Madrid, 25 de setembro de 1842.[2]

«Meu amigo.

«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o

indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O

amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na

eternidade.

«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de

testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em

seiscentos contos, em differentes especies.

«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha

visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal

liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que

Paulina acompanhe a irmã.

«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro.

«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é

inalteravel.

«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso

_H. de Almeida_.»

Nenhuma outra carta nos veiu á mão.

Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados,

melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando

freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou

condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses

d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas

estalagens onde se aposentava.

Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em

tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa

melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe

incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e

serviços.

Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres

irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á

audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.

De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia

sempre: ESPERADO.

Este _esperado_ é regularmente o prologo do _indeferido_.

Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado

a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e

quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.

Fernando leu o despacho no _Diario do Governo_, leu os commentarios n'um

jornal da opposição, e riu-se.

Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de

mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta:

«Excellentissimo. As _honras_ a quem competem. Faça vossa excellencia

presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado

sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser

instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode,

que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios

inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o

cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos

hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos

contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister,

e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, _Fernando

Gomes_, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11--Lisboa.»

O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario;

mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a

carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos

caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim

acabou o episodio.

Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á

loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado,

e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os

officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de

doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus

officiaes que se chamava Fernando.

Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que

ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu

que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim

como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».

O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador

se está contente com a obra que fez.

Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se

fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem

os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que

o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do

contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego,

nada fazia já.

Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o

que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na

infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do

estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos

setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da

mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos

gelos polares por Cook.

Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se

trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação.

Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se

conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli

voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não

sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher,

como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em

Lisboa lhe désse noticias do _chevalier Ferdinand Gomes_, como elle

euphonicamente o conhecia.

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 44 / 49 题