Ao cabo de tres semanas de hospedagem regalada, disse o marquez a
Bartholo:
--Ora, primo e amigo, é tempo de continuar a minha missão, que
interrompi por tres semanas. Bem sabes que a politica me não deixa ser
das minhas vontades. Preciso de ir a Inglaterra em serviço do rei e da
nossa causa. Tu, como rico em toda a parte do mundo, não queres
participar dos trabalhos lentos da restauração: fazes bem, primo
Briteiros: eu é que não posso libertar-me d'esta missão diplomatica.
Espera-me o Saraiva em Londres, e o rei em Berlim, no espaço de quarenta
dias. Aqui tens a razão da minha saída.
--Pois vae, primo--disse Bartholo--mas logo que te desempenhes d'essa
missão, volta a viver comnosco em Florença.
--Não prometto.
--Não promettes, marquez? Pois assim nos pagas a boa vontade com que te
convido e o muito affecto das meninas, que te desejam comnosco?!
--Se ellas me desejam--tornou o primo com intencional sorriso--isso é
que resta demonstrar, primo Bartholo...
--Pois que! duvidas?
--D'uma, duvido; da outra tenho quasi a evidencia que me deseja vêr
pelas costas.
--Ora essa! qual d'ellas?
--Permitte que não vamos adiante n'esta penosa conversação, primo...
Evitemos desgostos communs. Tanto soffrerias tu, como eu tenho
soffrido...
--Que tens soffrido, marquez? Pois ainda agora m'o dizes!...--tornou
Briteiros sinceramente inquieto.
--Devêra ter-t'o dito ha muitos dias, desde o segundo em que vi tua
filha Paulina... basta.
--Homem! explica-te, se não eu obrigo-te a faze-lo por tua honra!
--Pois que assim o queres, sabe a verdade inteira, e reprehende-me se eu
tiver procedido mais segundo os dictames do coração, que os da honra e
parentesco. Eu amei tua filha Paulina com paixão. Se não t'o disse logo,
foi porque me julguei superior a mim mesmo, e aos despotismos do amor.
Muitas vezes em Portugal, em Paris, em Roma, em todas as capitaes da
Europa, me julguei vencido por diversas mulheres que encontrei; e, logo
depois de chorar a derrota, de repente me rehabilitava pelo esquecimento
instantaneo e quasi prodigioso da mulher que horas antes me acorrentava
aos seus mais levianos caprichos. Cuidei que o mesmo me aconteceria com
tua filha Paulina: aqui é que o meu orgulho pagou amargamente as suas
passadas sobrancerias. Verdadeira e insanavel paixão me inspirou
Paulina; e, para cumulo de desgraça e vingança d'outras, tua filha, bem
longe de amar-me, convencido me deixou de me aborrecer. Primeiro
imaginei que Paulina não podia ou não queria amar alguem: isto podia
ser; porque ha mulheres sem coração, e ha outras que parecem ter quatro:
com os homens dá-se o mesmo caso. Porém, primo Briteiros, a razão do
desamor de tua filha era a mais natural do mundo; é por que tua filha
amava e ama outro homem.
--O que?!--interrompeu iracundo o fidalgo.--Minha filha ama outro homem!
Calumnia! A minha Paulina não ama ninguem; e hade ser tua mulher, se eu
quizer que ella seja tua mulher. Entendes tu, marquez?
--Perfeitamente entendi, primo; mas eu é que sou incapaz de permittir
violencias, e acceitar esposa violentada. Outrem me julgue tal; mas tu
não, Bartholo, que conheces a nossa familia, e sabes que meus avós deram
para casa dos reis suas irmãs, e receberam como esposas as filhas dos
reis.
--Bem sei, bem sei que foram esses os costumes da nossa familia; mas por
isso mesmo é preciso que eu obrigue a minha filha a manter-se na
dignidade de seus avós. Quem é o homem que ella ama?
--Pergunta-lh'o tu, primo. Se ella não t'o disser, consente que eu, por
honra mesmo de nosso sangue, o não pronuncie.
--Que? pois ella ama algum mechanico? Responde por quem és, marquez!
Depressa, que me sobe o sangue ao cerebro!
--Já te disse que ha grande deshonra em tal inclinação, primo... Não
forces a minha repugnancia a revelar-te o que de mim mesmo eu quizera
poder esconder.
Bartholo de Briteiros andava na sala, aos empurrões das furias,
sacudindo vertiginosamente os braços, emquanto o marquez com a face
entre as mãos, e os cotovellos encostados ás almofadas de uma ottomana
lhe relanceava os olhos de infame penetração. Quando viu que era tempo,
ergueu-se, tomou nos braços o pae de Paulina, e disse-lhe:
--Estou vivamente arrependido. Não devia ter dito nada. Era mais nobre
esmagar-me no coração, e poupar o teu de pae, e pae como tu és, meu caro
primo. Perdoa-me, e perdoa as fragilidades de tua filha. É um amor de
creança que ella tem ao...
--Ao... quem?--exclamou Briteiros com uma grammatica desculpavel á sua
angustia.
