Paulina leu o bilhete de Fernando, que dizia assim:
«Ver-me-has em toda a parte; e, quando me não vires, sabe que eu
contemplo o céo que te cobre, ou te espero em outro mundo para uma outra
vida. Vivo ou morto, a minha alma será sempre comtigo, Paulina! Ámanhã
parto para Irlanda. Não sei se é para Dublin que te levam. Eu te
encontrarei... Até lá.»
E estava alli, á beira d'elle, o choroso velho, aquelle pae amantissimo,
quando Fernando escreveu: _Ámanhã parto_!... A crueldade dos filhos que
amam! Que fragil é tudo isto que ahi chamam leis da natureza, quando o
amor, aquella creança dos fabulistas, mesmo ás cegas, lhes atira um
encontrão!
Em quanto Paulina relia o bilhete e o mostrava á irmã com a douda
alegria de mulher amada, Bartholo de Briteiros, encerrado com o marquez
de Tavira, dialogavam d'este theor:
--Mas não me saberás tu explicar o contentamento com que Paulina se está
preparando?!--dizia Bartholo.
--Aquillo é febre que arrefece depressa, primo Briteiros. As mulheres
são assim.
--E era capaz de entrar no convento, e esquecer-se de pae, irmã, e tudo!
--Nos primeiros dias, sim; depois, quando lhe faltasse o animo, e não
visse o Fernando, nem tivesse noticias d'elle, modificava o seu parecer
a respeito de conventos e de amor. As mulheres são assim, primo
Briteiros. Umas ha que são capazes de morrer por orgulho, e outras por
soberba são capazes de se envilecerem. Mas a nossa Paulina não ha de
morrer nem aviltar-se, visto que o convento é uma fabula, e a fria
Irlanda se não ha de gosar de a ter nos seus mosteiros. A creada
desempenhou perfeitamente o papel, pelos modos. É o dinheiro mais bem
empregado que tu tens consumido para salvar tuas filhas das unhas dos
aventureiros...
Corte-se aqui o dialogo para dar um esboço muito pela rama d'esta ladina
creada, que tambem tinha a honra de ser portugueza.
O marquez descobrira que ella era a intermediaria de Paulina e Fernando.
Aconselhou, por isso, Bartholo que a seduzisse com dinheiro a ir
participar a Fernando que a menina se recolhia a um mosteiro da Irlanda;
e ao mesmo tempo, da parte de Eugenia, lhe pedisse que se retirasse de
Londres, a ver se assim abrandavam os rigores do pae. A creada accedeu á
proposta com o mais admiravel desapego de gratificação. Saiu logo a
cumprir o mandado, e recebeu o bilhete de Fernando. Na fiel entrega do
bilhete a Paulina é que assenta o elogio da creada. Bartholo ficou
contente d'ella, e Paulina extremamente grata á expontanea resolução da
creada. Mas é pena que tanto a ama, como a creada, como Fernando Gomes
fossem enganados por cavillações suggeridas pelo marquez de Tavira, que
era o mais refinado velhaco de que ainda tivemos noticia!
Agora ate-se o dialogo.
--Foi bem lembrada a tua ideia, primo!--tornou o ministro da Alçada,
como que orgulhando-se de ter na sua parentella um sujeito com
ideias.--O homem agora vae dar comsigo em Irlanda. Quem diabo lhe ha de
lá dizer que nós vamos para Madrid?
--É verdade!--exclamou o inventor da ideia com radiosa ufania.
--Quando elle o souber--tornou Bartholo--espero eu que tu sejas meu
genro, e minha filha feliz... Palavra de cavalheiro! eu não tinha alma
de a fechar n'um convento! Quero-lhe muito, e por isso t'a dou com a
condição de que nunca sairá da minha companhia, primo.
--Já te disse que a minha maior dôr seria separar-me de ti, primo
Briteiros! Se ha pessoa n'este mundo que eu preze tanto como a tua
filha, és tu! Ainda mesmo que Paulina me fique odiando para sempre, e
não venha a ser minha mulher, crê tu que tamanho golpe não cortará os
vinculos de amizade que nos prendem. Serei um teu dedicado irmão, um
vigilante mordomo do teu bem estar, capaz de todo me sacrificar ao zêlo
com que tu olhas pela ventura de tuas filhas.
