Compunha-se de duas pessoas a minha nova familia: meu marido e uma
tia d’elle, mais velha apenas doze ou quatorze annos, e caminhando
rapidamente, mas com desespero, para o Maelstrom dos quarenta, que
sorve implacavelmente as ultimas esperanças matrimoniaes.
Vou tentar descrever em rapido bosquejo os companheiros da
peregrinação, que eu ia principiar.
Claudio da Cunha era um homem de um caracter indeciso e fraco, temendo
duas coisas, e respeitando uma. As que temia eram o ridiculo e a lucta,
a que respeitava era sua tia.
O ridiculo combatia-o com as frias e graves exterioridades que eu já
fiz notar; á lucta, esquivava-se sempre a todo o custo, obedecia a sua
tia escrupulosamente, mordendo constrangido o freio, mas não ousando
sacudil-o.
Sua tia D. Antonia possuia um coração, talvez outr’ora bom, mas que se
fôra enchendo de fel, fel que trasbordava sempre na sua conversação
constantemente aggressiva. Seria perigosa manejando a arma do
epigramma, se o seu espirito, descultivado e estreito, lhe permittisse
açacalar as frechas que despedia ao acaso, que feriam ao de leve, mas
que se tornavam incommodas pela quantidade. Então o adversario, que
ella escolhera, devolvia-lhe uma ou outra com mais certeira mão, e o
golpe, que lhe calava bem fundo na alma, fazia-a ter ataques de nervos,
que chamavam logo a sollicitude do sobrinho, o qual vinha escutar com
ouvido attento os seus queixumes ridiculos, e enxugar com mão piedosa
as lagrimas de despeito.
A sua vaidade era tanto mais insupportavel quanto mais procurava
disfarçar-se. Quando fallava em geral, dizia sempre com louvavel
modestia que era feia, que os meus encantos a offuscavam completamente,
que não aspirava sequer a rivalisar comigo; mas o terreno, que
perdia na generalidade, ia-o sempre recuperando passo a passo nas
particularidades. Quando tinha a minha idade haviam de lhe ficar
larguissimas as minhas botinhas, e agora mesmo, se não quizesse andar a
seu gosto, e se não estivesse já curada d’essas vaidades, estava certa
que lhe haviam de servir maravilhosamente. «Uma coisa que eu sempre
tive foi o pé muito pequeno, concluia ella. Fulano dizia...» E vinha
logo um madrigal, que, pela fórma _moyen-âge_, revelava um adorador dos
bons tempos dos _trovadores_ das _Ellas_, revelação que restabelecia a
verdadeira data da sua certidão de baptismo.
Não podia comprehender, dizia ella, como eu me apertava tanto sem temer
as consequencias funestas d’essa imprudencia. Por mais que lhe jurasse
e lhe mostrasse que não succedia semelhante coisa, continuava sempre
protestando que estava fazendo uma loucura, que ella nunca andara
assim, o que não impedia que tivesse tido uma cinturinha de sylphide,
que duas mãos unidas podiam facilmente abranger.
Todos estes ridiculos eram medianamente supportaveis, e de certo nem os
citaria, se não fossem parte essencial de um caracter sêcco, vaidoso
e azedado pelas decepções que a sua vaidade soffrera no campo das
salas. Pouco depois do meu casamento, essas raivas secretas, esses
furores devorados em silencio começaram a traduzir-se na attitude
hostil que tomou para comigo, attitude acobertada por um manto
d’amizade protectora. Usava, dizia ella, do seu privilegio de _velha_,
e carregava intencionalmente no termo, para me dar conselhos, e para
me preservar dos perigos, em que o meu estouvamento juvenil me poderia
fazer cair. Com este admiravel pretexto, houve por bem arvorar-se em
censora constante das minhas acções.
Se eu por acaso mostrava uma ou outra vez o meu enfado, então
lançava-me um olhar ferino, e dizia, adoçando o som de voz tanto
quanto aguçava os raios das pupillas: «Ai! infelizmente, ninguem gosta
de ouvir as verdades,» como se n’aquella mente acanhada e cheia de
pequeninos sentimentos se abrigasse a resposta ao eterno problema, que
a esphinge dos seculos tem proposto á humanidade, e cuja resolução só
Pilatos ouviu da bôca de Jesus.
Então passava eu a estar na berlinda, perseguida pela voz melliflua,
e pelos epigrammas embotados de D. Antonia. Á mesa do jantar, onde
todos tres nos reuniamos, choviam sobre mim as allusões ás senhoras que
preferem o piano ao governo da sua casa, ás senhoras casadas que dançam
nos bailes, quando seus maridos não dançam, á corrupção do seculo,
aos maus costumes que importamos de França, á leitura perniciosa dos
romances, tudo isto precedido do inevitavel «Hoje em dia...» _ultima
ratio_ da sua argumentação. Escuso de dizer que as gerações anteriores
á que presenceou a invasão de Junot sumiam-se para ella nas brumas
legendarias da idade de oiro.
