XXI

Estava um dia, 5 de janeiro de 1843, Fernando Gomes na loja da calçada

do Sacramento, aviando uma carregação de fazenda para o Porto.

Antes de descer á loja, sua mãe, quando ia para a mesa do almoço,

abraçou-se n'elle, e disse-lhe:

--Olha Fernando, tu não crês em sonhos, e eu creio!... Tive um sonho

alegre!...

--Então sonhou que vendiamos algumas grozas de botas, minha mãe? Os

nossos sonhos alegres não pódem ir mais além d'esta ambição de vender

muito sapato.

--Bemdito seja o Senhor, que nos ajuda, filho!--disse a velhinha.--Desde

que tu diriges a casa, parece que tudo levou volta! Olha que teu pae já

disse que, se assim continuarmos um anno mais, havemos de resgatar os

nossos bemzinhos do Cartaxo.

--Então sonhou, minha mãe, que estavamos outra vez proprietarios no

Cartaxo?

--Não foi isso, Fernando... Sonhei mais alguma coisa... Sonhei que te

via vestido de principe.

--De principe?! Ólé! de principe! Sabe o que deu causa a esse sonho?

--Que foi, meu filho?

--É porque hontem á noite estivemos a conversar a respeito do entrudo,

que está á porta. A mãe adormeceu com a ideia do entrudo, e por isso

sonhou que me via vestido de principe. Não foi outra coisa, minha

querida mãesinha... Venha almoçar, que eu levo-a pelo braço, como em

casa de Jeronymo Bonaparte levei uma vez a princeza Carolina.

--Valha-te nosso Senhor! não me deixas dizer o meu sonho até ao

fim!--tornou ella, dando-lhe uma fagueira palmada na face esquerda.

--Pois o sonho estava no principio, minha mãe?

--Estava... Credo!

--Cuidei que o principe acabava principe. Querem ver que elle se fez

sapateiro?

As irmãs riram; e o velho, abrindo os seus grandes olhos cataratosos,

largou tambem uma casquinada de alegre riso.

Fernando temperou o chá de sua mãe, serviu o pae, e proseguiu:

--Ora agora, ninguem a interrompe, mãesinha. Exponha lá as suas alegres

visões.

--Tu eras principe; ou estavas vestido de principe; mas, através do

peitilho da farda, batido a ouro, via-se-te o coração. Quando tu assim

estavas, começaste a chorar, porque descera do céo um anjo, e te levara

o coração para Deus. N'isto appareces vestido de negro, muito pallido,

menos no logar do rosto onde corriam as lagrimas, que brilhavam como

diamantes. Quando assim estavas muito triste, e nós todos a chorar

comtigo, torna a descer o anjo, e dá-te o coração, que te havia levado,

dizendo-te umas palavras, que se me varreram da memoria. Eis se não

quando, appareces vestido todo de resplendores de luz, com um semblante

muito luminoso, e uma alegria, como a pintam no rosto dos

bem-aventurados que adoram o Altissimo. Teu pae estava como absorto a

olhar para ti, eu tambem, todos riamos e choravamos de felicidade, ao

mesmo tempo, e n'este momento é que eu acordei.

--Alegre sonho, minha mãe! disse Fernando. O que eu agora queria era que

vocemecê me explicasse o como se ha de converter em realidade esse

bonito vestido de resplendores.

--Pergunta-o ao Senhor que me deu o sonho, filho, disse a mãe.

--O seu chá arrefece, tornou Fernando, eu faço-lhe outra chavena.

--Pois sim, meu querido filho; tem paciencia, que eu estou a tremer o

queixo. A velhice parece que traz comsigo uma constante Siberia!

--Vejo que ainda se lembra das suas lições de geographia, que o pae lhe

dava ha vinte annos, minha mãe. Ainda sabe que a Siberia é fria!

--Não, que tu cuidas que a velha ha de ser estupida por que é

velha!...--disse ella risonha.--Olha que ainda ás vezes recordo os

versos do nosso Bocage, e do nosso Francisco Dias Gomes. Este era do

nosso sangue; o outro era do nosso coração, não era Francisco?

--Oh! se era! estou-o vendo, como se fosse hontem, quando elle, na

mercearia, a S. Sebastião da Pedreira, me improvisou os versos com que

eu te venci, minha ingrata! Amaste-me por não poderes amar o Bocage, não

foi? Ora confessa a verdade, que eu agora já não tenho ciumes...

--Olha o tolo!--disse a senhora Maria Luciana, com a bocca cheia pelo

bocado de pão, rebelde aos seus raros dentes.--Lá que os versinhos me

encantaram, isso te juro eu que sim, Francisco... Não sei o que seria se

me dissesses em prosa aquellas coisas... Tu eras tão acanhado quando ias

lá a casa! Olha se te lembras que para me dares um raminho de violetas

em dia de meus annos, andaste a pedir ao aprendiz, quinze dias antes,

que m'o entregasse...

Fernando e as irmãs sorriam, sem quebra de respeito, d'estas amorosas

reminiscencias dos dois velhos, que trocavam gracejos, que era um como

prazer de lagrimas ouvi-los, de lagrimas, digo, para ouvintes que

tivessem coração muito sensivel ás poucas coisas commoventes que tem a

vida humana.

Findo o almoço desceu Fernando á loja, como já se disse começando este

capitulo.

Acabára elle de dar saída aos caixões de embarque, e outras ordens,

quando Hypolito de Almeida apeou d'uma carruagem, com as cortinas

corridas por dentro das vidraças.

Fernando viu-o no limiar da loja, e correu a abraça-lo, exclamando:

--Que surpreza! Eu não te esperava, meu querido amigo! Subamos á saleta.

Deixa-me ao menos tirar esta jaleca!

