Decorridos dez dias, chegou a Napoles Francisco Lourenço. Aqui o
trouxera a certeza anciosa de encontrar seu filho em convalescença, se é
que Fernando o não enganára com o louvavel intento de o poupar a maiores
afflicções. Durante a viagem para França, o artista entendeu que saíra
precipitadamente de Lisboa, sem agenciar relações que o dirigissem a
Napoles. Quem o guiaria n'uma grande cidade como aquella? Estaria o
filho n'um hotel ou nos arrebaldes?
Para remediar semelhante imprevidencia, dirigiu-se, torcendo o seu
itenerario, a Paris, e apresentou-se ao ministro portuguez, expondo o
seu destino. O ministro deu-lhe carta para Napoles.
Poucas horas depois da chegada, Francisco Lourenço tinha a certeza de
que seu filho saira de Napoles dois annos antes, e nunca mais ahi
voltára, e a certeza tambem de que o moço estava em Florença, havia
quinze dias.
Saiu Francisco para Florença, cuidando que seu filho peorára, ou
melhorára a ponto de dispensar a convalescença n'outros ares. Com as
recommendações que levára de Napoles, soube em pouco tempo que Fernando
embarcára em Genova com destino a Londres.
--A Londres!...--exclamou o velho.--Então é certo que meu filho me vae
fugindo.
--É mais natural que o vá procurando--respondeu a pessoa a quem o
artista ia de Florença recommendado.--Póde ser que seu filho fosse
embarcar para Portugal em algum dos portos de Inglaterra. O certo é que,
minutos depois da sua chegada a Londres, o senhor ha de saber onde seu
filho está hospedado, se é que elle lá está. Entretanto as minhas
informações dão que Fernando Gomes--continuou o chefe da policia de
Florença--estava mais ou menos ligado com uma familia portugueza
emigrada, cuja cabeça é Bartholo de Briteiros, residente n'esta cidade
por espaço de dois annos e tantos mezes. Dizem mais que Fernando Gomes e
um tal marquez de Tavira concorreram a amar uma filha do senhor de
Briteiros, e por ciume se insultaram na praça do Dome.
--E meu filho--atalhou Francisco Lourenço com amargura--não esteve
doente?!
--As minhas informações não me dizem que elle estivesse doente, e penso
poder asseverar-lhe que seu filho gosou em Florença a melhor saude.
Encontrei-o miudas vezes em casa de Jeronymo Bonaparte, onde elle era
muito estimado do principe. Comquanto não estivessemos relacionados, só
de o ver devo crer que o senhor Fernando Gomes passasse bem, a julgar
pelo seu aspecto não doentio, posto que pallido.
Munido de indicações e uma carta, Francisco foi esperar em Genova a
sahida de um barco inglez para Falmouth.
Tão rapidamente quanto em Florença lhe prometteram esclarecimentos,
recebeu-os em Londres, na repartição da policia, onde lhe deram um
_policeman_ que o guiou á rua, hotel, e numero do quarto em que assistia
Fernando. O velho fez mentalmente o elogio da policia britannica.
Bateu Francisco Lourenço na porta indicada. Abriu-lh'a o filho.
--Entro com os braços abertos!--disse o velho convulsivo de jubilo.--Não
te venho ralhar, filho!...
Fernando abraçou-o com fervor, e limpou-lhe as lagrimas copiosas.
--Minha mãe como está?--disse Fernando...
--Doente a deixei... Deus sabe como ella está... Acho-te bom, meu
Fernando... Ainda bem!... Não cuides que eu antes queria achar-te
doente... Perdôo-te a mentira, porque... antes assim... E agora?...
Agora vens ver tua mãe?...
--Descance, meu pae--atalhou o enleiado moço.--Descance, e depois...
--Não póde ser depois, Fernando... Que faço eu aqui?! Não vim vêr
Londres; vim procurar-te, vim chamar-te. Se me não seguires, que faço eu
longe de tua mãe, que a esta hora mal sabe que voltas tenho dado... Era
melhor que me não dissesses que ias para Napoles: poupavas-me tanto
desgosto e fadiga!... Bem vês que estou muito velho... Não me deixaste
assim... Em tres annos ninguem envelhece tanto...
--Perdão, meu pae!--exclamou Fernando, apertando contra o seio as cans
do velho lagrimoso.
--Tanto chorar, na minha edade, é sorte de poucos... Vejo tantos paes,
com os meus annos, em socego, á espera da morte, rodeados de seus
filhos, fartos e ricos do fructo dos trabalhos d'elles...
