Lisboa, 31 de agosto de 1842.
«Meu irmão.
«Guardo em minha alma a tua carta.
«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.
«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos
brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos
braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre
em contentamentos d'um justo!
«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.
«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a
minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não
fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu
pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando
eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.»
Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de
cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou:
«Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz
ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra
solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.
«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o
principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como
ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.
«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro,
deixemo-lo estar, _como nosso_, na mão do honrado depositario. Quando
precisarmos, lá iremos.
«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que
dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens
decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de
se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se
haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser
mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de
entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a
faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e
esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de
pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas
irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em
seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho
de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de
Paulina!...
«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração?
«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não
teem mais ninguem.
«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o;
póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o
reclame.
«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a
pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.
«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou
tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: _Que
direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a
procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu
querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma
carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?_
«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus
arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da
pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu
extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o
que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que
braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu
sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros
teria razão!
«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual
enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não
ha tempo para mais. Adeus. Teu
_Fernando_.»