«Minha senhora.
«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e
d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e
vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho
não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me,
como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa,
onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci
ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa
excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração
apenas a fibra do remorso de ser mau filho.
«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro,
mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde
origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa
excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso
que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu
divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros
sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e
por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a
esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era
licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo
certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de
minhas virtudes para se dar nobreza de si.
«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver
lendo!
«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa!
Que mal empregados sacrificios!
«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora?
Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a
esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia
dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?
«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!
«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O
coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo
peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa
excellencia, agora, e sempre.
«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga
vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser
vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção
infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?...
Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e
indignas da sua attenção.
«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta
ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma
lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.
«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de sua consciencia, porque as
suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto
respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia
«_Fernando Gomes._»
Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro
dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras
de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato.
Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de
Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se
na locomotiva.
Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:
«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem
culpa dos meus infortunios.
«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino.
«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver.
«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é
este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas
do teu Fernando.»