Que havia eu de fazer contra aquella guerra pequenina e intoleravel? A
friesa, que existia entre mim e meu marido, fazia com que o não pudesse
contar como defensor. Bem via que os toscos epigrammas de D. Antonia o
incommodavam tambem, e o irritavam; mas o seu desejo de manter a paz
domestica, a obediencia tradicional que votara a sua tia, obrigavam-no
a conservar-se silencioso em presença da audaz iniciativa da minha
adversaria.
Demais, eu achava tão mesquinha, tão indigna de mim esta guerra
de palavras, esta escaramuça miseravel, estava tão fóra dos meus
habitos este pelejar quotidiano, que nem sabia, nem podia, nem queria
defender-me. Calada, immovel, fitando olhos espantados, ora em D.
Antonia, ora em meu marido, uma só coisa me fazia scismar, era haver
gente que se occupasse em tão miseraveis coisas, que expuzesse
theorias tão insipidamente banaes, e o ser eu escolhida para victima
expiatoria de crimes que nem sequer chegava a perceber.
Contra estas amarguras da vida real não me prevenira eu. Julgava-me
invulneravel, e, como o Achilles da _Iliada_, tinha o calcanhar
accessivel a tiros tão rasteiros! Esta queda espantava-me mais do que
outra qualquer. Previra todas as desillusões, todas as torturas da
realidade, vinha prompta para luctar com as serpentes do odio, com as
viboras da calumnia, e por fim de contas succumbia ferida pelo ferrão
d’essa formiga negra e imperceptivel, que se chama mexirico!
Todas as consolações me faltavam. As minhas andorinhas tinham fugido
para não mais voltarem! Se eu não as podia chamar, atordoada, como
sempre estava, pelas recriminações disfarçadas, pelos epigrammas
adocicados, pelos discursos sem fim da minha implacavel inimiga! Se
lhe não respondia, ia queixar-se brandamente a meu marido, dizendo
que a desprezava do alto do meu orgulho, e insinuando arteiramente
que preferia a conversação dos homens. Se lhe respondia irritada e
fatigada, vinham os espasmos e os ataques nervosos. Se me refugiava
no meu quarto sósinha com o meu piano, ahi vinha ella, allegando que
gostava muito de musica, e perguntando se os seus ouvidos eram indignos
de me escutarem. Então a minha occupação predilecta transformava-se em
tortura insupportavel. Esmagava freneticamente as teclas, as minhas
boas e antigas amigas, todas espantadas do inesperado tratamento.
Se ás doces horas do crepusculo ia sósinha sentar-me junto da minha
janella, e contemplar o melancolico horisonte dos campos, para me
engolphar no mundo da phantasia, tinha-a a meu lado d’ahi a instantes,
dizendo, que tambem ella possuia um genio muito triste, e que, no
tempo em que tivera um namoro, gostava muito de estar áquellas horas
a pensar n’elle. Depois accrescentava invariavelmente que julgava que
as senhoras casadas eram inacessiveis a essas tristezas e que junto
de seu marido é que deviam estar, em vez de se entregarem sósinhas a
pensamentos talvez perigosos.
Aquella mulher tinha um genio de inquisidor.
Se acreditasse na metempsychose, diria que o espirito de Torquemada
fôra, atravessando os seculos, aninhar-se finalmente no coração de D.
Antonia da Cunha.
Ah! e quando uma solteirona, de quarenta para cincoenta annos, vinha
visital-a, e trazer-lhe o auxilio da sua indole mordaz, e da sua
hypocrisia beata, então é que se entoava um _duetto_, que desbancava
a aria de D. Basilio. Como se entendiam bem a meias palavras! Que
plangentes queixumes não soltava D. Antonia, indicando-me com o olhar
á sua boa amiga D. Simôa dos Anjos, emquanto ambas trabalhavam n’um
enxoval para creanças pobres, trabalho santo, que fôra apregoado em
todos os tons na freguezia e nas parochias visinhas! Que olhares de
compaixão, com que a outra lhe respondia! Que theorias de implacavel
austeridade! Que lamentações! Que moções d’ordem d’uma, acolhidas pelos
apoiados da outra! E quando passavam das generalidades á especialidade,
ah! como as agulhas cosiam e as linguas descosiam! Com que delicioso
tempero de reputações esfaqueadas se apimentava a obra caritativa do
enxoval! Que signaes de piedosa compuncção! Que devotos sarcasmos
se não cuspiam sobre as peccadoras, fulminadas por aquelle augusto
areopago! E a que horrenda verrina me não expunha, quando, cançada,
enojada de tão peçonhenta hypocrisia, exprimia a indignação que já não
podia conter.