Almeida fitou os olhos no amigo do cêrco, de Coimbra, de Paris, de

Madrid, e as lagrimas rebentaram-lhe a quatro.

--Isso que é?--disse Fernando.--Que tens tu, Almeida?

--Tenho a alegria, que precisa chorar como a dôr. A tua virtude causa-me

uma vehemencia de respeito, de piedade, sensações tão estranhas e

fortes, que me fazem isto que vês, estas não sei se primeiras lagrimas

de minha vida. O que tu pudeste sobre ti, ó Fernando!

Os officiaes pararam de trabalhar, enleados n'este lance, e chorando sem

comprehender o alcance do que viam.

--Subamos--repetiu Fernando commovido.--Vem dar um abraço em meu pae, em

paga dos muitos abraços que tenho dado no teu.

--Pois sim, vamos--tartamudeou Almeida, n'uma irresolução.--Vamos...

tambem quero vêr tua mãe...

Subiram, e os dois velhos vieram logo espontaneamente á saleta por

ouvirem pronunciar o appellido _Almeida_.

--É o amigo do nosso Fernando--disse Francisco--vem d'ahi, Maria! vem

abraça-lo.

Oh meu Deus! que magnificos lances preparam as vossas divinas leis!

Quantas vezes, e quantos lances assim passam despercebidos na

obscuridade onde vivem os vossos eleitos!

Os dois velhinhos acharam-se nos braços de Hypolito de Almeida, que

sentiu em suas faces as lagrimas de ambos. Fernando, electrisado por

aquelle instante da vida do céo, beijou a mão do amigo, por que elle

assim respeitava e amava seus paes humildes.

Almeida parecia querer dizer alguma coisa que se lhe não moldava á

expressão. Aquelle vacillar, e olhar d'um para outro rosto, o começar e

recomeçar da phrase, terminou por esta abrupta pergunta á mãe de

Fernando:

--Minha senhora, quer ter a delicadeza de offerecer a sua casa a uma

dama, que veio em minha companhia, e me está lá fóra esperando na

carruagem?

--É sua irmã, senhor Almeida?--perguntou a velha.

--Não tem irmã--disse Fernando.--Será sua esposa. Queres surprehender-me

com a tua noiva? é hespanhola?

--Não é noiva--tornou o secretario--é irmã.

--Irmã!--redarguiu Fernando com espanto.

--Sim, irmã, porque tu és meu irmão.

--Como?!--exclamou impetuosamente Fernando.

--Vá, vá!--volveu Almeida--vá, minha senhora, offerecer a sua casa á sua

filha Paulina, que vem aqui pedir-lhe a mão de seu filho!

--Fernando já tinha corrido a escada abaixo; mas, a meia descida, parou,

olhou para si, e viu-se n'aquelle traje. Hesitou instantes, e disse:

--Porque não?! Ainda me torturas, miseravel vaidade!

A mãe seguia-o de perto, ajudada por Almeida.

Em seguida iam as duas irmãs de Fernando, cada uma com seu filhinho nos

braços.

Francisco Lourenço, que mal descortinava as escaleiras, ia mui de manso,

tacteando o mainel da escada.

Fernando abriu a portinhola da carroagem.

Paulina saltou-lhe aos braços; e, antes de proferir palavra, rompeu n'um

chorar e soluçar tão suffocante, que, nos braços dos dois e da velhinha,

foi transportada para o pateo.

Fernando ajoelhou á beira de Paulina, que recostava a face desmaiada ao

seio de Maria Luciana. Uma das creancinhas, do colo de sua mãe,

estendeu-lhe a mão a um dos anneis dos cabellos negros.

Paulina abriu os olhos, e sorriu á creança, e apertou a mão de Fernando.

Maria, com as mãos erguidas, murmurou:

--É o anjo do Senhor que volta com o coração de meu filho. Vejo-te agora

vestido de resplendores, Fernando!

O moço lembrou-se do sonho de sua mãe, e respondeu beijando-lhe a mão.

Ainda agora chegava Francisco Lourenço. Pediu que o deixassem approximar

de Paulina, e disse com a voz convulsa de lagrimas:

--Eu lhe agradeço, minha senhora! Eu lhe agradeço o bem que faz ao meu

virtuoso filho. Deus a abençôe, santa, que soube avaliar os merecimentos

d'este anjo. Deixe-me rojar as cans aos seus pés, que não ha desaire

n'esta humildade do pobre velho, ainda que elle fosse um rei!

Paulina abraçou-se expansivamente ao artista, e chamou-lhe pae.

--Pae! meu Deus!--exclamou elle--Com que liberalidade me pagaes os

padecimentos de alguns annos! Minha filha, que immensa alegria vem

trazer a tantos que a pediam ao Senhor! Eu quero que meu filho sinta

mais intensa felicidade que eu!...

Paulina sahiu amparada ao braço de Fernando, e no pescoço de Maria

Luciana. Entraram na saleta da livraria. Era a riqueza d'aquella casa.

Sentou-se a ditosa na cadeira de Fernando, junto á meza onde elle fazia

as suas leituras. Relanceou os olhos sobre a mesa, e viu na capa d'um

grosso volume de papel almasso esta palavra--_Paulina._--

Lançou rapida mão ao livro. Leu das ultimas paginas escriptas as linhas

finaes, que diziam assim:

«_Porque te vejo ainda, ó abençoado anjo do meu infortunio! Que luz é

que tu me mandas em sonhos, se o meu despertar é sempre no meu abysmo de

saudade?... Ainda te verei, ó Paulina?..._»

Ergueu-se, escarlate d'alegria, o anjo abençoado d'aquelle augusto

infortunio, abraçou Fernando com fremente ardor, e disse:

--Pois não vim eu trazer-te a luz dos teus sonhos, meu querido Fernando?

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 45 / 49 题