--Porque não hei de eu dizer-t'o, se o enlace mesmo de sangue me obriga
a velar pela honra de tua familia, que tambem é minha! Tu nunca
suspeitaste d'este Fernando Gomes?
--Fernando Gomes! pois tu crês que minha filha ama Fernandes Gomes?!
--Creio, sei-o, tenho a maxima certeza. Agora não ha que tergiversar.
Cheguei ao ponto de me perder no teu conceito, se não adduzir provas.
Paulina vae ao caramanchão que está sobre o caminho, e d'alli fala a
Fernando, ás horas em que tu dormes a sesta. Trocam-se cartas todos os
dias. Estes factos são presenciados por quem os quer ver. Vi eu mesmo,
depois que me avisaram. Reprehendi a prima Paulina, em termos de bom e
zeloso parente e amigo. Tua filha respondeu-me com azedume,
recommendando-me que me não intromettesse na vida alheia. Repliquei com
as mais sagradas razões; dei-lhe como possivel, se não certo, ser
Fernando algum miseravel dos que de repente se levantaram da lama de
Portugal, e vieram no extrangeiro fazer luzir o ouro, que lhes seria
vergonha na patria. Rebateu-me com o mais formal e mais descomposto
desdem, que meus olhos nunca viram em menina com tal edade e educação, e
de tal linhagem! N'esta altura da questão, entendi que o meu dever era
deixal-a ao espirito tentador que a quer perder; todavia, mais sagrado
dever me admoestou a que te avisasse, primo, para não tomar sobre mim a
cumplicidade de alguma enorme desgraça, e mais enorme deshonra. Agora
encarecidamente te rogo que te hajas com a cautela e prudencia que tão
melindroso negocio requer.
--Que hei de eu fazer?!--bradou Bartholo.
--Sae com tuas filhas de Florença. Vamos para Londres. Eu irei adiante
preparar-te aposentos. Lá, se o biltre a perseguir, eu lhe tornarei
impossivel o accesso, e a possibilidade de a ver. Se outro passo deres,
receio que seja o peor para te saíres dignamente da difficuldade. O ar
com que tua filha me falou revela proposito de ferro, e resolução
inabalavel. Póde temer-te; mas obedecer-te não. Fia-te em mim, que eu
sei o que são mulheres, primo. Finge que não sabes nada. Prepara com
qualquer pretexto a tua viagem, e tu colherás depois os bons fructos da
prudencia. Se, como creio, tua filha mudar de idéas em Londres, com o
mais sincero coração te digo que serei ditoso fazendo-a marqueza de
Tavira; mas, para que este enlace se possa fazer, é necessario que ella
nunca desconfie que eu fui o denunciante d'este vergonhoso affecto.
Convens n'isto, primo Bartholo?
--Convenho, marquez... Seja assim..
Acabava o pae de Paulina de proferir a ultima palavra, quando as duas
meninas, pé ante pé, se afastavam ao longo do corredor que conduzia da
sala, em que os dois dialogaram, para o interior da casa.
Paulina lançou-se no braços da irmã, e exclamou:
--Oh! que infame é aquelle homem! que infame!... Que hei de eu fazer,
Eugenia? diz-m'o por compaixão da tua pobre Paulina!
--Que has de tu fazer, filha?... Eu sei!... Soffrer como eu soffri,
quando o pae nos tirou de Paris...
--Isso é que não!--replicou Paulina--Não me deixo assim esmagar!
Fernando ha de ir tambem para Londres. Vou escrever-lhe e contar-lhe
tudo... se o não puder ver, terei a coragem de soffrer e esperar, com a
certeza de que elle está tambem em Londres... Pois que pensas tu?... Eu
não posso esquecel-o, assim como tu esqueceste o francez, Eugenia! É
porque tu o não amavas; se o amasses, a desesperação te daria forças!
Tenho-as; sinto-me capaz de tudo!... O malvado!... á custa de que
infamia elle queria fazer-me marqueza!...
--Eu logo te disse--atalhou Eugenia--que não fazias bem em falar com
tanta soberba, quando elle te reprehendeu...
--Fiz muito bem! desenganei-o: está desenganado para sempre... Agora
tudo que elle fizer são indignidades, e cada dia, e cada hora, hei de
abominal-o mais.
Aqui tem a leitora bem significada Paulina n'este conhecido verso:
_Ás vezes branca nuvem cospe um raio!_
Quem diria que tamanhos vulcões de colera se escondiam no sereno peito
da gentil creatura, que parecia talhada de molde para soffrer docilmente
o martyrio! Ahi está o que faz o sol de Florença! Devem-se á Italia
aquellas conflagrações! Em Portugal me quer parecer que Paulina não
fosse aquillo. A minha espionagem de romancista nunca me alviçarou casos
identicos de barreiras de Portugal a dentro. Por isso mesmo é que eu
tenho de ir em cata dos meus personagens lá fora, para alternar, com
lances de estremecer, as frias historias que tenho posto em livros de
que ninguem se espanta, e que passam por as mais frias, insipidas, e
inertes lucubrações do espirito humano. Esta agora, sim!