--Quem defende gente assim, expõe-se ás mesmas accusações, dizia uma
das Lucrecias, principiando com a mão direita, sem a esquerda o saber,
uma costura caridosa.
--Ah! tornava a outra debruando os coeiros da sua beneficencia, essas
é que são felizes! Os homens não querem outra coisa, e, para vergonha
nossa, até no nosso sexo acham advogadas!
Eu levantava-me com impeto e saía; mas aquellas duas vozes resoavam
sempre ao meu ouvido, e não deixavam que eu tomasse gosto em nenhuma
das minhas outr’ora tão queridas occupações.
V
Assim passei a primavera, o estio e o outono do meu primeiro anno de
casada. Claudio envolvera-se na politica, mais para se distrair do
seu _spleen_ incuravel, do que por gosto ou ambição. Principiara eu a
perceber que a frieza apparente de meu marido provinha de uma educação
acanhada, como o espirito de sua tia, que lhe infligia o respeito das
leis d’aquelle mundo mesquinho, em que ella tanto folgava de viver, e
dos constantes obstaculos, que se tinham opposto ao desenvolvimento
livre e desaffogado do seu espirito. Mostrava-se affectuoso para
comigo, mas affectuoso sem expansão. Aquella mulher interpunha-se
constantemente a nós ambos. Se uma ou outra vez, n’algum dia em que
o sol da primavera despertava dentro em mim os passarinhos mudos, e
aviventava as flôres desbotadas da minha phantasia tentava desabafar
e elevar-me ás regiões serenas, onde desejara viver; se Claudio,
arrastado pelo contagio do meu enthusiasmo, principiava a entrar nas
minhas idéas, vinha logo sua tia, soltando altos gritos, e dizendo
que essas farofias de romance e de musica é que perdiam metade da
humanidade feminina. Claudio retraia-se, e eu ficava de novo sósinha
e desarmada em face d’aquelle demonio do lar, que empolgava o hyssope
furtado n’alguma igreja, e me aspergia de agua benta para me livrar da
influencia diabolica da arte, e dos artistas.
Chegou o inverno, o inverno, outr’ora para mim a estação querida
dos bailes, de que tambem agora me via privada. Pois como podia eu
apparecer nas salas com aquelle _chaperon_ sempre a meu lado, que me
expunha ás vezes a scenas desagradaveis com as suas phrases acres,
cuja insolencia a muito custo se disfarçava? Depois, as scenas que
se passavam na volta para casa! As insinuações sobre a corrupção dos
homens que procuram de preferencia as senhoras casadas, e sobre a
corrupção das senhoras casadas, que acceitam os rendimentos d’esses
monstros de luvas brancas, e que levam a impudencia a ponto de polkarem
e de valsarem com homens, que visivelmente as preferem ás tias de
quarenta annos!
Estas insinuações calavam mais ou menos no animo de meu marido, e,
apezar de elle se retirar sempre que principiavam os discursos de D.
Antonia, via-se pela inquietação, que mostrava, que o veneno produzia o
seu effeito.
Cançada já, abatida por esta lucta ingloria, resolvi encerrar-me em
casa, e abandonar completamente a sociedade. Novos gritos! novas
reclamações! Claramente se via que o meu desejo era prival-a de todos
os divertimentos, etc.; mas resisti intrepidamente, e, apezar dos
clamores, mantive a minha resolução.
Uma vez tinhamos nós acabado de jantar quasi ao anoitecer. Comtudo, não
se haviam ainda accendido as luzes. O ceu estava nebuloso, e uma chuva
fina começava a bater nas vidraças. Meu marido ficara á mesa tomando
café, D. Antonia baloiçava-se na cadeira, ruminando algum dito azedo.
Eu fôra-me sentar junto da janella, e contemplava os arabescos que a
chuva desenhava nos vidros com as gotinhas que deslisavam lentamente ao
longo da limpida superficie. Embuçara-me n’uma capa, e toda conchegada
no meu cantinho, saboreava aquelle momento de socego, tão raro na minha
vida mesquinhamente agitada.
Os arabescos da chuva despertavam em mim a um tempo deliciosos e
tristes pensamentos, lembravam-me os sonhos, que eu phantasiaria
um anno antes com essas singelas perolas do pranto das nuvens, e
lastimava com amargura o desprezo que votara á realidade, que se
vingava cruelmente de mim. Percebi então que não bastam os sonhos
para constituirem a ventura, e que o espirito, que se alimenta só com
esses devaneios, acha-se sem forças para combater os mais despreziveis
inimigos. Isolara-me no meu orgulho, e via agora quanto precisava ter
um coração que pulsasse junto com o meu, e quão robusta me sentira, se
o amor me envolvesse na sua tunica luminosa! O amor!
