Esse _Ah_ indifferente, com que eu acolhi uma noticia tão importante,
merece e vae ter uma explicação.
Chegára aos dezoito annos, e ainda não conhecera o amor, nem procurara
conhecel-o. Frieza de organisação? perguntam-me. Pelo contrario,
demasiado ardor.
Imaginem uma creança, cuja phantasia devaneava sempre sonhos de ouro,
terras encantadas das _Mil e uma noites_, choréas de brancas fadas,
vultos ideaes e vaporosos, ignotas melodias, ineffaveis extasis, anjos
de azas candidas, romances impossiveis, poemas maravilhosos. Imaginem
essa creança, educada, rigida, severa, prosaicamente, por um pae, que
franzia o sobr’olho sempre que me via disposta a soltar as rédeas á
imaginação, por uma mãe, que me fazia sentar junto de si, e me dizia:
«Filha, é preciso resignares-te a abandonar essas idéas romanticas, se
quizeres viver tranquilla e feliz. O mundo não é como tu o vês atravez
do prisma da tua infantil imaginação. Os sonhos da phantasia, filha,
são como as andorinhas: só vivem bem entre os effluvios de uma eterna
primavera. A tua idade é a doce primavera da existencia; por ora, podes
acariciar, e reter com roseos laços as andorinhas gentis, que se te
aninharam no coração, todo perfumado de innocencia. Mas é preciso que
te vás costumando a deixal-as partir. Querias entrar com ellas no frio
inverno da sociedade tal como ella é, e não tal como tu a suppões?
Não; bem vês que morreriam geladas, e nem tu sabes o soffrimento que
te causaria então a sua morte. Deixa-as voar, deixa-as ir procurar
outro ninho, tão doce e tão quente como o suave ninho do teu coração
de creança, e tu, filha, prepara-te para affrontares serenamente as
tristezas e amarguras da realidade!»
Estes conselhos, constantemente repetidos, dados por essa voz, que
eu respeitava, produziram em mim um effeito extravagante. Sceptica
e enthusiastica a um tempo, acreditava firmemente que a poesia
fugira do mundo como a Themis do paganismo, e fôra refugiar-se no
ceu, aonde os meus sonhos a iam procurar, e d’onde voltavam com as
azas impregnadas nas balsamicas fragrancias, que rescendia a casta
divindade. Considerava o mundo real como um inferno de prosa, onde
me via obrigada a viver, sem comtudo poder abstrahir d’essas visões
poeticas e dulcissimas, cujo desapparecimento me tornaria insupportavel
a existencia.
Transigi então. Agradara-me a figura, de que minha mãe se servira para
me rogar que não entrasse na vida real com idéas romanescas. Jurei que
não exporia as minhas pobres andorinhas a serem mortas pelos gelos da
realidade; mas jurei tambem que lhes havia de conservar n’um canto do
coração, sanctuario bem mysterioso e bem recatado, a eterna primavera
que lhes era indispensavel. Depois de ter affrontado impavida e forte
a prosa da realidade, iria refugiar-me, com prazer e enthusiasmo, no
meu tabernaculo santo, nas minhas Charmettes encantadoras, onde podia
banhar á vontade a minha alma, sequiosa d’esses gosos, no limpido e
sereno lago da poesia, na pura e transparente atmosphera do ideal:
atmosphera onde voejavam as andorinhas gentis dos meus devaneios, lago
onde vogavam os candidos cysnes dos meus sonhos; e assim, repartindo
a minha vida entre as obrigações enfadonhas da sociedade, e as
enthusiasticas devoções do meu templosinho secreto, julgava poder
atravessar a existencia, serena e immaculada, suspensa entre ceu e
terra, como o caixão de Mahomet.
Com estas disposições é facil de imaginar que me havia de seduzir a
arte, e que estava predestinada a consagrar-lhe um amor ferventissimo.
