II

Esse _Ah_ indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante,

merece e vae ter uma explicação.

Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara

conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario,

demasiado ardor.

Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro,

terras encantadas das _Mil e uma noites_, choréas de brancas fadas,

vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos

de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem

essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que

franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á

imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia:

«Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se

quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez

do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha,

são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna

primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes

acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te

aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que

te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio

inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões?

Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que

te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar

outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração

de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as

tristezas e amarguras da realidade!»

Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que

eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica

e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia

fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no

ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as

azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta

divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde

me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões

poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel

a existencia.

Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para

me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que

não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da

realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do

coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera

que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte

a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no

meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia

banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e

sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal:

atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago

onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo

a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as

enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder

atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e

terra, como o caixão de Mahomet.

Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a

arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo.

A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame»

da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha

imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia

viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me

essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe

do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina

magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos

encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos

despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que

se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich.

Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano.

Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para

receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o

cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da

minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava

adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do

instrumento!

Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu

talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse

apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres

pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas

conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente.

Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil?

Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito,

enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do

mundo do ideal.

Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas

rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica,

ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro

ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile.

Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia

emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas;

via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as

minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo

esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar

para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas

formosas visões.

Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle,

é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real.

O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente

incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens?

Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma

huri da Circassia?

Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido

na minha alma, como altar atheniense, ao _deus desconhecido_. Os

suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra

que os exhalasse.

Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não

se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás

leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas,

outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas,

com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam

mutuamente.

Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava

prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me

esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como

facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido

me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha

mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.

Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava

perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a

noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta

importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta

pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o _Ah_ distrahido com

que eu a acolhera?

A flor secca: romance · 第 24 / 55 题