E, não sei porque, duas lagrimas desprenderam-se-me dos olhos, e
deslisaram-me vagarosamente pelas faces.
N’este momento tocaram a campainha com força. Olhámos uns para os
outros, como que perguntando quem se affoitaria a affrontar a chuva,
que principiava a cair em torrentes, para vir fazer-nos uma visita.
N’isto abriu-se a porta e appareceu no limiar um vulto de homem.
--Claudio! _amice!_ onde estás tu? Vem dar-me um abraço... metaphorico,
porque, se t’o dou na realidade, encharco-te.
--Alberto! exclamou meu marido levantando-se e correndo para elle de
braços abertos.
--Sim, eu mesmo, meu velho condiscipulo. Desembarquei hoje. Saí de
Napoles n’um dia de chuva, que ameaçava muito sériamente apagar o
Vesuvio. Não quiz assistir a tamanho desastre, e fugi. A unidade
italiana está matando o _lazzarone_, a chuva mais dia menos dia dá cabo
do Vesuvio, e uma companhia de accionistas inglezes improvisa um vulcão
artificial, com meia duzia de chaminés de Birmingham, transportadas
a bordo de um _steamer_. Fiz a viagem sem apanhar chuva; chego ao
Terreiro do Paço, zás, uma pancada d’agua a ensopar-nos a mim e ás
venerandas bochechas do marquez de Pombal, que se sorria ironicamente
com ar de quem dizia: «Não me quizeram acreditar!» No tempo do grande
marquez não chovia, meu amigo.
--Alberto, deixa-me...
--Não chovia não, digo-t’o eu. Quem inventou a chuva foram os inglezes,
só para darem extracção ás galochas de borracha, e aos casacos de
Mackintosh. Ah! o marquez de Pombal bem o sabia, por isso elle nos fez
guerra. Pois que cuidas tu! Sebastião José de Carvalho e Mello foi o
defensor da serenidade metereologica do paiz das larangeiras, e da
inviolabilidade do nosso ceu azul. Curva-te perante o grande homem,
Claudio!
--Consente, Alberto, que...
--Foram os inglezes, repito. Em Napoles era desconhecida a chuva, antes
de lord Nelson entrar n’aquella maravilhosa bahia. A chuva portugueza
devemol-a ao Beresford...
N’este momento entrou um criado com luz.
Alberto interrompeu-se ao divisar-nos a mim e a D. Antonia.
--Oh!... senhoras... e tu não me dizias coisa alguma, e deixavas-me
palrar como um idiota que sou...
--Mas, meu amigo, tornou Claudio rindo, desde que entraste ainda não
fiz senão querer-te apresentar minha mulher, e tu a fallares em Nelson
e no marquez de Pombal... Margarida, continuou elle, dirigindo-se a
mim, tenho a honra de te apresentar o meu bom amigo Alberto Mascarenhas
Corte-Real, que chega, como acabas de ouvir, de uma viagem da Italia.
--É uma dupla recommendação valiosa, disse eu sorrindo e
comprimentando-o amavelmente; amigo de meu marido e viajante
recemchegado da terra dos prodigios, como não ha de ser recebido
cordial e curiosamente?
Alberto balbuciou algumas palavras, que eu não percebi, mostrando-se
visivelmente enleiado, talvez por causa da sua palradora entrada, e
voltando-se logo para D. Antonia, apertou-lhe a mão, dizendo-lhe:
--Ah! é, v. ex.ª! Desculpe, minha senhora, o não a ter reconhecido. Mas
ha de confessar que na escuridão era difficil...
--Ora, das _velhas_ nunca os senhores fazem caso.
--Ah! tornou Alberto rindo, já pediu a sua reforma? Pois olhe,
parece-me que a neve, que lhe vejo alvejar nos cabellos, é a neve
perfumada da laranjeira. Vamos, seja sincera. Quando é o casamento?
--Nunca! Se eu chegava a esta idade sem me casar, para commetter agora
uma loucura d’essas. Os homens...
--São uns monstros, bem sei. Ainda se não emendaram? E eu que fui á
Italia de proposito para pedir ao Papa a canonisação em massa de todo o
sexo masculino! Mas, segundo vejo, os maganões são incorrigiveis.
--Olhe, sr. Corte-Real, hoje em dia bem tolo é quem se casa. Os homens
são estouvados, e as senhoras seguem-lhe o exemplo. É moda que veiu
agora de França.
--Veiu? Ah! e eu que me esqueci de ver os figurinos!
--Vamos para a sala, Alberto, interrompeu meu marido, que via a
conversação tomar o caminho costumado. Lá podes-te enxugar melhor.
Levantámo-nos e fomos para a sala.