--Tem razão...--atalhou Fernando--mas esses são os paes que teem filhos
menos desgraçados que eu! Eu queria contar-lhe a minha vida... uma só
palavra a explica... é uma paixão, meu pae, que me deshonrou aos seus
olhos; por amor d'uma mulher lhe menti, e me envileci em minha propria
consciencia...
--Não estás deshonrado aos meus olhos, Fernando... Desgraçado é que me
pareces, filho... Não me contes a tua vida, que a sei. Lá deixaste em
Florença as tuas memorias... Isso mesmo por que m'o não disseste? Antes
isso que o engano. Eu não me espantaria que deixasses pae e mãe por uma
mulher. Tuas irmãs tinham sido criadas no regaço de tua mãe, e fizeram o
mesmo... Deixaram-nos sósinhos. Mas poderás tu dizer-me que futuro é o
teu? que tencionas fazer? Bartholo de Briteiros, esse mau homem, que tem
uma historia escripta com sangue, foge-te com a filha para Londres. Que
vens tu aqui fazer? Queres tirar-lh'a?
--Não, meu pae; quero vel-a, unicamente vel-a; porque no dia em que
perder a esperança de a tornar a vêr, hei de matar-me para esquecel-a...
Fernando escondeu o rosto no seio do pae, e exclamou:
--Deixe-me chorar, que são as primeiras lagrimas. Não houve coração
algum que m'as recebesse...
E soluçava convulsivamente nos braços do velho, que o apertava ao peito
com tremuras de compaixão e amor.
--Diz-me tu, filho...--tornou com muita brandura Francisco
Lourenço--essa senhora despreza-te?
--Oh! não!... O desprezo seria a minha salvação--respondeu Fernando com
vehemencia.--A desgraça é ella amar-me, e ser uma santa em dedicação e
sacrificios. Por amor de mim foi tirada de Florença para Londres; e ha
quinze dias que a cada instante a espero aqui... fugindo á crueza do
pae, que quer casal-a...
--E tu has de acceitar uma filha fugida a seu pae?...--interrompeu o
velho.--Vê se podes, á custa mesmo da vida, ser honrado, filho! Seja o
pae um malvado, seja a filha uma santa, embora...; mas não te absolvas
em tua consciencia, se consentires que essa menina fuja para ti.
--Mas o pae faz-me a injustiça de suppôr que eu não irei logo recebel-a
como esposa? Não sabe que ella é...
--Sei que é rica... os Briteiros são muito ricos... Isso é que me queres
dizer, Fernando?...
--Não, senhor; queria dizer-lhe que Paulina Briteiros não é mulher que
algum homem possa victimar, por mais infame que ser possa; ora eu, meu
pae, amo-a com esta paixão que vê. O mundo não nos perdoaria a culpa de
nos unirmos contra a vontade de seu pae?
--O mundo não vos deixaria unir sem grande perseguição, filho. Antes de
alcançares o descanço de uma honrada lucta com a sociedade, serias
muitas vezes infamado, esmagado e talvez vencido.
--Espere, meu pae!... cale-se!--exclamou de subito Fernando.--Estes
passos são de mulher...
--Será ella, meu Deus!--disse Francisco Lourenço.
Fernando foi á porta, viu a criada confidente de Paulina. A moça assim
que o viu debulhou-se em lagrimas, e balbuciou:
--A menina não pôde escrever-lhe... Está-se preparando para sair com o
pae... Recebeu ordem de repente. Vai para um convento da Irlanda: foi o
que elle lhe disse, a não querer ella casar com o maldito marquez. A
senhora D. Paulina não verteu nem uma lagrima, e respondeu: «Irei para
onde o pae quizer; não caso com o marquez, que é um villão». Que coragem
a d'aquella menina! Depois fez-me um signal; e eu corri a participar-lhe
isto. A senhora D. Eugenia manda-lhe pedir que, para salvar a irmã de
morrer no convento, indo o senhor para fóra de Londres, talvez se
conseguisse que o pae a deixasse ficar em casa, e manda-lhe dizer que o
faça se tem amor á pobre menina.
--E porque não hade elle fazel-o?--atalhou Francisco Lourenço.--Diga
vocemecê a sua ama que ao lado de Fernando está seu pae, e que meu
filho, por amor da senhora que soffre tanto, nos ha de obedecer a ambos.
--É impossivel!--exclamou Fernando allucinado por sua enorme
angustia.--É impossivel desamparal-a no maior aperto da perseguição!
