Confessemos que seria difficil a descripção da nossa vida nos tres
ou quatro mezes que precederam o meu casamento com Claudio da Cunha.
Póde excitar interesse a mulher, que nem caminha para o altar como
victima sacrificada, nem como noiva feliz de ver coroados pelo hymeneu
os votos formados pelo amor para adoptar a linguagem dos venturosos
tempos da Arcadia? Póde chamar a attenção um noivo cortez, vestido
irreprehensivelmente, frio, grave, que vem apresentar-me os seus
cumprimentos sempre á mesma hora sem differença de um minuto, que me
ouve tocar piano, mostrando-se attento quanto baste para satisfazer as
conveniencias, que me applaude depois com as suas mãos enluvadas, de
modo que não faça estalar nem uma costura das luvas preciosas, que em
seguida elogia a minha habilidade e a perfeição do meu methodo, que
tudo isto repete todos os dias, sem alteração de uma syllaba, de um
gesto, de um segundo?
Comtudo eu não tinha razão de queixa. Claudio era o marido, que
convinha a quem executava fria e indifferentemente um dever, contraindo
os laços do matrimonio. Galanteador, incommodar-me-hia de certo: menos
delicado e exacto, offenderia não a mim, que não repararia em tal, mas
a meus paes.
D’este modo tudo caminhava ás mil maravilhas. O papá extasiava-se
perante o comedimento, e as maneiras polidas de Claudio; a mamã folgava
de ver o escrupuloso aceio e esmero do seu trajar, o cuidado que tomava
sempre em evitar uma nodoa que lhe maculasse o lustre irreprehensivel
da casaca e do chapeu; eu dava-me perfeitamente com o seu, raras vezes
interrompido, silencio, porque me deixava divagar á vontade e escutar
desafogadamente o chilrear das «minhas andorinhas».
Chegou emfim o dia do casamento. Foi esse para mim um dia de verdadeiro
jubilo, e de extasi sem igual. Porque? perguntam-me. Transformou-se o
caracter de Claudio, e algum vulcão, fervendo longo espaço de tempo
por baixo dos gelos exteriores, irrompeu e incendiou tambem com as
subitas chammas esse coração tão despresador da vida real, e que se
dizia d’amianto para as prosaicas labaredas do mundo terreno? Folgou
por acaso de se ver senhora, e de se transformar a doce grinalda da
virgindade no diadema de rainha, esplendido mas pungente, que cinge
a fronte das esposas? Não, nada de tudo isso. O motivo do meu jubilo
era apenas o poder cingir o meu veu branco, e a corôa de flores de
larangeira, emblemas nupciaes.
Oh! como eu contemplei mil vezes ao espelho os graciosos adornos, que
tanto me enlevavam, como deixei cair em torno de mim as graciosas
pregas do meu veu de gase! Como me revi na grinalda de brancas flôres,
que me poisava elegantemente na cabeça, dando um vivo realce aos meus
cabellos castanhos claros! Como olvidei, sósinha, no meu toucador, o
mundo presente, a realidade semsabor, os padrinhos de casaca preta,
os parabens dos convidados, a cerimonia nupcial! Não era Margarida
da Silveira que alli estava mirando-se vaidosamente n’um espelho de
moldura doirada; era a fada Margarita contemplando a sua imagem no
cristal da sua fonte! Rompia a manhã, a fresca manhã de S. João; as
pobres alcachofras queimadas esperavam que o bento orvalho reverdecesse
a corolla crestada, as bilhas d’agua esperavam o encantamento, os ovos
suspensos nos copos esperavam a metamorphose.
A brisa matinal fluctuava em torno a mim, infunando-me ao de leve
as prégas do meu veu. A luz nascente mal fazia desabrochar rosas
desmaiadas no horisonte.
Eu erguia-me e o meu debil pésinho, ainda mais leve do que na valsa,
corria sobre a relva sem a fazer vergar sequer! o meu passo mysterioso
fazia brotar rosas e lyrios no seu tapete de veludo! Agitava na mão a
varinha branca, a varinha das feiticeiras! Tocava na triste alcachofra
carbonisada, e, por entre o negrume das suas pobres folhinhas, renascia
a rôxa pétala que ía encher de contentamento um coração virginal!
Soprava nos fios tenues do ovo suspenso n’agua, e os fios, como se os
tecesse mão mysteriosa, bordavam por si mesmos um matiz delicioso! «Oh!
fada Margarita! dizia eu para o meu espelho, como és linda e como és
boa!»
Depois, não era já a fada, mas sim a muito alta e muito poderosa
senhora D. Margarida, filha do castellão, rico-homem de pendão e
caldeira, senhor de baraço e cutello! Caminhava a furto para a
entrevista aprazada! o coração arfava-me deliciosamente! Eis-me chegada
emfim junto da cruz da ermida, onde me espera o gentil cavalleiro, que
vae para a Palestina! Os loiros cabellos fluctuam-lhe sobre a couraça
brunida; poisa-lhe ao lado o elmo, com as plumas azues ondeantes a
capricho da viração! Troca-se um adeus sentido, derramam-se lagrimas,
fazem-se promessas de amor eterno! Então, desprendo o veu branco, e
dou-lh’o como penhor do meu affecto! Será a protectora charpa do meu
noivo, o talisman que o ha de resguardar dos alfanges dos infieis! Elle
beija mil vezes o candido veu, monta o corcel, que o espera impaciente,
e parte. Sigo-o com os olhos arrasados d’agua até o perder de vista,
e...
E abre-se a porta e apparece meu pae de luva branca, bota de polimento,
e casaca preta, e atraz d’elle, mas timidamente, como quem receia ser
indiscreto, Claudio da Cunha, de casaca preta, bota de polimento, e
luva branca!
Adeus! Adeus! Andorinhas gentis!
Como sempre, baixei, sem protestar, ás regiões da realidade. Acolhi
com um beijo meu pae, com um sorriso o meu noivo, que me pedia mil
desculpas, por ter ousado chegar á porta do meu santuario, mas que fôra
arrastado pelo seu querido sogro, etc.; e, depois de ter acceitado e
dado todas as desculpas, desci para me metter na carruagem, que me
devia conduzir á igreja.
D’ahi a duas horas, era eu a legitima esposa de Claudio da Cunha, e
tomava posse da casa de meu marido, situada na Cruz das Almas.
Franqueara estas columnas de Hercules da vida das senhoras, passara do
brando e azul Mediterraneo das solteiras para o verde e tempestuoso
Oceano do matrimonio, e confesso que não sentia o minimo frémito agitar
as brancas velas do baixel do meu destino.
Se eu tencionava sentar-me, como até ahi, na proa da nau, e
indifferente aos furacões que me rugissem em torno, ás vagas irritadas
que fervessem e se empinassem contra mim, fitar os olhos no cantinho do
ceu azul, onde havia de continuar a brilhar, estava d’isso convencida,
a formosa e radiante constellação dos meus devaneios!