Estava o fogão acceso, e o lume derramava no aposento um suave calor. O
guarda luz do candieiro, concentrando o fulgor todo na mesa, á roda da
qual nos sentámos, deixava ficar na penumbra o resto do quarto. A chuva
batia nas vidraças, e o vento zunia com violencia, engolphando-se pelo
tubo do fogão.
--Ah! disse Alberto, sentando-se n’uma cadeira á Voltaire, venham-me
agora fallar nos prazeres das viagens! Não conheço nada melhor do que
esta deliciosa sensação, que se apodera de nós, n’uma noite bem fria e
bem invernal, ao sentarmo-nos n’uma cadeira macia, junto do bom fogo,
entre duas ou tres pessoas que nos estimem, sentindo o vento sibilar, e
a chuva bater nos vidros. E pensar-se que a estas horas anda um barco
ao longe, no alto mar, affrontando a tempestade, que lhe descose as
pranchas, e lhe açoita a vela, em quanto o pescador, vendo as ondas
embravecidas a rugirem morte por todos os lados, vae scismando como
Victor Hugo,
_Au vieux anneau de fer du quai plein de soleil!_
--Safa, que egoista! exclamou Claudio.
--Egoista sim. Meu amigo, não ha prazer algum n’este mundo, em que não
entrem tres quartas partes de egoismo. É um prazer egoista? Bem sei:
já Lucrecio o disse antes de ti n’uns versos que não cito por duas
razões: a primeira porque são em latim...
--E a segunda? perguntei eu.
--Porque nunca li Lucrecio, minha senhora.
Desatei a rir.
--Mas, então, continuei, como é possivel que viajasse tanto, detestando
por essa fórma as viagens?
--Detestar as viagens! eu, minha senhora! pelo contrario, adoro-as!
--Mas, parece-me...
--Perdão. Entendâmo-nos, minha senhora; este prazer, que eu estou
sentindo agora, tambem ás viagens o devo. É o contraste que lhe dá
este sabor tão agradavel e picante. Hontem, sósinho no convez do
paquete, via a solidão immensa dos mares, ouvia os melancholicos
lamentos das ondas, contemplava o ceu toldado, que se desenrolava sobre
a minha cabeça como plumbeo manto; hoje aperto a mão a um amigo de
infancia, tenho a ventura de estar conversando com senhoras amaveis e
espirituosas, sinto-me envolvido por uma atmosphera tepida, perfumada
das fragrancias da terra natal, e, recostando-me voluptuosamente
n’esta cadeira, vendo ali chispar um fogo delicioso na moldura do
fogão, mirando as figuras do guarda-luz do seu candieiro, esfrego as
mãos, como um egoista, e digo: «Como deve estar o mar a estas horas?»
Baloiço-me aqui indolentemente, e continuo: «Como os navios dançam
fóra da barra ao som d’essa valsa tocada pela orchestra das vagas, e
composta por esse Strauss maravilhoso, que se chama Deus!» Este prazer
sou aqui eu só quem o saboreia; digam-me lá se sentem o mesmo que sente
o viajante recem-chegado?
--Não, acudiu meu marido, mas sinto eu, pelo menos, o prazer tambem
delicioso de tornar a ver um amigo ha dois annos ausente.
--Meu bom Claudio! respondeu Alberto, pegando na mão de meu marido, e
apertando-lh’a com affecto. Mas, continuou, ainda ha outro prazer, que
eu não mencionava, e que não deixa de ser, comtudo, digno de citar-se.
--Qual é? perguntou Claudio.
--O de dizer mal das viagens! Fallar a gente a um amigo sedentario,
que nos tem inveja, e exclamar: «Oh! tu não comprehendes o quanto és
feliz! Não ha tortura maior do que a do Ashaverus da lenda! Percorrer
o mundo, só, vendo-se isolado no meio de uma sociedade differente da
nossa, passando por terras, onde ninguem nos espera, onde não deixamos
nem sequer uma saudade; e a mão da fatalidade a impellir-nos sempre, e
a voz do destino a dizer-nos: «Caminha». E assim atravessamos o mundo,
andorinhas sem ninho, poisando ora no cume inflammado do Vesuvio, ora
na austera cupula de S. Pedro, ora na torre pendida de Pisa, ora na
bronzea juba dos leões de Veneza! Ah! bem louco é quem deixa os lares
para procurar estas commoções de um instante, pagas por amarguras
infinitas.» E o amigo comtempla com certo respeito o homem que falla
com tanto despreso n’essas maravilhas, cujo magico panorama lhe povôa
os sonhos, lhe perturba a existencia. Oh! dizer mal das viagens, depois
de ter viajado muito, não ha prazer que se lhe compare, não acha, sr.ª
D. Antonia?
--O que?
--Dizer mal... que é um grande prazer.
--Não se diz mal senão d’aquillo que merece as nossas censuras, por
exemplo...
--Immensas coisas... Não me falle n’isso! O mundo vae cada vez peior.