--És honrado, primo Tavira!--exclamou Bartholo--Conta com o amor da
minha Paulina, quando esse maldito demonio a tiver deixado...
--D'elle estás tu livre, Briteiros! Se outro peor não vier depois... mas
eu terei astucia para te salvar de todos.
A creada, que captivara a confiança do amo, como sentisse remorder-lhe o
remorso de ter, apesar de tudo, atraiçoado a menina que a tratara sempre
como amiga, desde a infancia de ambas, cogitou no modo como foi
industriada, e de si para si decidiu que a ida de Paulina para um
convento de Irlanda era um logro a Fernando Gomes. Levada d'esta
apprehensão, e do desejo de remediar o mal, se era um mal ser ecco da
mentira, foi manso e manso colar a orelha á fechadura da porta que
separava Bartholo e o marquez das salas mais frequentadas da casa. A
parte do dialogo que ella escutou era a mais importante. O amo erguera a
voz, quando perguntou ao marquez:
--_Quem diabo lhe ha de dizer que nós vamos para Madrid?_
--A criada respondeu entre si: «Hei de ser eu» e foi de corrida contar a
Paulina o que ouvira; e, instantes depois, ia a caminho do hotel de
Fernando com a nova, e já em toda a seguridade de sua consciencia. O
filho do artista ouviu o contra annuncio com prazer. Estava a seu lado o
velho, como a gosar-se em lagrimas das poucas horas de convivencia com
seu filho. Esperava dar-lhe na manhã do dia seguinte o adeus de
indeterminada, e talvez eterna separação. A nova foi de prazer para
ambos. Francisco Lourenço iria com seu filho para Hespanha, e te-lo-hia
menos longe de si. O prazer de Fernando, de natureza diversa, consistia
em ser Paulina menos sacrificada por amor d'elle. O convento
avultava-lhe com mil angustias, que lá não existem. O receio de a ver
sossobrar entre ferros, em lucta com os apertos monasticos recommendados
por Bartholo, era a mais pungente de suas dôres. Entreluziam-lhe
esperanças em Madrid: mais facilidade na fuga, mais protecção nos
costumes; amigos que lhe dessem auxilio; e a breve jornada a Portugal.
N'este enlevo de alegrias, forçoso era que viesse logo o desconto.
Francisco Lourenço, quasi sem ponderar o valor da pergunta, disse a
Fernando:
--Essa senhora sabe de quem és filho?
--Nunca m'o perguntou...
--Nem tu lh'o dirias... mas tens tu reflectido n'este ponto? A senhora
D. Paulina de Briteiros amar-te-hia se lhe tu houvesses dito que teu pae
é o sapateiro da calçada do Sacramento? E amar-te-ha, quando alguem,
bastante curioso, ou encarregado de saber o teu nascimento, a informe de
que o viajante portuguez, posto que viva de seus proprios recursos, é
filho de um sapateiro?
Fernando odiou-se a si proprio n'este momento, e respondeu com um gesto
desabrido.
O artista achegou-se do filho para lhe vêr o rosto, cujas alterações
seus olhos não alcançavam. E disse:
--Fizeram-te mal estas reflexões, Fernando?
--Fizeram, meu pae--disse o moço agastado.--Por isso mesmo, para me
forrar d'estas agonias horriveis, melhor fôra que me tivesse dado a
felicidade do artista. Eu seria a esta hora um homem com a alegria pura
de todo o homem que trabalha, e tem suas ambições e coração
circumscriptos a muito pouco. Que fatal lembrança a de me arrancar da
minha esphera, para que eu hoje não tenha nenhuma! Os pequenos
regeitar-me-hão como os grandes me regeitam, quando souberem quem eu
sou!...