Para que me quer meu pae em Portugal, se eu vou lá morrer?!... Que vil
eu seria no conceito de Paulina, affastando-me na occasião em que ella
mais precisa do meu conforto?... Diga á sr.ª D. Eugenia--proseguiu elle
voltando-se para a criada--que eu não posso obedecer lhe, salvo se ella
entende que a minha morte remedeia os desgostos de sua irmã. É de crer
que sim; mas eu é que estou convencido que Paulina quer que eu viva.
Francisco Lourenço fitava o filho com os olhos embaciados de lagrimas, e
não o contradisse.
A creada saíu com um bilhete d'oito linhas escriptas por Fernando.
Após breves instantes de silencio d'ambos, o filho disse serenamente:
--Meu bom pae, eu agradeço á Providencia poder n'esta hora falar com um
homem a quem devo as primeiras luzes da minha intelligencia. Maior
desgraça seria a minha, se meu pae não podesse comprender-me,
indultar-me, e compadecer-se. Accuso-me de o ter enganado; era mais
honroso dizer-lhe que tinha coração, mas eu cuidei que mentindo, sem
medo de ser descoberto, salvava a irreverencia inseparavel de
confidencias taes a um pae. O meu engano duplica o merecimento de ser
perdoado. Conhece a minha situação, meu pae. Com a alma despedaçada lhe
digo que não sei como remedial-a. Quer que eu o siga? Seguirei: já vejo
de todo e para sempre negra a minha vida... Seguirei; mas uma hora virá
em que meu pae se lastime por ter imposto ao meu coração a sua
respeitavel vontade. Se quer que eu viva e procure alguma saída d'este
circulo de ferro, deixe-me seguir Paulina á Irlanda...
--Bem, filho--atalhou o velho contrafazendo placidez e seguridade de
animo--Concedo o que desejas e precisas; mas escuta: os meus haveres são
poucos; tuas irmãs casaram dotadas; tu pouco tens gastado
comparativamente ao que eu antevia; mas assim mesmo excede o que devia
ser teu dote. A officina dá pouco, porque a tenho desamparada. Desde que
em Lisboa se estabeleceram sapateiros francezes, muita freguezia me
deixou. Não me affligiu este desprezo do que é nosso, porque, bemdito
seja Deus, contava com o pouco para muita felicidade. Eu estou reduzido
a tres contos de réis, e os bens do Cartaxo, que outro tanto poderão
valer. Acabado isto, irei pedir agasalho a uma tua irmã, e tua mãe a
outra; e tu, que és formado, a todo o tempo conseguirás algum emprego
que te alimente. O fim da nossa vida póde assim talhar-se, e Deus
permittirá que não seja peor. Digo-te isto para que saibas com que pódes
contar, Fernando. Lança as tuas contas; e, quando vires que tens
consumido o que possuo, tem tu a generosa compaixão de não pedir mais.
Eu comigo não posso contar para o trabalho. Estou com pouquissima vista;
mais de uma vez n'estes ultimos annos me tem ameaçado a cegueira. Corre
tudo na loja por conta dos officiaes: uns roubam, outros desmazelam-se;
ninguem tenho em que possa fiar-me. Aqui tens singelamente dito tudo.
Agora sê o que poderes ser em favor d'essa senhora; mas não te deshonres
por causa do amor. Eu creio que é falso o amor que leva o homem á
indignidade.
Fernando, após breve pausa, respondeu:
--Eu sabia quaes eram os haveres de meu pae, quando saí de Lisboa.
Viajei dois annos, gastando o menos que podia. Como o meu viver era só,
e indifferente ás regalias das cidades em que passei, restringi as
minhas despezas á sustentação parca, e ao vestido mais urgente. Assim
mesmo gastei muito em proporção do que devia gastar. Pouco tem hoje meu
pae para a sua subsistencia: não devo pedir-lhe um quinhão d'essas
migalhas. Irei ensinar linguas na Irlanda: sei um pouco de todas as que
se falam na Europa. Muitos emigrados portuguezes aqui viveram assim. A
fome illude-se com pouco.
Francisco Lourenço abraçou o filho, e murmurou:
--Não quero, filho, não quero isso assim. Quando a necessidade te
obrigar ao trabalho e á independencia dos impossiveis recursos de teu
pae, eu t'o direi sem pejo, nem pesar de te ver humilhado. Então
trabalharás para ti, e verás quão doce é o pão negro que se lavra com o
proprio suor...