O Anti-Christo não tarda. É pelo menos esse o parecer da sua caridosa
amiga, D. Simôa dos Anjos. É verdade, como está ella?
--Olhe! essa é que se póde dizer uma santa.
--Pois não! Santa Bazilia! é uma das santas mais veneradas pela igreja
contemporanea.
--Bazilia!...
--Sim, mulher de D. Bazilio.
--Qual D. Bazilio?
--Ora, qual D. Bazilio! um santo velhote, que floresceu alli pelos fins
do seculo passado, filho de um sujeito chamado Beaumarchais, e adoptado
depois por outro chamado Rossini!
--Mas então esse homem, se vive, deve estar decrepito.
--Como se engana, minha senhora! Está cada vez mais novo! Descobriu a
agua de Juvencio.
--Alberto! interrompeu Claudio n’um tom meio offendido.
Seguiu-se um instante de silencio. Eu sorria-me imperceptivelmente,
e saboreava, devo confessal-o, o prazer da vingança. Claudio estava
sombrio. Alberto fitára em mim os olhos por um instante, e caira depois
n’um melancholico scismar. D. Antonia percebera finalmente que tinha
sido _mystificada_, perdoem o gallicismo, e mordia os labios de raivosa.
--Não nos contas algum incidente das tuas viagens? perguntou meu
marido, para dizer alguma coisa.
--Que queres que te conte? respondeu Alberto, sacudindo a melancholia
que o envolvera. Imaginas por acaso que ainda existe o pittoresco?
Morreu, morreu de todo! Mataram-no os caminhos de ferro, e os inglezes
principalmente. Os _lazzaroni_ andam de chapeu alto, e o Vesuvio mais
dia menos dia arvora um guarda-chuva. Não se dá um passo em Pompeia,
que se não encontre um inglez passeando no vestibulo da casa de
Demetrio, ou entrando familiarmente no tribunal do edil Pansa. Queres
que te descreva uma Italia prosaica e semsabor, o Colyseu povoado de
casacas pretas, e no castello de Santo Angelo um capitão de zuavos
no sitio onde Benvenuto Cellini apontou, com a mão que fazia brotar
prodigios, a espingarda que dizimava as fileiras hespanholas?
--Oh! acudi com certa exaltação, não seria eu quem desanimaria tão
facilmente! Nem os zuavos, nem os inglezes conseguiriam despoetisar a
minha Italia, o meu Lacio formoso, a minha Campania feliz. Derribaram
as pedras, sumiram o Mediterraneo, impuzeram silencio ás brisas,
desfloriram as larangeiras? Não! Pois bem; a minha phantasia se
encarregava de povoar essas ruinas solitarias, de evocar as gerações
extinctas, de traduzir a linguagem melodiosa da viração! Eu, se fosse
á Italia, havia de vel-a com os olhos d’alma, ainda mais do que com os
do corpo! Que me importava a prosa moderna, se me fosse dado passear
nas ruas de Pompeia? A mão dos homens levantou a mortalha em que o
Vesuvio a envolvera, a minha phantasia levantaria a mortalha com que a
cingiram os seculos! Doire o sol ainda o marmore branco dos palacios
de Genova, e a sua luz ha de illuminar para mim o mundo risonho da
cidade dos doges, ouvirei as musicas suaves que se espraiavam outr’ora
por sobre as ondas azues do Mediterraneo, a quem ensinavam essa
dulcissima melodia que ainda hoje enleva os ouvidos do viajante! Não a
olvidaram de certo os eccos da _strada Balbi_. Levem-me á Italia, e eu
atravessarei a peninsula sem ver nem zuavos, nem inglezes, percorrerei
á vontade ou a Italia pagã ou a Italia da Renascença, verei Raphael
pintando o maravilhoso retrato da sua Fornarina, debruçar-me-hei sobre
o hombro de Guido, quando o seu pincel esplendido fizer brotar da tela
as feições encantadoras da desgraçada Beatriz. A Italia tem habitantes?
Não sei, nem quero sabel-o; tem cardeaes, tem _bersaglieri_? não sei,
não sei. Sei apenas que tem os quadros de Raphael, as estatuas de
Miguel Angelo, as portas de Ghiberti, e os claustros de Bramante. Quero
engolphar-me n’esse pélago de maravilhas, quero percorrer esse mundo
mysterioso, encerrar-me n’essa Pompeia gigante, e depois quando voltar
á superficie do mundo actual, vire, pallida, mas trazendo na fronte,
não, como o mergulhador de Schiller, a sombra triste projectada pelos
invisiveis horrores do oceano, mas um reflexo d’esse immenso fulgor,
que ha de emanar das perolas e dos diamantes d’essa Golconda da arte!
