«Meu amigo.
«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o
indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O
amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na
eternidade.
«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de
testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em
seiscentos contos, em differentes especies.
«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha
visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal
liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que
Paulina acompanhe a irmã.
«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro.
«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é
inalteravel.
«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso
_H. de Almeida_.»
Nenhuma outra carta nos veiu á mão.
Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados,
melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando
freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou
condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses
d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas
estalagens onde se aposentava.
Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em
tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa
melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe
incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e
serviços.
Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres
irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á
audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.
De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia
sempre: ESPERADO.
Este _esperado_ é regularmente o prologo do _indeferido_.
Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado
a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e
quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.
Fernando leu o despacho no _Diario do Governo_, leu os commentarios n'um
jornal da opposição, e riu-se.
Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de
mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta:
«Excellentissimo. As _honras_ a quem competem. Faça vossa excellencia
presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado
sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser
instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode,
que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios
inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o
cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos
hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos
contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister,
e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, _Fernando
Gomes_, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11--Lisboa.»
O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario;
mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a
carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos
caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim
acabou o episodio.
Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á
loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado,
e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os
officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de
doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus
officiaes que se chamava Fernando.
Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que
ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu
que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim
como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».
O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador
se está contente com a obra que fez.
Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se
fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem
os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que
o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do
contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego,
nada fazia já.
Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o
que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na
infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do
estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos
setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da
mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos
gelos polares por Cook.
Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se
trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação.
Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se
conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli
voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não
sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher,
como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em
Lisboa lhe désse noticias do _chevalier Ferdinand Gomes_, como elle
euphonicamente o conhecia.