Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos
successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de
tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem.
Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e
inalteravel por nenhuma diversão.
Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra
esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.
Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de
mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade,
conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar
a ve-los n'outro mundo.
Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e
respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza
dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das
cartas de Fernando.
--Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.
--Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na
universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe
devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia
uma virtude em que eu tinha fé--o coração da mulher--e esta crença
tambem se foi diluida em lagrimas.
--Injustiça!--interrompeu Almeida.--Não te diz ella que está prompta a
requerer o seu deposito?
--Disse, não diz.
--Propõe-lh'o.
--Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.
--Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.
--Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o
casamento de sua cunhada comigo?
--Elle.
--Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como
Eugenia.
--Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma
raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos
juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem
processo judicial.
O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e
das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar
com o caracter do portuguez, e disse:
--Eu fallarei a meu sogro.
E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se
lhe deve:
--O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar
a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada
para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para
eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.
Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma
resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse
á cunhada:
--Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios
extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez
presta-lhe sua casa.
Paulina respondeu:
--Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu
conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.
--Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal
lentidão.
--Se elle m'o fizesse assim acreditar!...--replicou ella.
O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas,
incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim,
muito á puridade, o communicou ao secretario.
Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia
d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a
Fernando:
«Meu querido amigo.
«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está
em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei,
Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu
consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre
formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras
animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de
dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o
ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que
seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa
julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o
fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para
debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é
incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem
e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é
indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é
como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões
vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas
de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me
abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente:
«Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?
«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a
tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e
mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo
de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as,
te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro
de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar
as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho,
cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São
assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle
com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim,
e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um
sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com
que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu
pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não
aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em
Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas
cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um
latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»
Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos
pés.