--Estará maluca, minha sobrinha? perguntou ella.
Eu olhei-a com um embaraço infantil, e balbuciei algumas palavras
inintelligiveis.
--Em vez de conversar comsigo mesma, teria sido melhor se me
communicasse os seus pensamentos. Não teria d’essa fórma commettido
a indelicadeza de quasi me não dar palavra todo o caminho... porque
estamos em Bellas.
Tinha razão, e eu não pude fazer mais do que acceitar a reprimenda
e confessar a mim mesma que as imprudencias da minha phantasia de
creança, que estava prompta sempre a lançar mão da _clef de champs_,
eram causa muitas vezes dos meus dissabores.
Estavamos em Bellas effectivamente. O sol sumira-se de todo, mas o
céo parecia querer-se conservar limpo, e prometter uma noite boa. A
carruagem parou no largo para onde deita a porta da quinta do conde de
Pombeiro.
O cocheiro tomou informações, e soube que as chuvas dos ultimos dias
tinham transformado as estradas em atoleiros. Veio ter comnosco, e
disse-nos que nos levava, se quizessemos, á aldeia de ***, mas que nos
arriscavamos a fazer uma viagem demorada, ou a ficar atascadas no meio
do campo.
Como a noite promettia estar serena, e a aldeia não era muito distante,
resolvemos, eu e D. Antonia, ir a cavallo. Por conseguinte despedimos o
cocheiro, depois d’elle nos ter ido alugar uns burros, e, sentadas no
dorso dos pacificos animaes, tomámos o caminho da casa de campo.
Pouco teriamos andado, quando o céo se principiou a toldar de novo.
Caía a noite, e as nuvens, carregando o firmamento, apagavam os faroes
das estrellas, e desdobravam por cima das nossas cabeças um manto negro
e funebre. O rapaz, que tocava os jumentos, mirou o céo e abanou a
cabeça dizendo:
--Temos ahi chuva em barda. É irmos mais depressa, minhas senhoras.
Mas isso era mais facil de se dizer do que de se fazer. As informações
do cocheiro tinham sido exactas, e as estradas eram verdadeiramente
uns lamaçaes quasi impossiveis de atravessar. A chuva já principiara a
cair, o vento zunia com violencia, e os pobres animaesinhos curvavam a
cabeça, e amainavam as longas orelhas, como o barqueiro amaina a vela
quando sopra o temporal furioso. Era necessario avançarmos com muita
cautela, para não tomarmos algum banho n’essas poças que abundavam no
caminho, e que um ou outro relampago, que principiava a fuzilar, nos
mostrava, cercando-nos por todos os lados, como uma rede de paúes.
Finalmente retumbou um trovão magestoso, e uma tremenda pancada d’agua
desabou em cima de nós.
--Santa Barbara, e S. Jeronymo nos accudam, murmurou o burriqueiro, que
noite que vamos ter!
--Ainda fica muito longe a aldeia? perguntei eu.
--Ainda é um bom pedaço, respondeu o rapaz, atirando uma verdascada ao
jumento para lhe apressar o passo vagaroso.
--E não ha por aqui alguma aldeia mais proxima?
--Agora vamos nós atravessar uma.
--Então, senhora D. Antonia, acudi voltando-me para ella, não acha
que seria melhor recolhermo-nos em alguma casa, emquanto não passa o
temporal?
--Entrar em casa de um saloio! Deus me livre! A minha sobrinha não
sabe como esta gente é bruta, e porca principalmente. Eu, se me visse
obrigada, por não ter outro remedio, a descançar n’uma casa d’essas,
assim que me visse no palacete, despia-me toda! Captiva!
Isto era dito em voz bem alta, deante do rapaz que nos acompanhava.
Elle naturalmente não se importou com isso; mas a mim é que se me
confrangeu o coração: nem gosto de humilhar, nem de ver humilhar, os
humildes; impressiona-me sempre desagradavelmente ver alguem, collocado
pela fortuna n’uma posição mais ou menos elevada, fazer sentir á gente
das classes inferiores a distancia que as leis antigamente e agora os
habitos mantém entre os pobres e os ricos, os humildes e os soberbos.
Por isso, para remediar quanto em mim coubesse a falta de delicadesa
de D. Antonia, dirigi amigavelmente a palavra ao nosso companheiro
saloio.
D. Antonia nem em tal reparou. Aquellas coisas fazia-as ella
naturalmente, e sem ser por mal. Não tivera intenção de offender o
rapaz, e ficaria espantadissima se soubesse que um saloio podia ter
susceptibilidade e sentimento da dignidade humana. Nunca se constrangia
para fallar deante d’essa gente; no mais não a tratava nem melhor nem
peior do que os outros, e estava convencida que podia ser considerada
como um modelo de affabilidade quando correspondia ao cumprimento de um
homem de baixa esphera, e lhe dizia:
--Como está _você_? Sua mulher e seus filhos vão bem? Muito estimo!
Beba um copo de vinho á minha saude. Aqui não; vá para a cosinha. Olhe,
lá me sujou a casa com os tamancos! Esta gente não póde entrar em parte
alguma.
Emquanto eu fazia taes reflexões, não findara a chuva; mas os jumentos,
incitados pela voz e pelas verdascadas do burriqueiro, e por um certo
instincto que lhes dizia que estavam quasi chegados ao termo da sua
jornada, haviam tomado uma andadura mais rapida, de fórma que d’ahi a
um quarto de hora pudemos ver uma casa de boa apparencia, singela, com
pavimento rente do chão, e andar nobre, que D. Antonia me disse ser a
nossa residencia.
O burriqueiro deitou a correr para ir bater ao portão; quando lá
chegámos, tinham-se já corrido os ferrolhos e destrancado a porta, e
uma criada velha, entre-abrindo-a cautellosamente, apparecia com um
candieiro de tres bicos na mão, e exclamava, ao conhecer D. Antonia:
--Valha-nos Deus! A Virgem Maria nos acuda! É a senhora D. Antonia!
Ai! a minha santinha, como ha de vir molhada! Ó Zé Caneira! olha que
é a senhora. Ó Annica! Ó mulher, tu não appareces? Diabos te... quero
dizer: Valha-te Deus, rapariga, que tão mollenga me saiste!