Paulina cortou o folego da imprecação para ir escrever a Fernando.
Poz em resumo o dialogo do pae com o marquez, e a resolução de ambos.
Pedia-lhe que os seguisse para Londres, e averiguasse onde se alojavam.
Asseverava-lhe que, á custa de tudo, se haviam de ver em Londres; e
terminava, com a mais candida desenvoltura que póde ter uma menina,
dizendo que, extremos de perseguição, ella fugiria para elle, e seria
sua esposa.
Na tarde d'este dia Bartholo de Briteiros deitou-se a dormir a sesta:
assim lh'o impoz o cauteloso espião. Fernando já tinha em si a carta e a
resposta. Appareceu na praça do Dome, e Paulina no caramanchão. Poucas
expressões se trocaram depois que Fernando atirou a carta.
A resposta era qual a delicada menina podia mais ambicionar. O amante
sentia-se menos desditoso do que ella se imaginava. Para elle a
afflicção de Paulina era extrema prova de amor. Antes a queria assim
contrariada, e acrisolada ao fogo da oppressão. Incutia-lhe animo e
esperanças. Promettia, mediante o auxilio do ministro em Londres, espiar
os menores passos do marquez e de Bartholo. Se a não acoroçoava a fugir
de seu pae, antevia, como primeira hora de sua felicidade sem nuvem,
aquella em que Paulina se confiasse á sua honra. Do marquez dizia apenas
que era inferior ao seu nojo, e lamentava que os grandes fidalgos
andassem a competir em aviltamento com a mais infima ralé.
O marquez, escondido n'uma loja da praça, presenciava os passos de
Fernando. O homem, que tanto preleccionara acerca da prudencia, não teve
mão de si. O demonio da pobreza espicaçava-o! Era o demonio da pobreza
que prevalecia ás furias do ciume. Saiu da loja, e veio ao meio da praça
por onde Fernando caminhava com a altivez que dá a felicidade do
coração.
Viu elle o marquez, e, a seu pesar, dardejou-lhe um olhar de desprezo,
que parecia provocação. O neto de reis, se havia de ir ávante, e deixar
o verme, parou, metteu as mãos nas algibeiras; e fez um tregeito de
pernas, e assobiou umas toadas, que fariam as delicias de um faiante em
pleno goso de seus tavernaes meneios.
Fernando sorriu-se, e caminhou.
--O senhor ri-se?--exclamou o marquez.
--Ri, sim, senhor--disse placidamente o filho de Francisco Lourenço.
--Que quer dizer o seu riso?!--replicou o fidalgo.
--Que vossa excellencia é uma pessoa irrisoria.
--Mas eu arranco-lhe os figados pela boca, bradou o marquez.
--Operação difficil!... tornou Fernando sorrindo.
--Julga-me da sua bitola, sô villão?
--Eu não sei como hei de julga-lo, senhor marquez, depois que o julguei
tolo!
E approximou-se com magestosa serenidade. Fernando parecia crescer,
nutrir, illuminar-se, e tornar-se mesmo grande aos olhos do
convencionado de Evora-Monte.
--Tem de dar-me uma satisfação com armas! replicou o marquez. Joga
alguma que não seja o arcabuz do cerco do Porto?
--Não senhor; não jogo armas.
--Quer dizer que não se bate?
--Bato com todas.
--Tem padrinhos?
--Os dois primeiros homens que se encontrarem. O primeiro já eu vi.
--Quem? diga-o, para lhe enviar os meus.
--É um pintor: chama-se Leopoldo Roberto.
--Lá me quiz parecer! disse o marquez gargalhando uma risada secca.
--Que lhe quiz parecer a vossa excellencia?!
--Que os seus padrinhos haviam de ser pintores ou cousa que o valesse...
--A coarctada é miseravel, senhor marquez! vossa excellencia é um
covarde, que não vale o desprezo do pintor.
O marquez de Tavira levou as mãos ás proprias respeitaveis barbas.
Puchou as mechas a um lado e outro com tregeitos muito de incutir terror
em almas fracas. Deteve-se um pouco n'esta operação minacissima, e tirou
do peito alfim estas memorandas coisas:
--Villão seria eu se expozesse a minha vida ao revez de sujar-me com tal
competidor! Precisamente o senhor é um aventureiro, que anda a farejar
mulher dotada cá por paizes onde lhe não conhecem a suja betesga d'onde
saiu. Lá na patria sabem-lhe o nome, ou ninguem lh'o sabe, é mais
acertado dizer!... Convinha-lhe a filha de Bartholo de Briteiros? Que
atrevimento de ambições o seu! Afinal, que espera colher d'esta
aventura?... A correcção dada por um lacaio de meu primo!
--Se o lacaio tiver mais coragem do que vossa excellencia, em cujos
hombros assentaria cabalmente a farda.
--Miseravel!...--rugiu o marquez!
--Tolo!--replicou Fernando.
O primeiro voltou as costas; o filho do artista permaneceu no seu posto
alguns minutos, encarando as duas meninas, que os viram approximar da
praça, e esperavam, atribuladas, a infelicidade do encontro.