--Deus se compadeça de ti!--murmurou o velho, limpando as lagrimas--e me
perdôe a mim o mal que te fiz, pelo muito que tenho expiado a minha
vaidade de te fazer maior do que teu pae. Valha-te o Senhor! Que
direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a
procuras afincadamente, se vaes de rastros após ella! Por que has de tu
querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma
carreira por onde levarias teus filhos á grandeza! São as tuas cartas de
bacharel formado que te arremessam aos despropositos das ambições? Ou é
a tua intelligencia que te diz que não nasceste para a mediania? Se é a
tua habilitação, faz que ella te sirva, filho. Entra como quem és, e o
pouco que és, na estrada da honra: faz realçar o teu merecimento com tua
mesma humildade, e lá irás dar ao ponto onde chega o homem honrado, todo
o homem, ainda que a muitos pareça que não. A tua intelligencia é
impossivel que te aconselhe esse odio ao acaso que te fez nascer de paes
mechanicos. Eu, filho, li quanto pude, estudei quanto os meus poucos
principios me permittiram; e Deus sabe que nunca tive pejo de ser quem
era. A razão esclarecida é o que falta aos homens que se envergonham de
não terem nascido já nobres, já respeitados, e idolatrados do mundo.
Pensava eu que, allumiando a tua razão, te dava armas para combateres os
prejuizos e preconceitos miseraveis das raças. Fiz o contrario, filho;
justamente o contrario...
--Não, meu pae...--interrompeu Fernando--perdoe-me, e não se afflija,
por amor de minha mãe lh'o rogo! Eu tenho o presentimento de que ainda
hei de provar-lhe que me não vexo da baixeza do meu nascimento... esta
dôr foi uma irreflexão, meu pae. Tem o coração estes desgraçados
caprichos... Caprichos, e mais nada... Se Paulina me perguntar quem sou,
dir-lhe-hei quem sou; se quizer saber quem é meu pae, dir-lhe-hei
ufanamente quem é meu pae. Por que não?... Aquella candida alma
deslustrar-se-hia em me ter pertencido? Então que torpe deve ser o
coração humano! Com que prazer e ardor eu iria buscar á derradeira ordem
social a mulher pobre, a filha do varredor das ruas, a filha do
carrasco, que me desse o seu amor, sem perguntar-me a minha origem?...
Alongou-se o dialogo entre os dois, que terminaram abraçando-se, e
chorando.
Era tempo de se aprestarem para a viagem. Fernando, sabendo que a
familia Briteiros havia de atravessar o Canal no dia seguinte, de
passagem para França, tomou nota da saida de um navio de Plymouth para
portos de Hespanha. Resolveram seguir o caminho mais perto, consultando
a vontade de seu pae.
Pessoa extranha, que observasse o aspecto de Fernando, veria as nuvens
que lhe assombreavam a alma. Embaciára-se-lhe, não sabemos por que
maravilhoso influxo, a limpidez da esperança, com a qual até áquella
hora conseguira affrontar a adversidade. Era o desalento, um não sei que
de contricção intima, que paralysa as faculdades robustas da vontade
n'um quasi morrer de toda ella.
As terriveis hypotheses do pae, concernentes ao sapateiro em amores com
a illustrissima pretendida do marquez de Tavira, poderiam tanto!
O orgulho do coração do homem do povo será capaz de aniquilar tamanha
paixão?
Ha exemplos; mas tão obscuros que nenhum romancista quer fazer obra por
elles.
Em novella, criada para as folgas de grandes damas, e galans mancebos,
enfastiados d'outros gosos, qual romancista baixa das alturas da sua
imaginação a historiar quadros sociaes de sapateiros?
Se em Portugal os sapateiros lessem, tal livro seria comprado por uma
classe e pagaria as fadigas do popular escriptor.
É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que
acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».
_Artista_, recommendam-me que diga _artista_, para não offender o
apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!
Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um
gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta
arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta
princeza tambem!
Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e
deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações
modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga
o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?
O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se
denominam _artistas d'artes correlativas_... dos pés. Dos individuos
cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles
chamar-se não _sapateiros_, mas _ferradores_.