Lisboa, 4 de agosto de 1842.
«Meu presado amigo.
«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me
iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.
«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos
braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um
berço, uma criancinha de dois mezes.
«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem
para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte
o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de
grandes lucros.
«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha
pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema.
«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo
que vier.
«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito
infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em
poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder
resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir
pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas
alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que
entrei nos lares domesticos.
«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez
extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao
santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não
vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da
mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa
ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais
verdadeiro e valedor que os livros.
«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia
dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui.
Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos
officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo
que tem a obra.
«Penso em arranjar emprego; mas sinceramente te digo que não sei o para
que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de
conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço
de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade.
Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado
escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde
reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois,
veremos.
«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo
dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas,
n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em
diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece.
Adeus. Teu amigo muito grato
_Fernando._»