IX

_A gente não acaba de capacitar-se d'isto_, diz o final do capitulo VII,

a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do

céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes

teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!

Vamos ao essencial.

Paulina escreveu um bilhete assim:

«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é

tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O

papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de

confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor

estas florinhas».

Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do

ramo.

Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor

senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura

teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes

amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama,

amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas

amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter

recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida!

Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar

assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr

um periodo com sujeito, verbo e caso!

Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse

de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a

censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade,

segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto

se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a

Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este

facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando

eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não

desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo,

e agradeçam a historia.

Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que

não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade

n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pela estrada do paradoxo.

Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco

da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e

vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira

carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o

exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae,

depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um

horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara

escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido,

que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente

dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e

ella responde-lhe:--Amava-te.--O segundo faz a mesma pergunta á sua; e

ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse,

responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma

exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua

innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu

a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito

d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As

meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim

não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates

das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos

cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas:

ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os

varios successos. Tornemos ao essencial.

Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de

Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado

esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e

Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a

Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de

Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira

venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que

parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.

Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as

meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma

aria da _Norma_; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando

estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando

n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a

menina lançou no chapeu o ramo.

Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de

pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em

crer que homem amante é todo e em tudo coração.

D'ahi a pouco, eram horas de jantar.

Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não

lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da

sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições.

Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou

expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o

peito as abas do chapeu e saíu.

Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do

céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como

testemunhas da sua alegria.

Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se

abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:

--Que mal fizemos a Deus!

Que faces a vida tem!

Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto.

_Insignificante_, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a

magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como

_insignificante_! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria

Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos

braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um

bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com

vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com

amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos

gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade--destino humanal mais

efficazmente averiguado e demonstrado.

Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira,

escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima

pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pela febre da

felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de

sonhos.

Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu

pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para

França, quer pelo correio de Hespanha.

Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas

para este chão e monotono escrever do artista:

«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não

vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao

menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia

soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo

deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade!

Deus te allivie, e encaminhe para nós.

«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata,

filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu

que era um clima celestial o de Florença.

«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha

annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de

filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses

por amor da sciencia.

«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar

comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando,

filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar

contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa

irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»

A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de

lagrimas.

Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes.

Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem

lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O

filho do artista depôz a carta, e murmurou:

--Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude

enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!

E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita

acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por

virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.

X

O marquez de Tavira...

--Temos gente nova na historia?

--É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de

Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do

primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados,

que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de

umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos--a gente de

mais industria e artimanhas que eu conheço--não desfazendo nos fidalgos

portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem

avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes

como logicos que são. Este periodo é de abafar!

O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se

viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de _tu_, e tinham

rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.

Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O

marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de

Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e

Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando

embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite,

costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a

troco de sangue azul.

O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de

artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do

patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata

do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real

exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença,

onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.

O acolhimento frizou com as melhores esperanças.

O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos,

dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam

com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.

Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando

Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de

seu pae.

Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez

inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do

industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a

Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da

Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua

alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura

me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas

do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez

dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a

virtude das luminarias!

Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do

Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e

reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se.

Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.

Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no

peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e

apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma

_saudade_, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes

lhe dão.

Dizia o bilhete:

«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco

o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo

e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado

comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre

que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia!

Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos

veremos lá, Fernando?...»

_Seria temeridade?_ Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina

ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa

demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo

marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez

foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença,

caminho de Piza. _Seria temeridade_? seria; mas o contrario, o ficar, o

estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse,

isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres

amantes consideram coração de menos.

Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na

caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista

esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo,

emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que

lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já

disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde

se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas

intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á _Saint-Simon_, o porte

soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as

faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de

compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar

timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca

revestem os personagens fataes, ditos _leões_.

Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe

estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas

horas. Passou na _piazza del Calvalieri_, para esperar, n'aquelle centro

da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle

procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em

casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria

seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais

triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry,

se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao

_Campo santo_, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do

sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua

dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam

em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando

e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.

Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre

viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a

desventura do seu curto dia:

«O _Campo santo_ exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da

immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente

aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e

religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias

funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se

desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa

que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico

lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do

marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os

cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o

leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada

á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que

ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por

sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da

morte conheceremos.»

Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração

não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que,

n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.

Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de

Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa

_torre torta_, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira

queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e

Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um

angulo da praça.

Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia.

Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação

mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de

relance, viu parado o portuguez.

--Aquelle não é o Fernando Gomes?!--disse elle ás filhas.

--Parece...--balbuciou Paulina.

--Quem?--disse o marquez.

--Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.

--Ah! o mindeleiro?--tornou o primo.

--Tal qual.

--Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil

e quinhentos roldões do Mindello--tornou o marquez, dando a saber que

tinha sua tal qual instrucção do _Carlos Magno_.

Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo

lentamente seu caminho.

O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça,

estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse

chamar.

--Sr. Fernando! clamou Bartholo--patricio! vae tão meditabundo! Parece

que receia que a torre venha abaixo?!

Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o

fidalgo.

--Então por aqui!--disse o pae de Paulina.--Acolá estão as meninas, e

meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer

conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.

--Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa

excellencia--disse Fernando.

--Aqui está o senhor Gomes--disse Bartholo ao fidalgo--filho de Lisboa,

bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas

linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é,

aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e

merito!...

O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do

artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção.

Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era

premiada com a maviosa paixão d'elles.

O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:

--Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das

linhas do Porto!

--Toda a gente, não, senhor marquez--disse Fernando.--Ás linhas do Porto

não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a

condecoração de valor, lealdade e merito.

O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:

--Em quanto a _valor_, o general Povoas que o diga, se os _valorosos_ o

não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade

dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram

Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora

é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de

cada qual...

Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:

--Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas

que preciso, antes de recolher-me a Florença.

O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que

Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só

irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma

politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que o _quidam_

tratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:

--Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!

--Não, senhor--disse Fernando Gomes.--Dá-me sua excellencia as suas

ordens?

--Passe muito bem, senhor Gomes--disse Bartholo, chofrado.

Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de

Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle

moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo,

temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a

impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta

declaração de guerra com o pae.

--Este sujeito--disse, azedado, o de Tavira--quem é lá na sua terra?

--Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo

Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os

reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com

titulo de _notabilidades_ quantos patavinas os visitam no desterro!

Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é

egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae

tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á

cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor

Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de

Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu

conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me

pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de

orgulho!...

--Não se me dava de lhe abater a prôa!--atalhou o marquez.--Queria ver

se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...

Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de

despeito.

--Porque?!--disse ella, com mal represada ira.

--Paulina!--murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.

Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia

esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella

voltava o rosto, e se encobria com as franjas da _sombrinha_.

--Querem ver que ella ama o tal sujeito?!--disse o marquez entre si, e

differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.

No dia seguinte a familia voltou para Florença.

Fernando já tinha ido.

Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso

desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso

alanceara-lhe muito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da

zombaria.

Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim

desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma

de quem ama, pensar assim!

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 25 / 49 题