_A gente não acaba de capacitar-se d'isto_, diz o final do capitulo VII,
a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do
céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes
teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!
Vamos ao essencial.
Paulina escreveu um bilhete assim:
«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é
tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O
papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de
confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor
estas florinhas».
Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do
ramo.
Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor
senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura
teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes
amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama,
amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas
amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter
recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida!
Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar
assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr
um periodo com sujeito, verbo e caso!
Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse
de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a
censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade,
segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto
se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a
Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este
facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando
eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não
desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo,
e agradeçam a historia.
Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que
não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade
n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pela estrada do paradoxo.
Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco
da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e
vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira
carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o
exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae,
depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um
horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara
escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido,
que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente
dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e
ella responde-lhe:--Amava-te.--O segundo faz a mesma pergunta á sua; e
ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse,
responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma
exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua
innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu
a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito
d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As
meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim
não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates
das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos
cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas:
ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os
varios successos. Tornemos ao essencial.
Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de
Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado
esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e
Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a
Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de
Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira
venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que
parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.
Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as
meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma
aria da _Norma_; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando
estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando
n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a
menina lançou no chapeu o ramo.
Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de
pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em
crer que homem amante é todo e em tudo coração.
D'ahi a pouco, eram horas de jantar.
Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não
lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da
sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições.
Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou
expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o
peito as abas do chapeu e saíu.
Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do
céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como
testemunhas da sua alegria.
Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se
abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:
--Que mal fizemos a Deus!
Que faces a vida tem!
Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto.
_Insignificante_, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a
magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como
_insignificante_! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria
Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos
braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um
bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com
vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com
amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos
gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade--destino humanal mais
efficazmente averiguado e demonstrado.
Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira,
escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima
pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pela febre da
felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de
sonhos.
Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu
pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para
França, quer pelo correio de Hespanha.
Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas
para este chão e monotono escrever do artista:
«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não
vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao
menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia
soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo
deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade!
Deus te allivie, e encaminhe para nós.
«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata,
filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu
que era um clima celestial o de Florença.
«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha
annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de
filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses
por amor da sciencia.
«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar
comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando,
filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar
contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa
irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»
A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de
lagrimas.
Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes.
Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem
lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O
filho do artista depôz a carta, e murmurou:
--Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude
enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!
E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita
acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por
virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.
X
O marquez de Tavira...
--Temos gente nova na historia?
--É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de
Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do
primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados,
que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de
umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos--a gente de
mais industria e artimanhas que eu conheço--não desfazendo nos fidalgos
portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem
avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes
como logicos que são. Este periodo é de abafar!
O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se
viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de _tu_, e tinham
rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.
Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O
marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de
Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e
Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando
embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite,
costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a
troco de sangue azul.
O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de
artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do
patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata
do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real
exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença,
onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.
O acolhimento frizou com as melhores esperanças.
O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos,
dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam
com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.
Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando
Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de
seu pae.
Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez
inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do
industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a
Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da
Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua
alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura
me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas
do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez
dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a
virtude das luminarias!
Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do
Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e
reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se.
Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.
Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no
peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e
apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma
_saudade_, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes
lhe dão.
Dizia o bilhete:
«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco
o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo
e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado
comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre
que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia!
Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos
veremos lá, Fernando?...»
_Seria temeridade?_ Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina
ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa
demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo
marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez
foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença,
caminho de Piza. _Seria temeridade_? seria; mas o contrario, o ficar, o
estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse,
isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres
amantes consideram coração de menos.
Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na
caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista
esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo,
emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que
lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já
disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde
se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas
intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á _Saint-Simon_, o porte
soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as
faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de
compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar
timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca
revestem os personagens fataes, ditos _leões_.
Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe
estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas
horas. Passou na _piazza del Calvalieri_, para esperar, n'aquelle centro
da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle
procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em
casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria
seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais
triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry,
se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao
_Campo santo_, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do
sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua
dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam
em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando
e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.
Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre
viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a
desventura do seu curto dia:
«O _Campo santo_ exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da
immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente
aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e
religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias
funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se
desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa
que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico
lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do
marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os
cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o
leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada
á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que
ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por
sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da
morte conheceremos.»
Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração
não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que,
n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.
Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de
Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa
_torre torta_, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira
queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e
Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um
angulo da praça.
Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia.
Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação
mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de
relance, viu parado o portuguez.
--Aquelle não é o Fernando Gomes?!--disse elle ás filhas.
--Parece...--balbuciou Paulina.
--Quem?--disse o marquez.
--Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.
--Ah! o mindeleiro?--tornou o primo.
--Tal qual.
--Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil
e quinhentos roldões do Mindello--tornou o marquez, dando a saber que
tinha sua tal qual instrucção do _Carlos Magno_.
Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo
lentamente seu caminho.
O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça,
estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse
chamar.
--Sr. Fernando! clamou Bartholo--patricio! vae tão meditabundo! Parece
que receia que a torre venha abaixo?!
Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o
fidalgo.
--Então por aqui!--disse o pae de Paulina.--Acolá estão as meninas, e
meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer
conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.
--Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa
excellencia--disse Fernando.
--Aqui está o senhor Gomes--disse Bartholo ao fidalgo--filho de Lisboa,
bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas
linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é,
aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e
merito!...
O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do
artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção.
Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era
premiada com a maviosa paixão d'elles.
O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:
--Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das
linhas do Porto!
--Toda a gente, não, senhor marquez--disse Fernando.--Ás linhas do Porto
não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a
condecoração de valor, lealdade e merito.
O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:
--Em quanto a _valor_, o general Povoas que o diga, se os _valorosos_ o
não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade
dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram
Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora
é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de
cada qual...
Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:
--Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas
que preciso, antes de recolher-me a Florença.
O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que
Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só
irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma
politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que o _quidam_
tratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:
--Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!
--Não, senhor--disse Fernando Gomes.--Dá-me sua excellencia as suas
ordens?
--Passe muito bem, senhor Gomes--disse Bartholo, chofrado.
Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de
Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle
moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo,
temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a
impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta
declaração de guerra com o pae.
--Este sujeito--disse, azedado, o de Tavira--quem é lá na sua terra?
--Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo
Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os
reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com
titulo de _notabilidades_ quantos patavinas os visitam no desterro!
Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é
egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae
tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á
cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor
Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de
Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu
conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me
pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de
orgulho!...
--Não se me dava de lhe abater a prôa!--atalhou o marquez.--Queria ver
se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...
Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de
despeito.
--Porque?!--disse ella, com mal represada ira.
--Paulina!--murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.
Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia
esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella
voltava o rosto, e se encobria com as franjas da _sombrinha_.
--Querem ver que ella ama o tal sujeito?!--disse o marquez entre si, e
differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.
No dia seguinte a familia voltou para Florença.
Fernando já tinha ido.
Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso
desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso
alanceara-lhe muito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da
zombaria.
Pensava elle que a filha do nobre devia ama-lo menos por ve-lo assim
desdourado, e sem vingança egual ao affrontamento. É um inferno, na alma
de quem ama, pensar assim!