--Oh! tem mil vezes razão, tornou Alberto levantando-se com enthusiasmo,
cuida que não senti isso mesmo? Cuida que não tive muita vez essas
visões do passado? Por baixo do palimpsesto banal das modernas idades
sentia eu pullularem as letras de fogo do poema da velha Italia! Á
noite, principalmente, quando se extinguem os vãos ruidos mundanos, e a
meiga fada vem mais uma vez cingir a sua Italia querida, a voluptuosa
Aphrodita dos dois mares, na sua tunica bordada de estrellas, e
perfumada de ignotas fragrancias, então é que se escutam essas vozes
mysteriosas, que não são mais do que a vaga conversação das grandiosas
gerações, que desappareceram umas após outras da face d’aquella terra
abençoada! A mythologia antiga suppunha que eram os titães soterrados
quem abalava as montanhas ao revirarem-se no seu leito de chammas. Não
se enganava; prophetisava! Por baixo d’aquelle solo sagrado arquejam
as gerações de gigantes, que povoaram o velho Lacio dos Cesares e a
Roma dos Raphaeis! Á noite erguem-se todos esses brancos phantasmas
e passam, agitando as azas, na atmosphera transparente. Oh! quantas
vezes não tive eu d’essas visões extaticas, em Roma! Quantas vezes,
passeando, embarcado, por uma noite de luar, na suave bahia de Napoles,
não vi como que em sonhos perpassarem as galeras romanas, todas
illuminadas e deixando apoz si um sulco a um tempo fulgido e melodioso,
como se a ardentia se houvesse transformado em musica! E quando os meus
barqueiros deixavam cair indolentemente os remos na agua, que lhes
respondia com um vago suspiro harmonioso, como uma nota de Cimarosa
ou de Bellini, em quanto as estrellas deviam fulgir n’essas noites
delirantes das saturnaes em quanto a lua illuminava ao longe as casas
brancas de Ischia, de Procida, ou de Capri, eu sentia passar nos meus
cabellos a lasciva brisa de Baia, e via surgirem no horisonte esses
vultos candidos de mulheres, cujos nomes passaram atravez dos seculos
envoltos na purpura, que lhes atirou a realeza do genio, a Lesbia
de Catullo, a Cynthia de Propercio, a Corinna de Ovidio, a Lydia de
Horacio e a Delia de Tibullo.
Alberto calou-se por um instante, e depois continuou:
--Outra vez estava eu em Veneza; a minha gondola sulcava
silenciosamente o grande canal. A antiga cidade dos doges parecia
uma cidade morta, e a lua a lampada immensa, suspensa sobre esse
maravilhoso tumulo; nem um murmurio se exhalava do seio da formosa
captiva, apenas de vez em quando o sino da igreja de S. Marcos
soltava lugubremente a voz, como que para entoar o epicedio da
grandeza da republica; mas logo os brados gutturaes das sentinellas
austriacas vinham como que protestar contra o timido queixume do anjo
do campanario. As ondas do Adriatico gemiam brandamente, espantadas
de ouvirem aquella voz allemã quebrar o silencio da natureza
italiana. A pouco e pouco tinha cahido n’uma profunda melancholia,
e comparava involuntariamente a decadencia nobre de Veneza com o
misero esphacelamento da minha patria. Veneza é um gigante, que
desceu ao tumulo, envolto na sua armadura de marmore, e perante
aquella maravilhosa campa descobre-se o mundo com respeito: Portugal,
tambem gigante, mais gigante ainda, arrojou-se á valla commum, e as
nações desviam os olhos com tedio d’esse cadaver putrefacto, coberto
de vermes que o devoram. Subito, d’um d’esses palacios, que miram
nas aguas do canal as suas marmoreas escadarias, jorrou em ondas de
melodia a deliciosa serenata do _Marino Faliero_ de Donizetti. Como por
mysteriosa evocação, tudo se illuminou a meus olhos. Illuminaram-se
os palacios, povoaram-se os canaes de gondolas cheias de mascaras; os
fogos de Bengala tingiram de azul e côr de rosa as fachadas de marmore
branco. Avultou-me ao longe o _Bucentauro_, com o seu magestoso cortejo
de galeotas. Povoaram-se-me os caes de fidalgos venezianos, em cujo
trajar doirado e bordado scintillava a luz projectada pelos fachos.
Desappareceram os austriacos, e a Veneza antiga, a Veneza de Ticiano, a
Veneza do carnaval, surgiu-me de novo das ondas, como a borboleta da
chrysalida, como a Venus da espuma!
--O que! ouviu em Veneza a serenata do _Marino Faliero_? acudi eu com
jubilo infantil.
E, correndo ao piano, fiz brotar das teclas a maviosa melodia.
