XVIII

Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos

successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de

tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem.

Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e

inalteravel por nenhuma diversão.

Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra

esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.

Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de

mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade,

conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar

a ve-los n'outro mundo.

Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e

respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza

dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das

cartas de Fernando.

--Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.

--Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na

universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe

devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia

uma virtude em que eu tinha fé--o coração da mulher--e esta crença

tambem se foi diluida em lagrimas.

--Injustiça!--interrompeu Almeida.--Não te diz ella que está prompta a

requerer o seu deposito?

--Disse, não diz.

--Propõe-lh'o.

--Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.

--Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.

--Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o

casamento de sua cunhada comigo?

--Elle.

--Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como

Eugenia.

--Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma

raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos

juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem

processo judicial.

O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e

das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar

com o caracter do portuguez, e disse:

--Eu fallarei a meu sogro.

E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se

lhe deve:

--O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar

a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada

para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para

eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.

Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma

resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse

á cunhada:

--Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios

extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez

presta-lhe sua casa.

Paulina respondeu:

--Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu

conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.

--Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal

lentidão.

--Se elle m'o fizesse assim acreditar!...--replicou ella.

O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas,

incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim,

muito á puridade, o communicou ao secretario.

Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia

d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a

Fernando:

«Meu querido amigo.

«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está

em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei,

Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu

consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre

formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras

animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de

dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o

ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que

seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa

julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o

fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para

debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é

incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem

e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é

indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é

como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões

vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas

de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me

abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente:

«Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?

«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a

tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e

mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo

de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as,

te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro

de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar

as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho,

cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São

assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle

com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim,

e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um

sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com

que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu

pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não

aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em

Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas

cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um

latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»

Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos

pés.

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 33 / 49 题