A arte era a chave de oiro do meu palacio de fadas, o «Abre-te, Sesame»
da caverna d’Ali-Baba, onde estavam encerrados os thesoiros da minha
imaginação. A arte era o manto de Mephistopheles, sobre o qual eu podia
viajar livremente pelas queridas regiões da phantasia. Seduziu-me
essa gentil feiticeira, que me podia transportar n’um vôo para longe
do mundo que me cercava, e interpôr a mim e á sociedade a cortina
magica, por detraz da qual começava para o meu espirito a região dos
encantamentos, dos extasis e das delicias. A melodia, que os meus dedos
despertavam nas teclas de um piano, era como o fumo odorifero de que
se rodeia o turco, ao entregar-se ás perigosas delicias do hatchich.
Por isso eu adorava a musica, e tinha um verdadeiro amor ao meu piano.
Devorava-o com os olhos, quando me via obrigada a fechal-o ou para
receber visitas, ou para obedecer ás ordens de meus paes. Se era o
cofre das minhas riquesas, o corpo que encerrava uma alma irmã da
minha, que só despertava ao evocal-a eu, e que eu bem sabia que ficava
adormecida quando alguem ousava pôr mãos profanadoras nas teclas do
instrumento!
Quando eu tocava, todos me applaudiam com frenesi; gabavam o meu
talento, a assiduidade do meu estudo, e diziam que, se quizesse
apparecer em publico, offuscaria as glorias dos mais celebres
pianistas. Eu nem lhes ouvia os applausos. Enlevada nas mysteriosas
conversações com a fadasinha do piano, tudo o mais me era indifferente.
Que me importava tocar deante de duas pessoas, ou deante de duas mil?
Entre mim e ellas caía sempre a bemfadada cortina, e o meu espirito,
enlaçado com o espirito da melodia, franqueava as portas d’oiro do
mundo do ideal.
Por isso tambem adorava a dança, e a valsa principalmente. Apenas
rompiam na orchestra os primeiros compassos da vertiginosa musica,
ahi voava nos braços do meu par, louca, inebriada por esse filtro
ignoto, que distillam as flores, as luzes, as melodias do baile.
Os meus pés mal tocavam no chão; como que a pouco e pouco sentia
emplumarem-se-me os hombros com as azas niveas dos anjos ou das fadas;
via n’essa atmosphera, saturada de férvidas emanações, voejarem as
minhas andorinhas, que me chamavam para a sua região encantada, e tudo
esquecia: o salão, o meu par, a gente que me cercava, para me arrojar
para o mundo dos devaneios, para entrar no casto gyneceu das minhas
formosas visões.
Com estas idéas, como podia eu procurar o amor? Pensava muito n’elle,
é verdade, mas nem por sombras me lembrava de o buscar na vida real.
O amor, e a realidade eram para mim duas palavras completamente
incompativeis. Quem se lembra de pedir nectar n’um banquete dos homens?
Que mahometano encommenda a um negociante d’escravas que lhe traga uma
huri da Circassia?
Julgaria até uma profanação collocar um idolo n’esse altar erguido
na minha alma, como altar atheniense, ao _deus desconhecido_. Os
suavissimos aromas, que essa palavra rescendia, não havia flôr da terra
que os exhalasse.
Mas estas idéas, que eu alimentava, nunca pensára em revelal-as. Não
se esqueçam os leitores da minha dupla existencia: uma toda sujeita ás
leis sociaes, e não tentando por forma alguma rebellar-se contra ellas,
outra completamente fóra do mundo da realidade; existencias diversas,
com as fronteiras escrupulosamente traçadas, e que nunca se invadiam
mutuamente.
Portanto, o casamento era para mim uma d’essas leis, a que eu estava
prompta a obedecer, comtanto que me ficasse plena liberdade de me
esquivar para a região das andorinhas; liberdade inalienavel como
facilmente se imagina. Não pedindo ao casamento o amor, qualquer marido
me era indifferente. Bastava-me a amizade, porque ouvira dizer a minha
mãe, que no matrimonio é indispensavel esse sentimento.
Claudio da Cunha não me inspirava repugnancia; por conseguinte estava
perfeitamente disposta a obedecer ás ordens de meus paes. Ouvi a
noticia e não pensei mais em tal. Casar-me tinha para mim tanta
importancia como pagar ou receber uma visita; cumpria uma lei imposta
pela sociedade. Tal noticia merecia mais do que o _Ah_ distrahido com
que eu a acolhera?