse a forma. Mas eu nunca estudara essa variedade da raça humana;

era D. Antonia o primeiro especimen que me apparecia, e só muito depois

vim a conhecer a fundo os usos e costumes d’aquella familia zoologica,

olvidada por Linneu da sua classificação.

E demais, qual é o espirito, por mais energico, por mais elevado que

seja, que possa affrontar serenamente estas torturas pequenas do lar

domestico?

Direi mais, quanto mais elevado e mais energico fôr, mais accessivel é

tambem a estas feridas de alfinete. Todos os inimigos são previstos,

menos este, que é o mais despresivel e o mais terrivel tambem. O leão

da fabula despresava o mosquito, e foi o mosquito quem o venceu.

Depois via-me só! só n’aquelle pelejar incessante, sem ter um peito

amigo que me fosse anteparo, sem ter um coração em que me abrigasse.

Queria a soledade, e a soledade fugia-me! O eterno zumbir d’aquella

vespa afugentava as abelhas dos meus sonhos, que eu julgava que podiam

libar tão doce mel no calice das flores da phantasia!

A pouco e pouco fôra abandonando as minhas relações; apoderara-se

de mim uma especie de _spleen_, e era-me insupportavel a sociedade,

porque estava sempre n’ella constrangida, exposta como me via a algum

escandalo produzido pela extravasão da bilis de D. Antonia. Nas salas,

onde uma ou outra vez entrava, sentia constantemente aquella espada de

Damocles suspensa sobre a minha cabeça, e bastava isso para envenenar

todo o jubilo que eu poderia ter.

As minhas amigas de infancia espantavam-se de me verem tão arredia,

e arrastadas tambem pelas suas preoccupações de solteiras, nem se

lembravam de virem visitar a pobre exilada. «Temiam, diziam-me ellas

rindo, quando me encontravam, ser indiscretas, vindo bater á porta do

meu santuario.» E eu sorria-me tambem--que remedio!--sentindo ao meu

lado, como sentia sempre, o genio mau que se adorava n’aquelle templo

domestico.

Um dia o acaso fizera-me ter um momento de desafogo, de expansão, de

contentamento! Essa curta alegria havia de ter inevitavelmente a sua

expiação: teve-a, e logo em seguida.

Essa suave convivencia que eu esperava que se estabelecesse entre mim

e Alberto, essas conversações que viessem de vez em quando, como os

oasis no deserto, offerecer-me um instante de frescura, dessedentar-me

por um pouco, tudo isso era maculado, ainda antes de nascer, pela baba

peçonhenta do reptil que me perseguia!

Parecia que um instincto infernal lhe segredava os meios de me

torturar; havia um demonio invisivel que volteava em torno d’ella, e

que lhe indicava os pontos vulneraveis da minha epiderme; vinha logo

a envenenada setta cravar-se, arrojada por mão certeira, no sitio

doloroso.

Oh! quem fará um dia o poema d’estas agonias mysteriosas, tanto mais

tristes, tanto mais pavorosas quanto menos lastimadas são quando

se revelam! Este lento padecer nas trevas mais recatadas do lar da

familia não tem a poesia augusta dos martyrios, que são bem visiveis,

e que todos podem facilmente avaliar? Pois estas é que são as dores

terriveis, porque não matam, mas empeçonham a vida, estiolam-na,

desenfeitam-na de tudo quanto a poderia tornar agradavel, e quando

o anjo da morte venha, depois de longos annos d’uma existencia, que

mão paciente foi descolorindo, colher no seu regaço a nossa alma,

encontra-a mais gelada, mais fria, mais inerte do que o cadaver, que o

tumulo reclama.

A flor secca: romance · 第 28 / 55 题