Havia muito que as teclas me não respondiam tão suavemente. Aquella
doce musica, que suspira brandamente como a brisa nos roseiraes, vago
preludio do rouxinol, harmonia d’anjo, que parece expandir-se do carro
argenteo de Phebe ao rolar no firmamento azul, exhalou-se do teclado,
como um perfume do calice d’uma flor. Enlevada n’esse encantamento que
os meus dedos operavam, transportei-me brandamente ao seio d’uma noite
luminosa como essa em que fallava a letra da canção. Vi-me em Veneza,
reclinada n’uma gondola, cortando as aguas do canal. Involuntariamente
os meus dedos foram affrouxando, até que mal já pesavam nas teclas. O
canto quasi não se ouvia, e parecia apenas um suave murmurio, como o de
harpa eolia suspensa nas franças de pinheiral distante.
Afinal a harmonia esmoreceu, e esvaiu-se de todo debaixo dos meus
dedos; deixei descair os braços no collo, e fiquei engolfada no meu
scismar. A chuva batia com mais furia nas vidraças, e o vento soprava
rijo, fazendo gemer os postigos.
Mas eu não ouvia nem vento nem chuva. Esvaíra-se havia muito o ultimo
suspiro da tecla abandonada, e eu escutava ainda o prolongamento
d’essa nota melodiosa, como se ella se repercutisse n’uma atmosphera
de crystal. Por deante dos olhos passava-me lentamente, como em magico
panorama, a luminosa visão das cidades italianas: Veneza com as suas
gondolas, Genova com os seus palacios, Florença com as suas galerias,
Roma com as suas ruinas, Napoles com o seu golpho! E n’essa atmosphera
encantada, n’esse mar limpido e voluptuoso fluctuavam as minhas
andorinhas, vogavam os meus cysnes, doces devaneios que tinham fugido
havia muito com a aza branca magoada!
Quando levantei a cabeça, estavam todos á roda de mim, D. Antonia
com um sorriso ironico, Claudio triste e inquieto, Alberto como que
entregue a um delicioso extasi.
--Oh! mais! mais! disse elle pondo as mãos com ar supplicante; mais
alguns minutos d’esse goso infindo! Que mysteriosa intuição de artista
lhe revelou Veneza? É esse o bater da agua nos degraus das escadarias!
são esses os murmurios que fluctuam n’aquella atmosphera abrazadora!
são essas as melodias que deviam resoar n’essas noites ferventes, em
que o mundo inteiro, saindo das brumas da idade-media, não fazia senão
balbuciar, pela voz dos seus poetas, pelos marmoreos labios das suas
estatuas, a palavra «amor» que ia esculpir até nos rendilhados portaes,
nos voluptuosos columnelos dos templos da Divindade! amor sensual,
pagão, lascivo, se quizerem; mas amor immenso e vivificante como o que
os raios do sol entornam no seio da gleba italiana, como as ondas do
Mediterraneo descantam ás plagas sonoras da Ausonia e da Grecia!
--Ah! tambem sente o mesmo? tornei eu infantilmente, acha tambem que a
musica tem o magico dom de evocar um mundo desconhecido?
--Se tem! A musica abre-nos de par em par as portas do ideal! S. Pedro
foi destronisado. Os porteiros do céo são Bellini e Donizetti; a
_Lucia_ e a _Norma_ são as duas chaves do Paraizo.
--E Meyerbeer? perguntei eu, rindo.
--Oh! esse é o porteiro do inferno.
Ia protestar, mas elle interrompeu-me, e continuou:
--Descance, de um inferno onde o ranger dos dentes é harmonioso, e onde
os humanos, criminosos durante a vida terrestre, são condemnados a
darem eternamente o _dó_ do peito. Pois onde queria que eu collocasse
o author do _Roberto do Diabo_? No céo de certo que não. Meyerbeer é
o Satanaz da melodia, é o anjo caido; mas o anjo caido de Milton, e
não o diabo das lendas. Aquelle homem abre-nos um mundo mysterioso e
terrivel, d’onde refugimos com terror, mas para onde nos attrae depois
uma indisivel voluptuosidade. Toda a musica do _Roberto_ é a pavorosa
traducção em notas da apostrophe de Satanaz ao sol no poema do Homero
britannico. Mas d’esse cahos de harmonias tremendas brota ás vezes um
canto d’uma doçura infinita, como o do papel d’Alice, por exemplo.
São as recordações da patria celestial, são as tristezas do Archanjo
soberbo no meio do seu tenebroso exilio. E as notas isoladas da
abertura do _Propheta_! Que vaga melancholia, que tristeza sobrehumana!
Saudade tão profunda só a podem inspirar os campos das eternas
delicias, o Elysio resplandecente, a habitação dos anjos!
N’este momento entrava o creado com a bandeja do chá. Fomos para a
mesa, e a conversação prolongou-se até á uma hora da manhã. A chuva
cessara, e a noite puzera-se fria mas serena. Alberto despediu-se, e
saiu.