DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

Madrid, 14 de agosto de 1842.

«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua

carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em

encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha

ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra

o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com

que esperava cortar-lhe a vida na garganta.

«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de

Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para

sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo

merecedor de melhor alma.

«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na

rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem

rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid,

e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o

podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção

a tua felicidade. _A tua felicidade_, digo eu!

«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má

sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos

do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça.

«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde

estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias:

permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que te envio[1].

Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso,

Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser

injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente, onde com

alguma hora de reflexão, deixarias de ir?

«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu

bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste

como devias. Esperei.

«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal

respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma

para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me

capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva

eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas

sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.

«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém,

diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o,

que o deves ao teu Almeida.

«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de

teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e

necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de

paciencia para poder emprega-la.

«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de

obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião

de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do

braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem

das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se

conseguia e recebia com a mão a cheirar a polvora, é preciso have-lo

agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas

othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para

que a decepção te não surprehenda.

«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde

já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus

bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia

que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos

e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de

escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos

humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está

habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que

a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e

principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á

rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma

caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da

legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá

o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com

que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da

herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não

despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está

prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o

pagares quando puderes.

«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu

_Almeida_.»

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 37 / 49 题