Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira
franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.
Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal,
quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não
cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer
parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a
menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em
tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão
contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos
olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de
juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir
Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheiro d'Almeida lhe
foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.
Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco
segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de
Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito
reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos
brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estes
_respeitos_, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse
a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto
Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan,
fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao
lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os
acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus
placidos modos, enviou _ao fidalgo portuguez_ (hidalgo, disse elle) os
seus brilhantes e os respeitos d'elle.
--Em quanto á minha boa Eugenia--accrescentou o conde--terá o cavalheiro
a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem,
submisso escravo das suas vontades.
Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa.
As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não
denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem
desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias
de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram
mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras,
differentes em temperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com
muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas--que Paulina
tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um
homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom
guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um
amante glacial.
Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando
escrevesse este romance. Desisto da tenção formada.
Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o
pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de
Rohan.
Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com
exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse,
accrescentando:
--Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae
consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por
meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão
desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz,
estou prompta a requerer.
Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a
notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse:
--Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca
poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha
alguma boa qualidade que ha de eternamente viver em tua memoria. Antes
esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.
Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos
despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas
antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a
desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração!
Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida.
O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque
teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe.
Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao
Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.»
Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o
resgate d'ella, sentem-se livres.
Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana,
oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes.
Deixa-los chorar e orar.
Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde
que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não
hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não
entendem?
Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse
estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para
que nenhum collega meu d'este maldito officio saísse alguma vez a lume
com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia!
Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.
O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de
brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro.
O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De
Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor
modo de se realisarem os desejos de sua filha.
As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem
accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi
por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam
fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das
capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito
feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a
pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma
peccadora.
No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em
carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol,
onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.
O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito
encavalgado por um dragão.
Viram-se e reconheceram-se.
O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a
brados que muita gente ouviu:
--Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que
seduz filhas-familias a roubarem seus paes!
Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do
marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha
felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com
a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o
sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio
nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi
fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para
disfructar a lucta.
Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o
enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi
desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as
unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem
para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com
uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de
gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos
magnificos.
Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid,
com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não
incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara
dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e
dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome
d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o
marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um
liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado
ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados
da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em
Portugal, onde está rico e honrado.
Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma
satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um
accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao
coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende,
são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus
as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis
e intelligiveis.
Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e
esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer
d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas
occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um
sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia
de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.
Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O
fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do
secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros
soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por
Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta
nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no
escudo: ROI NE PUIS, PRINCE NE DAIGNE, ROHAN JE SUIS.
Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos,
Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e
resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha,
no verão, em companhia de seu genro.
O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.
No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a
diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde
que propôz a seu genro, disse em remate do discurso:
--Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente
dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um
nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem
receio de a retirar suja.
--De sangue...--disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.
Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao
ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto
uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!